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sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Contos inesquecíveis (6)

«Havia um homem que era muito senhor da sua vontade. Andava às vezes sozinho pelas estradas a passear. Por uma dessas vezes viu no meio da estrada um animal que parecia não vir a propósito – um cágado.»
«O Cágado», de Almada Negreiros (do livro «Obras Completas – Contos e Novelas»)
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sábado, 25 de setembro de 2010

Contos inesquecíveis (5)

«Lá dentro frigiam carne. Ouvia bem o chorriscar da gordura na sertã. Dantes, seria o bastante para lhe correr a baba pelas barbelas abaixo.»
«Nero», de Miguel Torga (do livro «Bichos»)
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sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Contos inesquecíveis (4)

«O trabalho de Big Bart consistia em levar a caravana a salvo até ao Oeste, engatar as senhoras todas, matar meia dúzia de homens e depois voltar para trás, para ir buscar outro carregamento.»
«Tira lá os olhos das mamas, ó manjerico!», de Charles Bukowski (do livro «A Sul de Nenhum Norte»)
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sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Contos inesquecíveis (3)

«Só quando parámos o jipe é que os vi. Estavam ali, à beira da estrada, meio escondidos pelo fragor do crepúsculo – o velho e os seus lagartos. Eram lagartos enormes e tinham o pescoço enrugado como o do velho e os mesmos olhos miúdos e misteriosos.»
«Dos perigos do riso», de José Eduardo Agualusa (do livro «Fronteiras Perdidas»)
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quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Contos inesquecíveis (2)

«Um juiz aposentado, que nesse outono se encontrava em tratamento de águas numas termas, frente ao mar, viu passar no horizonte do pôr-do-sol um bando de porcos-voadores. Um juiz no outono é sempre muito prevenido, e se estiver aposentado pior.»
«Ascensão e queda dos porcos-voadores», de José Cardoso Pires (do livro «A República dos Corvos»)
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domingo, 22 de agosto de 2010

Contos inesquecíveis (1)

«A sua única virtude sobrenatural parecia ser a paciência. Sobretudo nos primeiros tempos, quando o espiolhavam as galinhas em busca dos parasitas estelares que proliferavam nas suas asas…»
«Um senhor muito velho com umas asas muito grandes», de Gabriel García Márquez (do livro «A Incrível e Triste História da Cândida Eréndira e da sua Avó Desalmada»
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quarta-feira, 16 de junho de 2010

Leituras para o mundial

No mundial de 2006 houve quem sugerisse livros para a selecção. Romances, um para cada jogador. Eu não fui tão longe, recomendei contos, também um para cada jogador, e de caminho para a equipa técnica e mais umas figuras e figurinhas. Como a situação não mudou muito em quatro anos, volto aos contos (com umas crónicas pelo meio). Aqui vão, pequenos textos para uns minutos de leitura, à noite, antes que chegue o sono.
Eduardo – «O exame imperial», de Xavier Queipo (do livro «Os Ciclos do Bambu»)
Beto – «De como fiz a minha iniciação desportiva, hesitando entre a arte de guarda-redes e a de pedróbolo da quinta do Lopes», de Fernando Assis Pacheco (do livro «Memórias de um Craque») Daniel Fernandes – «O invento ou a salvação do mundo», de António Telmo (do livro «Contos Secretos»)
Miguel – «Que noite, meu velho!», de Dalton Trevisan, (do livro «O Grande Deflorador»)
Fábio Coentrão – «O timbre da tua voz», de Ana Nobre de Gusmão (do livro «Até que a Vida nos Separe»)
Paulo Ferreira – «Um rapaz filósofo», de Isaac Bashevis Singer (do livro «No Tribunal do Meu Pai»)
Ricardo Carvalho – «Honra brava», de Ascêncio de Freitas (do livro «Estória do Homem que Comeu a Sua Morte e Outros Contos»)
Bruno Alves – «Quem é o assassino?», de Istvan Örkény (do livro «Histórias de 1 Minuto»)
Rolando – «A sombra sentada», de Mia Couto (do livro «Cronicando»)
Ricardo Costa – «Fechado até Setembro», de Camilo José Cela (do livro «As Companhias Convenientes e Outros Fingimentos e Cegueiras»)
Duda – «Ser de esquerda porque sim», de Francisco José Viegas (do livro «Liberal à Moda Antiga»)
Pepe – «É chato ser brasileiro!», de Nelson Rodrigues (do livro «À Sombra das Chuteiras Imortais»)
Pedro Mendes – «Ganhar o jogo», de Rubem Fonseca (do livro «Pequenas Criaturas»)
Raul Meireles – «O misterioso bípede», de Bill Bryson (do livro «Breve História de Quase Tudo»)
Tiago – «Visita de cumprimentos», de Guillermo Cabrera Infante (do livro «É Tudo Um Jogo de Espelhos»)
Miguel Veloso – «Os anos confusos da juventude», de Isabel Allende (do livro «O Meu País Inventado»)
Deco – «A minha pátria é a Amazónia Portuguesa», de Luís Graça (do livro «Quinze Desatinónimos para Fernando Pessoa»)
Nani – «Vou dizer às mulheres que vamos sair», de Raymond Carver, (do livro «De que Falamos Quando Falamos de Amor»)
Simão Sabrosa – «O vermelho», de Jack London (do livro «Contos Fantásticos»)
Danny – «Outro amável milagre», de Eça de Queirós (do livro «Contos»)
Cristiano Ronaldo – «Tira lá os olhos das mamas, ó manjerico!», de Charles Bukowski, (do livro «A Sul de Nenhum Norte»)
Liedson – «A alegria de ser estrangeiro», de Enrique Vila-Matas (do livro «Da Cidade Nervosa») Hugo Almeida – «Está bem, abelha», de Clara Pinto Correia (do livro «Histórias Naturais»)
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Já agora, além das sugestões para os 23 jogadores seleccionados, mais algumas, para elementos da equipa técnica, pessoas da federação, outros jogadores, treinadores em destaque, presidentes dos principais clubes e ainda políticos (no caso, os dois com os mais altos cargos do país).
Carlos Queiroz – «Julgamento definitivo», de Mário-Henrique Leiria (do livro «Contos do Gin-Tonic»)
Agostinho Oliveira – «Apenas um subalterno», de Rudyard Kipling (do livro «O Homem que Queria Ser Rei e outros contos»)
Gilberto Madail – «Crónica escrita depois de ter bebido dois copos de vinho tinto ao almoço», de António Lobo Antunes (do «Livro de Crónicas»)
Amândio de Carvalho – «Um senhor muito velho com umas asas muito grandes», de Gabriel García Márquez (do livro «A Incrível e Triste História da Cândida Eréndira e da sua Avó Desalmada»)
Eusébio – «Agora sou eu a falar», de Pedro Paixão (do livro «A Noiva Judia»)
Zé Castro – «Gostava de ter um botão para rebentar com isto», de Joel Neto (do livro «O Citroën que Escrevia Novelas Mexicanas»)
Quim – «O deita-fora», de Heinrich Böll, (do livro «Contos Irónicos»)
Nuno Assis – «As desilusões suportáveis», de Fernando Venâncio (do livro «Último Minuete em Lisboa»)
Carlos Martins – «Repouso», de Miguel Torga (do livro «Novos Contos da Montanha»)
Maniche – «A noite em que o deixaram sozinho», de Juan Rulfo (do livro «A Planície em Chamas»)
Rui Patrício – «Saída em falso», de Gonzalo Torrente Ballester (do livro «Memória de Um Inconformista»)
Ricardo Quaresma – «Você aí nem vai», de António Alçada Baptista (do livro «A Cor dos Dias»)
Makukula – «O nosso país é bué», de Pepetela (do livro «Contos de Morte»)
João Moutinho – «A estória de Metão, o pequeno», de Gonçalo M. Tavares (do livro «Histórias Falsas»)
Bozingwa – «A miragem», de Mário de Carvalho, (do livro «Fabulário»)
Ruben Amorim – «Um sorriso inesperado», de José Riço Direitinho (do livro «Um Sorriso Inesperado»)
José Mourinho – «A vida quotidiana de uma obra de arte», de Wladimir Kaminer (do livro «Russendisko»)
Jorge Jesus – «Discurso sobre o fulgor da língua», de José Eduardo Agualusa (do livro «Catálogo de Sombras»)
Luiz Felipe Scolari – «O dia da besta», de Panos Karnezis (do livro «Pequenas Grandes Infâmias»)
José Eduardo Bettencourt – «A arte de não saber», de Luis Sepúlveda (do livro «O Poder dos Sonhos»)
Luís Filipe Vieira – «O falcão e o pato selvagem», de Leonardo da Vinci (do livro «Fábulas»)
Jorge Nuno Pinto da Costa – «Excertos de uma conversa», de Juan José Millás (do livro «Contos de Adúlteros Desorientados»)
José Sócrates – «Antigamente os vivos não morriam», de Maria Antonieta Preto (do livro «A Ressurreição da Água»)
Cavaco Silva – «O homem que calculava», de Luiz Pacheco (do livro «Exercícios de Estilo»)
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terça-feira, 28 de outubro de 2008

Um bocadinho de um conto

É apenas um bocadinho de um conto. O primeiro bocadinho que aqui coloco do livro de contos que tenho vindo a escrever e que ainda demorará algum tempo a acabar. O pequeno Chuckie em todos os contos, e muitos animais; para já tenho duas perdizes, uma gineta, uma águia, um lagarto e um javali.
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O pai do pequeno Chuckie costumava falar de uma mulher a quem chamavam a Perdizinha, uma mulher de tempos já passados. Tratavam-na assim porque era muito pequena, mas sobretudo por andar depressa. Uma mulher rápida e pequenina, um verdadeiro contraste com outra desses tempos, a Pata Larga, forte, alta e sempre a gabar-se de que calçava o quarenta e três. A Pata Larga, tinha-lhe o pai contado, falava como se carregasse na boca dois torrões de terra, um de cada lado, quem sabe se por causa dos equilíbrios, embora ela não precisasse muito de equilíbrios, principalmente por causa dos pés alongados.
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quinta-feira, 10 de julho de 2008

A literatura invadida pelas formigas

«Uma vez, melhor, um dia, pedi-lhe uma história para uma revista. Um conto. Pedi-lhe ao fim da tarde. Telefonei-lhe e pedi. O Luís nem disse que sim nem que não, disse apenas qualquer coisa como não valer a pena preocupar-me. No outro dia de manhã eu tinha a história na minha caixa de correio electrónico, enviada algures durante a madrugada. Uma história de formigas, cuja narradora – uma formiga, obviamente – dizia muitas vezes ‘a malta anda por todo o lado’, quase tantas vezes como um conhecido treinador de futebol diz ‘na realidade’ ou um desconhecido colega de um trabalho que tive no século passado dizia (se calhar ainda diz) ‘por conseguinte’.» Este é um excerto do prefácio que escrevi para um livro de contos do Luís Graça. Já o conto que pedi ao Luís é o que coloco abaixo; chama-se «Formiga Zé».

Formiga Zé
Um conto de Luís Graça

A malta anda por todo o lado. Essa é que é essa. Somos uma organização. Tem de ser. Sem organização não se faz nada. Já vivo há uns tempos em Vila Nova dos Carreirinhos e posso assegurar que as vias de comunicação estão bastante desenvolvidas.
Quando eu era miúdo, ainda nem conseguia carregar um grão de açúcar, andar à volta de uma bolacha já era uma verdadeira aventura. Agora não. A malta anda por todo o lado. Somos uma organização.
Este ano resolvemos ocupar a casa dos Fonseca, que fica no centro de Vila Nova dos Carreirinhos. Uma operação de média dimensão, apenas três brigadas de trezentas operárias cada. A brigada mais conceituada é a do Matias, que passou dois meses em África, num embondeiro. O Matias tirou um mestrado em marabuntas.
A brigada do Matias é essencialmente constituída por tropas de choque, que fazem escolta às carregadoras, que são basicamente formigas de leste, com formação superior e muito diligentes. A brigada do Matias foi destacada para a cozinha, com missões frequentes ao açucareiro, ao caixote do lixo e ao armário das loiças.
A malta anda por todo o lado e o Matias é um trabalhador qualificado. Claro que isso não invalida um número de baixas considerável, mas com as formigas é mesmo assim. Não temos a capacidade de fuga de uma melga ou a possibilidade de dissimulação de uma pulga.
Não, a malta anda por todo o lado mas tem as suas limitações. Nós, as formigas, temos um grande problema: a nossa costela germânica permite-nos ser altamente organizadas mas limita-nos sobremaneira a capacidade de improviso.
O sacana do filho do Fonseca deu-nos cabo de um mês de trabalho só por brincadeira. Nós tínhamos o quartel-general montado no interior da parede da cozinha. Um pequeno orifício permitia-nos transitar organizadamente de dentro para fora e de fora para dentro. Sempre em fila indiana, ao longo de uma linha imaginariamente traçada, com dois sentidos.
Pois, a malta anda por todo o lado, mas o filho do Fonseca resolveu obstruir o buraco da parede com um stick de cola UHU. Resultado: o quartel-general ficou completamente obstruído e levámos mais de um mês a abrir um buraco ao lado. Mal o filho do Fonseca descobriu, pôs-se a inventar. Partiu uma série de palitos e tapou o buraco à malta.
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Bem, não vou negar que isso nos causou sérios engulhos, mas a malta anda por todo o lado. Demos a volta à situação, literalmente. Embora tenha havido alguns danos colaterais. Uma patrulha da brigada do Menezes perdeu-se e foi parar ao fogão. Até aqui, nada de especial. O pior é que estava na hora do almoço e a mulher do Fonseca foi pôr as panelas ao lume.
Pois. A malta anda por todo o lado, mas há lados por onde não devia andar. Nós, as formigas, somos pequeninas e perante fontes de calor muito elevadas não conseguimos resistir. Lastimo dizer que a patrulha da brigada do Menezes não resistiu. Entre as refeições, o fogão não é um local potencialmente perigoso. Nas férias dos Fonseca, as formiguitas mais novas até costumam ir para o fogão andar de skate. Mas há tempo para tudo. A hora das refeições não pode ser usada pelas formigas para atravessar o fogão.
Já saiu uma resma de circulares sobre o assunto, mas ainda assim as baixas continuam. É altamente frustrante para toda a comunidade. Também estamos fartos de avisar para não se circular em freelance. É perfeitamente suicida tentar angariar migalhas de pão ou de queque em manobras lunáticas. Qualquer um pode agarrar-se a um saco de guardanapo. É fácil subir para um tabuleiro e ficar agarrado a um saco de guardanapo. Damos de barato que se transita até via aérea da cozinha para a sala.
O problema é este: a malta anda por todo o lado, mas não pode permitir que os Fonseca nos identifiquem. Chegados a este ponto, estamos perfeitamente vulneráveis. Ora, qualquer formiga apanhada em campo aberto tem o destino marcado. A mesa da sala de jantar é um local de alto risco e de escasso abrigo. Até agora, o único sobrevivente de uma incursão à sala de jantar foi o Esteves Orelhas-Surdas.
E foi por um acaso do destino. Valeu-lhe subir para a manga da camisa do Fonseca, num instinto abençoado. O Fonseca foi para o duche e deitou a camisa para o alguidar da roupa suja, onde fomos dar com o Esteves Orelhas-Surdas, muito amarfanhado, debaixo de um par de cuecas e de meia dúzia de peúgas.
Apesar de todos os cuidados, há sempre necessidade de missões de elevada perigosidade. Por exemplo, uma vez por mês temos de ir buscar comida ao caixote do lixo, missão cumprida de noite, enquanto os Fonseca estão a dormir. O percurso é longo e sinuoso. Não adianta estar com paninhos quentes.
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É preciso atravessar toda a parede da cozinha, passar por cima do lava-loiças, fazer agulha para o cabide das colheres de pau e descer para o caixote através do pano da loiça. Depois, é preciso seleccionar os géneros e trazer a comida para o quartel-general.
Se conseguirmos efectuar toda a operação durante a noite, muito bem. É coisa para umas cinco horas, porque a malta anda por todo o lado. O pior é se o filho dos Fonseca regressa às cinco da madrugada de uma saltada a uma discoteca da 24 de Julho. O idiota do puto, de brinquinho na orelha, gel no cabelo e olhar de bezerro, dá-lhe para vir carregado de shots e põe-se a matar formigas por diversão.
Nessas ocasiões, não há nada a fazer. É cada um por si. Mas pouca gente consegue sobreviver. É preciso manter o sangue-frio e tentar subir para as roupas do filho do Fonseca, permanecendo nelas o tempo que for necessário. É imperioso evitar a circulação por áreas mais sensíveis, como por exemplo o pescoço, as bochechas ou as costas da mão. A malta anda por todo o lado, mas tem de saber que há lados por onde não deve andar. Nomeadamente, os lados em que os humanos são mais sensíveis aos nossos passos. Numa fracção de segundo se perde uma vida.
Eu estou há cinco meses em Vila Nova dos Carreirinhos e há três semanas em casa dos Fonseca. Sou um veterano de quinta comissão. Estas tour of duty são registadas em acta no «Livro de Missões, Omissões e Demais Circulações».
Já ganhei duas «Purple Heart» por bravura para além do exigível. Salvei o Chiquinho Antena-Mole de ser lambido pelo cão dos Fonseca, que já o tinha farejado. O Chiquinho Antena-Mole ainda podia andar, mas estava todo molhado pelo nariz do cão. Eu andava por ali e mandei uma patrulha efectuar uma manobra de diversão em cima do osso do cão. Enquanto o cão agarrava no osso, pus o Chiquinho Antena-Mole a salvo. Sei que não devia ter arriscado uma patrulha numa operação tão delicada, mas andei com o Chiquinho Antena-Mole na Escola de Sargentos e não o podia deixar ser lambido por um Pékinois castanho que passa a vida a arfar e a ganir.
A malta anda por todo o lado, mas o que perturba sobremaneira a nossa vida é o desaparecimento súbito de uma brigada. Basta um dos Fonseca mudar uma coisa de lugar de modo imprevisto. Sabem como é. Por exemplo: a malta está a empanturrar-se na casca de uma banana, esquecida há duas horas em cima da máquina de lavar. Vem a mãe Fonseca e manda a casca para o caixote do lixo. Se ficarem três ou quatro formigas em cima da máquina de lavar, está tudo estragado. Perdem por completo o sentido de orientação. Sem o chefe de brigada, qualquer formiga fica completamente à toa.
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Já fiz milhentos requerimentos ao ministro do Equipamento Social, mas as novas antenas com GPS alcalino ainda estão empanadas na alfândega. Assim é muito mais difícil, não só trabalhar em condições como sobreviver.
A malta anda por todo o lado e sabe os perigos que nos espreitam, mas também não há necessidade nenhuma de morrer de forma gratuita. O sofrimento é geralmente reduzido, valha-nos isso. Os humanos costumam esmagar-nos entre o polegar e o indicador e depois fazem uma pequena bolinha.
Os mais perversos vão buscar os binóculos para tentar perceber as razões da nossa maneira de agir, mas eu acho que tudo não passa de desvarios sexuais e desvios. Os humanos estão firmemente convencidos de que nós somos todas pretas, o que é uma asneira enorme, como é sabido. Qualquer ser inteligente tem consciência de que o nosso corpo é alaranjado e a aparência negra não passa disso mesmo: uma aparência.
Ultimamente, o Grão-Mestre Florindo tem vindo a trabalhar num projecto ultra-secreto. Está a estudar a viabilidade de pilhar a pasta de dentes aos humanos. Até aqui temos vindo a concentrar-nos em alimentos simples, como migalhas, minúsculos restos de comida, coisas assim. Mas a partir de agora criou-se a possibilidade de nos alimentarmos de pingos de pasta de dentes. Mandámos já vários agentes ao lavatório da casa de banho, mas os resultados têm sido desanimadores.
O Pereira Kamikaze chegou ao lavatório, identificou um pingo, aproximou-se, recolheu uma amostra e regressou ao quartel-general. Poderia pensar-se que tudo correu bem, mas não é verdade. O Pereira Kamikaze morreu um dia depois, com uma overdose de Colgate, antes mesmo de ter podido escrever o relatório.
Quanto ao Carlitos Spidado, não conseguiu usar o discernimento para regressar à base e saiu de casa dos Fonseca sem se aperceber do facto, depois de ter cumprido o percurso para o lavatório sem problemas. Pensa-se que esteja a viver na casa dos Lopes, mas é mera conjectura. Talvez lá mais para o Verão se consiga esboçar uma certeza.
O Jimbrinhas Xoné foi liquidado sem hipóteses de se defender, enquanto tentava passar da torneira para o lavatório, pendurando-se na corrente da tampinha do ralo. Desequilibrou-se e foi pelo cano.
De modo que o projecto ultra-secreto do Grão-Mestre Florindo não tem corrido grandes riscos de divulgação. Todos os que trabalharam nele deram a alma ao Criador.
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Quanto a mim, por vezes fico a pensar em qual será o significado da nossa existência, sempre em fila para algum lado, sempre à cata de uma migalhita como se fosse a coisa mais importante do mundo. Às vezes ponho-me a pensar: e se a malta andasse sozinha, em vez destas manias de andar sempre em carreirinho, umas atrás das outras?
Agora quando penso que há cães presos às casotas por uma corrente, sinto-me orgulhoso e sei que a malta anda por todo o lado.

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terça-feira, 10 de junho de 2008

Pequenos textos para a selecção

Não vou tão longe; romances para a selecção nacional, como aqui e aqui se recomenda… O mais certo seria perdermos o Europeu se os jogadores ficassem a ler pela noite dentro. Talvez apenas uns contos, ou umas crónicas, pequenos textos que não roubam muito tempo de sono, talvez isso fique melhor. Deixo aqui algumas sugestões para os jogadores…
. Ricardo – «O timbre da tua voz», de Ana Nobre de Gusmão (do livro «Até que a Vida nos Separe»)
. Nuno – «Vai feliz no ar voando», de Maria Antonieta Preto (do livro «A Ressurreição da Água»)
. Rui Patrício – «Saída em falso», de Gonzalo Torrente Ballester (do livro «Memória de Um Inconformista»)
. Bruno Alves – «Quem é o assassino?», de Istvan Örkény (do livro «Histórias de 1 Minuto»)
. Fernando Meira – «Repouso», de Miguel Torga (do livro «Novos Contos da Montanha»)
. Jorge Ribeiro – «O desconhecido», de Gabriel García Márquez (do livro «Textos do Caribe»)
. Bosingwa – «A mudança de velocidade», de Clara Pinto Correia (do livro «Deus ao Microscópio»)
. Pepe – «A minha pátria é a Amazónia Portuguesa», de Luís Graça (do livro «Quinze Desatinónimos para Fernando Pessoa»)
. Miguel – «Que noite, meu velho!», de Dalton Trevisan, (do livro «O Grande Deflorador»)
. Paulo Ferreira – «O invento ou a salvação do mundo», de António Telmo (do livro «Contos Secretos»)
. Ricardo Carvalho – «Ganhar o Jogo», de Rubem Fonseca (do livro «Pequenas Criaturas»).
. Deco – «A alegria de ser estrangeiro», de Enrique Vila-Matas (do livro «Da Cidade Nervosa»)
. Petit – «O dia da besta», de Panos Karnezis (do livro «Pequenas Grandes Infâmias»)
. João Moutinho – «O homem que corria», de Juan José Millás (do livro «Contos de Adúlteros Desorientados»)
. Miguel Veloso – «Os anos confusos da juventude», de Isabel Allende (do livro «O Meu País Inventado»)
. Raul Meireles – «O misterioso bípede», de Bill Bryson (do livro «Breve História de Quase Tudo»)
. Cristiano Ronaldo – «Tira lá os olhos das mamas, ó manjerico!», de Charles Bukowski, (do livro «A Sul de Nenhum Norte»)
. Nani – «Vou dizer às mulheres que vamos sair», de Raymond Carver, (do livro «De que Falamos Quando Falamos de Amor»)
. Quaresma – «O sangue no cavalo», de Ondjaki (do livro «E Se Amanhã o Medo»)
. Simão – «O vermelho», de Jack London (do livro «Contos Fantásticos»)
. Hélder Postiga – «A Espera», de Manuel Jorge Marmelo (do livro «O Silêncio de Um Homem Só»)
. Hugo Almeida – «Fechado até Setembro», de Camilo José Cela (do livro «As Companhias Convenientes e Outros Fingimentos e Cegueiras»)
. Nuno Gomes – «Uma segunda oportunidade», de José Eduardo Agualusa (do livro «A Substância do Amor e outras crónicas»)
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Deixo ainda mais algumas sugestões, para a equipa técnica, para alguns jogadores que achavam que deviam ter sido convocados e para mais algumas figuras que acompanham a selecção…
. Scolari – «O homem bestialmente holligan», de Luís Graça (do livro «O Homem que Casou com Uma Estrela Porno e outros contos perversos»)
. Murtosa – «A estória de Metão, o pequeno», de Gonçalo M. Tavares (do livro «Histórias Falsas»)
. Darlan Schneider – «Apenas um subalterno», de Rudyard Kipling (do livro «O Homem que Queria Ser Rei e outros contos»)
. Brassard – «O silêncio», de Maria Teresa Horta (do livro «Ambas as Mãos Sobre o Corpo»)
. Quim – «As desilusões suportáveis», de Fernando Venâncio (do livro «Último Minuete em Lisboa»)
. Maniche – «O deita-fora», de Heinrich Böll, (do livro «Contos Irónicos»)
. Caneira – «A arte de não saber», de Luis Sepúlveda (do livro «O Poder dos Sonhos»)
. Figo – «O galo de ouro», de Juan Rulfo (do livro «O Galo de Ouro e outros textos dispersos)
. Fernando Couto – «Gostava de ter um botão para rebentar com isto», de Joel Neto (do livro «O Citroën que Escrevia Novelas Mexicanas»)
. Eusébio – «Agora sou eu a falar», de Pedro Paixão (do livro «A Noiva Judia»)
. Gilberto Madail – «Crónica escrita depois de ter bebido dois copos de vinho tinto ao almoço», de António Lobo Antunes (do «Livro de Crónicas»).

quinta-feira, 13 de março de 2008

Um conto

Um conto com que há alguns anos, em 2002, participei num livro editado por este grupo. O livro chama-se «As Segundas Palavras da Tribo»; a imagem é de uma das apresentações, no Bairro Alto, em Lisboa (livraria Ler Devagar).

Os terríveis baixinhos de olhos de pirilampo
Não sabia como tinha ido lá parar. Nem por quê. Nunca ninguém sabe. Pensava que me tinham levado, dois ou três dos que costumam vigiar-me à distância, dos que me gritam que mais dia menos dia alguma coisa acontecerá. Mesmo assim, não me lembro de terem chegado ao pé de mim... Nem sei como terão conseguido dominar-me. Três deles, a dar-me pelo ombro, três dos que sempre me avisam... Talvez tenham sido mais, talvez, porque com três eu haveria de poder bem. Sim, três apenas nunca chegariam perto. Vê-se que têm medo de mim, como de muita gente por aí. Mas eles avisavam-me, os que sempre me vigiam, avisam-nos, avisam muita gente, com a gritaria, e com os olhares, com os olhos amarelos-esverdeados de pirilampo. Quantas vezes não pensei que se preparavam para me fulminar?
Sim, devem ter sido mais do que três. Não tenho nenhum galo na cabeça, nem sinto cheiros esquisitos no nariz. Eu nem sei se eles usam disso, se intoxicam as pessoas. Bater sei que batem, mas não tenho nenhum galo na cabeça.
Da próxima vez que encontrar alguns, provavelmente os dois ou três do costume, atiro-me a eles, mesmo correndo o risco de aparecerem logo uns dez a acudir. Vá lá que não formam à dezena, que andam só aos dois e aos três. Depois é que se juntam, quando sentem o perigo. São pequeninos, baixinhos, mas bem danados. De contrário, não teriam chegado a dominar isto. Por que é que será que toleram escritores? Será que não lhes lêem os livros? Por que é que será que a esses só os levam de vez em quando? Ainda vão passar à história, os escritores, obviamente, como privilegiados; pior, como colaboracionistas. Um equívoco, como tantos outros da história... Ainda eu passo à história assim, e não como escritor e até, em tempos idos, de abertura de fronteiras, de nome falado para o Nobel. O escritor das bruxas, se bem que bruxas de inspiração regionalista, talvez capaz de ganhar o Nobel lá para 2009, mas só depois do vizinho espanhol também muito falado, o tal de apelido de nome próprio de mulher mas no plural, o Marías, quase com idade para ser meu pai. Haveria de ser bonito, o Marías, se em Espanha tivesse chegado um regime como este dos baixinhos. Não, os espanhóis não tolerariam baixinhos no poder; já lhes bastou o filho da puta do Franco, que além de baixinho era gordo que nem um porco cevão, antes de mirrar, quando foi para velho. Pois, muitos espanhóis haveriam de dizer isto, até o Marías, que o mais certo era com baixinhos a mandar perder logo as ilusões do Nobel.
E nós, cá, agora, com os baixinhos a mandarem nisto... Antes o Salazar, diz-se pelas esquinas mais resguardadas, antes o Salazar ou, se não fosse pedir muito, o Cavaco, que era do género mas tinha a vantagem de não ter a polícia política. Os outros que apareceram depois é que não, os da rebaldaria; por causa desses, se calhar por causa das rebaldarias desses todos, anos e anos, é que os baixinhos tomaram conta disto. Impressionaram a populaça com os olhos reluzentes, à pirilampo, os cabrões... De onde é que eles terão saído, ainda por cima tantos? Montes deles, sempre com a mania de terem tudo ordenadinho, o trânsito, os hipermercados, os impostos, os serviços de saúde, as conversas de rua; e baixinho, baixinho, fale-se baixinho, como os baixinhos estão sempre a pedir, se calhar porque têm ouvidos sensíveis...
Bom, por que é que fui lá parar eu não sabia. Pensava até que teria sido pelo que escrevi no meu último livro... Mas esse já tem uns bons anos. Não escrevo daí para cá, de há uns bons anos para cá... As comissões de olhares e estudos dos baixinhos já o conhecem de uma ponta a outra, palavra a palavra, frase a frase, capítulo a capítulo, os minuciosos dos baixinhos... Pois, não podia ser isso, pensava eu... Seria por terem-me visto em politiquices, por alguém me ter denunciado? Mas eu não me meto em nada...
Malditos baixinhos!, cheguei a dizer, só para mim.
De repente, uma porta do gabinete abriu-se e entrou o presidente. Que mau-cheiro!... Eu não sabia que o cabrão cheirava assim, ainda pior do que os outros. Deve ser um sinal de distinção... Só o tinha visto na televisão, e a televisão, apesar das maravilhas da técnica que se ouve sussurrar do exterior – os baixinhos não deixam cá entrar nada disso –, a nossa, a nossa televisão, ainda não tem essas novidades, não transmite o cheiro; e lá fora, se calhar, isso consegue-se mas é em diferido, sem acompanhar a imagem, o que deve dar confusão... Mas o cabrão do presidente, o de quatro olhos, dois de luz de pirilampo e dois postiços de pisca-pisca, o cabrão disse-me que me iam propor à academia como candidato ao Nobel, que daí a três anos, daqui a três anos... Disse-me que pensavam candidatar-me... O escritor das bruxas de inspiração regionalista, que sim, que talvez fosse bom para a imagem disto lá fora, disse-me... Vamos propô-lo daqui a três anos, tem-se portado bem, ia ele repetindo.
Mas eu não tenho escrito nada, argumentei. Pois, por isso mesmo, vamos propô-lo. E eu, atrapalhado. Mas, senhor presidente, eu não sou baixinho como os senhores, faço parte da minoria silenciosa, além de que se formos a ver só pela altura tenho um metro e oitenta e cinco, embora nos papéis de identificação tenha um metro e oitenta e dois, porque pensaram que eu estava de botas de sola grossa e deram um desconto, e eu afinal estava descalço, tinha-me descalçado quando foi para me medirem. Não serviu de nada a minha argumentação. Corrigiremos a sua altura, disse o filho da puta, numa próxima revisão do normativo interno e dos dados sectoriais. Está bem, senhor presidente, respondi. E acrescentei, Mas aquilo do Nobel, eu... Ele estava decidido. Queremos apresentar um escritor que não seja de nós. E eu, Mas repito, senhor presidente, eu não tenho escrito nada. Mas vai escrever, disse ele, vai escrever...

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Os meus diálogos – 5


(…) Nenhuma mulher comprou, e alguns homens que o fizeram foi só para verem mais de perto a cigana mamuda, que era quem vendia a rifa.
– E era muito mamuda?
– Era o suficiente.
O prémio acabou por sair ao Sapo dos Montes Claros.
– Lá cara de sapo tem o cabrão!
– E corpo?
– Também faz lembrar, só que em ponto grande.
(…)

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

Textos sobre livros - 37

Poucos dias depois do centenário do nascimento de Miguel Torga, deixo aqui um texto que escrevi em tempos (2002) sobre um notável livro de contos.

«Bichos», de Miguel Torga (agora editado nas Publicações Dom Quixote; 136 pp. na minha edição de autor)

Os bichos de Torga

Um texto de 2002, sobre um velhinho livro de capa branca e páginas muitas delas por cortar. Outros tempos…
Mesmo com a obra de Miguel Torga a ser reeditada pelas Publicações Dom Quixote, depois de tantos anos em edições do autor, não será despropositado trazer aqui um dos velhinhos livros brancos a que nos fomos habituando desde os tempos de escola. Falo de «Bichos», um que ainda não conheceu reedição [texto de 2002, agora já há edições naquela editora], o que por certo não tardará a acontecer.
«Bichos» surgiu em 1940, sendo reeditado pouco depois e conhecendo traduções sucessivas para várias línguas. São contos de animais com o sentir dos humanos, ou talvez humanos dentro da pele de animais. Ou uma irmandade de animais e humanos, quem sabe... Nero, o cão, Tenório, o galo, Morgado, o burro, e tantos outros, Ladino, Ramiro, Farrusco, Mago, Miura, tantos outros. E também Madalena, caminhando pelas serranias. «Madalena arrastava-se a custo pelo íngreme carreiro cavado no granito, a tropeçar nos seixos britados por chancas e ferraduras milenárias. De vez em quando parava e, através de um postigo aberto na muralha das penedias, olhava o vale fundo, já muito longe, onde o corpo lhe pedira para ficar, à sombra de um castanheiro. O corpo. Porque a vontade fizera-a atravessar ligeira a frescura tentadora da veiga e meter-se animosa pela encosta acima. Tudo estava em chegar a Ordonho a tempo da sua hora. Por isso, era preciso reagir contra a própria natureza e andar para diante, custasse o que custasse.»
Por que se arrastará Madalena «pelo íngreme carreiro cavado no granito, a tropeçar nos seixos britados por chancas e ferraduras milenárias»? Já no fim do conto, pode ler-se… «Nem um som, nem a presença de uma aragem a quebrar a solidão que a cercava. Apenas num céu em fim de incêndio um mormaço cerrado./ Abriu de todo os olhos turvos. Entre as pernas, numa poça de sangue, estava caído e morto o filho. Carne sem vida, vermelha e suja. O segredo dela e de Deus!...»
O autor de «Bichos» nasceu em São Martinho de Anta, concelho de Sabrosa, em 1907, vindo a falecer em 1995. De nome completo Adolfo Correia da Rocha, adoptou o pseudónimo de Miguel Torga. É ele que explica… «Eu sou quem sou. Torga é uma planta transmontana, urze campestre, cor de vinho, com as raízes muito agarradas e duras, metidas entre as rochas. Assim como eu sou duro e tenho raízes em rochas duras, rígidas, Miguel Torga é um nome ibérico, característico da nossa península.»
Torga estudou em Coimbra e aos vinte e quatro anos estava formado em medicina. Especialidade, Otorrinolaringologia. Começou por exercer clínica geral na sua aldeia, mas a experiência não foi famosa. Mudou-se para Leiria, mas por causa das tipografias acabou por regressar a Coimbra. Foi sempre um homem socialmente difícil. Pouco comunicativo, falando com mais convicção do que razão. Quase não oferecia livros a ninguém, recusava dedicatórias e autógrafos; e nunca confiava os seus livros a nenhuma editora, preferindo sempre edições do autor, com pequena tiragem e num papel o mais barato possível. Na clínica, usava sempre uma bata branca. Só comprou televisão após o 25 de Abril, para ouvir as notícias. Não tinha telefone em casa, para que não lhe interrompessem o trabalho. O material que mandava para a tipografia levava vários remendos, colados uns sobre os outros; chegava a ter sete ou oito colagens. Por causa de uma vírgula, era capaz de passar uma noite sem dormir.
Miguel Torga deixou uma vasta obra, entre poesia e prosa. Só os diários ocupam dezasseis volumes. Muitas obras suas foram traduzidos nas principais línguas de todo o mundo, incluindo o mandarim. Foi muitas vezes apontado como sério candidato ao Prémio Nobel da Literatura. Ganhou o prémio Luís de Camões em 1989. Chegou a ser preso pela PIDE. Algumas vezes teve vontade de sair do país, mas nunca o fez, justificando-se assim… «Mas abandonar a Pátria com um saco às costas? Para poder partir teria de meter no bornal o Marão, o Douro, o Mondego, a luz de Coimbra, a biblioteca e as vogais da língua. Sou um prisioneiro irremediável numa penitenciária de valores tão entranhados na minha fisiologia que, longe deles, seria um cadáver a respirar.»

terça-feira, 24 de julho de 2007

Antes de recomeçar a escrever sobre futebol

Com a nova época futebolística já em preparação, e antes de recomeçar a escrever sobre futebol – sobre o Sporting, já se vê –, deixo aqui um texto que escrevi há uns anos (em 2001, também em princípio de época, e agora corrigido) sobre um pequeno livro de Camilo José Cela chamado «Onze Contos de Futebol». Leitura muito, mas mesmo muito recomendável.

Textos sobre livros – 33

«Onze Contos de Futebol», de Camilo José Cela (Edições ASA, 74 pp., primeira edição portuguesa em 1994)

Cela e o joga da bola

Agora que estamos em começo de época de futebol, talvez seja a altura ideal para apresentar um livro sobre o tema. Para não diminuir o jogo da bola, trazendo aqui um qualquer desconhecido, escolhi «Onze Contos de Futebol», obra de um génio que até teve direito a Nobel da Literatura.
Camilo José Cela escreveu «Onze Contos de Futebol» em 1963, quando o futebol era bem diferente do de agora. De qualquer forma, estes pequenos contos não estão colados a nenhuma época em especial. São verdadeiramente intemporais.
Camilo José Cela nasceu na Galiza, na localidade de Iria Flávia, em 1916. O pai era espanhol e a mãe inglesa. Estudou Direito, Medicina e Filosofia. Não foi propriamente um romancista, mais do que isso, muito mais, foi um escritor, dono de uma obra multifacetada, onde se destacam os contos e os livros de viagens. E também os romances, obviamente, romances que em muitos casos acabam por ser emaranhados de histórias e mais histórias, surgidas em catadupa; histórias da Galiza e do seu mundo fantástico, da Galiza fantástica de Cela.
Nestes «contos de futebol», Cela não conta simples histórias do pontapé na bola. O que neles se pode encontrar é de novo um certo mundo de fascínio do grande escritor galego, com personagens mirabolantes e situações inusitadas. Como exemplo, deixo o início de uma das histórias, que levou o título «Como um cão no entrudo».
O ofício de cão é um mau ofício, um ofício sem meio termo: pelos vistos entre os cães não há classe média, mas sim áurea aristocracia e sebenta e faminta vulgaridade.Uns cães vivem como duques e comem peitinhos de frango e bebem leite, e outros, pelo contrário, farejam nos matadouros, levam pauladas e, quando chega o carnaval, até voam pelos ares, com o espinhaço partido em dois. Os cães, pelo entrudo, são pintados às riscas para maior e mais cauteloso escárnio do próprio e regozijo dos outros, e assim, quando vão pelos ares, as pessoas dizem: «Parecem borboletas!», e divertem-se honestamente e sem fazer mal a ninguém (o cão não conta, pois para isso é cão e não vereador, ou proprietário de uma loja de souvenirs).
A Blas Tronchón, Harinita, quando o jogo acabou, puseram-no no meio da manta e começaram a atirá-lo ao ar e a divertir-se com ele, como fazem aos cães no entrudo. A cena foi de muita graça e crueldade, e o público, enquanto moíam os ossos a Blas Tranchón, Harinita, divertiu-se com uma circunspecção muito recatada.
– Que não tivesse falhado o penalti, não é verdade?
– Pois claro, é como eu costumo dizer: que não tivesse falhado o penalti. Assim vai aprender a afinar a pontaria!

sábado, 30 de junho de 2007

Textos sobre livros – 29

«Pequenas Grandes Infâmias», de Panos Karnezis (Cavalo de Ferro, 281 pp.)

Simplesmente magia grega

A magia de um jovem escritor grego, radicado em Inglaterra, país onde as suas histórias lhe deram a fama. Panos Karnezis e um mundo para muitos desaparecido, contudo bem capaz de ser real. Mesmo que um centauro apareça num prado à beira-rio.

«Pequenas Grandes Infâmias» é o livro que revelou um dos nomes mais originais, fascinantes e seguros da jovem ficção europeia. Panos Karneziz, um estudante grego em 1992, mudou-se então para Inglaterra para fazer o curso de Engenharia, tendo a par dos estudos trabalhado como operário fabril. Dez anos depois, ainda em Inglaterra, publicou os contos que tinha ido escrevendo em inglês. A crítica britânica reconheceu-o, os leitores deram-lhe um lugar de honra nos tops de vendas. Foi o próprio Karneziz que traduziu o livro para a sua língua, um ano depois da publicação em Inglaterra. Não demorou muito a que se tornasse o escritor grego mais lido no seu país.
Nas histórias de «Pequenas Grandes Infâmias», que muito ficam a dever ao universo mágico de Gabriel García Márquez, bem no outro lado do mundo, Karnezis dá voz a inúmeras personagens de uma pequena comunidade da Grécia rural, talvez perdida no tempo, ou talvez teimando em acompanhar um tempo que não é mais do que o nosso, sem dispensar centauros, sereias ou mulheres tatuadas. É a comunidade do padre Yerasimo, do carpinteiro Jeremias, do «paralítico» Alexandre, da misteriosa Cassandra, do antigo homem mais forte do mundo, do gordo Baleia, do insolente Retsina, do centauro reivindicativo, de tantas outras personagens.
A certa altura… «O Sol escondia-se por trás das colinas e a aldeia mergulhava lentamente na taciturna obscuridade: o terramoto tinha deitado abaixo a subestação eléctrica e todo o equipamento tinha ficado destruído. Quando o padre Yerasimo saiu de casa com a lanterna na mão só se via a Sírio, mas ao cabo de uma hora de caminhada o céu já estava tão escuro que ele conseguia identificar todas as constelações.» Quem sabe se identificou também aquela onde agora Panos Karnezis está por direito próprio.
Com tanto êxito em Inglaterra em 2002 e na Grécia em 2003, este poderia ter sido um dos livros do ano em Portugal, em 2004. Mas de livros do ano, por cá, como é bem sabido, estamos mais do que conversados.
A Cavalo de Ferro, que deu ao público português a possibilidade de conhecer esta voz tão nova quanto fascinante, publicou entretanto um outro título do autor, o romance «O Labirinto».