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quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Uma época diferente para os pequenitos


Está a começar mais uma época de futebol para os pequenitos. É uma época diferente em relação às anteriores, pois pela primeira vez faz-se sentir verdadeiramente a crise. Há clubes que já não conseguem participar com a mesma pujança com que o faziam antes (aparecem com uma equipa por escalão em vez de duas ou até três), e outros que simplesmente desistiram. Há miúdos que já não foram inscritos pelos pais. Já não se pode contar com o tradicional lanche que era distribuído no final, nem mesmo com os autocarros para o transporte. E até nos pequenos campos que são instalados em cada estádio para os torneios se nota faltas no material (uma baliza que fica sem rede, as fitas das marcações a não surgirem com a mesma fartura de antes e por aí adiante). Este pequeno mundo do futebol em que os miúdos se julgam Messis e Ronaldos também está a fazer, se bem que à força e sem períodos de adaptação, o seu ajustamento. Mas eles marcam golos na mesma, muitos, como sempre têm feito. Ontem, os que acompanho, marcaram 19 em quatro jogos (um deles na imagem) – e também sofreram alguns, o que é bom, para não ficarem a pensar que são os maiores.
Observo estas mudanças, como tantas outras na sociedade portuguesa, e não consigo deixar de pensar, entre outras coisas, nas filas de carros para os conselhos (de Estado e de ministros), filas compridas e topo de gama, como antes, como provavelmente para sempre. Circulam depressa, não vá alguém fazer mais do que gritar «Gatunos!», e por isso nem dá para perceber algum ajustamento – uma jante de liga menos leve, uns estofos mais espartanos, um motorista mais pequeno, sei lá, uma coisa qualquer que mostre que ali, naquele mundo tão distante do nosso mundo comum, as coisas também são ajustadas.

domingo, 19 de agosto de 2012

O meu ídolo do Sporting


Foi no final da década de 1970 que comecei a acompanhar o futebol. Mesmo assim, lembro-me de poucas coisas do título do meu clube em 1979/ 80. As minhas memórias dos jogos do Sporting começam verdadeiramente no Verão de 1981, quando a equipa foi estagiar para a Bulgária e eu ouvia na rádio que o novo guarda-redes, o húngaro Meszaros, fazia defesas impossíveis. O nome era uma novidade, mas acabou por se tornar familiar. Lembro-me de escrevê-lo num pequeno caderno onde ia apontando todos os jogos dessa época, com a certeza de que o campeonato não iria fugir. Mesmo com os falhanços que tivemos, por exemplo logo a abrir em casa com o Belenenses, num jogo que deu um empate; ou noutros empates em casa, com o Guimarães, o Espinho e o Leiria; ou até nas derrotas no estádio do Boavista, onde parecia haver uma maldição qualquer contra nós, e em Portimão, tão perto da minha terra. O jogo de Portimão, que lá está no pequeno caderno com os dois a zero do penalty do brasileiro Tião e do remate na meia-lua de Norton de Matos, esse jogo foi o único que vi ao vivo naquela época inesquecível. Foi mesmo a primeira vez que pude ir ver o Sporting, ainda por cima ficando junto ao gradeamento, a dois metros da linha de golo onde Meszaros, na primeira parte, andava de um lado para o outro, e eu completamente espantado, como se estivesse perto de um extraterrestre.
Meszaros seria sempre um dos jogadores sobre os quais eu escreveria numa série dos meus ídolos do Sporting. Nunca fui muito de ter ídolos, pensando mais na equipa, e por isso consigo facilmente enumerar os jogadores escolhidos: além de Meszaros, os que eu verdadeiramente recordo como ídolos são Balakov, Marco Aurélio, Pedro Barbosa, André Cruz, Beto Acosta, Mário Jardel e Liedson. Por muito que tenha apreciado outros, seria sobre estes que eu conseguiria escrever.
Há no entanto um outro ídolo, e que eu sempre associo ao Sporting. Nunca como ele um jogador me impressionou tanto. As memórias que guardo, além dos golos e das jogadas que fazia, são de frustração por ele não ter alinhado pela minha equipa. Uma época, duas, três, eu sempre à espera de que fosse para o Sporting, e nada. Até que acabou por ir, mas demasiado tarde, quando parecia completamente transformado, incapaz de marcar os golos que antes eu via com admiração e nalguns casos com um enorme espanto. Foi no começo da época de 1988/ 89. Ele está na foto oficial do plantel do Sporting, curiosamente entre dois defesas, como era habitual andar em campo: o brasileiro Ricardo Rocha e o português Miguel. Chamava-se Serge Cadorin e haveria de fazer essa época na Académica, com dezena e meia de jogos e poucos golos, regressando depois ao seu verdadeiro clube em Portugal, o Portimonense, onde ainda faria menos jogos e marcaria menos golos. Depois, a Bélgica, o seu país, para uma época final no clube da terra onde nasceu, uma época ainda menos conseguida.
O Cadorin que chegou ao Sporting já não era o mesmo jogador que tinha chegado meia-dúzia de anos antes a Portugal, para jogar no Portimonense. Estava limitado, depois de uma explosão em sua casa, cerca de um ano antes do começo dessa época de 1988/ 89, uma explosão que gerou opiniões polémicas e que por pouco não lhe tirava a vida. Creio que ele nunca quis falar muito do assunto, e até a sua filha, Sandy, chegada a Portimão com os pais com apenas duas semanas, em 1983, numa entrevista de há três ou quatro anos fala apenas de um «infeliz acidente».
Foi o jogador consumido pela explosão que chegou ao meu clube. Incapaz de marcar golos como os que eu tinha visto no estádio do Portimonense – o primeiro logo na estreia, num empate a dois com o Farense, então de regresso à primeira divisão; Cadorin empatou o jogo já perto do fim, fazendo entrar a bola na baliza, imagine-se, do grande Meszaros; e na baliza do Portimonense estava Vitor Damas. Cadorin, que tinha sempre os defesas por perto, como na foto em que aparece com a camisola do Sporting. Uma vez, num jogo para a Taça de Portugal com o Espinho, marcou um dos golos que mais me ficou na memória. O Espinho tinha uma equipa modesta, mas no centro da defesa estava um antigo internacional, quase a acabar a acarreia, Freitas, ex-jogador do Porto. Os colegas de Freitas não acertavam com a marcação a Cadorin e por isso o ex-internacional repreendia-os constantemente. Eles, ainda jovens, nem respondiam, parecendo envergonhados. Até que de repente aconteceu uma jogada extraordinária. A bola foi metida em profundidade para Cadorin. Um dos defesas que o marcava já não o conseguiu apanhar, mas estava lá o experiente Freitas, que correu para ele e com um salto conseguiu agarrá-lo com firmeza. Pensei que ia ser falta, que Cadorin acabaria no chão para um livre a uns trinta metros da baliza. Mas não. Cadorin correu, correu, entrou na área e marcou golo, correu veloz como sempre, mesmo com o antigo internacional sempre agarrado a ele, de rojo, como se tivesse cola nas mãos. Já não me lembro bem, mas acho que Freitas só largou Cadorin depois de ter andado uns bons metros de rojo, quando o meu ídolo já corria em direcção à bancada central para festejar o golo em frente dos sócios do clube.
Mas o jogo que tenho mais presente, acima de todos, é o de finais de 1985, com o Porto, em Portimão. Comprei o jornal «A Bola» nesse dia, o jornal enorme, preto, branco e vermelho, a anunciar que Cadorin tinha sido aliciado para fazer um penalty contra a sua equipa. Li o que lá escreviam, que tinha sido o próprio Cadorin a denunciar o caso, e depois fui para o estádio. Encontrei o ambiente de confusão do costume, bem diferente do de agora por lá, pois já não vai muita gente aos jogos. Quase não se conseguia andar, coisa que aliás acontecia em todos os jogos importantes. Mas ao entrar no estádio notei qualquer coisa diferente do habitual. Não sabia bem o que era, mas tinha a ver com a história do penalty. Percebia-se nos olhares das pessoas, nos comentários, no receio do que poderia acontecer pouco depois de o jogo começar, já que o penalty estava marcado para os primeiros cinco minutos.
Tentei ver o que se passava com Cadorin, os movimentos que ia fazendo no aquecimento, e rapidamente percebi que muito dificilmente o Portimonense não ganharia o jogo, e mais, tive a certeza de que ele ia marcar. Reforcei essa certeza logo nos primeiros minutos, quando o vi fugir aos defesas do Porto e atirar à barra da baliza de Zé Beto. E depois, sobre o intervalo, talvez um minuto antes de o árbitro apitar, os dois momentos do jogo. Primeiro um ataque rápido do Portimonense, pela zona central, com a bola a sobrar para um dos irmãos Reina, que tentou o remate. A bola bateu num defesa do Porto e sobrou para o lado esquerdo, onde apareceu um jogador do Portimonense com nome de marca de automóvel: Skoda. Costumava jogar de bola colada aos pés e de cabeça levantada, mas aí nem perdeu tempo, centrou logo para a área. Zé Beto pareceu não saber bem se sair ou não, e enquanto estava nesse dilema apareceu Cadorin a chutar para dentro da baliza. Não me lembro de ter visto alguma vez um golo comemorado de forma tão efusiva naquele estádio. O barulho nas bancadas, os adeptos do Portimonense de pé, muitos aos saltos e aos abraços. Tudo tão diferente de um recanto da bancada coberta, que me parecia reservado aos notáveis do Porto, pouca gente, incluindo algumas senhoras com casacos de peles. Mais do que para a claque do Porto, era para lá que muitos adeptos do Portimonense se viravam. E as senhoras ripostavam, e algumas cirandavam pela bancada a fazerem carantonhas, procurando tirar satisfação das coisas que ouviam.
Eu costumava ficar perto dessa zona. Entrava para o peão com o cartão de jogador dos juvenis e depois subia para uma cobertura da porta de acesso, onde se via melhor o jogo. Estava concentrado na zaragata das senhoras dos casacos de peles com alguns adeptos do Portimonense. Mas de repente desviei o olhar. O jogo tinha recomeçado, faltaria uns segundos para o intervalo, e os jogadores do Porto estavam nervosos. Tinham acabado de perder a bola, que foi parar ao meio campo do Portimonense, e aí alguém já a lançava para o lado direito do ataque, mesmo junto a um dos bancos de suplentes. Foi por esse lado que correu Cadorin, surgido nem se percebia de onde. Um anãozinho que o Porto por vezes utilizava a defesa esquerdo correu desesperado para lá. A baliza ainda estava tão longe, pensava eu. Mas Cadorin, que chegou bem antes do anãozinho, chutou a bola de primeira. Mesmo junto ao banco de suplentes, chutou logo daí, e eu lembro-me de ter visto a bola pelo ar, a fazer um arco enorme. Zé Beto olhou para ela a cortar os ares, sem saber como apanhá-la, a bola a cair quando se aproximava da baliza. Muita gente parecia ir aproveitar o facto de ainda estar de pé e a saltar e aos gritos para festejar mais um golo, mas a bola apenas roçou no ferro da baliza, mesmo no encontro do poste direito com a barra. O árbitro apitou logo a seguir para o intervalo.
Na segunda parte o Portimonense apareceu mais retraído, a tentar guardar o resultado, e o Porto, mesmo que quisesse mudar as coisas, não conseguia. Cadorin andava de olhos postos na baliza de Zé Beto e todos os jogadores do Porto pareciam de olhos postos nele, mais do que na baliza do Portimonense, onde não conseguiram marcar nem por uma vez. Acabou com um a zero. Lembro-me de à noite ver Cadorin na televisão a dizer que tinha sido um jogo normal, apenas isso. E sobre o facto de o terem tentado comprar disse apenas que não queria falar mais do assunto. O repórter insistiu, perguntando-lhe se perante a polícia confirmaria as acusações que tinha feito. Disse simplesmente que sim, que confirmaria. 
Pouco mais de um ano passado, a explosão que lhe tirou as forças que faziam dele o jogador mais impressionante que alguma vez vi jogar. Digo isto agora, depois de tantos jogadores e tantos jogos, em tantos estádios. Mas Cadorin, visto com os meus olhos de adolescente, foi mesmo o jogador mais impressionante de todos. Às vezes eu ia para o liceu de Portimão, depois de ter saído do autocarro que me levava desde a Serra de Monchique, e passava pela avenida que acompanhava a bancada do estádio do Portimonense. Uma vez por outra via os jogadores. Lembro-me de Vítor Damas num Citroen Dyane e de um jogador que controlava o jogo a meio-campo, Carvalho, num Renault Cinco, o mesmo modelo em que passado pouco tempo veria Manuel Fernandes na bicha para a portagem da Ponte Vinte e Cinco de Abril. Já Cadorin nunca o vi de carro. Acho que ele morava num prédio perto do estádio, mesmo em frente de onde agora é a biblioteca municipal. Era de lá que o via sair às vezes, de fato de treino, em direcção ao estádio, com passada larga e sempre metido consigo, da mesma forma que o via no campo, pensativo, e de repente a arrancar para a baliza como um furacão, ou a chutar de primeira com uma força tremenda.
Não jogou pelo Sporting, foi apenas num começo de época vestir a camisola verde e branca para a foto oficial do plantel. Época de 1988/ 89, mais uma das terríveis épocas dos dezoito anos sem campeonatos. O verdadeiro Cadorin, o que chegou a Portimão em 1983, sempre acreditei, teria ajudado a construir uma história diferente. Mas infelizmente só chegou ao Sporting depois da maldita explosão. Nunca conseguiu marcar um golo por nós, marcou-nos foi dois em Alvalade. Marcou contra nós, mas é o meu ídolo do Sporting.
Cadorin morreu em 2007, aos 45 anos, vítima de um ataque cardíaco. Na entrevista da filha há várias fotos. Dos tempos de Portimão, mas também dos tempos que se seguiram ao regresso à Bélgica. Cadorin passou a vender têxteis nas feiras, com a mulher. É um Cadorin envelhecido o desses tempos, mesmo sendo ainda um homem novo. Nas outras fotos reconhece-se a zona da Praia da Rocha, e também a Praia do Vau. Os filhos ainda pequeninos, e ele jovem e cheio de força, e a mulher também ainda jovem. Numa das fotos a mulher está a encher de água um garrafão, nas Caldas de Monchique. Cadorin segura a filha pequenina pela mão. A casa dos meus pais, onde eu vivia então, fica um pouco mais acima. Só na entrevista da filha, mais de vinte anos depois, descobri que o meu ídolo ia com a família buscar água à minha terra.

domingo, 8 de janeiro de 2012

Um título no meu pequeno caderno


O primeiro jogo do Sporting que vi ao vivo realizou-se fora de Alvalade, em Portimão, e acabámos por perder (já o primeiro jogo no nosso estádio, esse deu uma vitória por sete a um, frente a uma equipa das redondezas). Procuro a data do jogo de Portimão num pequeno caderno onde nessa época ia apontando tudo jornada após jornada. E lá está, a quatro de Abril de 1982. Íamos bem lançados para ser campeões, mas durante cerca de um mês trememos. Foi a nossa pior fase num campeonato que eu acompanhava com a certeza de que o título não nos escaparia. Já no Verão de 1981 eu pensava assim, com o que ouvia na televisão e lia nos jornais sobre o estágio da equipa na Bulgária, ainda por cima com um novo guarda-redes que alguns jornalistas diziam ser capaz de fazer defesas impossíveis.
Vejo agora no pequeno caderno com mais de um quarto de século a sucessão de maus resultados que poderiam ter deitado tudo a perder. Um empate em casa com o Espinho, uma derrota no estádio do Boavista, depois uma vitória sofrida em casa (com a tal equipa dos sete a um apalavrados pelo destino para daí a quatro anos), até que chegou a visita a Portimão, vinte quilómetros abaixo da serra onde eu morava. Lembro-me de a minha mãe me ter dado dinheiro e de me falar em poupar nesse dia o mais que pudesse porque o bilhete ia ser bem caro, se eu conseguisse arranjá-lo. Fui para o estádio sem certezas, ainda por cima gastando logo uma parte no autocarro porque era época de férias das aulas num liceu de Portimão e o passe não contava nesses dias.
Eu passava muitas vezes perto do estádio do Portimonense no caminho para o liceu. Era um lugar tranquilo, mas naquela tarde de domingo uma multidão tinha mudado tudo. Tanta gente por causa da visita do Sporting... E as bilheteiras fechadas. Já não havia bilhetes quando cheguei, e isso por momentos fez-me entrar em pânico. Mas de repente apareceu-me alguém pela frente com um maço de papelinhos. Bilhetes… Só podia ser, não ia andar ali um tipo a vender rifas ou coisa do género… Era mesmo bilhetes, e ele pedia trezentos escudos por cada um. Pensei que não teria tanto dinheiro, mas lá contei e a verdade é que tinha, mesmo quase não dando para mais nada, nem para o autocarro, nem para comer alguma coisa de jeito. Decidi depressa. Comprei um bilhete e corri para a entrada de uma zona onde se ficava de pé, lembrando-me do que tinha ouvido falar de bilhetes falsos e quase tomado pelo medo de ser apanhado com um. Mas consegui entrar, e ainda a tempo de ver a parte final do aquecimento dos jogadores.
Pouco depois vi o guarda-redes húngaro, muito magro, de cabelo comprido e com um bigode enorme. Aproximava-se da baliza atrás da qual eu me tinha conseguido colocar, junto ao gradeamento, a mesma baliza onde tinha acabado de fazer o aquecimento o guarda-redes do Portimonense. A claque do Sporting estava por perto e por isso a agitação era enorme. Tinha de ter atenção, ainda por cima tendo ficado junto ao gradeamento, mas não me preocupava. Estava a ver o Sporting ao vivo pela primeira vez e isso é que me importava. Nem o Portimonense me preocupava.
Eu tinha a certeza e que ia colocar no pequeno caderno mais uma vitória do Sporting, para confirmar a do fim-de-semana anterior frente à equipa da vizinhança e acabar definitivamente com a fase má. Porque acreditava que estávamos na caminhada para mais um título de campeões. Só que o jogo começou e o Sporting não jogava. O Oliveira estava de fora. O Manuel Fernandes, o Jordão, o Lito (que duas décadas depois haveria de ir bater com o carro dele no meu, no Estoril), o Carlos Xavier (que um pouco antes do desastre com o Lito, no casamento de um amigo comum, me tiraria uma fotografia quando já estava um bocado alegre e depois ao ver-se a foto lá estava ele, porque tinha a máquina virada para o próprio rosto), o Mário Jorge, o Eurico… Simplesmente não jogavam, por mais que o treinador inglês, Malcolm Allison, lhes gritasse lá de longe, do banco dos suplentes.
Os jogadores que jogavam eram os do Portimonense. E eu, agarrado ao gradeamento, a dois metros do guarda-redes Meszaros (de quem já sabia dizer bem o nome, depois das confusões iniciais), nem queria acreditar. E apareceu um penalty contra nós, que eu pensei que ele mesmo enervado com o comportamento dos colegas haveria de defender sem problemas. Mas não defendeu. O penalty foi marcado por um brasileiro pequenino e de cara grande, muito redonda e com barba. Chamava-se Tião, como um dos bonecos dos livros do Tio Patinhas que eu começava a deixar de ler. Mesmo assim não desesperei, pensei que com o decorrer do jogo haveríamos de recuperar. Mas sobre o intervalo apareceu um jogador alto do Portimonense, chegado da Bélgica, um português que por lá tinha andado emigrado e tinha um nome que parecia estranho para jogador de futebol, Norton de Matos. Só que desenrascava-se a jogar, principalmente quando o punham a avançado. Nessa jogada, apanhou a bola à entrada da área, andou às voltas e disparou. O Meszaros ia defender, voltei a pensar, mas ele não defendeu. E de repente estávamos a perder por dois a zero.
Era a primeira vez que eu via o Sporting a jogar sem ser na televisão, e íamos perder. Como as coisas estavam, como depois recomeçavam na segunda parte, senti que íamos perder… E foi assim. O jogo ficou em dois a zero, e nem foi azar, porque nesse domingo à tarde a equipa do Sporting não parecia a mesma que ia à frente do campeonato.
Lembro-me de voltar para casa à boleia, fazendo contas, nos meus catorze anos, aos pontos e aos jogos que nos faltavam. E de pensar em como haveríamos de acabar com aquela fase má em que só conseguíamos ganhar à equipa da vizinhança. Mas mesmo assim os maus resultados continuaram, primeiro um empate em casa com o Leiria e depois outro em Guimarães. Foram seis jogos do campeonato em que só ganhámos um, o jogo em que nosso capitão levou um murro do guarda-redes adversário, dentro da área, murro que valeria um dos dois penalties assinalados e concretizados pelo Jordão.
Mas tudo acabou por correr bem. Voltámos às vitórias, duas seguidas, ambas por três a zero, em casa com uma equipa chamada Amora e depois no Estoril, onde garantimos o campeonato. O meu primeiro campeonato, porque antes eu pouco ligava a futebol. No único jogo que vi ao vivo, quando o Sporting foi jogar perto da minha casa, perdemos. Mas fomos campeões, como eu sempre acreditava a cada jogo que apontava no pequeno caderno, mesmo que por vezes não apontasse uma vitória.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Um livro, aqui


«Os Golos de Jardel Nunca Foram Imortalizados numa Canção» - Este livro de histórias pode ser lido na íntegra neste blog. Basta clicar no separador «Histórias de futebol», em cima.

domingo, 22 de maio de 2011

Logo de manhã

Terena, bem no Alentejo profundo, por volta das dez da manhã. Uma das equipas dos pequenitos do União de Montemor preparada para começar o jogo contra o Estremoz.

domingo, 3 de abril de 2011

Luz apagada

Eu vi de fora, sem grande interesse no que pudesse acontecer, obviamente. O único comentário que posso fazer é que foi mesmo muita falta de nível, no fim, terem apagado a luz e ligado a rega do relvado.

sábado, 29 de janeiro de 2011

Para sempre

Eu estava um bocado preocupado: como iria dizer ao meu filho, de seis anos, que o Liedson pode estar de saída do Sporting? Mas não precisei de dizer, ele apercebeu-se das notícias. E procurou tranquilizar-me: «Pai, o Liedson vai continuar para sempre na minha Playstation.» Pelo que consegui perceber, ainda hoje marcou cinco ou seis golos.

domingo, 16 de janeiro de 2011

Fantástico

Fantástico!!!!! Mil vezes fantástico!!!!! Um milhão de vezes fantástico!!!!! A maior praga da história do meu clube acaba de se ir embora.
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sábado, 9 de outubro de 2010

Sem Queiroz

Portugal 3 – Dinamarca 1, sem Carlos Queiroz, jogando futebol e com entusiasmo.
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quarta-feira, 15 de setembro de 2010

O pinheiro

Excerto de uma entrevista do nosso futebol.
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Jornalista «Mister, afinal o Sporting não conseguiu contratar o pinheiro que o senhor tanto queria...»
Paulo Sérgio «É verdade.»
Jornalista «A que é que se referia ao falar num pinheiro em que as bolas iriam bater para entrarem nas balizas dos adversários?»
Paulo Sérgio «Um avançado com mais de um metro e noventa.»
Jornalista «Mas para isso tinham o Purovic, que acabaram por emprestar ao Belenenses...»
Paulo Sérgio «Em parte é verdade.»
Jornalista «Não percebi.»
Paulo Sérgio «É que eu queria um pinheiro bravo.»
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quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Yannick

Um golo de Yannick qualificou o Sporting para a «Liga Europa». Curiosamente, o mesmo jogador que José Eduardo Bettencourt tentou esta semana oferecer ao Benfica. Anda o meu clube a pagar principescamente a um presidente para isto...
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domingo, 22 de agosto de 2010

Uma questão de balizas

O Benfica poderia ter evitado o problema do guarda-redes se alguém tivesse explicado a Jorge Jesus que tipo de balizas Roberto estava habituado a defender em Espanha.
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segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Cem vezes por dia

Eu gostei do resultado do Porto – Benfica. Mas não é isso que interessa, obviamente. Mais importante seria arranjar uma maneira de obrigar os tristes dirigentes do meu clube a verem cem vezes por dia durante um ano a jogada que deu o segundo golo ao Porto, feita por um jogador que ofereceram ao adversário. Como, na prática, ofereceram João Moutinho (porque com o dinheiro que receberam e com o fardo de terem de ficar com Nuno André Coelho o saldo deve ser próximo de zero).
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quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Pausa

Esta época, como já deve ter dado para ver, não há aqui grandes comentários sobre os jogos do Sporting, ao contrário do que vinha acontecendo nos últimos anos, sem que falhasse um jogo. O triste presidente que lá temos, confesso, esgotou-me a paciência. Direi alguma coisa, de vez em quando.
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quarta-feira, 28 de julho de 2010

«Tal qual te conheci»

Pedro Barroso fala do seu amigo e antigo colega Carlos Queiroz. Aqui.
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«As tuas equipas, Carlos, tornam-se um pouco aquilo que tu és. Se queres transmitir que não sofrer toques no gilet já é triunfo; se achas que defender, para não sofrer humilhação, é uma forma de vitória; se admites que é preferível empatar a zero a arriscar a estocada que nos expõe; se queres ganhar sem risco, através de alguma cartomancia ocasional; se preferes convocar 18 jogadores com características médio/ defensivas em cada 23, muito bem. Isso és tu. Tal qual te conheci.»
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segunda-feira, 12 de julho de 2010

Duas surpresas

Depois de ter feito o seu último jogo no mundial de futebol, o capitão da selecção espanhola, campeã do mundo, surpreendeu a namorada com um beijo. Já o capitão da selecção portuguesa, também depois de ter feito o seu último jogo no mundial de futebol, surpreendeu a namorada com um filho (de outra mulher).
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terça-feira, 6 de julho de 2010

O Sporting nunca desceu tão baixo

Nunca o meu clube desceu tão baixo como com José Eduardo Bettencourt. Sim, agora tenho a certeza de que ao pé dele Jorge Gonçalves merecia não direi uma estátua mas pelo menos um pequeno busto.
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Ainda não foi desta

O Sporting promoveu ontem uma conferência de imprensa absolutamente deplorável sobre a cedência ao desbarato do capitão da equipa de futebol a um dos seus maiores rivais. Nessa conferência de imprensa, como se esperava, o presidente perdeu as estribeiras (apesar de tentar falar de forma pausada, enquanto olhava por cima dos óculos). Ainda não foi desta que o meu clube se viu livre das suas maçãs podres.
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segunda-feira, 5 de julho de 2010

O futuro

Depois de ler as notícias da rocambolesca venda ao desbarato de João Moutinho a um dos principais adversários, já não sei se no futuro não chegará aos dirigentes do meu clube, nomeadamente ao inclassificável presidente, a ideia de colocar os sócios no mercado.
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quarta-feira, 30 de junho de 2010

Sobre os melhores

Uma coisa que este mundial de futebol mostrou é que o nosso melhor jogador do mundo está a anos-luz do melhor jogador do mundo da Argentina, do melhor jogador do mundo do Brasil, do melhor jogador do mundo de Espanha, do melhor jogador do mundo da Alemanha, do melhor jogador do mundo da Holanda, do melhor jogador do mundo do Uruguai, do melhor jogador do mundo do Gana e ainda dos melhores jogadores do mundo de mais uma dúzia de países.
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