segunda-feira, 13 de maio de 2013

António Souto – Crónica (58)


O escritor João Tordo, num encontro com jovens estudantes do secundário, discorreu um pouco sobre a génese dos seus romances e, a propósito, desvendou o modo como se inspirou para iniciar dois deles, e quando a plateia esperava por uma prelecção que pusesse a tónica numa divina fonte de inspiração ou num minucioso labor geométrico, ficou sabendo que muitas vezes tudo acontece por obra de um acaso, de um auspicioso abrir e fechar de olhos…

A deixa
Uma história pode começar como a gente a bem quiser contar. Isto sou eu a dizê-lo, bem entendido, que uma coisa é o mote e outra coisa é glosá-lo, dar-lhe as voltas necessárias e concertadas. O escritor João Tordo, há escassos dias, num encontro com jovens estudantes do secundário, discorreu um pouco sobre a génese dos seus romances e, a propósito, desvendou o modo como se inspirou para iniciar dois deles, e quando a plateia esperava por uma prelecção que pusesse a tónica numa divina fonte de inspiração ou num minucioso labor geométrico, ficou sabendo que muitas vezes tudo acontece por obra de um acaso, de um auspicioso abrir e fechar de olhos, como surgir diante do escritor uma criatura a correr, tal como veio ao mundo, por uma pista de aviões fora. Nem sempre é assim, como se sabe, mas que permite à criação levantar voo, lá isso permite, e a nós dá-nos agora jeito esta visão acidental.
Não tenho pretensões a ficcionista, mas o episódio do meu sapato que perdeu a sola poderia igualmente dar origem a uma narrativa interessante, isto por mãos hábeis, que eu para excursos longos não tenho jeito nenhum, cada um no seu ofício, variante nem sempre ajustada de cada um é para o que nasce. Passo a contar.
Um destes dias, vinha eu a pé com a cachopinha mais nova, que fora buscar à escola, e começo a notar qualquer coisa de esquisito num dos sapatos. Parei, olhei e descobri que a sola se começava a descolar de um dos lados. Nada de estranho, que isto é o que mais acontece ao comum dos mortais que não anda a mudar de sapatos como quem muda de camisa e nem sempre a examinar-lhes os contornos. O insólito da coisa foi eu ter dado mais dois ou três passos e, de súbito, soltar-se literalmente a dita. Nada a fazer. Ali mesmo ficou, a sola, entalada entre o passeio e a roda dianteira do primeiro carro estacionado. Entretanto, a estrada molhada, cheia de poças de água, a cachopa rindo e achando ter já assunto para contar aos colegas e à professora na manhã seguinte, e eu caminhando ao pé-coxinho, de mochila pendurada num dos ombros, mirando ao redor e discretamente assobiando para o lado.
É patente que não sou muito favorecido em altura, assim mais tipo Marques Mendes – embora, para que se perceba, não faça parte da memória colectiva nem nunca tenha tido direito a boneco no Contra Informação –, e tal como ele nunca tenha recorrido aos tacões altos, e por isso, com sola ou sem ela, o caminhar fez-se até casa sem grandes sobressaltos, embora com o calcante, que só levava sapato por cima, molhadinho até quase ao tornozelo.
Agora o divertido, e este é o ponto, foi ter-me vindo à fantasia a estampa de Sarkozy, em vésperas de eleições presidenciais, se um dos seus sapatos perdesse tacão e sola e o deixasse inesperadamente apeado num qualquer lugarejo do país profundo sem sapataria à mão, sem telemóvel e a léguas da viatura, e da humilhação do homem ao ver-se marchando, como se amputado de uma perna, amparado pelas risadas burlescas de Carla e Giulia.
Desventuradamente, não tenho mesmo nenhuma queda para protagonismos de largos enredos, quando muito para personagem secundária ou figurante. A deixa, contudo, aqui fica, para a eventualidade de algum escritor a querer apanhar, ou algum artista da sétima arte, como o Almodôvar. Afinal, uma história pode começar como a gente a bem quiser contar.

Crónica de António Souto para o blog «Floresta do Sul» (número 58); crónicas anteriores: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14, 15, 16, 17, 18, 19, 20, 21, 22, 23, 24, 25, 26, 27, 28; 29; 30; 31; 32; 33; 34; 35; 36; 35; 37; 38; 39; 40; 41; 42; 43; 44; 45; 46; 47; 48; 49; 50; 51; 52; 53;54; 55; 56; 57.

1 comentário:

Manuel C. Gomes disse...

Título para uma novela já tens: A Sola do Sapato!
Pensa bem, o acidente deveria servir para que, de futuro, desses mais atenção à dos sapatos. Quantas horas passas nos comboios da linha de Sintra? Se aproveitasses para olhar para os sapatos dos outros, não te faltaria assunto para uma novela ou um romance ou uma dúzia de poemas...