quinta-feira, 10 de julho de 2008

A literatura invadida pelas formigas

«Uma vez, melhor, um dia, pedi-lhe uma história para uma revista. Um conto. Pedi-lhe ao fim da tarde. Telefonei-lhe e pedi. O Luís nem disse que sim nem que não, disse apenas qualquer coisa como não valer a pena preocupar-me. No outro dia de manhã eu tinha a história na minha caixa de correio electrónico, enviada algures durante a madrugada. Uma história de formigas, cuja narradora – uma formiga, obviamente – dizia muitas vezes ‘a malta anda por todo o lado’, quase tantas vezes como um conhecido treinador de futebol diz ‘na realidade’ ou um desconhecido colega de um trabalho que tive no século passado dizia (se calhar ainda diz) ‘por conseguinte’.» Este é um excerto do prefácio que escrevi para um livro de contos do Luís Graça. Já o conto que pedi ao Luís é o que coloco abaixo; chama-se «Formiga Zé».

Formiga Zé
Um conto de Luís Graça

A malta anda por todo o lado. Essa é que é essa. Somos uma organização. Tem de ser. Sem organização não se faz nada. Já vivo há uns tempos em Vila Nova dos Carreirinhos e posso assegurar que as vias de comunicação estão bastante desenvolvidas.
Quando eu era miúdo, ainda nem conseguia carregar um grão de açúcar, andar à volta de uma bolacha já era uma verdadeira aventura. Agora não. A malta anda por todo o lado. Somos uma organização.
Este ano resolvemos ocupar a casa dos Fonseca, que fica no centro de Vila Nova dos Carreirinhos. Uma operação de média dimensão, apenas três brigadas de trezentas operárias cada. A brigada mais conceituada é a do Matias, que passou dois meses em África, num embondeiro. O Matias tirou um mestrado em marabuntas.
A brigada do Matias é essencialmente constituída por tropas de choque, que fazem escolta às carregadoras, que são basicamente formigas de leste, com formação superior e muito diligentes. A brigada do Matias foi destacada para a cozinha, com missões frequentes ao açucareiro, ao caixote do lixo e ao armário das loiças.
A malta anda por todo o lado e o Matias é um trabalhador qualificado. Claro que isso não invalida um número de baixas considerável, mas com as formigas é mesmo assim. Não temos a capacidade de fuga de uma melga ou a possibilidade de dissimulação de uma pulga.
Não, a malta anda por todo o lado mas tem as suas limitações. Nós, as formigas, temos um grande problema: a nossa costela germânica permite-nos ser altamente organizadas mas limita-nos sobremaneira a capacidade de improviso.
O sacana do filho do Fonseca deu-nos cabo de um mês de trabalho só por brincadeira. Nós tínhamos o quartel-general montado no interior da parede da cozinha. Um pequeno orifício permitia-nos transitar organizadamente de dentro para fora e de fora para dentro. Sempre em fila indiana, ao longo de uma linha imaginariamente traçada, com dois sentidos.
Pois, a malta anda por todo o lado, mas o filho do Fonseca resolveu obstruir o buraco da parede com um stick de cola UHU. Resultado: o quartel-general ficou completamente obstruído e levámos mais de um mês a abrir um buraco ao lado. Mal o filho do Fonseca descobriu, pôs-se a inventar. Partiu uma série de palitos e tapou o buraco à malta.
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Bem, não vou negar que isso nos causou sérios engulhos, mas a malta anda por todo o lado. Demos a volta à situação, literalmente. Embora tenha havido alguns danos colaterais. Uma patrulha da brigada do Menezes perdeu-se e foi parar ao fogão. Até aqui, nada de especial. O pior é que estava na hora do almoço e a mulher do Fonseca foi pôr as panelas ao lume.
Pois. A malta anda por todo o lado, mas há lados por onde não devia andar. Nós, as formigas, somos pequeninas e perante fontes de calor muito elevadas não conseguimos resistir. Lastimo dizer que a patrulha da brigada do Menezes não resistiu. Entre as refeições, o fogão não é um local potencialmente perigoso. Nas férias dos Fonseca, as formiguitas mais novas até costumam ir para o fogão andar de skate. Mas há tempo para tudo. A hora das refeições não pode ser usada pelas formigas para atravessar o fogão.
Já saiu uma resma de circulares sobre o assunto, mas ainda assim as baixas continuam. É altamente frustrante para toda a comunidade. Também estamos fartos de avisar para não se circular em freelance. É perfeitamente suicida tentar angariar migalhas de pão ou de queque em manobras lunáticas. Qualquer um pode agarrar-se a um saco de guardanapo. É fácil subir para um tabuleiro e ficar agarrado a um saco de guardanapo. Damos de barato que se transita até via aérea da cozinha para a sala.
O problema é este: a malta anda por todo o lado, mas não pode permitir que os Fonseca nos identifiquem. Chegados a este ponto, estamos perfeitamente vulneráveis. Ora, qualquer formiga apanhada em campo aberto tem o destino marcado. A mesa da sala de jantar é um local de alto risco e de escasso abrigo. Até agora, o único sobrevivente de uma incursão à sala de jantar foi o Esteves Orelhas-Surdas.
E foi por um acaso do destino. Valeu-lhe subir para a manga da camisa do Fonseca, num instinto abençoado. O Fonseca foi para o duche e deitou a camisa para o alguidar da roupa suja, onde fomos dar com o Esteves Orelhas-Surdas, muito amarfanhado, debaixo de um par de cuecas e de meia dúzia de peúgas.
Apesar de todos os cuidados, há sempre necessidade de missões de elevada perigosidade. Por exemplo, uma vez por mês temos de ir buscar comida ao caixote do lixo, missão cumprida de noite, enquanto os Fonseca estão a dormir. O percurso é longo e sinuoso. Não adianta estar com paninhos quentes.
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É preciso atravessar toda a parede da cozinha, passar por cima do lava-loiças, fazer agulha para o cabide das colheres de pau e descer para o caixote através do pano da loiça. Depois, é preciso seleccionar os géneros e trazer a comida para o quartel-general.
Se conseguirmos efectuar toda a operação durante a noite, muito bem. É coisa para umas cinco horas, porque a malta anda por todo o lado. O pior é se o filho dos Fonseca regressa às cinco da madrugada de uma saltada a uma discoteca da 24 de Julho. O idiota do puto, de brinquinho na orelha, gel no cabelo e olhar de bezerro, dá-lhe para vir carregado de shots e põe-se a matar formigas por diversão.
Nessas ocasiões, não há nada a fazer. É cada um por si. Mas pouca gente consegue sobreviver. É preciso manter o sangue-frio e tentar subir para as roupas do filho do Fonseca, permanecendo nelas o tempo que for necessário. É imperioso evitar a circulação por áreas mais sensíveis, como por exemplo o pescoço, as bochechas ou as costas da mão. A malta anda por todo o lado, mas tem de saber que há lados por onde não deve andar. Nomeadamente, os lados em que os humanos são mais sensíveis aos nossos passos. Numa fracção de segundo se perde uma vida.
Eu estou há cinco meses em Vila Nova dos Carreirinhos e há três semanas em casa dos Fonseca. Sou um veterano de quinta comissão. Estas tour of duty são registadas em acta no «Livro de Missões, Omissões e Demais Circulações».
Já ganhei duas «Purple Heart» por bravura para além do exigível. Salvei o Chiquinho Antena-Mole de ser lambido pelo cão dos Fonseca, que já o tinha farejado. O Chiquinho Antena-Mole ainda podia andar, mas estava todo molhado pelo nariz do cão. Eu andava por ali e mandei uma patrulha efectuar uma manobra de diversão em cima do osso do cão. Enquanto o cão agarrava no osso, pus o Chiquinho Antena-Mole a salvo. Sei que não devia ter arriscado uma patrulha numa operação tão delicada, mas andei com o Chiquinho Antena-Mole na Escola de Sargentos e não o podia deixar ser lambido por um Pékinois castanho que passa a vida a arfar e a ganir.
A malta anda por todo o lado, mas o que perturba sobremaneira a nossa vida é o desaparecimento súbito de uma brigada. Basta um dos Fonseca mudar uma coisa de lugar de modo imprevisto. Sabem como é. Por exemplo: a malta está a empanturrar-se na casca de uma banana, esquecida há duas horas em cima da máquina de lavar. Vem a mãe Fonseca e manda a casca para o caixote do lixo. Se ficarem três ou quatro formigas em cima da máquina de lavar, está tudo estragado. Perdem por completo o sentido de orientação. Sem o chefe de brigada, qualquer formiga fica completamente à toa.
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Já fiz milhentos requerimentos ao ministro do Equipamento Social, mas as novas antenas com GPS alcalino ainda estão empanadas na alfândega. Assim é muito mais difícil, não só trabalhar em condições como sobreviver.
A malta anda por todo o lado e sabe os perigos que nos espreitam, mas também não há necessidade nenhuma de morrer de forma gratuita. O sofrimento é geralmente reduzido, valha-nos isso. Os humanos costumam esmagar-nos entre o polegar e o indicador e depois fazem uma pequena bolinha.
Os mais perversos vão buscar os binóculos para tentar perceber as razões da nossa maneira de agir, mas eu acho que tudo não passa de desvarios sexuais e desvios. Os humanos estão firmemente convencidos de que nós somos todas pretas, o que é uma asneira enorme, como é sabido. Qualquer ser inteligente tem consciência de que o nosso corpo é alaranjado e a aparência negra não passa disso mesmo: uma aparência.
Ultimamente, o Grão-Mestre Florindo tem vindo a trabalhar num projecto ultra-secreto. Está a estudar a viabilidade de pilhar a pasta de dentes aos humanos. Até aqui temos vindo a concentrar-nos em alimentos simples, como migalhas, minúsculos restos de comida, coisas assim. Mas a partir de agora criou-se a possibilidade de nos alimentarmos de pingos de pasta de dentes. Mandámos já vários agentes ao lavatório da casa de banho, mas os resultados têm sido desanimadores.
O Pereira Kamikaze chegou ao lavatório, identificou um pingo, aproximou-se, recolheu uma amostra e regressou ao quartel-general. Poderia pensar-se que tudo correu bem, mas não é verdade. O Pereira Kamikaze morreu um dia depois, com uma overdose de Colgate, antes mesmo de ter podido escrever o relatório.
Quanto ao Carlitos Spidado, não conseguiu usar o discernimento para regressar à base e saiu de casa dos Fonseca sem se aperceber do facto, depois de ter cumprido o percurso para o lavatório sem problemas. Pensa-se que esteja a viver na casa dos Lopes, mas é mera conjectura. Talvez lá mais para o Verão se consiga esboçar uma certeza.
O Jimbrinhas Xoné foi liquidado sem hipóteses de se defender, enquanto tentava passar da torneira para o lavatório, pendurando-se na corrente da tampinha do ralo. Desequilibrou-se e foi pelo cano.
De modo que o projecto ultra-secreto do Grão-Mestre Florindo não tem corrido grandes riscos de divulgação. Todos os que trabalharam nele deram a alma ao Criador.
***
Quanto a mim, por vezes fico a pensar em qual será o significado da nossa existência, sempre em fila para algum lado, sempre à cata de uma migalhita como se fosse a coisa mais importante do mundo. Às vezes ponho-me a pensar: e se a malta andasse sozinha, em vez destas manias de andar sempre em carreirinho, umas atrás das outras?
Agora quando penso que há cães presos às casotas por uma corrente, sinto-me orgulhoso e sei que a malta anda por todo o lado.

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5 comentários:

Luís Graça disse...

Após uma ausência algo significativa, elas voltaram.
E já andam outra vez de nariz metido no frasco do açúcar.
A subir armários, a descer armários, em fila para o caixote do lixo.
Imparáveis.

Silvana disse...

Belo conto. O autor é muito bom. Pelas coisas que vou lendo do que escreve, já devia ser famoso em Portugal, estar considerado no top dos nossos escritores.

amv disse...

Silvana

Compreendo o que diz. Obviamente que o Luís está muito à frente da grande maioria dos nossos escritores, até de muitos dos famosos. Mais cedo ou mais tarde vai ter o reconhecimento que merece. Por agora, é claro que há coisas que não fazem muito sentido. Eu nunca percebi por que é que em 2003, com o livro de contos do homem que casou com uma estrela porno, ele não ganhou o prémio do conto da APE, por exemplo (tenho as minhas suspeitas, uma delas é a de que ficavam com vergonha por causa do título, mas enfim, se fosse com o segundo livro de contos, aquele para o qual eu escrevi o prefácio, sempre poderia ser pior...)

Abraço,

António

perry mason disse...

Conto delicioso.

Luís Graça disse...

As minhas aventuras e desventuras com as formigas já vêm dos tempos da Venda do Pinheiro.

Comecei a ir para a vivenda Retiro em finais dos anos 60. E gostava muito de ficar a observar as formigas. Muitas vezes com um par de binóculos que ganhei num sorteio da Verbo. E que mais tarde serviriam para ver o Ayrton Senna e as miúdas da recta da meta, no autódromo do Estoril.

Já nos lanchinhos da malta as formigas causavam um transtorno do caraças. Mas sempre achei que andavam na vida delas.

A chegada à cidade, mais concretamente ao centro de Lisboa, deixou-me confuso. Um sinal dos tempos.

No "Papillon" há cenas impressionantes da vida das formigas.

Quanto ao livro de contos da Polvo, se calhar nem podia ganhar o prémio da APE, por questões regulamentares.Provavelmente o editor nem o mandou a concurso.

Coisa que não me perturba nada.

E no que toca à notoriedade, estou tranquilo. Tentei dar nas vistas para poder publicar regularmente e voltar ao mercado de trabalho do jornalismo.

Falhado o objectivo, devido às condições actuais, fico sossegado no meu cantinho.

Ontem conheci a Redacção de um novo semanário de futebol: JORNADA. Está aí nas bancas. Vai no número 7. Este último número traz uma entrevista ao guarda-redes Ricardo, que agora está completamente viciado no golfe, segundo confessa ao Afonso Melo, o director-editorial.

As fotos são do CHAMACO, um grande repórter fotográfico da nossa praça.