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terça-feira, 20 de novembro de 2007

Um pouco do que vou escrevendo

É um excerto de um romance que vou tentando escrever. Na versão final o mais certo é que não apareça assim; de qualquer forma, aqui fica…
(…)
Acabei por parar o carro perto da saída para a estrada de terra que dá acesso ao vale, tentando que não ficasse em cima dos matos e sujeito a arder se alguma fagulha caísse por perto. Desci pela estrada, sempre com o mesmo silêncio interrompido apenas pelos estalidos que pareciam querer fugir da linha de fogo. Andei perto de um quilómetro até que abandonei a estrada e atravessei a ponte de madeira sobre o ribeiro, para chegar à aldeia. Pouco passava das duas da manhã. A linha de fogo estava cinquenta metros acima, no monte oposto ao que eu tinha descido, e podia entrar na aldeia, embora esta estivesse limpa de mato. Ali, junto com a antiga casa da minha avó, a minha família possui mais algumas casas menores, uma azenha e um terreno. Eu sabia, de conversas pelo telemóvel cerca de uma hora antes, que o meu irmão estava por perto. Provavelmente iria encontrá-lo mais adiante, se avançasse pela estrada de terra. Saí da aldeia e atravessei de novo a ponte. Continuei pela estrada de terra, atento à linha de fogo, do outro lado. Uns dez minutos depois cheguei a uma zona de montado da minha família. Ainda com a linha de fogo a acompanhar-me. Foi então que me deparei com uma espécie de monstro a encandear-me.
(…)

sábado, 27 de outubro de 2007

Textos sobre livros - 42

A viagem imprevisível
Em tempo de calhamaços, ainda por cima calhamaços de famosos como Miguel Sousa Tavares e José Rodrigues dos Santos, coloco aqui uma outra proposta de leitura em que não faltam páginas (mais de setecentas). De qualquer forma, eu conto ler tanto o livro de Sousa Tavares como o de Rodrigues dos Santos, isto pelas experiências anteriores; pelo que têm de bom (as histórias costumam ser empolgantes) e apesar do que têm de mau (principalmente Rodrigues dos Santos, cuja escrita costuma ser bastante descuidada, com erros, coisas sem sentido e passagens de gosto duvidoso que por vezes levam a que se leia uma e outra vez e não se acredite – lembro aqui os «uh’s» da maior parte das personagens de «A Fórmula de Deus» e uma coisa que talvez se explique com algum vírus informático, que é o uso de vez em quando de uma estranha forma verbal do género da desta frase, «eles conseguiram irem a Lisboa»).
A proposta é o romance «O Expresso de Berlim» (Edições ASA, 736 páginas), de António Andrade Albuquerque. O autor nasceu em Lisboa, em 1929, tendo-se tornado bastante conhecido, inclusive internacionalmente, com romances policiais assinados com o pseudónimo Dick Haskins. Aqui, narra uma história que decorre em plena Segunda Guerra Mundial (e que tem continuação num outro romance, «O Papa que Nunca Existiu»). Tudo começa em Lisboa, em Agosto de 1943. João Kessler Albano Martins é um jovem professor universitário (filho de um português e de uma alemã). Lisboa fervilha de espiões e agentes secretos. O jovem professor vai acabar por ser envolvido nos jogos perigosos desse mundo. Por uma razão muito forte, a sua própria mãe. Esperam-no aventuras com que nunca terá sonhado, e espera-o o amor, mesmo que não possa ser para sempre. A viagem imprevisível é a do expresso que liga Berlim e Paris. Mas é também a viagem que o professor inicia de Lisboa para Londres, depois de Londres de novo para o continente, a França, a Alemanha… Com Vera a seu lado, uma jovem de 24 anos, de «cabelos negros e olhos tão bonitos que não pareciam reais». A escrita do autor toca a perfeição.

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Textos sobre livros - 41

«Em Busca», de Naguib Mahfouz (Caminho, 154 pp.)

A busca de Saber

Em alturas de anúncio do Nobel, um pequeno grande romance de um autor fabuloso que a Academia Sueca deu a conhecer ao mundo ocidental: o egípcio Naguib Mahfouz.

Em 1988, a atribuição do «Prémio Nobel de Literatura» permitiu a descoberta em Portugal, e um pouco por todo o mundo ocidental, do escritor egípcio Naguib Mahfouz. Nessa altura, ele foi apresentado como tendo nascido em 1911 (dia 11 de Dezembro), no Cairo, mais precisamente no bairro Gamiliyya, como sendo formado em filosofia e também como autor de cerca de trinta romances e de mais de uma centena de contos. Tinha publicado o primeiro livro em 1939, aos vinte e oito anos.
Parecia estar a falar-se de um desconhecido, mas não, nada disso. Havia muitos anos que Naguib Mahfouz atingira a fama, sendo lido por muitos milhões de pessoas um pouco por todo o mundo árabe. Talvez pudesse até dizer-se que se estava na presença do maior romancista do mundo árabe. O mérito do Nobel foi, por isso mesmo, o de ter trazido para o alcance do comum leitor ocidental a obra de um escritor fabuloso.
Este foi o primeiro livro que li de Naguib Mahfouz. Chama-se «Em Busca» e conta a história de Saber, um homem que procura o pai que nunca conheceu e que julgava morto. Isso acontece quando a sua mãe regressa a casa para morrer, após cinco anos na prisão.
«Limpando o rosto, apesar do tempo frio, ela disse: ‘Não é da doença, mas sim da cadeia. Adoeci na cadeia. A tua mãe não foi feita para cadeias. Eles diziam que era do meu fígado, da tensão, depois era o coração, raios os partam. Posso alguma vez voltar a ser o que era?»
Basima Omram, a mãe de Saber, estava bem diferente dos tempos de jovem. «O riso dela, que tinha ressoado em todos os salões de Alexandria, agora mal conseguia causar a mais leve vibração no seu corpo volumoso e anafado.» Com pouco mais de cinquenta anos, no leito de morte, desvenda ao filho uma parte da sua história, ou da história dos dois.
«’E ir para onde?’, perguntou ele, ressentido./ ‘Para junto do teu pai’, respondeu ela numa voz quase inaudível./ Ele ergueu as sobrancelhas de espanto e exclamou: ‘O meu pai...’/ Ela acenou a cabeça./ ‘Mas ele está morto. A mãe disse-me que ele morreu antes de eu ter nascido.’/ ‘Eu disse-te isso. Mas não era verdade.’»
Basima Omram quase nem tem forças para falar. Mas mesmo assim precisa de continuar.
«’O nome dele está na tua certidão de nascimento, Sayed Sayed el Reheimy.’ O olhar dele enevoou-se à medida que ela prosseguia: ‘Ele apaixonou-se por mim há trinta anos. Foi no Cairo.’/ ‘Cairo... Então ele nem sequer está em Alexandria.’/ ‘Sei que o teu verdadeiro problema será encontrá-lo.’/ ‘Por que não tentou ele encontrar-me?’/ ‘Ele não sabe da tua existência.’/ (...)/ ‘Ele amava-me. Eu era uma rapariga bela e perdida. Ele guardou-me em segredo, num cofre de ouro.’/ ‘Ele casou consigo?’/ ‘Sim, ainda tenho a certidão de casamento./ ‘Ele divorciou-se de si?’/ Ela suspirou: ‘Eu fugi.’/ ‘Fugiu?’/ ‘Fugi ao fim de uns dias. Estava grávida. Fugi com um zé-ninguém.’»
É então que começa a busca de Saber, num romance onde os grandes dramas da existência humana estão presentes a cada página. Afinal, uma marca do grande escritor egípcio, tal como a preocupação com as injustiças que sempre viu no seu país, e a preocupação em preservar e recriar a memória colectiva do seu povo.
A esta postura não terá sido alheia a tentativa de assassinato que sofreu em 1994. Os fundamentalistas não gostaram das suas declarações a favor da paz com Israel, nem das palavras que proferiu contra a condenação à morte de Salman Rushdie, ordenada por Khomeini. Consideraram também um romance seu como blasfemo à religião.
Naguib Mahfouz morreu no dia 30 de Agosto do ano passado, aos 95 anos, na cidade onde nasceu e sobre qual tanto escreveu (ver, por exemplo, o romance «A Viela de Midaq», também da Caminho).

sábado, 6 de outubro de 2007

Textos sobre livros - 40

«Terra Papagalli», de José Roberto Torero e Marcus Aurelius Pimenta (Quetzal Editores, 181 pp.)

Na terra dos papagaios

As aventuras e as desventuras do português Cosme Fernandes na «Terra dos Papagaios». Um romance notável, de dois autores brasileiros que a seguir escreveram um outro, que mete uma alface, um verme e um político (o político engole o verme).

«Chegámos ao Tejo pela manhã. Antes de embarcar, olhava para os lados na esperança de encontrar Lianor, causa e remédio das minhas tristezas. E quando estávamos a um tiro de besta da nau, não sei se por efeito da muita tristeza ou da fome, olhei para o céu e vi que as nuvens tomavam a forma do seu perfeito rosto, que apareceu sorrindo para mim./ Aquela visão da minha senhora, assim tão digna e bela, pôs-me num estado de tamanha sandice que desatei a chorar e a dar murros na cabeça e braços, e então, reunindo todas as minhas forças, olhei para o céu e arranquei do peito o mais potente grito que jamais dei em minha vida:/ – Espera-me que eu me guardarei para ti! – mas quando pensava que ia ouvir sua maravilhosa voz respondendo lá do céu: ‘Também eu me guardarei, meu adorado!’, ouvi apenas a de um soldado inclemente que disse: ‘Anda, bode judeu!’, e deu-me com um pau nas costas./ Foram essas as últimas palavras que ouvi em terras portuguesas antes de entrar nesta nau que vai comandada por Pedro Álvares Cabral, fidalgo que jamais capitaneou um barco mas que está a comandar a maior esquadra já reunida em todos os tempos, com treze naves muitíssimo bem-armadas. Puseram-me num canto da embarcação juntamente com Lopo de Pina e outros vinte condenados que eu não conhecia./ Partimos então de Belém com bom tempo e mar tranquilo. A grande cidade de Lisboa foi-se apequenando à nossa vista até desaparecer, ficando só os cumes da serra de Sintra e a grande cópia de caravelas, navios, barcas, batéis, galeões, almadias, bergantins e fustas que se amontoavam na ribeira./ Mas isso tudo se foi e neste instante só estamos a ver águas e céu.»
***
Isto escreveu Cosme Fernandes no seu diário, no dia nove de Março de mil e quinhentos. Um diário que se viu forçado a terminar nem dois meses depois, a um de Maio, já em Terras de Vera Cruz, por ordem do próprio Pedro Álvares Cabral.
De qualquer forma, não é por falta de diário que ficamos sem saber o destino de Cosme Fernandes, um cristão-novo apaixonado por uma donzela da alta sociedade portuguesa, de seu nome Lianor. E que por essa paixão se viu condenado ao exílio no Novo Mundo. As aventuras de Cosme Fernandes continuam até ao final de «Terra Papagalli» (a imagem é da capa da edição brasileira), um romance de José Roberto Torero (escritor e realizador) e Marcus Aurelius Pimenta (jornalista e guionista), ambos brasileiros. Já agora, de referir que os dois escreveram logo a seguir um romance chamado «Os Vermes», onde juntam uma folha de alface, um verme e um político, que acaba por engolir o verme (e de repente este vê-se num ambiente totalmente desconhecido, o organismo humano, ou, pior ainda, o organismo de um candidato em campanha numa capital federal do Brasil).
Mas voltando a «Terra Papagalli», trata-se de um retrato mordaz do Brasil do século XVI. Um mergulho nos tempos da chegada dos portugueses, através da narração do referido Cosme Fernandes, dito «Bacharel», que terá sido um dos degredados esquecidos do primeiro desembarque na «Terra dos Papagaios».
E Cosme Fernandes tem muito para contar sobre o que viveu do outro lado do Atlântico. E sobre o que aprendeu, principalmente os dez mandamentos para sobreviver em terras tão selvagens. A título de curiosidade, aqui fica o último: «Naquela terra de fomes tantas e lei tão pouca, quem não come é comido.»
Talvez por isso Cosme Fernandes andasse sempre de olhos bem abertos e de pé atrás. E admirasse Santo Ernulfo, que disse que «os erros são tragédias para quem os comete e comédia para quem deles ouve falar». Lá saberia por quê.

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Um bocadinho

Um bocadinho do romance «O que Entra nos Livros», na Praça do Giraldo, em Évora.

(…)
O senhor Sapinho Júnior levantou-se do cadeirão, sempre a segurar o romance de Roberto Ampuero, e pôs uma samarra pelas costas; estava num cabide junto ao sofá. Depois aproximou-se da porta que dava para a rua a seguir às duas janelas da livraria, abriu-a e saiu. Nem esteve para ir pela livraria, foi logo por ali, o mais rápido que podia, em direcção à loja das fotocópias, que ficava bem perto, a caminho da Praça do Giraldo. Só já quando ia a chegar é que se lembrou de que devia estar fechada àquela hora e então foi invadido por um desembaraço confuso, atabalhoado. Correu de novo, sem saber bem o que fazer, até que ao fim de uns cinco minutos viu que estava mesmo em frente da agência de um banco, daquele de que era cliente, já em plena Praça do Giraldo. Costumava ficar gente até tarde na agência, isso ele sabia. Aproximou-se da montra e espreitou através do vidro e das persianas corridas. Com alguma dificuldade, conseguiu ver o interior e reconheceu um dos gestores de conta; não era o seu, mas já tinha falado com ele algumas vezes. Foi até à porta e bateu, pequenas pancadas hesitantes com a mão esquerda, como se estivesse a fazer algo que fosse inadequado. Na mão direita segurava o romance, com força, parecendo ter medo de que as páginas se abrissem e deixassem fugir uma parte do seu conteúdo.
(…)

domingo, 26 de agosto de 2007

Textos sobre livros - 39

«Mulheres», de Charles Bukowsky (Fnac/ Publicações Dom Quixote; 292 pp.)

As mulheres de Bukowsky

Uma colecção de livros de bolso que resultou de uma parceria entre as Publicações Dom Quixote e a Fnac. Na série de literatura, autores como Gabriel García Márquez, Miguel Torga, José Cardoso Pires ou Charles Bukowski. É precisamente de Bukowski o primeiro livro que comprei dessa colecção.
O livro chama-se «Mulheres» e relata uma sucessão de episódios, muitos deles grotescos, em que entram dezassete mulheres que passam pela vida atribulada de uma personagem autobiográfica do famoso escritor bêbado. Henry Chinaski, é essa a personagem, com o seu gosto por cavalos, bebida e mulheres, com as suas leituras de poesia pelos Estados Unidos e pelo Canadá, em universidades, bibliotecas, livrarias, clubes nocturnos, o que fosse.
Em «Mulheres», uma vez mais, Bukowski pouco liga às estruturas formais da literatura. É cru e directo, sempre com um enorme sentido do imediato. No fundo, mantém-se fiel, página a página, ao seu próprio estilo de vida, com as mulheres, os cavalos, a bebida e a literatura sempre por perto. Às vezes, se calhar, demasiado perto.
Charles Bukowski nasceu em 1920, em Andernach, na Alemanha. Foi para os Estados Unidos mais a família quando tinha treze anos, para a Califórnia. Cresceu num bairro pobre de Los Angeles e passou a maior parte da vida na cidade de San Pedro. Escreveu desde criança, mas só publicou quando já estava na casa dos vinte anos. Morreu no dia nove de Março de 1994, de leucemia, na sua cidade de sempre.
Comecei a ler a sua obra absolutamente notável quando uma vez comprei numa livraria escondida de Lisboa um livro de contos de que estava farto de ouvir falar: «A Sul de Nenhum Norte». Já lá vão muitos, mesmo muitos anos.

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

Textos sobre livros - 38

«O Ano em que Zumbi Tomou o Rio», de José Eduardo Agualusa (Publicações Dom Quixote; 283 pp.)

Zumbi de regresso

Zumbi, o mítico herói do Quilombo de Palmares, regressa para tomar a cidade do Rio de Janeiro. O que é que poderá acontecer?
Na contracapa de «O Ano em que Zumbi Tomou o Rio» (pelo menos a da edição que tenho comigo, a primeira, de 2002) pode ler-se… «Os morros do Rio de Janeiro estão a arder. Aproxima-se o dia em que a guerra descerá sobre os bairros ricos da cidade. Um antigo coronel do Ministério da Segurança de Estado de Angola, que trocou o seu país pelo Brasil, fugindo às armadilhas de um amor feroz e ao tormento da memória, prepara esse dia. Um jornalista mergulha no incêndio dos morros cariocas em busca de respostas a perguntas que poucos se atrevem a colocar. Tudo isto acontece agora./ Zumbi, o mítico herói do Quilombo de Palmares, voltou para tomar o Rio.»
Este romance do escritor angolano José Eduardo Agualusa (n. Huambo, 13 de Dezembro de 1960) resulta de uma antiga ideia do autor, a de fazer uma actualização do mito de Zumbi de Palmares, um negro de origem angolana que no século XVII governou durante muitos anos uma república de homens fugidos à escravatura. Com a intensificação do tráfico negreiro para o Brasil, iniciado no século XVI, era natural que começassem as revoltas e que tendessem a ser organizadas. Arrancados ao seu habitat natural, onde em muitos casos pertenciam às classes dominantes, os negros não aceitavam pacificamente a condição que lhes era imposta pelos portugueses do Brasil. Daí as revoltas e as fugas, até chegar-se à formação dos chamados quilombos, aldeias de negros fugidos das fazendas, onde se organizavam e tentavam viver em liberdade. O mais famoso foi o de Palmares, que resistiu durante cerca de noventa anos aos ataques dos portugueses, caindo apenas em 1694. Zumbi foi o seu membro mais famoso.
A acção de «O Ano em que Zumbi Tomou o Rio», contudo, passa-se na actualidade. Poderá talvez classificar-se como uma alegoria, um relato fantástico a propósito da questão racial, com Angola e Brasil como que misturados. No Rio de Janeiro, nos morros, vai começar a guerra de negros de todas as cores contra a ordem imposta pelos brancos. O militar angolano referido na contracapa chama-se Francisco Palmares. Vende armas, vive num hotel mítico do Rio de Janeiro e planeia a guerra. Além dele, há mais uma personagem central, também um angolano, só que exilado em Portugal, em Lisboa, depois de uma morte simulada, com direito a funeral e tudo. Trata-se de um anão jornalista chamado Euclides e que fará a reportagem dos acontecimentos como correspondente de um jornal português. Acontecimentos que acabam por ser mais do que um conflito entre polícias e bandidos, assumindo contornos marcadamente políticos. E «...nada será como antes. Não há finais felizes, mas há finais que anunciam tempos melhores.»

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Textos sobre livros - 36

«A Tia Julia e o Escrevedor», de Mario Vargas Llosa (Publicações Dom Quixote, 342 pp.)

A história de Varguitas

Um dos grandes romances de Mario Vargas Llosa, na volta talvez o mais fascinante. O jovem Varguitas em grandes confusões com uma tia e também com a literatura.
Pus ali acima a referência ao número de páginas, que fui espreitar a um site de venda de livros, da edição da Dom Quixote. A que li (tenho-a há quase vinte anos) é do Círculo de Leitores.
Bom, o que no livro se conta é a história de um rapaz – o próprio Vargas Llosa adolescente, o Varguitas – e da sua relação amorosa com uma tia por afinidade (que pouco antes se tinha divorciada de um tio do jovem). Estamos nos anos cinquenta do século passado, quando a televisão ainda não tinha chegado ao Peru. À rádio cabia por isso entreter, informar e divertir as famílias. Eram os tempos áureos das radionovelas.
Varguitas estudava Direito, embora sem grande interesse (aliás, Vargas Llosa viria a formar-se em Letras), e ganhava a vida a trabalhar na Rádio Pan-Americana. É ele quem conta… «Tinha um trabalho de título pomposo, salário modesto, apropriações ilícitas e horário elástico: director de informação (...) Consistia em recortar as notícias interessantes que apareciam nos jornais e maquilhá-las um pouco para que fossem lidas nos noticiários. A redacção, sob as minhas ordens, era um rapaz de cabelo empastado e amante de catástrofes chamado Pascual.»
A par do romance com Julia, o jovem Varguitas toma contacto com um sujeito fascinante, um tal Pedro Camacho. Trata-se de um autor e intérprete de folhetins radiofónicos, boliviano, contratado para encantar as gentes de Lima e fazer aumentar os níveis de audiência. As radionovelas de Pedro Camacho aparecem como capítulos do próprio livro, alternando com os da história que vai sendo contada na primeira pessoa pelo próprio Varguitas.
Duas notas... Este romance foi passado ao cinema de uma forma, na minha opinião, bastante infeliz. O filme, cujo título é «A Paixão de Júlia», não tem praticamente nada a ver com o que Vargas Llosa escreveu, inclusive ao nível dos espaços em que a acção decorre. O próprio Pedro Camacho, que no livro odeia argentinos, no filme odeia albaneses; e chama-se Pedro Carmichel. É interpretado por Peter Falk, o actor que fazia de Inspector Columbo. Esta é a primeira nota. A segunda… Muitas personagens da radionovelas de Pedro Camacho são no romance caracterizadas da seguinte forma (e isto em redacção livre, apenas da minha responsabilidade): «tinha chegado aos cinquenta e as suas características particulares, fronte larga, nariz aquilino, olhar penetrante, rectidão e bondade de espírito...» Não ficam dúvidas de que o boliviano era um fraco amante da variedade. Mas tinha piada, muita, muita piada.
Um romance para ler ou reler em qualquer altura.

Nota: a foto é de Mario Vargas Llosa, há muitos, mesmo muitos anos; o artista quando jovem Varguitas.

sábado, 7 de julho de 2007

Começos prometedores - 3

«– Filhusdumagrandessíssima – balbuciou Lituma, sentindo que ia vomitar.»
Início do romance «Quem Matou Palomino Molero?», de Mario Vargas Llosa, 1986 (edição portuguesa de Publicações Dom Quixote, 1988)