sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Um bocadinho

Um bocadinho do romance «O que Entra nos Livros», na Praça do Giraldo, em Évora.

(…)
O senhor Sapinho Júnior levantou-se do cadeirão, sempre a segurar o romance de Roberto Ampuero, e pôs uma samarra pelas costas; estava num cabide junto ao sofá. Depois aproximou-se da porta que dava para a rua a seguir às duas janelas da livraria, abriu-a e saiu. Nem esteve para ir pela livraria, foi logo por ali, o mais rápido que podia, em direcção à loja das fotocópias, que ficava bem perto, a caminho da Praça do Giraldo. Só já quando ia a chegar é que se lembrou de que devia estar fechada àquela hora e então foi invadido por um desembaraço confuso, atabalhoado. Correu de novo, sem saber bem o que fazer, até que ao fim de uns cinco minutos viu que estava mesmo em frente da agência de um banco, daquele de que era cliente, já em plena Praça do Giraldo. Costumava ficar gente até tarde na agência, isso ele sabia. Aproximou-se da montra e espreitou através do vidro e das persianas corridas. Com alguma dificuldade, conseguiu ver o interior e reconheceu um dos gestores de conta; não era o seu, mas já tinha falado com ele algumas vezes. Foi até à porta e bateu, pequenas pancadas hesitantes com a mão esquerda, como se estivesse a fazer algo que fosse inadequado. Na mão direita segurava o romance, com força, parecendo ter medo de que as páginas se abrissem e deixassem fugir uma parte do seu conteúdo.
(…)

Isto só revisto

Isto.

Os meus diálogos – 5


(…) Nenhuma mulher comprou, e alguns homens que o fizeram foi só para verem mais de perto a cigana mamuda, que era quem vendia a rifa.
– E era muito mamuda?
– Era o suficiente.
O prémio acabou por sair ao Sapo dos Montes Claros.
– Lá cara de sapo tem o cabrão!
– E corpo?
– Também faz lembrar, só que em ponto grande.
(…)

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

Não, não é para ele este país

Pelo menos a julgar por isto. Já agora, sobre as férias diz… «Faço férias curtas. Uma semana no Algarve e depois uma viajem entre Bilbau e San Sebastián. Vou com a minha mulher de avião até Bilbau, aí alugo um carro. Vou ao Museu Guggenheim, ao restaurante Arzak e a uma tourada em San Sebastián. Depois faremos um circuito Relais & Chateaux no sul de França, Bordéus, castelos do Loire e Paris. Em Setembro, irei a Veneza a um congresso sobre zonas ribeirinhas (à minha custa, esclareço).»

Os meus diálogos – 4

(…)
A casa já levou três caiações desde que deixou de ser azul, mas só a última é que esteve a cargo do Mau Serviço. Nas duas primeiras ele estava em Caxias, na prisão, e havia um caiador em Monchique. Já na última foi diferente, porque o Mau Serviço tinha regressado a Foz do Zimbrais, e o caiador de Monchique estava reformado.
- Isto a nossa segurança social é uma coisa por de mais!...
- Olhe lá, vossemecê, para estar para aí com isso, não representa a associação dos caiadores reformados, pois não?!
- Não, eu represento a associação dos políticos reformados e ainda em idade razoável. O congressista da associação dos caiadores é aquele além de fato de treino amarelo e verde.
- Ah, sim, sim. Estou a ver. Pois eu represento os professores reformados, mas ainda dou as minhas aulas. Sou de Foz de Zimbrais.
- Foz de quê?
- De Zimbrais, porra! Não me diga que não conhece?!
- Não. Bem, eu, como político, ou melhor, como ex-político, porque a ligação agora tem a ver apenas com a transferência mensal para a minha conta, eu, ia-lhe dizendo, venho da capital.
- E de subsídios, percebe alguma coisa?
- Só em causa própria. Mas porquê?
(…)

Umbral e as cidades inesquecíveis de Pedro Correia

«A pior notícia deste mês, uma das piores notícias deste ano», diz Pedro Correia da morte de Francisco Umbral (1931-2007), num dos dois posts que colocou no «Corta-fitas» sobre o assunto. Carradas de razão, ainda por cima expressas em dois textos que vale mesmo a pena ler. E de caminho vale a pena espreitar a série «Vinte cidades que jamais esquecerei», um verdadeiro espanto; como Umbral e a sua escrita.

Diário Dócil

Aqui.

Ou seja...

Ou seja, se fosse no Brasil Durão Barroso não ia ter a vida fácil nos próximos tempos. Mas cá pelas europas deve-se desenrascar sem grandes problemas.

E boa pergunta

Uma de Paulo Gorjão, no «Bloguítica»:
[1294] -- (...) quando é que alguém -- na comunicação social e/ ou na Oposição -- faz um balanço das visitas de Estado de José Sócrates ao Brasil, à China e à Rússia? Se bem me lembro, nessas três ocasiões, o Governo deixou promessas de grandes negócios, de linhas de crédito, de visitas posteriores para concretizar oportunidades que supostamente se abriram com a visita do Primeiro-Ministro e assim sucessivamente. Vamos fazer um update da situação?

Bom título

Um bom título, e uma história bem resumida.

Comoção

Rodrigo Moita de Deus, aqui, no «31 da Armada».

quarta-feira, 29 de agosto de 2007

Não concordo

Eu não posso concordar de forma nenhuma com isto que Pacheco Pereira escreveu no «Abrupto». Não é a parte em que se refere a Marques Mendes (nem retive bem o que escreveu), mas a parte sobre Dalila Rodrigues. Ela fez muito bem em reagir contra a incompetência, o desleixo e a aversão ao trabalho manifestada pelos seus superiores. O que Pacheco Pereira parece defender com a história do «dever de lealdade e isenção» é uma administração pública incapaz e soterrada na politiquice desde os lugares de topo na volta quase até ao porteiro de cada serviço.

Pepe

É mesmo ao Pepe, o futebolista, que me refiro. Não, por exemplo, ao «Pepe Saramago», como ontem ouvi o notável Francisco Umbral chamar ao nosso Nobel, numa entrevista que Carlos Vaz Marques em tempos lhe fez e que a TSF recordou depois de se saber da sua morte. Pepe, o futebolista, parece que vai mesmo para a nossa selecção. Tem valor para isso, embora não seja (nem por sombras) nenhum Ricardo Carvalho; mas eu não acho bem. Creio que só mesmo em casos excepcionais, como aconteceu com o Deco, ou como poderia acontecer se o Ricardo Carvalho fosse, sei lá, sul coreano, ou das Ilhas Salomão. Deco, aliás, é um caso estranho; nem deveria ter tido a hipótese de integrar a selecção portuguesa, porque eu ainda hoje não compreendo como é que os responsáveis pela selecção brasileira não perceberam que estavam a perder um jogador genial (dos responsáveis do Benfica nem vale a pena falar). Agora o Pepe na selecção portuguesa… Nem pensar.
Aliás, o Pepe, como central, e ainda por cima agora a jogar no Real Madrid, poderia alimentar esperanças de um dia ser chamado à selecção brasileira. Se jogadores como o disparatado Polga e o incompreensível Luisão conseguiram, decerto que o Pepe mais cedo ou mais tarde também poderia conseguir; pela sua qualidade, coisa que nos outros dois só a muito custo se consegue não digo ver, mas imaginar.
Depois de Deco, a excepção que eu admitiria para a selecção portuguesa seria Liedson. Com a história da falta de avançados (discutível), poderia ser uma hipótese a considerar. Agora o Pepe…

As coisas em que uma pessoa se mete…

As coisas em que uma pessoa se mete… Uma vez entrevistei Macário Correia, em Tavira. Lembrei-me de colocar aqui o resultado da entrevista por causa do caso de suposto assédio sexual em que o autarca se viu envolvido. E o resultado não é uma entrevista, mas um texto feito a partir de uma conversa toda ultra-rápida. Foi no Verão de 2003. Marcámos a entrevista, por causa de um trabalho grande da revista que dirijo («Pessoal»), um trabalho sobre gestão autárquica. Saí de Lisboa, do escritório, ao fim da tarde. Jantei em casa, em Montemor-o-Novo, e depois segui para Monchique, para passar a noite na casa dos meus pais. Em Santa Susana, uma aldeia entre Montemor e Alcácer do Sal, ia-me despistando; esqueci-me de que na entrada havia uma rotunda (como é possível uma pessoa esquecer-se das rotundas, que em Portugal existem um pouco por todo o lado?), mas lá controlei o carro, e depois na rotunda da saída já ia avisado. Dormi em Monchique e às cinco da manhã abalei para a Zambujeira do Mar; tinha de ir buscar o fotógrafo ao «Festival do Sudoeste». E depois, viagem até Tavira. Macário apareceu à hora marcada. O pior foi a seguir, quando nos disse que tínhamos apenas quinze minutos, porque ele ia receber um secretário de Estado. Fiquei tão espantado que perdi logo meio minuto antes de reagir. E depois mais meio minuto a pensar numa solução. E então lembrei-me… Na revista tínhamos uma secção chamada «Stress? Relax», em que se escolhia mensalmente uma pessoa para fazermos com ela um trabalho sobre a vida profissional e algum hobby que tivesse, ou mais do que um. E lá começámos entrevista. Eu a perguntar a correr e Macário Correia com as respostas, e eu sempre a apressá-lo, e o fotógrafo a aproveitar para tirar as fotografias durante a conversa. Tentei puxar a coisa para o ciclismo (o hobby), mas a certa altura apercebi-me de que o hobby e o trabalho coincidiam; o hobby era a própria câmara. Ao fim dos quinze minutos (vá lá, uns dezasseis ou dezassete), saí com a ideia de que talvez desse para fazer um texto para a tal secção. Fui buscar o carro ao estacionamento e passei pelo largo da câmara para apanhar o fotógrafo. Reparei que Macário estava à porta da câmara a olhar para um lado e para outro, com ar de impaciente; devia estar à espera do secretário de Estado, mas pelos carros que se avistavam não parecia que o homem estivesse a chegar. Também não fiquei para verificar; aguardavam-me três horas de condução até Lisboa, e ao fim da tarde mais uma até casa. Sempre deu para fazer o texto para o «Stress? Relax». Aqui fica... Macário no Verão de 2003.


Macário Correia
A minha câmara

Macário Correia, presidente da câmara municipal de Tavira desde 1998, já não tem tempo nem para as bicicletas nem para o jogging, os hobbies que lhe eram publicamente conhecidos nos anos do cavaquismo. Num domingo, por exemplo, chega a estar 17 horas ao serviço da câmara, por causa das «missões», um termo que usa com frequência. Do mal o menos, parece que o trabalho na «sua» câmara é agora também o seu grande hobby.

Talvez não seja boa ideia tentar entrevistar Macário Correia em plena câmara. Sempre assoberbado por inúmeros afazeres, com todos os minutinhos contados, no caso da «Pessoal» arranjou um quarto de hora e mais uns descontos para uma conversa. Tinha um secretário de Estado, segundo disse, «já a subir as escadas», o da cultura, que chegava para uma reunião. Quinze minutos de uma segunda-feira de Agosto, depois de até nem ter havido grandes problemas para fazer a marcação, porque conforme avisou a secretária «o senhor presidente não vai de férias». Macário fala do dia anterior para exemplificar a lufa-lufa em que anda. «Ontem, domingo, trabalhei 17 horas contínuas ao serviço da minha câmara, em actos públicos diversos, em missões de gabinete. Entrei aqui no gabinete às sete e trinta da manhã, comecei por ver algum expediente que tinha para tratar, assuntos para encaminhar para os diferentes funcionários, vi a comunicação social, especialmente a imprensa, contactei os meus bombeiros, que estavam nas frentes de fogo em Monchique, e fiz um acto simbólico que faço em dois ou três minutos e que é, nos domingos e nos feriados, colocar as bandeiras nos paços do concelho. Depois, parti para um conjunto de compromissos seguintes... Comecei por atribuir prémios a um concurso de construções na areia numa das praias do concelho de Tavira, Terra Estreita, ao fim da manhã estive com os pescadores no cais de Santa Luzia para entregar lembranças adequadas ao dia da festa de Santa Luzia, depois tive um almoço com uma marcha popular em Santa Catarina, que é outra aldeia do concelho de Tavira, daí parti para o Cachopo, onde participei nas festas populares e na procissão da aldeia, regressei a Santa Luzia para participar nas festas populares e na procissão da vila, dali ainda fui para uma outra localidade no interior da serra que é o Faz Fato, onde se realizava a inauguração da remodelação de uma escola primária e uma festa também a esse respeito. Foi assim o meu dia, das sete e meia da manhã até à meia-noite, um domingo em que fui, como é normal, em funções de contacto com a população, a remodelação de uma escola, a entrega de prémios, participação em festas, organização de alguma documentação aqui internamente... Isto é um dia de domingo, como são todos os outros.»
Engenheiro agrónomo e arquitecto paisagista, 46 anos, casado e pai de três filhos, Macário Correia nem liga se se lhe fala de populismo. «Faço o que são as minhas missões, que é trabalhar. Não tenho nada em cima da secretária para despachar, tenho uma agenda, tenho os apontamentos para a reunião seguinte, não tenho nada pendente, venho para aqui de madrugada...» A secretária está mesmo vazia, nem um computador, que há quem diga que fica sempre bem, se descobre. «Não tenho tempo para esperar que o computador me responda a algumas questões. Quando vejo necessidade de procurar alguma coisa, procuro... Uso computador, mas nem sempre tenho tempo para isso. Os computadores, às vezes, são lentos, a gente quer procurar alguma coisa e tem um telefone a tocar... De maneira que para mim é mais fácil pedir às minhas secretárias que me encontrem um documento, ou que pesquisem assuntos, do que estar no meio disso, e com os telefones a tocarem.. É uma forma de gestão. Já tive computador, mas achei que não era a forma ideal de trabalhar.»

Isso das comparações...
Macário Correia conquistou a câmara de Tavira em 1998, depois de 21 anos em que o concelho esteve nas mãos de um partido que não o seu. Chegava directamente de Lisboa, de vereador da oposição na capital. Não tem por isso dificuldades em fazer o contraponto entre as duas realidades, recuando até aos tempos de secretário de Estado e às suas lutas do ambiente e nas capas do semanário «O Independente». «Vivi em Lisboa durante 20 anos. Exerci lá múltiplas funções, conheci bem a cidade, fui quatro anos vereador... Obviamente que tenho uma relação mais forte, mais genuína, com Tavira. Foi aqui que nasci, foi aqui que andei na escola, foi aqui que tive a minha infância. É uma relação diferente nalguns aspectos. Lisboa... Há muita gente que lá vive, que lá trabalha, mas que não tem origem nos bairros da cidade, a relação é mais profissional, mais funcional do que propriamente uma relação de origem, que é a que eu tenho aqui.»
Aproveitando a maré de comparações, um desafio: pôr lado a lado a gestão de uma câmara e a de uma empresa... «Vive-se hoje nas câmaras uma situação cada vez mais empresarial. Uma câmara é uma empresa de prestação de serviços que não tem por objectivo dividir lucros com os accionistas, mas tem por objectivo reforçar o conforto da população. Por isso, gerimos uma empresa com centenas de trabalhadores, com receitas e despesas, com critérios de racionalidade e de eficiência... Temos de fazer a gestão de serviços directamente ou por administração indirecta, temos de criar empresas associadas, temos de participar em capital de outras... É uma gestão empresarial, activa e dinâmica e, ao mesmo tempo, com uma relação muito directa com os accionistas, ou seja, os eleitores, a população.»
A população, a proximidade com a população dita accionista... «É fundamental a proximidade. O presidente da câmara é por excelência o representante directo das pessoas, com as quais tem um contacto diário.» Mais uma comparação, com deputados, governadores civis e por aí adiante... «São situações diferentes. Os deputados representam populações, mas a maior parte das vezes ninguém sabe a quem se dirigir. Neste momento, no Algarve, há oito deputados. Se perguntarem ao comum dos cidadãos quem eles são, garanto que nem um por cento sabe responder.» Mas não terão os deputados noção disso? «A função de deputado está pouco prestigiada. Fui deputado durante seis anos, sei do que falo. O parlamento tem muitos deputados, e tem muitos que não fazem nada. São funções muito bem pagas, ganham o dobro do que eu ganho e não têm responsabilidade quase nenhuma. Fazem número durante as votações, mas não têm uma actividade directa de relação com as populações. Quanto aos governadores civis, são figuras em extinção. Apenas a timidez do governo e a falta de coragem é que leva a que ainda existam. Não fazem sentido nenhum, não são necessários, não têm qualquer função útil para o desenvolvimento da sociedade.»
Posto isto, uma análise mais, digamos assim, sociológica... «Na política, há muita gente medíocre e incompetente, e pouco preparada para a vida política... E há muita gente que está na vida política para se exibir, que não é capaz de fazer nada de concreto... São pessoas que têm atrofias mentais, nalguns casos dificuldades de adaptação profissional e que estão na vida política porque não sabem fazer outra coisa.» Será isso um mal português, ou poderá mudar? «Espero bem que sim, que haja um esforço grande da parte dos partidos políticos para qualificarem os seus quadros dirigentes e que em relação às missões políticas haja um esforço no sentido de qualificar.»

Voltando à câmara
Voltando à câmara, e aproveitando o tema da qualificação, o que se passa com as pessoas que trabalham com Macário Correia? Ou, melhor dizendo, com os recursos humanos, se bem que na Administração Pública ainda não esteja muito em voga a expressão... «Temos participado em acções de formação. Os funcionários da câmara de Tavira estão permanentemente em acções de aperfeiçoamento profissional. A minha câmara tem meia centena de técnicos superiores. Quando cheguei tinha meia dúzia. Eu passei de meia dúzia para meia centena em cinco anos, o que revela um esforço para a criação de quadros próprios e, ao mesmo tempo, qualificação dos que cá estão, e dos que vão sendo admitidos. Todos os anos temos dezenas e dezenas de acções de formação para que o pessoal esteja melhor preparado.» O pior é o espartilho legal, embora isso não pareça assustar Macário... «Há dificuldades. Tenho pessoas que são altamente qualificadas, dedicadas, competentes do ponto de vista profissional. Mas tenho de pagar a essas do mesmo modo que pago a outras que são pesos mortos na minha câmara municipal. Tenho meia dúzia de pessoas, que não há qualquer dificuldade em saber quem são, que não acrescentam nada... São pessoas que criam problemas, que arranjam enredos, que arrastam papéis... Se elas não estivessem no sistema, as coisas funcionavam melhor. Mas tenho-as cá e tenho de lhes pagar igual aos competentes, empenhados, dedicados e activos.»
Macário Correia não acha isto saudável, mas lá vai continuando a labuta na «sua» câmara de Tavira, mesmo com os «pesos mortos». Do trabalho autárquico e do seu hobby igualmente autárquico não parece cansar-se, nem que até ao domingo esteja nele envolvido 17 horas por dia. As horas do presidente e das suas «missões», presidente que diz ter «ideias claras» para a autarquia. «Quero fazer de Tavira uma cidade média, uma grande referência cultural, com condições para acolher um turismo de qualidade, através da recuperação de património, pondo de pé museus, recuperando palácios, dando vida a conventos, criando hotéis e pousadas de referência, e ao mesmo tempo associar isso a um conjunto de eventos culturais.» Fala com entusiasmo, enquanto parece espreitar a ver se avista o secretário de Estado a chegar ao cimo das escadas, mas fala ao mesmo tempo com uma serenidade que chega a impressionar. Vê-se que faz o que gosta, as suas «missões», que parece levar em frente com a mesma naturalidade dos tempos em que era capa de jornal e via serem repetidas na televisão frases lapidares como aquela em que uma vez associou a ideia de beijar uma rapariga que fuma à de lamber um cinzeiro. «Os meninos queques do Independente não gostavam de mim, o que me dá uma honra enorme. Tenho um imenso orgulho nisso.» Resta saber se em Tavira há desses «meninos queques».

Hoje no JL

Hoje no «Jornal de Letras». Pediram-me os livros da minha vida, dez de autores portugueses e dez de autores estrangeiros. Tive de deixar livros de fora que nunca pensaria deixar, e tive de impor a mim próprio a limitação de apenas um livro por autor. Aqui ficam os vinte livros.

Portugueses
«A Demanda de D. Fuas Bragatela», Paulo Moreiras
«Breviário das Más Inclinações», José Riço Direitinho
«Adeus, Princesa», Clara Pinto Correia
«Levantado do Chão», José Saramago
«Notícia da Cidade Silvestre», Lídia Jorge
«As Naus», António Lobo Antunes
«Fantasia para Dois Coronéis e Uma Piscina», Mário de Carvalho
«O que Diz Molero», Dinis Machado
«Café República», Álvaro Guerra
«Contos do Gin-Tonic», Mário-Henrique Leiria

Estrangeiros
«Os Impostores», Santiago Gamboa
«Soldados de Salamina», Javier Cercas
«Encontro no Azul Profundo», Roberto Ampuero
«Mazurca para Dois Mortos», Camilo José Cela
«Em Busca do Unicórnio», Juan Eslava Galán
«A Tia Julia e o Escrevedor», Mario Vargas Llosa
«Crónica de Uma Morte Anunciada», Gabriel García Márquez
«A Casa de Papel», Carlos Maria Domínguez
«Nação Crioula», José Eduardo Agualusa
«O Labirinto das Azeitonas», Eduardo Mendoza

terça-feira, 28 de agosto de 2007

Ainda o golo de Nani ao Tottenham

O golo de Nani no passado domingo, cujas imagem têm ido ficando indisponibilizadas (o link ali de baixo já não dá, assim como outros), pode ser visto aqui (parece que agora é o que de melhor se encontra no YouTube).

Pura burrice

Scolari não quis levar Nani à Arménia. Mais do que pura teimosia, foi pura burrice. Já agora, nem se lhe pede que veja este vídeo (passa dos quatro minutos). Basta que veja este, bem mais curto, do golo que Nani marcou no domingo passado ao Tottenham. Na volta, ainda não viu.

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Suspeita

Ainda o Porto Sporting de ontem à noite... Realmente, vendo as coisas agora com mais calma, já sem as influências que a fraca exibição do Sporting e a passividade de Paulo Bento tiveram em mim ontem à noite, a verdade é que a arbitragem fez mesmo o resultado. Pedro Proença é um árbitro com boa imagem no sujo futebol português, pelo menos assim me parece, mas às vezes prefiro a arbitrarem os de má imagem do que tipos como este. A arbitragem que fez é muito suspeita. Obviamente que sobre ele terá de recair ou um castigo ou uma investigação. Arbitrou assim por razões estranhas ao futebol jogado segundo rigorosos padrões de ética? É incompetente para esta actividade? Um caso para Vítor Pereira decidir ou para algum inspector da Polícia Judiciária averiguar?
Ver aqui o que aconteceu.
Mesmo assim, continuo a achar que o guarda-redes errou ao ter agarrado a bola. Não devia ter confiado.
Pedro Proença fica na minha memória, pelo que fez ontem à noite, pelo menos como um árbitro medíocre (se o que aconteceu foi outra coisa, não sei). Posso equipará-lo sem dificuldade a um de outro de má memória para o Sporting, Isidoro Rodrigues.

De qualquer forma…

De qualquer forma, há quem diga que o árbitro prejudicou o Sporting (ver aqui). Se tivesse expulsado Quaresma e se não tivesse marcado o livre dentro da pequena área… Mas o Sporting ontem à noite não me agradou mesmo nada.

Muito mau

Tudo muito estranho esta noite no estádio do Porto. Ou melhor, estranho nem no estádio, mas na minha televisão. No Porto 1, Sporting 0, a sensação que tive – do que ia vendo – era de que o Sporting não conseguiria ganhar. Tudo muito confuso, e o Porto até com alguma surpreendente capacidade para colocar problemas. Poderíamos até perder, pensava eu (coisa que não me lembro de ter pensado nos últimos jogos com o Porto). E perdemos, com um golo consentido de forma estúpida, a fazer lembrar as piores tropelias de Ricardo. Ficou-me ainda na memória uma perdida incrível do Porto aos vinte minutos, depois de uma entrada à maluca de Polga (mais uma, e neste jogo uma de muitas) a cortar apenas o ar; e também uma colocação difícil de perceber do guarda-redes, no livre que Quaresma atirou à barra. Pedia-se a Paulo Bento para fazer com que a equipa mudasse de postura. Não conseguiu e foi uma pena. E depois, o golo de Nani em Manchester ao fim da tarde, a juntar aos problemas colocados a noite toda pelo Quaresma… Deixa sempre um sportinguista a pensar que poderia ser possível aproveitar melhor, e durante mais tempo, aquilo que fomos capazes de construir.

domingo, 26 de agosto de 2007

Depois da brincadeira de Manuel Pinho

Depois da brincadeira de mau gosto de Manuel Pinho com a idiotice do «Allgarve», os espanhóis a tentarem tomar conta do Algarve, só que ao contrário, ou quase. Percebe-se tudo no requerimento de José Mendes Bota, dirigido ao presidente da Assembleia da República. Mendes Bota é deputado da mesma assembleia, eleito pelo Algarve.

Exmo. Sr.
Presidente da Assembleia da República

ALGARVE ESPANHOL – UM CASO DE PUBLICIDADE ENGANOSA

Vão longe os tempos do Reino de Niebla, ou do al-Gharb que passava para lá do rio Guadiana. Há muitos séculos que está estabilizada a fronteira entre Portugal e Espanha, pelo menos no que ao Algarve diz respeito.

Tampouco existe do lado português a pretensão de vir a anexar território além-rio, por terras de Ayamonte, Lepe ou Huelva. Existe uma grande simpatia para com os vizinhos espanhóis, para com sua competitividade fiscal, o elevado nível de vida e o baixo registo dos preços do cabaz de compras, mas talvez não seja aconselhável aceitar o alargamento territorial do Algarve. A fronteira é virtual, mas convirá deixá-la onde o mapa determina e a diferença linguística se faz notar.

O que não é aceitável é que o nome do Algarve seja utilizado em publicidade enganosa, para a venda de empreendimentos imobiliários em Espanha, propagandeados como se estivessem localizados no «el Algarve», conforme o panfleto da empresa espanhola Tasa Costa Esuri Resort que se anexa.

Mesmo no negócio imobiliário, onde se vendem ilusões que por vezes se transformam em pesadelos, existe um mínimo de seriedade que convirá exigir a todos os seus agentes.

No caso vertente, publicitar a venda de apartamentos em Huelva e Ayamonte como se fossem no Algarve, mesmo que signifique o reconhecimento do padrão de qualidade de referência da região algarvia, configura uma situação de publicidade enganosa, que pretende desviar os investidores de Portugal para o lado de Espanha, com todo o prejuízo financeiro que isso implica para o nosso país.

Nestes termos, ao abrigo das disposições constitucionais, legais e regimentais em vigor, requeiro a V. Exa. se digne obter do Ministério da Economia e Inovação resposta às seguintes perguntas:

1. Tem conhecimento da situação atrás descrita?
2. O que fez, ou pensa fazer, para evitar este aproveitamento abusivo e enganador do nome do Algarve, em proveito estranho a Portugal?

Assembleia da República, 25 de Agosto de 2007

José Mendes Bota

Textos sobre livros - 39

«Mulheres», de Charles Bukowsky (Fnac/ Publicações Dom Quixote; 292 pp.)

As mulheres de Bukowsky

Uma colecção de livros de bolso que resultou de uma parceria entre as Publicações Dom Quixote e a Fnac. Na série de literatura, autores como Gabriel García Márquez, Miguel Torga, José Cardoso Pires ou Charles Bukowski. É precisamente de Bukowski o primeiro livro que comprei dessa colecção.
O livro chama-se «Mulheres» e relata uma sucessão de episódios, muitos deles grotescos, em que entram dezassete mulheres que passam pela vida atribulada de uma personagem autobiográfica do famoso escritor bêbado. Henry Chinaski, é essa a personagem, com o seu gosto por cavalos, bebida e mulheres, com as suas leituras de poesia pelos Estados Unidos e pelo Canadá, em universidades, bibliotecas, livrarias, clubes nocturnos, o que fosse.
Em «Mulheres», uma vez mais, Bukowski pouco liga às estruturas formais da literatura. É cru e directo, sempre com um enorme sentido do imediato. No fundo, mantém-se fiel, página a página, ao seu próprio estilo de vida, com as mulheres, os cavalos, a bebida e a literatura sempre por perto. Às vezes, se calhar, demasiado perto.
Charles Bukowski nasceu em 1920, em Andernach, na Alemanha. Foi para os Estados Unidos mais a família quando tinha treze anos, para a Califórnia. Cresceu num bairro pobre de Los Angeles e passou a maior parte da vida na cidade de San Pedro. Escreveu desde criança, mas só publicou quando já estava na casa dos vinte anos. Morreu no dia nove de Março de 1994, de leucemia, na sua cidade de sempre.
Comecei a ler a sua obra absolutamente notável quando uma vez comprei numa livraria escondida de Lisboa um livro de contos de que estava farto de ouvir falar: «A Sul de Nenhum Norte». Já lá vão muitos, mesmo muitos anos.

sábado, 25 de agosto de 2007

Um pormenor importante

Um pormenor importante para esclarecer o caso de alegado assédio sexual de Macário Correia a uma funcionária da câmara de Tavira seria saber se a senhora fuma. Cito de memória uma frase de Macário Correia, em directo na televisão, quando era secretário de Estado: «Beijar uma mulher que fuma é o mesmo que lamber um cinzeiro.» Na altura, ao ouvi-lo, lembro-me de que presumi que (para se meter com comparações) já tivesse feito as duas coisas, beijar uma mulher fumadora e lambido um cinzeiro. Ao pé de uma saída daquelas, as de Manuel Pinho ou as do outro do deserto da margem sul de quem agora nem me lembro o nome não passam de coisas, digamos assim, de principiante.

Suspender a cultura durante uma semana

Claro que coisas como esta (post anterior) de uma pessoa ser inquirida por «delito de opinião» são apenas a imagem de um país que quando olha para outros nem os avista, de tão à nossa frente que vão em matéria de liberdades e de direito a uma cidadania plena. De cada vez que surge um destes episódios, e nos últimos tempos começaram a vulgarizar-se, lembro-me sempre do que contei aqui em tempos, de o vereador da cultura da câmara municipal da minha terra, Monchique, ter tido a lata de mandar suspender todas as actividades culturais no concelho durante uma semana, há três ou quatro anos, com o cuidado de incluir o dia para o qual a biblioteca municipal me tinha convidado para uma conversa com os leitores. Contei isso, de forma resumida, aqui. Um dia contarei como acabou, também já neste século XXI, a «moda» de a câmara fechar no dia dos anos do presidente.

Coisa espantosa

Sobre isto, o Conselho Directivo do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP) vai instaurar um inquérito com eventuais consequências disciplinares ao professor catedrático José Adelino Maltez (na foto), autor do blog «Sobre o Tempo que Passa». Pode ler-se aqui («Diário de Notícias»). O presidente daquele Conselho Directivo é João Bilhim, que conheço apenas de dois ou três contactos profissionais. João Bilhim diz ao «Diário de Notícias» uma coisa espantosa: que «ele próprio viu o site do Centro de Estudos e Administração Pública e Políticas Públicas, que dirige, ir abaixo durante as reformulações no endereço electrónico do ISCSP… ‘e não desatei aos pontapés e a chamar nomes a ninguém’». Mas se viu o referido site ir abaixo, ou ser deitado abaixo (como fizeram ao arquivo do Centro de Estudos do Pensamento Político, de José Adelino Maltez), e mesmo assim não mexeu uma palha (nem se pedia que desse pontapés), na volta é porque não considerava de grande interesse a sua existência, apesar de ser ele próprio a dirigi-lo.

Coisas que se dizem sem pensar, ou então...

Ver aqui, há uns meses. E aqui também, por estes dias (neste caso, coisas escritas). Coisas que se dizem (ou escrevem) sem pensar, ou então vá lá uma pessoa perceber o que anda em certas cabeças.

Os métodos de há 13 anos

Voltei a ver esta semana na SIC («Perdidos e Achados») as imagens do que aconteceu há 13 anos na Marinha Grande. Não pude deixar de impressionar-me mais uma vez com as cargas policiais sobre os trabalhadores da empresa Manuel Pereira Roldão, que lutavam apenas por aquilo a que tinham direito. Num tempo em que tanto se acusa (e com razão) o governo de tiques de autoritarismo e de um afã pelo controlo que faz pensar no antes do 25 de Abril, é bom que não nos esqueçamos dos vergonhosos anos finais do governo do actual presidente da República e dos métodos que então usava.

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

Textos sobre livros - 38

«O Ano em que Zumbi Tomou o Rio», de José Eduardo Agualusa (Publicações Dom Quixote; 283 pp.)

Zumbi de regresso

Zumbi, o mítico herói do Quilombo de Palmares, regressa para tomar a cidade do Rio de Janeiro. O que é que poderá acontecer?
Na contracapa de «O Ano em que Zumbi Tomou o Rio» (pelo menos a da edição que tenho comigo, a primeira, de 2002) pode ler-se… «Os morros do Rio de Janeiro estão a arder. Aproxima-se o dia em que a guerra descerá sobre os bairros ricos da cidade. Um antigo coronel do Ministério da Segurança de Estado de Angola, que trocou o seu país pelo Brasil, fugindo às armadilhas de um amor feroz e ao tormento da memória, prepara esse dia. Um jornalista mergulha no incêndio dos morros cariocas em busca de respostas a perguntas que poucos se atrevem a colocar. Tudo isto acontece agora./ Zumbi, o mítico herói do Quilombo de Palmares, voltou para tomar o Rio.»
Este romance do escritor angolano José Eduardo Agualusa (n. Huambo, 13 de Dezembro de 1960) resulta de uma antiga ideia do autor, a de fazer uma actualização do mito de Zumbi de Palmares, um negro de origem angolana que no século XVII governou durante muitos anos uma república de homens fugidos à escravatura. Com a intensificação do tráfico negreiro para o Brasil, iniciado no século XVI, era natural que começassem as revoltas e que tendessem a ser organizadas. Arrancados ao seu habitat natural, onde em muitos casos pertenciam às classes dominantes, os negros não aceitavam pacificamente a condição que lhes era imposta pelos portugueses do Brasil. Daí as revoltas e as fugas, até chegar-se à formação dos chamados quilombos, aldeias de negros fugidos das fazendas, onde se organizavam e tentavam viver em liberdade. O mais famoso foi o de Palmares, que resistiu durante cerca de noventa anos aos ataques dos portugueses, caindo apenas em 1694. Zumbi foi o seu membro mais famoso.
A acção de «O Ano em que Zumbi Tomou o Rio», contudo, passa-se na actualidade. Poderá talvez classificar-se como uma alegoria, um relato fantástico a propósito da questão racial, com Angola e Brasil como que misturados. No Rio de Janeiro, nos morros, vai começar a guerra de negros de todas as cores contra a ordem imposta pelos brancos. O militar angolano referido na contracapa chama-se Francisco Palmares. Vende armas, vive num hotel mítico do Rio de Janeiro e planeia a guerra. Além dele, há mais uma personagem central, também um angolano, só que exilado em Portugal, em Lisboa, depois de uma morte simulada, com direito a funeral e tudo. Trata-se de um anão jornalista chamado Euclides e que fará a reportagem dos acontecimentos como correspondente de um jornal português. Acontecimentos que acabam por ser mais do que um conflito entre polícias e bandidos, assumindo contornos marcadamente políticos. E «...nada será como antes. Não há finais felizes, mas há finais que anunciam tempos melhores.»

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

Pergunta discreta

Scolari estranhou a forma como os jogadores da selecção de futebol da Arménia corriam hoje no jogo que empataram contra Portugal. Não deveria ter também estranhado a forma como por vezes os portugueses não corriam?

Começos prometedores - 6

«Joãozinho sentia-se livre, realmente livre após sete anos de serviço militar obrigatório e mais oito compulsivos nas províncias coloniais de Vega-3 e de Procion-5.»
Início do conto «Joãozinho volta a casa», incluído no livro «Contos do Gin-Tonic», de Mário-Henrique Leiria, 1973 (Editorial Estampa)

Ainda mais um bocadinho da entrevista com um Dinossauro

E as populações das montanhas, soutor Dinossauro?
O que é que se passa com as populações?
(estava com um ar estranho; resolvi impor-me, ser acutilante, como o editor me tinha recomendado duas horas antes, e insisti)
As populações, o que é que ganham com os projectos?
Ah, sim...
(deu-me sinal para lhe passar mais uma garrafinha)
As populações, obviamente, ganham o futuro, ou seja, vamos lá ver... As populações ganham uma ideia de futuro, ou até várias ideias ao mesmo tempo, que os projectos são muitos. As populações, e não se esqueça de uma coisa, é que eu tenho sido sempre eleito com maiorias esmagadoras...
(fez um gesto de esmagar e continuou)
É isto, e é assim que eu ainda hei-de fazer a uns certos tipos que bem conheço.

Ver o primeiro post aqui.

terça-feira, 21 de agosto de 2007

Opiniões de Saldanha Sanches

Foi há cerca de um ano e meio. Uma entrevista de Saldanha Sanches na revista que dirijo («Pessoal»), feita pela jornalista Ana Leonor Martins. Levou o título de «Portugal nos cuidados intensivos» e a leitura era deliciosa. Deixo aqui quatro preciosidades.
»»» Sobre o carro comprado por Santana Lopes quando era presidente da Câmara de Lisboa…
O que acha do caso do carro do ex-presidente da câmara de Lisboa, de mais de cem mil euros, que agora o actual presidente [Carmona Rodrigues] não quer utilizar e que por isso tem de ser vendido em hasta pública? Isto se alguém lhe quiser pegar, obviamente.
Quando ouvi isso pareceu-me um capricho do actual presidente da câmara, de quem não gosto muito. Mas depois de ver nos jornais que era um carro blindado, é de facto no mínimo ridículo. Acho que as hipóteses de o Bin Laden estar interessado no presidente da câmara de Lisboa são remotas. É tão estúpido que o Carmona Rodrigues não tinha grande alternativa. Podia fazer um museu do político estúpido, para funcionar como atracção turística. Colocávamos o carro do Santana Lopes à entrada, com muitas rotundas à volta e com direito a um percurso por Viseu, pelas obras do autarca Fernando Ruas. Seria um museu sobre como gastar estupidamente o dinheiro do contribuinte.
»»» Sobre as confusões do fiscalista com a Associação Nacional de Municípios Portugueses (a que o colega que me acompanhou na vereação na câmara da minha terra se referia muitas vezes como «o sindicato dos presidentes de câmara»)…
O que aconteceu com as ameaças que teve da Associação Nacional de Municípios Portugueses depois das acusações que fez?
Ameaçaram meter-me um processo, mas esqueceram-se logo a seguir. Eles não gostam nada de tribunais, nem de polícia. Faz-lhes um bocado de impressão. Começam a pensar que também podem ser investigados. Só chama a polícia quem está descansado.

»»» Sobre um pedido de indemnização feito por Pinto da Costa ao Estado…
O que pensa do facto de ainda recentemente o presidente do Futebol Clube do Porto ter pedido uma indemnização de 50 mil euros ao Estado português pelas três horas e cinco minutos em que esteve detido para interrogatório?
Temos que pagar ao homem. Uma pessoa com tão boa reputação ficou agora com a sua imagem enlameada por causa do «Apito Dourado». Ninguém suspeitava de que ele tivesse alguma complicação com a justiça. É lastimável. Mas se as pessoas não se indignam perante o beija-mão do doutor Soares ao major Valentim Loureiro, tudo é possível.
»»» Sobre Campos e Cunha, que protagonizou um dos casos mais baixos e vergonhosos da política portuguesa depois do 25 de Abril…
Como vê a decisão que permitiu a pessoas como Campos e Cunha acumular ao fim de meia dúzia de anos de trabalho uma reforma de alguns milhares de contos?
Isso são coisas muito desagradáveis, em sectores que eram marcados por alguma contenção e ética. Descobriram que havia no Banco de Portugal um fundo de pensões de reforma muito nutrido e alguém um dia passou e resolveu utilizar esse fundo em pensões majestáticas a administradores que estavam lá havia quatro ou cinco anos.
Como é possível ter direito a uma reforma por trabalhar cinco anos?
Eu chamaria a isso um assalto à mão jurídica. É tudo feito de acordo com a lei. Mas é evidente que é um comportamento abusivo.

Pergunta discreta

Há quanto tempo terão sido acertados entre Luís Filipe Vieira e Camacho os pormenores da entrada do treinador espanhol no Benfica?

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Duas perspectivas do que é o serviço público

Vem no «Expresso» do passado sábado. A administração do Hospital Pedro Hispano, em Matosinhos, abdicou do direito de comprar carro de serviço, como forma de viabilizar a aquisição de novos equipamentos para o bloco operatório de neurocirurgia. São cinco os membros do concelho de administração. Com os 35.000 euros poupados em cada carro (sete mil contos), juntaram 175.000 euros (35.000 contos) e conseguiram ver aprovado um projecto de financiamento de um programa chamado «Saúde XXI» (o programa financiou os novos equipamentos em 75%, a juntar aos 25% que o valor das cinco viaturas representava).
Na minha terra, Monchique (na foto), o presidente da câmara, Carlos Tuta, tem duas viaturas ao seu serviço, um automóvel de alta cilindrada e um jipe todo-o-terreno (referia-se aos dois, e se calhar ainda se refere, como o «carro do presidente» e o «jipe do presidente», respectivamente). Quando fui vereador naquela câmara tentei mais o colega da lista que tinha integrado (Vidaul Costa) que fosse retirada uma das viaturas ao presidente, para outras finalidades; a ver se aquela pouca vergonha acabava. Tentei duas vezes (em 2005), mas as propostas foram inviabilizadas com os votos contra do presidente (que as considerava «ataques pessoais»), do vice-presidente António Mira e do outro vereador afecto ao presidente (Carlos Henrique); destes, um tinha direito a um carro e outro a um jipe.

Começos prometedores - 5

«Vim a Comala porque me disseram que vivia aqui o meu pai, um tal Pedro Páramo.»
Início do romance «Pedro Páramo», de Juan Rulfo, 1955 (edição portuguesa – Cavalo de Ferro, 2004)

sábado, 18 de agosto de 2007

Mais um bocadinho da entrevista com um Dinossauro

Pode falar-me dos seus projectos para as montanhas, soutor Dinossauro? Enfim, para a sede do concelho, para as aldeias e também para os campos...
Bom, o amigo...
(aqui piscou-me o olho, ao tratar-me por amigo)
... o amigo sabe que eu sou um homem de projectos, sabe que disso nunca me desviei. Eu acredito nos projectos e, como tal, acho que as coisas devem ficar sempre por projectos. E acho que toda a gente ganha com isso, a começar logo pelos meus amigos projectistas lá de baixo, e a acabar em mim, que – volto a referir – não sou nada parvo.

Ver o primeiro post aqui.

Salazar no Sol

O «Sol», o jornal, com direito a aspas. Salazar, o Tiago, o meu amigo Tiago Salazar, não o criminoso que nos saiu ao caminho durante quase meio século. O Tiago está hoje na revista que acompanha o jornal («Tabu»), com mais dois ilustres viajantes. Sobre o livro do Tiago, ver aqui.

O homem das limpezas

Um apelo de José Adelino Maltez depois das tropelias de um homem das limpezas; explorar ainda mais coisas sobre o limpamento no seu blog.

Pedido de apoio contra o limpamento de memórias (182.246.466 bytes). Não se trata de simples metáfora...
Tenho certo pudor em referir casos em que sou vítima, mas não posso deixar de anotar que, hoje, ao passear por certos motores de pesquisa, ao clicar em
http://www.iscsp.utl.pt/cepp, verifiquei que os novos donos do poder da minha escola, ao inaugurarem o chamado "novo site", decidiram fazer "delete" de milhões e milhões de "bytes", num arquivo que, quando ainda era actualizado, andava por meio milhão de entradas.
O acto de saneamento e censura tem um ilustre responsável, com nome e tudo. E tem naturalmente outros responsáveis por omissão. Por agora, apenas registo a ocorrência daquilo que qualifico como repressão académica.
É evidente que nunca reivindiquei divulgar o "site" no portal da entidade estadual em causa, como já acontecia. Mas não parece académico limpar todas as raízes, mesmo de um arquivo sem actualizações. Não sei mesmo se o novo professor bibliotecário também eliminou os meus livros da biblioteca da escola.
Ainda estou surpreendido com esta actividade de certos funcionários públicos neste Estado de Direito. E peço aos habituais leitores que me ajudem a saber como posso garantir a aplicação de regras constitucionais de aplicação directa, em defesa da liberdade de ensinar e aprender.
Não estamos a falar metaforicamente de uma formal página de professor, de um pequeno "weblog" ou de um mero "mail", mas de um espaço que contava com cerca de meio milhão de consultas, disponível em todos os motores universais de pesquisa: são cerca de 183 MB (182.246.466 "bytes") disponibilizados publicamente, em cerca de 12 000 ficheiros, até para que se cumprisse programa subsidiado com dinheiros públicos.
Por outras palavras, em termos práticos, são centenas de livros que desaparecem dos ficheiros públicos, depois de longos anos de consulta livre, dado que ilustres gestores da coisa que devia ser pública, usam os títulos de "utl" e de "pt", para um higiénico, ou incompetente, "delete". E tudo aconteceu pela calada das férias e em pleno Agosto.

Ainda o esquecimento de Torga

Vale a pena ler esta síntese magnífica de Baptista-Bastos, no «Diário de Notícias», aqui.

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

Entrada tranquila

Entrada tranquila no campeonato. Sporting 4 (Derlei, Liedson, Tonel, João Moutinho), Académica 1. Algumas impressões…
- é bom ver o Sporting com uma equipa de jogadores que sabem jogar futebol (10 em 11 é um valor assinalável, ainda mais sendo o único mau – Polga – um jogador aplicado);
- em relação à equipa habitual da época passada, só se lamenta a falta de Nani (de Custódio, titular durante algum tempo, do trava-equipas Caneira e do sempre imprevisível Ricardo não ficaram saudades);
- era escusada a presença de Farnerud na segunda parte (vê-se que até sabe jogar, mas nem luta nem parece ter grande vontade de participar);
- Yannick, que também entrou na segunda parte, parece abatido com a condição de suplente;
- a equipa falhou muitos golos, especialmente por Liedson;
- mas esteve sempre, ou quase sempre, dominadora – e lances como os que Liedson acabou por desperdiçar poucos avançados conseguem criá-los;
- Derlei (na foto de Pedro Cruz - site do Sporting - começa a justificar a presença no lugar de Yannick;
- a jogada do primeiro golo é notável, especialmente a simulação de Vukcevic (tanto ele como o jogador que hoje substituiu – Izmailov – acabam por ser alvo de alguma injustiça, pois sendo bastante bons a comparação é sempre feita com Nani, o que lhes coloca alguns problemas);
- Polga, com as habituais entradas à maluca, lá arranjou outra vez maneira de fazer um penalty (o árbitro não marcou, depois de ter deixado também de assinalar uma falta cometida imediatamente antes pelo jogador da Académica que Polga derrubou);
- o guarda-redes teve duas falhas, uma ao defender para um adversário uma bola que ia ao lado, outra (mais compreensível) no golo sofrido – mas continua a dar a ideia de que com ele não vamos ter grandes problemas na baliza ao longo da época;
- Adrien Silva, de quem dizem maravilhas, podia ter jogado mais uns minutos (talvez o golo da Académica tenha feito Paulo Bento deixar a substituição para os descontos).
Ou seja, pelo que se viu hoje – e até na vitória sobre a confusa (Jesualdo) equipa do Porto –, o Sporting promete.

E se acontecesse no futebol português?

No futebol português e na justiça portuguesa, claro. Ver aqui ou no «31 da Armada», com comentários (13.08).

No duro

Como se trabalha no duro, ou à séria; ver aqui.

Uma entrevista com um dinossauro

Um conhecido meu, jornalista free-lancer (acho que se escreve assim), fez-me chegar uma entrevista que fez com um dinossauro (aliás, além de ser um dinossauro, também tem esse apelido). Ainda não sei se publique aqui a entrevista na íntegra ou se deixe apenas umas passagens. Logo se vê. Para já, algumas passagens…

Começo por uma questão bem simples, soutor Dinossauro...
Ó homem, se é para questões simples, veio ter com a pessoa certa.
Bom, a questão tem a ver com esta caixinha.
O que é que traz aí?
Jameson, vinte e cinco...
Vinte e cinco garrafas?
Não, trago só doze. Eu ia dizer vinte e cinco anos.
Ah!... Assim a entrevista não pode ser muito demorada. Enfim, digamos que com doze garrafas posso aguentar uma hora de conversa consigo.
(…)
E depois onde é que almoça?
Já venho almoçado do restaurante. Despacho lá das onze à uma, depois almoço lá...
(…)
Já foi ministro, soutor Dinossauro?
Sim, em várias ocasiões, mas fiquei sempre pouco tempo, às vezes umas horas... Só que por cá não convém que se saiba, porque esta gente adora-me e depois pode entrar em
stress, pensando que a qualquer altura me vou embora, outra vez para ministro, e que pode ser para ficar tipo um ano. As pessoas gostam muito de mim cá nas montanhas. Não dizem, mas gostam.

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

Vai outro apito?

Esta coisa dos apitos está-se mesmo a compor.

A Padeira – IX e X

Mais dois capítulos (IX e X) de «Brites e as Gaivotas» (início aqui).

Brites e as Gaivotas
Uma história da Padeira de Aljubarrota

»»» Cap. IX
Os piratas árabes, ao chegarem a Ceuta, encontraram logo um parvo para ficar com Brites. Não era mercador, mas também não importava. Era um rico senhor que logo viu em tão entroncada escrava uma boa serviçal para o seu palácio.
- Chamo-me Brites de Almeida!
O senhor não percebeu nada, mas mesmo assim levou-a de bom grado para servir no palácio. E nessa mesma noite disse adeus ao mundo, enquanto dormia, sem ter tempo de abrir os olhos para ver o rosto de Brites enquanto ela lhe apertava o pescoço.
- Pelos vistos era um senhor descuidado, este mouro rico.
- Novo rico?!
- Não, mouro rico! Cada vez ouves pior o meu grasnar.
As gaivotas não queriam perder nada.
- O melhor é irmos embora daqui, senão ainda somos detidas como suspeitas.
- O quê?! Duas gaivotas suspeitas de um crime assim?!
- Pois, além disso a danada da Brites já vai a caminho do porto. Ainda a perdemos de vista.
- Quer dizer que regressamos a Portugal.
- Sim, se a Brites para lá voltar.
- Se calhar estamos a ser demasiado curiosas?
- Não, nem a curiosidade tem mal algum. O mesmo já não se poderá dizer de uma idade curiosa.
- Deves ler muitas enciclopédias, para teres tão altos pensamentos e fazeres um trocadilho desses.
- Talvez o melhor fosse ires para o trocadalho!...
- ...
- E a puta da Brites?! Com este grasnar todo já a perdemos!
- Não, vai ali mesmo abaixo, a correr que nem uma desalmada.

»»» Cap. X
No porto, mesmo de noite, Brites desenrascou-se. Aliás, de noite é que lhe convinha negociar. Arranjou um barqueiro e, a troco de alguns pertences que roubara ao assassinado senhor, convenceu-o a levá-la ao seu destino.
- Portugal!
O barqueiro percebeu-a bem, e ainda a percebeu melhor quando a viu levantar a saia bem acima do joelho.
- Este barqueiro, para ele serve-lhe tudo.
- Ora, gostos não se discutem.
Só que o barqueiro nem teve tempo de contar os pertences que Brites lhe entregara. Nem tão pouco de se assenhorar dos esconderijos da roupa com que ela se insinuava. Com um golpe, dos muitos que sempre tinha de reserva, a antiga feirante fê-lo dar uma volta por cima da pequena vela. E depois ficou a vê-lo afundar-se nas águas iluminadas pelo luar.
- Não achas que todos os barqueiros deviam de saber nadar?
- Eu acho! Já viste se nós, gaivotas, não soubéssemos utilizar as asas?!

Pergunta discreta

Ao presidente da câmara de Monchique foram retiradas as competências delegadas a que há mais de duas décadas estava habituado. Ele, pelo que ouço dizer, tem muita dificuldade em aceitar. Com uma certa razão. Afinal, fará sentido retirar competências a um incompetente?

Textos sobre livros - 37

Poucos dias depois do centenário do nascimento de Miguel Torga, deixo aqui um texto que escrevi em tempos (2002) sobre um notável livro de contos.

«Bichos», de Miguel Torga (agora editado nas Publicações Dom Quixote; 136 pp. na minha edição de autor)

Os bichos de Torga

Um texto de 2002, sobre um velhinho livro de capa branca e páginas muitas delas por cortar. Outros tempos…
Mesmo com a obra de Miguel Torga a ser reeditada pelas Publicações Dom Quixote, depois de tantos anos em edições do autor, não será despropositado trazer aqui um dos velhinhos livros brancos a que nos fomos habituando desde os tempos de escola. Falo de «Bichos», um que ainda não conheceu reedição [texto de 2002, agora já há edições naquela editora], o que por certo não tardará a acontecer.
«Bichos» surgiu em 1940, sendo reeditado pouco depois e conhecendo traduções sucessivas para várias línguas. São contos de animais com o sentir dos humanos, ou talvez humanos dentro da pele de animais. Ou uma irmandade de animais e humanos, quem sabe... Nero, o cão, Tenório, o galo, Morgado, o burro, e tantos outros, Ladino, Ramiro, Farrusco, Mago, Miura, tantos outros. E também Madalena, caminhando pelas serranias. «Madalena arrastava-se a custo pelo íngreme carreiro cavado no granito, a tropeçar nos seixos britados por chancas e ferraduras milenárias. De vez em quando parava e, através de um postigo aberto na muralha das penedias, olhava o vale fundo, já muito longe, onde o corpo lhe pedira para ficar, à sombra de um castanheiro. O corpo. Porque a vontade fizera-a atravessar ligeira a frescura tentadora da veiga e meter-se animosa pela encosta acima. Tudo estava em chegar a Ordonho a tempo da sua hora. Por isso, era preciso reagir contra a própria natureza e andar para diante, custasse o que custasse.»
Por que se arrastará Madalena «pelo íngreme carreiro cavado no granito, a tropeçar nos seixos britados por chancas e ferraduras milenárias»? Já no fim do conto, pode ler-se… «Nem um som, nem a presença de uma aragem a quebrar a solidão que a cercava. Apenas num céu em fim de incêndio um mormaço cerrado./ Abriu de todo os olhos turvos. Entre as pernas, numa poça de sangue, estava caído e morto o filho. Carne sem vida, vermelha e suja. O segredo dela e de Deus!...»
O autor de «Bichos» nasceu em São Martinho de Anta, concelho de Sabrosa, em 1907, vindo a falecer em 1995. De nome completo Adolfo Correia da Rocha, adoptou o pseudónimo de Miguel Torga. É ele que explica… «Eu sou quem sou. Torga é uma planta transmontana, urze campestre, cor de vinho, com as raízes muito agarradas e duras, metidas entre as rochas. Assim como eu sou duro e tenho raízes em rochas duras, rígidas, Miguel Torga é um nome ibérico, característico da nossa península.»
Torga estudou em Coimbra e aos vinte e quatro anos estava formado em medicina. Especialidade, Otorrinolaringologia. Começou por exercer clínica geral na sua aldeia, mas a experiência não foi famosa. Mudou-se para Leiria, mas por causa das tipografias acabou por regressar a Coimbra. Foi sempre um homem socialmente difícil. Pouco comunicativo, falando com mais convicção do que razão. Quase não oferecia livros a ninguém, recusava dedicatórias e autógrafos; e nunca confiava os seus livros a nenhuma editora, preferindo sempre edições do autor, com pequena tiragem e num papel o mais barato possível. Na clínica, usava sempre uma bata branca. Só comprou televisão após o 25 de Abril, para ouvir as notícias. Não tinha telefone em casa, para que não lhe interrompessem o trabalho. O material que mandava para a tipografia levava vários remendos, colados uns sobre os outros; chegava a ter sete ou oito colagens. Por causa de uma vírgula, era capaz de passar uma noite sem dormir.
Miguel Torga deixou uma vasta obra, entre poesia e prosa. Só os diários ocupam dezasseis volumes. Muitas obras suas foram traduzidos nas principais línguas de todo o mundo, incluindo o mandarim. Foi muitas vezes apontado como sério candidato ao Prémio Nobel da Literatura. Ganhou o prémio Luís de Camões em 1989. Chegou a ser preso pela PIDE. Algumas vezes teve vontade de sair do país, mas nunca o fez, justificando-se assim… «Mas abandonar a Pátria com um saco às costas? Para poder partir teria de meter no bornal o Marão, o Douro, o Mondego, a luz de Coimbra, a biblioteca e as vogais da língua. Sou um prisioneiro irremediável numa penitenciária de valores tão entranhados na minha fisiologia que, longe deles, seria um cadáver a respirar.»

terça-feira, 14 de agosto de 2007

«A Nora da Sorte»

Concurso «A Nora da Sorte», ou antes, um concurso público para a exploração de um «café/ snack-bar» chamado «A Nora». O presidente da câmara de Monchique não direi no seu «melhor», mas perto disso – ver aqui.

O mal menor

Um novo candidato a primeiro-ministro, aqui e aqui. É da responsabilidade da revista «Focus». Mais coisas sobre o assunto na edição em papel.

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Torga

No centenário do nascimento de Miguel Torga, ninguém do governo quis saber da homenagem que lhe fizeram em Coimbra. Nem a mulher da cultura, no caso por falta de tempo, que para o comendador Berardo, por exemplo, não lhe faltou. O presidente, na volta a banhos e tacadas, também não se dignou a aparecer, mas mandou umas palavrinhas para a comunicação social; agora que já é um homem de cultura nunca falha com meia-dúzia de banalidades em ocasiões como esta – Camões, Thomas More e Saramago é que não tiveram tanta sorte.

sábado, 11 de agosto de 2007

Ora aí está...

Ora aí está a Supertaça. O jogo pareceu-me sempre seguro, tirando um susto ou outro (o descuido de Tonel com a mão, dentro da grande área, por exemplo, ou a bola no poste do polaco careca). Paulo Bento armou bem a equipa (vamos esquecer a desconfiança que mostrou em relação a Ronny); já Jesualdo Ferreira foi uma confusão do princípio ao fim, coisa que alías se esperava. Curiosamente, o golo foi marcado por um jogador de qualidade mas que pouco tem feito neste começo de época (um caso parecido ao de Vukcevic); redimiu-se agora com um remate notável. Porto 0, Sporting 1 (Izmailov); o golo está aqui (de alguma forma, fez lembrar o golo de Rodrigo Tello na vitória da época passada em casa do Porto, para o campeonato; ver aqui).

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Do que nós nos livrámos

Falo, é claro, em relação aos sportinguistas. Livrámo-nos disto.

Textos sobre livros - 36

«A Tia Julia e o Escrevedor», de Mario Vargas Llosa (Publicações Dom Quixote, 342 pp.)

A história de Varguitas

Um dos grandes romances de Mario Vargas Llosa, na volta talvez o mais fascinante. O jovem Varguitas em grandes confusões com uma tia e também com a literatura.
Pus ali acima a referência ao número de páginas, que fui espreitar a um site de venda de livros, da edição da Dom Quixote. A que li (tenho-a há quase vinte anos) é do Círculo de Leitores.
Bom, o que no livro se conta é a história de um rapaz – o próprio Vargas Llosa adolescente, o Varguitas – e da sua relação amorosa com uma tia por afinidade (que pouco antes se tinha divorciada de um tio do jovem). Estamos nos anos cinquenta do século passado, quando a televisão ainda não tinha chegado ao Peru. À rádio cabia por isso entreter, informar e divertir as famílias. Eram os tempos áureos das radionovelas.
Varguitas estudava Direito, embora sem grande interesse (aliás, Vargas Llosa viria a formar-se em Letras), e ganhava a vida a trabalhar na Rádio Pan-Americana. É ele quem conta… «Tinha um trabalho de título pomposo, salário modesto, apropriações ilícitas e horário elástico: director de informação (...) Consistia em recortar as notícias interessantes que apareciam nos jornais e maquilhá-las um pouco para que fossem lidas nos noticiários. A redacção, sob as minhas ordens, era um rapaz de cabelo empastado e amante de catástrofes chamado Pascual.»
A par do romance com Julia, o jovem Varguitas toma contacto com um sujeito fascinante, um tal Pedro Camacho. Trata-se de um autor e intérprete de folhetins radiofónicos, boliviano, contratado para encantar as gentes de Lima e fazer aumentar os níveis de audiência. As radionovelas de Pedro Camacho aparecem como capítulos do próprio livro, alternando com os da história que vai sendo contada na primeira pessoa pelo próprio Varguitas.
Duas notas... Este romance foi passado ao cinema de uma forma, na minha opinião, bastante infeliz. O filme, cujo título é «A Paixão de Júlia», não tem praticamente nada a ver com o que Vargas Llosa escreveu, inclusive ao nível dos espaços em que a acção decorre. O próprio Pedro Camacho, que no livro odeia argentinos, no filme odeia albaneses; e chama-se Pedro Carmichel. É interpretado por Peter Falk, o actor que fazia de Inspector Columbo. Esta é a primeira nota. A segunda… Muitas personagens da radionovelas de Pedro Camacho são no romance caracterizadas da seguinte forma (e isto em redacção livre, apenas da minha responsabilidade): «tinha chegado aos cinquenta e as suas características particulares, fronte larga, nariz aquilino, olhar penetrante, rectidão e bondade de espírito...» Não ficam dúvidas de que o boliviano era um fraco amante da variedade. Mas tinha piada, muita, muita piada.
Um romance para ler ou reler em qualquer altura.

Nota: a foto é de Mario Vargas Llosa, há muitos, mesmo muitos anos; o artista quando jovem Varguitas.

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

Saramago

E vale a pena ler isto, claro.

Fantástico

Mandou-me este link o meu amigo Helder Figueiredo. Vale a pena ver e ouvir. Mais informações, por exemplo, aqui.

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

Eça Lisboa

Um excerto de um texto de Francisco Almeida Leite no «Corta-fitas» (sobre o novo número dois da Câmara de Lisboa)… «António Costa escolheu para vice-presidente da Câmara Municipal de Lisboa o simpático Marcos Perestrello. Escolhido para super-vereador (durante a campanha foi anunciado que teria a pasta do Ambiente, só que esta acabou por ser negociada com Sá Fernandes) este licenciado em Direito nunca exerceu advocacia por ter andado sempre nos gabinetes ministeriais de Guterres, tendo depois passado para o Parlamento, onde não se lhe conhece uma intervenção digna de registo, sob o consulado de Sócrates. Para além de ser o primeiro ‘costista’, o secretário-nacional do PS para a organização, vulgo o aparelho, dá um salto de gigante dos gabinetes e da última fila na Assembleia da República, onde repetidamente se sentava, para a ribalta política como número dois da maior câmara do país. Como disse, e repito, acho que Marcos Perestrello é simpatiquíssimo. É fino no trato, bem-educado, coisa rara entre os políticos da praça de hoje em dia, e repetem-me à exaustão que é inteligente e um valor socialista a acompanhar. Tem só 36 anos; também não acho que a idade possa ser apontada como factor de risco nesta indigitação.»
Pouco ou nada sei sobre o novo vice-presidente da câmara, mas a descrição de Francisco Almeida Leite faz-me lembrar um tal Pacheco, criado por Eça há mais de cem anos. Ora vejam… «Pacheco não deu ao seu país nem uma obra, nem uma fundação, nem um livro, nem uma ideia. Pacheco era entre nós superior e ilustre unicamente porque tinha um imenso talento (...). O talento imenso de Pacheco ficou sempre calado, recolhido, nas profundidades de Pacheco! Constantemente ele atravessou a vida sobre eminências sociais: deputado, director-geral, ministro, governador de bancos, conselheiro de Estado, par, presidente do Conselho - Pacheco tudo foi, tudo teve, neste país que, de longe e a seus pés, o contemplava, assombrado com o seu imenso talento (...). A testa de Pacheco oferecia uma superfície larga e lustrosa. E muitas vezes, junto dele, conselheiros e directores-gerais balbuciavam maravilhados: - Nem é preciso mais! Basta ver aquela testa!»
Há, é claro, aquilo do «simpático», do «simpatiquíssimo» e mais o resto de que fala Francisco Almeida Leite. Eça não parece pintar o Pacheco da mesma forma. Por exemplo, aqui, numa resposta a um deputado da oposição, depois de este o ter criticado como Ministro do Reino… «Ao ilustre deputado que me censura só tenho a dizer que, enquanto S. Exa., aí nessas bancadas, faz berreiro, eu aqui nesta cadeira, faço luz!»
Já agora, Eça escrevia que «Pacheco e Portugal, de resto, necessitam insubstituivelmente um do outro». E justificava... «Sem Portugal Pacheco não teria sido o que foi entre os homens; mas sem Pacheco Portugal não seria o que é entre as nações!» E Lisboa, como ficará entre as cidades agora vice-presidida (ou sub-presidida, nem sei como se deve dizer) pelo «simpático» e «fino no trato» Perestrello.

Na volta...

terça-feira, 7 de agosto de 2007

Câmara de Lisboa

Uma coisa interessante sobre a corrida à câmara, aqui.

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

A derrota de ontem no Algarve

Copiei isto do «Record»… «’Penso que não assistimos a uma arbitragem isenta. A forma como o Pedro Henriques controlou a partida não foi a melhor. Costumam elogiar o seu estilo mas não foi uma arbitragem à inglesa’, afirmou o responsável máximo dos leões que, entre outros lances, não apreciou as picardias que se verificaram no relvado. Recorde-se os episódios que envolveram Romagnoli, Manuel Fernandes, Liedson, Luisão e David Luiz.»
Filipe Soares Franco ao menos nisto saiu-se bem. Pedro Henriques, que ao contrário do que se diz é um mau árbitro, prejudicou o Sporting na final do Torneio do Guadiana, em Vila Real de Santo António, frente ao Benfica. De qualquer forma, parece-me que não foi por ele que a equipa perdeu.
Ou seja, este Benfica 1, Sporting 0 deixou-me a ideia de que a equipa perdeu de forma estranha; mostrou que era melhor, mas não conseguiu dar forma a essa ideia no resultado, e afinal o Benfica até teve mais oportunidades.
Outras impressões…
- O novo lateral direito é bom; mas, a confirmar a falta de senso dos dirigentes, para essa posição já havia dois jogadores igualmente bons (Abel e o adaptado Pereirinha).
- Não fica muito bem sofrer um golo de um jogador como David Luís (assim como não fica muito bem sofrer um golo de Luisão); ontem aconteceu, por incompetência de Polga (como antes tinha acontecido no frango de Ricardo que deu o último título ao Benfica) – Ricardo finalmente saiu e a equipa arranjou um guarda-redes que parece muito bom, mas Polga dá a ideia de que é inamovível.
- Confirma-se que a equipa vai ser parecida à do ano passado, mas continua a haver ali alguma coisa que não funciona e que pode comprometer a luta pelo campeonato (para além dos dirigentes, que podem muito bem mandar jogar para o segundo lugar de forma a poupar nos prémios, como no final da época passada).
- É provável que haja lugar para Adrien Silva na equipa.
- Moutinho é muito bom, mas acaba por ser um bocado azelha nos remates e noutras jogadas de finalização (está aí a diferença para jogadores como, por exemplo, o notável Nani); acaba por ter o mesmo problema de Yannick Djaló, embora não tão acentuado.
- Paredes e Farnerud, mesmo não jogando ontem, deu para lembrá-los, não sei por quê – nem pensar em metê-los na equipa (e se deu para mantê-los, por que não foi possível aguentar Carlos Martins).
- Derlei emperra o ataque; não sei se alguma vez recuperará o nível que atingiu com Mourinho.
- Romagnoli não serve para maestro da equipa, mas deve jogar num lugar qualquer do meio campo para a frente porque tem muito talento.
- Sei que isto é uma banalidade, mas Miguel Veloso e Liedson são imprescindíveis.
- Vukcevic e Izmailov sabem jogar, mas daí a serem imprescindíveis não direi que vão anos-luz, mas uns largos meses de certeza.
- E mais uma coisa, aquilo da imagem ali no início – o que estará Soares Franco a combinar com Luís Filipe Vieira?; será uma coisa do género da que arranjou na visita do Sporting à Luz na última época, para que a equipa desistisse de ganhar na segunda parte do jogo?; tipo esta época vocês lutam pelo título e a gente fica atrás a ver se foge ao pagamento dos prémios de campeão?
Vamos a ver no que isto vai dar.

Pergunta discreta

ENTREVISTA COM O VAMPIRO
Em que entrevista dos jornais do passado fim-de-semana ficaria bem este título?

domingo, 5 de agosto de 2007

Vale a pena ler

Vale a pena ler José Adelino Maltez, ao que parece em descanso para os lados da Ria Formosa. Aqui.

A propósito

A propósito do segundo comentador referido no post anterior, sobre o jogo do Sporting com o Bétis de Sevilha, recupero aqui um texto que escrevi em Dezembro de 2001 (para uma crónica da abertura das tardes desportivas do fim-de-semana, numa rádio). É um texto sobre um dos piores árbitros que o futebol português conheceu nas últimas décadas, Isidoro Rodrigues. Ontem quem apanhou com o «Isidoro Rodrigues» foi o árbitro do jogo, Lucílio Baptista. O segundo comentador, não sei por quê, teimava em chamar-lhe, imagine-se, «Isidoro Rodrigues». Aqui fica o texto, sobre um árbitro que depois haveria de tornar-se cantor (ver foto).

Há muito, muito tempo...
Há muito, muito tempo, ainda o senhor Isidoro Rodrigues era uma criança como árbitro, o Sporting foi ao Funchal defrontar o União da Madeira. Era um jogo muito importante, porque os adversários mais directos, nomeadamente o Futebol Clube do Porto, tinham feito maus resultados no dia anterior. Uma vitória colocava a equipa no primeiro lugar e fazia os adeptos sonharem com o regresso do título, depois de 1982.
Estava a ser um jogo, como dizem os mais inspirados comentadores do pontapé na bola, sem história. Até que a certa altura, com os minutos já bem avançados, o ponta-de-lança Cadete, então conhecido como «o capitão Jorge Cadete», cabeceou a bola já dentro da grande área do União da Madeira. Quando os adeptos gritavam golo, de repente, um futuro jogador do Sporting, o brasileiro Marco Aurélio (um defesa central extraordinário), resolveu agarrar a bola com as duas mãos, mesmo em cima da linha de baliza. Segurou-a bem firme, mas só por um ou dois segundos, e depois atirou-a pela linha de cabeceira.
Não foi golo, mas nenhum sportinguista se importou. Era
penalty, o que haveria de ir dar ao mesmo. Mas não, o árbitro, sem que alguém percebesse por quê, assinalou pontapé de canto. A favor do Sporting, é certo, mas apenas pontapé de canto.
Se fosse agora, depois da carreira que esse árbitro veio a construir, ninguém estranharia que de um lance assim ele arranjasse inclusive um pontapé de canto a favor do União da Madeira. Mas ele ainda não era conhecido; como árbitro ainda era uma criança. Isidoro Rodrigues, que ao tempo se arrastava pelas divisões secundárias, foi parar ao jogo à última hora, e aproveitou para fazer das dele. O Sporting não venceu, e a luta pelo campeonato ficou, uma vez mais, comprometida.
Ainda hoje, pelo que se vai observando, o senhor Isidoro Rodrigues continua uma criança como árbitro. Provavelmente por ter escutado nalgum dia de sol mais intenso aquela frase que fala de o melhor do mundo serem as crianças. Talvez algum raio de sol lhe tenha trocado os raciocínios. Logo a ele, que como árbitro, por certo, deve ter sonhado que um dia haveria de ser o melhor do mundo.
[texto de 2001]

Bétis contra betinhos

Bétis 1, Sporting 1 (Liedson). Primeiro jogo do Sporting no Torneio do Guadiana, em Vila Real de Santo António. Novas contratações e sobretudo jovens da academia, com algumas vedetas a aparecerem na segunda parte. As coisas estiveram mal durante muito tempo, com a impressão de que quem defrontava o Bétis de Sevilha era um grupo de betinhos. Algumas ideias que me ficaram…
- Não vamos ter nenhum Nani esta época, mas Adrien Silva é bom; Yannick Pupo, de quem tanto se falava, não parece grande espingarda, mas pode ser que eu esteja enganado; o central Paulo Renato pareceu-me que pode vir a ser um bom jogador se ganhar capacidade de luta, o que não é fácil.
- Bruno Pereirinha, a quem Rui Oliveira e Costa chama «Parreirinha», dá a ideia de que evoluiu muito com as oportunidades da época passada; já Yannick Djaló, que é muito bom, parece como que anestesiado, além de ter-se agudizado um problema já conhecido (costuma ter pouca sorte em muitos lances e por vezes é desastrado).
- Paredes pouco se viu, o que não é novidade, e de Farnerud como habitualmente não faço grandes comentários (dá a ideia de ser mais jogador de ténis do que de futebol, ou então ciclista).
- Não gostei do lateral esquerdo eslovaco; parece ter qualidades mas é sarrafeiro e maldoso (fez um penalty que o árbitro deixou passar e agrediu um adversário à maluca, tipo Polga dos piores dias).
- Vukcevic, como tem acontecido também com Ismailov, mostra que é bom mas que não se pode contar com ele para coisas geniais, tipo Liedson ou Romagnoli.
- A entrada de Liedson, Romagnoli e Moutinho e a notável reviravolta no jogo, mostrou que vamos ter uma época com a equipa a jogar na base do que havia na época passada, com duas ou três alterações.
- Gladstone, o central com nome de jogador de sallon dos livros de cowboys, pode vir a ter lugar na equipa (obviamente que teria de caras para substituir o desastrado Polga, mas Polga tem o lugar garantido por Paulo Bento…).
- Derlei, enfim, pode ser que renasça esta época, com um bocado de sorte.
- E, finalmente, Ricardo; foi bom tê-lo na baliza adversária, até nos penalties.
- Finalmente, parte dois: a televisão (SIC), além do narrador e do comentador principal (creio que Jorge Baptista), tinha um segundo comentador (ou jornalista, nem sei) que passou o jogo com tiradas ridículas, despropositadas e algumas completamente idiotas.

sábado, 4 de agosto de 2007

Textos sobre livros - 35

«Vidas Escritas», de Javier Marías (Quetzal Editores, 209 pp.)

Marías vai-se aos outros

Javier Marías no seu melhor. Vidas de escritores, e não só, contadas de uma forma notável por um adepto do Real Madrid que é ao mesmo tempo um dos nomes maiores da literatura espanhola. Marías conta coisas de Conrad, Joyce e tantos outros, como se viajasse no tempo para conseguir acompanhá-los.
Javier Marías deve ser um escritor bem disposto, pelo menos a julgar pela forma como descreve as vidas deste livro. O adepto do Real Madrid, que foi professor em Oxford (Inglaterra), nos Estados Unidos e na Universidade Complutense de Madrid, e que se tornou num dos criadores mais originais da língua castelhana, tem muitos outros livros traduzidos por cá, mas este é sem dúvida o mais entusiasmante.
A parte final do livro apresenta uma galeria de retratos (igualmente de escritores), tirada directamente da colecção particular de Javier Marías. Essa galeria está acompanhada por um texto onde o autor se detém brevemente sobre cada um dos retratos. Só a título de exemplo, atentemos no que diz sobre o retrato de Jorge Luis Borges, sentado e de óculos numa das mãos: «O pobre Borges parece paciente e cheio de compaixão (...) Não sabe que quando alguém se senta num banco deve manter-se direito ou cruzar as pernas com desenvoltura, nem que uns óculos acabados de tirar devem pelo menos ser escondidos da objectiva (...)»
Mas a parte verdadeiramente genial do livro são as vinte pequenas biografias, marcadas sobretudo pelo insólito. Quem conhece as obras de Faulkner, de Stevenson, de Thomas Mann, de Nabokov, de Oscar Wilde, de Kipling, de Joyce, provavelmente vai ficar bastante surpreendido. Ou talvez não. Mas melhores do que as minhas palavras são as de Javier Marías, daí que fui buscar meia dúzia de excertos de algumas das biografias.
Da biografia de Joseph Conrad – «Muito antes de pedir a futura mulher em casamento (isto é, quando ainda não existia muita confiança entre eles), apareceu uma noite com um pacote de folhas entre as mãos e propôs à jovem que lesse em voz alta algumas páginas que faziam parte do seu segundo romance. Jessie George obedeceu, cheia de emoção e temor, mas o nervosismo de Conrad não ajudava nada. ‘Isso não interessa; começa três linhas abaixo; passa essa página, passa essa página!’ Ou então chegava a repreendê-la por causa da dicção: ‘Fala com clareza; se estás cansada, diz. Não comas as palavras. Os ingleses são todos iguais, fazem o mesmo som para todas as letras.’»
Ainda sobre Conrad – «Quando a mulher estava a dar à luz o primeiro filho, (...), Conrad não parava de cirandar pelo jardim, dominado pela agitação. Ao ouvir uma criança a chorar, aproximou-se indignado da cozinha para perguntar à criada o que era aquilo: ‘Faça o favor de mandar embora essa criança! Está a incomodar a senhora!’, gritou. Mas consta que a criada lhe gritou ainda com mais indignação: ‘É o seu filho, senhor Conrad!’»
Da biografia de William Faulkner – «O emprego na central eléctrica fora o pai que lho arranjara depois de ter sido despedido do seu trabalho anterior, como chefe da estação de correios da Universidade de Mississipi. Ao que parece, houve um professor qualquer que apresentou razoáveis motivos de queixa: a única forma de obter a sua correspondência era rebuscando no caixote do lixo, onde com frequência iam parar directamente, por abrir, os sacos de cartas recebidos. Faulkner não gostava nada que lhe interrompessem a leitura, e a venda de selos caiu de maneira alarmante: a modos de explicação, Faulkner disse à família que não estava disposto a levantar-se continuamente para ir atender ao guichet e ter de agradecer a um filho da mãe qualquer o facto de ter dois cêntimos para comprar um selo.»
Da biografia de James Joyce – «Há bastantes anos tornaram-se célebres aquelas cartas obscenas em que o autor costumava prometer que quando Nora (a esposa) e ele se voltassem a encontrar (ele estava em Dublin e ela em Trieste, onde viviam habitualmente) seriam muito felizes (...) Interrogava Nora sobre o seu passado e o seu presente, a fim de alimentar os seus livros (...) ‘Quando aquela pessoa (...) te meteu a mão ou as mãos debaixo das saias, acariciou-te só por fora ou enfiou o dedo ou os dedos? (...) Apalpou-te por trás? Pediu-te que o apalpasses? Fizeste-o? (...)’ Não se pode negar que Joyce era um homem exigente e amante do pormenor.» Já por palavras minhas, e não de Javier Marías, devo referir que evitei trazer aqui a maior parte das perguntas; deixam estas a anos-luz.
Da biografia de Robert Louis Stevenson – «Já se tinha declarado um incêndio noutra zona e estendia-se tão rapidamente que Stevenson, por curiosidade científica, perguntou a si mesmo se a causa seria o musgo que adorna e cobre os bosques californianos. Para averiguar isto, não lhe ocorreu outra coisa que não fosse aplicar um fósforo a um galho, mas sem tomar a precaução de antes arrancar da árvore o galho em causa. A árvore transformou-se rapidamente numa tocha, o que certamente levou Stevenson a considerar concluída a prova, e além disso satisfatoriamente. Mas o seu comportamento pouco cavalheiresco veio depois: não muito longe, ouviu os gritos dos homens que combatiam o fogo original, e compreendeu que só lhe restava fazer uma coisa, a saber, fugir dali antes que fosse descoberto. Parece que correu como nunca antes fizera na vida (...).»
Finalmente, da biografia de Madame du Deffand – «(...) numa célebre ocasião um cardeal mostrou o seu assombro por São Dionísio Aeropagita, depois do seu martírio, ter caminhado com a cabeça cortada debaixo do braço desde Montmartre até à igreja que tem o seu nome, numa distância de nove quilómetros, o que o deixava sem fala. ‘Ah, Monsenhor’, interrompeu-o Madame, ‘numa situação dessas só o primeiro passo é que custa.’»
O resto destas vidas, só mesmo lendo o livro.
***
Nota: para ilustrar este texto, escolhi uma foto do autor, na versão bastonário da Ordem dos Advogados (Rogério Alves), só que careca.

Ainda Sá Fernandes

Pode ser ingenuidade minha, mas eu não estava nada à espera disto. Isto, quer dizer, José Sá Fernandes juntar-se a António Costa na câmara de Lisboa. Fiquei sem saber bem o que pensar, ou melhor, até consegui pensar em alguma coisa, principalmente que fiz figura de parvo ao escrever aqui antes das eleições de dia 15 de Julho que se fosse eleitor em Lisboa votaria em Sá Fernandes. Que coisa estranha esta aliança... Foi mesmo um choque para mim. Quase como se há tempos, de repente, tivesse aparecido uma notícia a dizer que Sá Fernandes tinha dito que sim à proposta do homem de Braga.