quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

António Souto – Crónica (55)


… foram estas fortunas que marcaram o meu último mês do ano velho. Tudo o mais, insignificâncias.

Momentos singulares
Podia ter adiado o texto, como às vezes acontece, porque o tempo é pouco e o que deveria ser para hoje bem pode esperar pelo amanhã, e o amanhã pelo dia seguinte, e sem querer lá se vai uma semana inteira e o compromisso desacerta-se, mas não, desta vez a tardança foi mesmo intencional, um marcar passo na expectativa de que surgisse alguma coisa que desencadeasse a tessitura da crónica, qualquer coisa que não tivesse sido já escarrapachada diante dos olhos de toda a gente, qualquer coisa que cheirasse a novo, afinal o ano velho estava já a chegar ao fim e seria normal começar a pensar numa muda de roupa sem rasgões ou remendos. Qual quê, nada. Tudo bolo mastigado, ensalivado e embuchado, tudo matéria requentada.
E tanto protelei que me vi de repente galgado para outro ano e sem saber que narrar, que tudo quanto me vinha à memória, para além de privatizações e orçamentos de dúbio interesse, era presépios saqueados, ornamentações inexistentes ou miserandas, bolos-reis, filhós e rabanadas, e é claro que isto não tem a elevação que se espera para um escrevinhar disciplinado e de honroso lugar.
Vai daí, voltei-me para assunto caseiro e decidi-me por momentos singulares, instantes que passam despercebidos a qualquer mortal que nesta ocasião festiva anda pouco atento a episódios sublimes.
Foi o caso de ter ido passar uns dias da quadra natalícia à Barra (a escassos minutos de Aveiro), com ria de um lado e mar do outro, e desfrutar de um local de veraneio tranquilo, agora só de alguns, muito poucos, sem atropelos nem passeios atulhados de tralha chinesa à mistura com a tradicional bolacha americana.
Num dos dias, rente ao almoço, como em dança da chuva, um bando alargado de gaivotas bailava alegremente, do lado do mar, em volta do farol centenário, e o piar que soltava, em récita privada, escapava indiferente aos residentes recolhidos da brisa fria e das alturas. Fascínio apenas para quem se não cansa de namorar as asas.
Noutro dia, vi pela primeira vez uma arapuca. Como quase todos, desconhecia também o significante e o significado da palavra. Não sei por que razão oculta me pareceu nome de ave ou de fruto, mas nada disso, é designação de armadilha para bicharada de pequeno porte. Para melros, por exemplo. E como pelos jardins da vizinhança há vastíssimos finórios desta espécie, não foi difícil ceder à tentação da captura. Foi o meu irmão quem meteu mãos à obra em dia de Natal e, no dia seguinte, estava a estrutura armada – sim, que aquilo se constrói com pauzinhos ou com canas pequenas em forma piramidal. Há registo de que estes artefactos se destinam a apanhar animaizinhos vivos, e nem outra coisa nos passaria pela cabeça, que a finalidade era mostrar à criançada (para além da eficácia do objecto) um melro verdadeiro e ao vivo. E funcionou, funcionou às mil-maravilhas, apesar de mestria elementar, e em pouco tempo ali estavam dois, um casal, ao que julgámos, a avaliar pela plumagem e pelo bico, mas destas minudências não houve acordo, nem do modo como entraram ambos. Cumprido o propósito e feito o boneco, restituíram-se os gabirus à liberdade, e ainda os ouvimos, ao longe, entoar o Coro da Primavera de Zeca Afonso.
Noutro dia, ainda, e isto foi no dia do regresso, surgiu-nos num esgar um arco-íris. Era do lado da ria e competia de envergadura com todo o arco sobranceiro da ponte. É claro que em criança havia muitos arcos-íris na minha aldeia, sobretudo nos campos da minha aldeia, mas para as crianças de hoje que não têm aldeias, nem sabem o pasmo dos campos, ver um arco-íris desenhado no céu com a perfeição dos deuses é uma raridade. O fenómeno durou alguns minutos, o suficiente para depois se desfazer nos olhos e deixar a pequenada tão longe como os melros soltos e as gaivotas entretidas.
E pronto, foram estas fortunas que marcaram o meu último mês do ano velho. Tudo o mais, insignificâncias.

Crónica de Dezembro de 2012 de António Souto para o blog «Floresta do Sul»; crónicas anteriores: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14, 15, 16, 17, 18, 19, 20, 21, 22, 23, 24, 25, 26, 27, 28; 29; 30; 31; 32; 33; 34; 35; 36; 35; 37; 38; 39; 40; 41; 42; 43; 44; 45; 46; 47; 48; 49; 50; 51; 52; 53;54.

2 comentários:

Olinda P. Gil © disse...

Ficas feliz se te disser que ainda há crianças com arco-iris?

António Souto disse...

FICO! (Mas a criança que fomos...)