sábado, 1 de junho de 2013

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Sobre o acordo



Um livro do meu amigo Pedro Correia. Apresentação na terça-feira, dia 21, a partir das 18H30, na Bertrand do Picoas Plaza, em Lisboa.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

António Souto – Crónica (58)


O escritor João Tordo, num encontro com jovens estudantes do secundário, discorreu um pouco sobre a génese dos seus romances e, a propósito, desvendou o modo como se inspirou para iniciar dois deles, e quando a plateia esperava por uma prelecção que pusesse a tónica numa divina fonte de inspiração ou num minucioso labor geométrico, ficou sabendo que muitas vezes tudo acontece por obra de um acaso, de um auspicioso abrir e fechar de olhos…

A deixa
Uma história pode começar como a gente a bem quiser contar. Isto sou eu a dizê-lo, bem entendido, que uma coisa é o mote e outra coisa é glosá-lo, dar-lhe as voltas necessárias e concertadas. O escritor João Tordo, há escassos dias, num encontro com jovens estudantes do secundário, discorreu um pouco sobre a génese dos seus romances e, a propósito, desvendou o modo como se inspirou para iniciar dois deles, e quando a plateia esperava por uma prelecção que pusesse a tónica numa divina fonte de inspiração ou num minucioso labor geométrico, ficou sabendo que muitas vezes tudo acontece por obra de um acaso, de um auspicioso abrir e fechar de olhos, como surgir diante do escritor uma criatura a correr, tal como veio ao mundo, por uma pista de aviões fora. Nem sempre é assim, como se sabe, mas que permite à criação levantar voo, lá isso permite, e a nós dá-nos agora jeito esta visão acidental.
Não tenho pretensões a ficcionista, mas o episódio do meu sapato que perdeu a sola poderia igualmente dar origem a uma narrativa interessante, isto por mãos hábeis, que eu para excursos longos não tenho jeito nenhum, cada um no seu ofício, variante nem sempre ajustada de cada um é para o que nasce. Passo a contar.
Um destes dias, vinha eu a pé com a cachopinha mais nova, que fora buscar à escola, e começo a notar qualquer coisa de esquisito num dos sapatos. Parei, olhei e descobri que a sola se começava a descolar de um dos lados. Nada de estranho, que isto é o que mais acontece ao comum dos mortais que não anda a mudar de sapatos como quem muda de camisa e nem sempre a examinar-lhes os contornos. O insólito da coisa foi eu ter dado mais dois ou três passos e, de súbito, soltar-se literalmente a dita. Nada a fazer. Ali mesmo ficou, a sola, entalada entre o passeio e a roda dianteira do primeiro carro estacionado. Entretanto, a estrada molhada, cheia de poças de água, a cachopa rindo e achando ter já assunto para contar aos colegas e à professora na manhã seguinte, e eu caminhando ao pé-coxinho, de mochila pendurada num dos ombros, mirando ao redor e discretamente assobiando para o lado.
É patente que não sou muito favorecido em altura, assim mais tipo Marques Mendes – embora, para que se perceba, não faça parte da memória colectiva nem nunca tenha tido direito a boneco no Contra Informação –, e tal como ele nunca tenha recorrido aos tacões altos, e por isso, com sola ou sem ela, o caminhar fez-se até casa sem grandes sobressaltos, embora com o calcante, que só levava sapato por cima, molhadinho até quase ao tornozelo.
Agora o divertido, e este é o ponto, foi ter-me vindo à fantasia a estampa de Sarkozy, em vésperas de eleições presidenciais, se um dos seus sapatos perdesse tacão e sola e o deixasse inesperadamente apeado num qualquer lugarejo do país profundo sem sapataria à mão, sem telemóvel e a léguas da viatura, e da humilhação do homem ao ver-se marchando, como se amputado de uma perna, amparado pelas risadas burlescas de Carla e Giulia.
Desventuradamente, não tenho mesmo nenhuma queda para protagonismos de largos enredos, quando muito para personagem secundária ou figurante. A deixa, contudo, aqui fica, para a eventualidade de algum escritor a querer apanhar, ou algum artista da sétima arte, como o Almodôvar. Afinal, uma história pode começar como a gente a bem quiser contar.

Crónica de António Souto para o blog «Floresta do Sul» (número 58); crónicas anteriores: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14, 15, 16, 17, 18, 19, 20, 21, 22, 23, 24, 25, 26, 27, 28; 29; 30; 31; 32; 33; 34; 35; 36; 35; 37; 38; 39; 40; 41; 42; 43; 44; 45; 46; 47; 48; 49; 50; 51; 52; 53;54; 55; 56; 57.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Reformados


Um grupo de reformados é expulso do Parlamento, por ordem de uma reformada sem vergonha e contribuinte líquida para o défice (conseguiu reformar-se ao 41 anos, apenas com mais dois do que Duarte Lima).

terça-feira, 16 de abril de 2013

António Souto – Crónica (57)


Uma semana tomada pela entrevista e pela borrasca. Os níveis sempre a subir, sempre a subir, raio de entrevista, raio de quadra. Há quem fale em povoações inteiras isoladas e sem padeiro, senhor, e foi preciso uma santa semana de enxurradas para que nos déssemos conta da retração e da miséria humana a que estamos votados.

Entre a páscoa e a pascoela
Uma semana santa entrevistada, uma semana santa chuvinhada, uma semana santa dominada pela água e pela expectativa. Diluviou praticamente de domingo a domingo e de norte a sul. E a entrevista, senhor, a entrevista.
Fui para cima esquivando-me a aguaceiros inopinados, vim para baixo envolto em neblina e tempestade. À ida, zunia a entrevista, à vinda, ecoava a visita pascal. Uma semana à maneira, só por ser santa. À chegada lá acima já se via uns campos alagados, coisa normal e patética; à chegada cá abaixo, tudo inundado, campos e trilhos, um quadro mais sério extravasando margens. Ele foi a entrevista, ele é agora o águeda e o vouga, ele é o alviela e o tejo, ele é o guadiana, tudo submergido numa narrativa preocupante.
Uma semana tomada pela entrevista e pela borrasca. Os níveis sempre a subir, sempre a subir, raio de entrevista, raio de quadra. Há quem fale em povoações inteiras isoladas e sem padeiro, senhor, e foi preciso uma santa semana de enxurradas para que nos déssemos conta da retração e da miséria humana a que estamos votados.
Uma entrevista, a entrevista, um alarido dos demos, o ajuste, uma semana de delonga, a molhadela antecipada. Moção e constituição só depois do tríduo, pouco mais que morrinha, até lá as nuvens não darão placitude, cheias, sim, e rombos, leitos galgados, e rombos, ilhas de criaturas pacientes, conformadas, e rombos, e para trás a entrevista, senhor, a aclaração que tardava, a narrativa, e mais rombos.
E com a comoção a demissão, e a chuva persistindo e a procela. Já a semana santa dá lugar à pascoela. E a declaração, senhor, a falha anímica, e bolonha trazido à baila, e a impudência de um título, o vício de etiqueta, a dança demandada, e as águas mil e as mil patranhas de abril pelas sargetas, e com elas relatórios e constituições, e rombos e buracos, e o pobre do mexilhão, senhor, que culpa tem das maturidades, das imaturidades e dos dilúvios, sim, senhor, perguntaremos, que culpa tem ele que só anseia pela primavera e pela acalmia.
Ah, semana santa sacratíssima, que procrastinas o juízo e amofinas a ventura nossa e o nosso impulso de juventude insigne, consente-nos ao menos a misericórdia sobrante do in albis como a apetecida bonança após a tempestade, que sempre assim foi e sempre assim será.
Enquanto isto, e atingido desprevenidamente esta manhã por um pé-d’água quando me dirigia para o trabalho, apressei-me a comprar no destino, a um vendedor de circunstância, um guarda-chuva avaro e maneirinho que me resguardasse da intempérie. Quis o acaso que o não utilizasse, por involuntária renúncia celeste, e deste modo ficasse sem comprovar a proficiência dos três eurinhos desbaratados. Seja como for, que fique lavrado que não tenciono requerer a fiscalização preventiva, e se o dito se desengonçar na sua primeira função, do mal, o menos, exonero-o e recomeço a narrativa.

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quinta-feira, 28 de março de 2013

Em curso

«Pegou noutra pedra e apontou a um segundo polícia. Falhou. Pegou em mais pedras, mas não voltou a ter a sorte que tinha tido com a primeira. E o estádio dos três milhões lá longe. Tinha evitado as árvores. E tinha escapado de todas as feras, até dos terríveis crocodilos alados, e agora tinha os polícias de fumo negro desenhados à sua frente.»

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

António Souto – Crónica (56)



… a verdade é que há cada vez mais gente a mudar de lugar e a mudar-se. A sentir-se a mais onde está e a sentir-se a mais onde não está. A ser errante.

Questão de azia
Há umas criaturas benquistas que, de há uns anos a esta parte, nos tentam mentalizar para o óbvio, que o tempo de um emprego para toda a vida é coisa do passado, que o trabalho hodierno, por força dos avanços científico-tecnológicos e da globalização, imprime uma dinâmica de deslocalização e de renovação, que a actualidade exige de nós uma disponibilidade total para a transumância, que o homem de hoje, qualificado e certificado, deve ser um ser aberto às novas e tentadoras ofertas, venham elas de onde vierem, do norte, do centro, do sul, do litoral à raia ou até mesmo a Marte. E a verdade é que há cada vez mais gente a mudar de lugar e a mudar-se. A sentir-se a mais onde está e a sentir-se a mais onde não está. A ser errante.
Contudo, de há uns anos a esta parte, há umas outras criaturas igualmente benquistas que nos tentam convencer de que viajamos demasiado, de que é preciso poupar nos rodopiares e de que é urgente sedentarizarmo-nos. O problema é que quando a gente se habitua à boa-vai-ela é uma carga de trabalhos, e daí verem-se as criaturas todas benquistas na obrigação salvífica de meter mãos à cabeça e, com a cabeça que têm, agir em conformidade, que é assim que se diz com determinação e propriedade, logo urdindo mondas e doutrinas, e, para nos refrear o ímpeto, metendo-nos por sobre as cabeças aturdidas mais uma dúzia e meia de pórticos de pagamento automático para nos delimitar a circulação.
E é assim que num caranguejar contínuo anda o país desatinado, tão como no tempo de Eça e de quantos se deixaram abater vencidos da vida.
«Em Portugal não há ciência de governar nem há ciência de organizar oposição. Falta igualmente a aptidão, e o engenho, e o bom senso, e a moralidade, nestes dois factos que constituem o movimento político das nações.»
«A ciência de governar é neste país uma habilidade, uma rotina de acaso, diversamente influenciada pela paixão, pela inveja, pela intriga, pela vaidade, pela frivolidade e pelo interesse.»
«A política é uma arma, em todos os pontos revolta pelas vontades contraditórias; ali dominam as más paixões; ali luta-se pela avidez do ganho ou pelo gozo da vaidade; ali há a postergação dos princípios e o desprezo dos sentimentos; ali há a abdicação de tudo o que o homem tem na alma de nobre, de generoso, de grande, de racional e de justo; em volta daquela arena enxameiam os aventureiros inteligentes, os grandes vaidosos, os especuladores ásperos; há a tristeza e a miséria; dentro há a corrupção, o patrono, o privilégio. A refrega é dura; combate-se, atraiçoa-se, brada-se, foge-se, destrói-se, corrompe-se. Todos os desperdícios, todas as violências, todas as indignidades se entrechocam ali com dor e com raiva.»
A única diferença é que no país de hoje há ainda um terceiro tipo de criaturas benquistas que em deslavado ditério retórico nos questiona se aguentamos, e a gente, tão vencida como a outra, aguenta, aguenta e, para não responder à letra, espera pelas três ou pelas cinco da tarde e sai porta fora rumo à primeira pastelaria para, cortando a azia, comprar meia-dúzia de bolinhos em promoção a cinquenta cêntimos cada.
Apesar de tudo, ainda há males que vêm por bem!

Crónica de António Souto para o blog «Floresta do Sul» (número 56); crónicas anteriores: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14, 15, 16, 17, 18, 19, 20, 21, 22, 23, 24, 25, 26, 27, 28; 29; 30; 31; 32; 33; 34; 35; 3635; 3738;   39; 40; 41; 42; 43; 44; 45; 46; 47; 48; 49; 50; 51; 52; 53;54; 55.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

António Souto – Crónica (55)


… foram estas fortunas que marcaram o meu último mês do ano velho. Tudo o mais, insignificâncias.

Momentos singulares
Podia ter adiado o texto, como às vezes acontece, porque o tempo é pouco e o que deveria ser para hoje bem pode esperar pelo amanhã, e o amanhã pelo dia seguinte, e sem querer lá se vai uma semana inteira e o compromisso desacerta-se, mas não, desta vez a tardança foi mesmo intencional, um marcar passo na expectativa de que surgisse alguma coisa que desencadeasse a tessitura da crónica, qualquer coisa que não tivesse sido já escarrapachada diante dos olhos de toda a gente, qualquer coisa que cheirasse a novo, afinal o ano velho estava já a chegar ao fim e seria normal começar a pensar numa muda de roupa sem rasgões ou remendos. Qual quê, nada. Tudo bolo mastigado, ensalivado e embuchado, tudo matéria requentada.
E tanto protelei que me vi de repente galgado para outro ano e sem saber que narrar, que tudo quanto me vinha à memória, para além de privatizações e orçamentos de dúbio interesse, era presépios saqueados, ornamentações inexistentes ou miserandas, bolos-reis, filhós e rabanadas, e é claro que isto não tem a elevação que se espera para um escrevinhar disciplinado e de honroso lugar.
Vai daí, voltei-me para assunto caseiro e decidi-me por momentos singulares, instantes que passam despercebidos a qualquer mortal que nesta ocasião festiva anda pouco atento a episódios sublimes.
Foi o caso de ter ido passar uns dias da quadra natalícia à Barra (a escassos minutos de Aveiro), com ria de um lado e mar do outro, e desfrutar de um local de veraneio tranquilo, agora só de alguns, muito poucos, sem atropelos nem passeios atulhados de tralha chinesa à mistura com a tradicional bolacha americana.
Num dos dias, rente ao almoço, como em dança da chuva, um bando alargado de gaivotas bailava alegremente, do lado do mar, em volta do farol centenário, e o piar que soltava, em récita privada, escapava indiferente aos residentes recolhidos da brisa fria e das alturas. Fascínio apenas para quem se não cansa de namorar as asas.
Noutro dia, vi pela primeira vez uma arapuca. Como quase todos, desconhecia também o significante e o significado da palavra. Não sei por que razão oculta me pareceu nome de ave ou de fruto, mas nada disso, é designação de armadilha para bicharada de pequeno porte. Para melros, por exemplo. E como pelos jardins da vizinhança há vastíssimos finórios desta espécie, não foi difícil ceder à tentação da captura. Foi o meu irmão quem meteu mãos à obra em dia de Natal e, no dia seguinte, estava a estrutura armada – sim, que aquilo se constrói com pauzinhos ou com canas pequenas em forma piramidal. Há registo de que estes artefactos se destinam a apanhar animaizinhos vivos, e nem outra coisa nos passaria pela cabeça, que a finalidade era mostrar à criançada (para além da eficácia do objecto) um melro verdadeiro e ao vivo. E funcionou, funcionou às mil-maravilhas, apesar de mestria elementar, e em pouco tempo ali estavam dois, um casal, ao que julgámos, a avaliar pela plumagem e pelo bico, mas destas minudências não houve acordo, nem do modo como entraram ambos. Cumprido o propósito e feito o boneco, restituíram-se os gabirus à liberdade, e ainda os ouvimos, ao longe, entoar o Coro da Primavera de Zeca Afonso.
Noutro dia, ainda, e isto foi no dia do regresso, surgiu-nos num esgar um arco-íris. Era do lado da ria e competia de envergadura com todo o arco sobranceiro da ponte. É claro que em criança havia muitos arcos-íris na minha aldeia, sobretudo nos campos da minha aldeia, mas para as crianças de hoje que não têm aldeias, nem sabem o pasmo dos campos, ver um arco-íris desenhado no céu com a perfeição dos deuses é uma raridade. O fenómeno durou alguns minutos, o suficiente para depois se desfazer nos olhos e deixar a pequenada tão longe como os melros soltos e as gaivotas entretidas.
E pronto, foram estas fortunas que marcaram o meu último mês do ano velho. Tudo o mais, insignificâncias.

Crónica de Dezembro de 2012 de António Souto para o blog «Floresta do Sul»; crónicas anteriores: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14, 15, 16, 17, 18, 19, 20, 21, 22, 23, 24, 25, 26, 27, 28; 29; 30; 31; 32; 33; 34; 35; 36; 35; 37; 38; 39; 40; 41; 42; 43; 44; 45; 46; 47; 48; 49; 50; 51; 52; 53;54.