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sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Uma crónica

A minha crónica de Fevereiro da revista «Magazine Artes». O título genérico da crónica é «Letra Redonda».

A escolha de Valdano
Não que os grandes escritores não saibam escrever histórias de futebol. Nada disso. O que acontece é que as histórias de futebol escritas por grandes escritores poucas vezes me interessaram. Na volta, o problema é meu. Por exemplo, Camilo José Cela, que tem um livrinho («Onze Contos de Futebol», ed. ASA), escrito nos anos 60… Em páginas ao calhas, encontra-se coisas como «se corre o notório risco de terminar enforcado, o árbitro deve abster-se de assinalar penáltis, castigo que pode ser substituído pelo livre ou até pelo deixar jogar»; mas o que mais há é coisas como «no céu voou um abutre sem penas a que chamam xofrango-quebranta-osso, enquanto as viúvas de mau agoiro (roídas de inveja) ficavam com a voz embargada na garganta». Comprei o livrinho por atenção ao notável escritor galego, mas lê-lo com o fascínio com que li outros livros dele, nem pensar nisso...
Antes do Verão de 2002, com um mundial de futebol quase a começar, foi editado pela Relógio d’Água um livro chamado «Contos de Futebol», com nomes como Alfredo Bryce Echenique, Javier Marías ou Osvaldo Soriano. Sem caírem na prosa cifrada do Cela dos «Onze Contos…», as histórias acabaram por também não me interessar muito. Do livro, a que retive, a que nunca mais esqueci, foi a do coordenador da edição, Jorge Valdano, o famoso futebolista companheiro de Maradona na selecção argentina campeã mundial em 1986 (e talvez uma de Julio Llamazares, sobre o penalty falhado por um jogador do Deportivo de Coruña, no último minuto da última jornada do campeonato espanhol e que custou o primeiro título ao clube galego).
Valdano conta uma história de um guarda-redes que nos sonhos defende um penalty no último minuto de um jogo que está empatado a zero. Um dia acontece na realidade, a quatro minutos do fim. Ele atira o boné para dentro da baliza antes de se colocar na posição para tentar agarrar a bola. E acaba por defender o penalty, tornando-se o herói da multidão, por uns segundos, até ao momento em que, com a bola bem segura, entra na baliza para ir buscar o boné.
Uma vez, em Madrid, perguntei a Valdano durante uma entrevista se a história era verdadeira, e ele disse-me que a ouvia contar desde pequeno, mas que não se tratava de uma situação real. Seria contudo possível no futebol, por isso a tinha escrito; para ele, era uma das muitas histórias de perdedores, uma história que mostrava as duas faces do futebol em poucos segundos, o herói e o proscrito.
Aproveitei para lhe perguntar também como se tinha sentido no meio de tantas estrelas da literatura, se tinha sido mais difícil do que jogar ao lado de Diego Maradona ou de Jorge Burruchaga, e ele disse-me que o mundo do futebol é que era o seu mundo. Eu acrescentei, sem que fosse uma pergunta, que todos os escritores do livro gostavam muito de futebol e Valdano acabou por dizer-me que se sentia muito bem com eles, que tinha muitos amigos na literatura, de todas as gerações, Mario Benedetti, Francisco Umbral, Manuel Vásquez-Montalban... Acrescentei Javier Marías, um grande adepto do Real Madrid, clube onde Valdano tinha jogado e onde então era director-geral. E ele acabou por dizer-me que gostava muito de escrever, mas que aquilo de que gostava mesmo era de ler. E quando eu já não ia dizer mais nada, nem perguntar, acrescentou que se tivesse de escolher entre ser Borges ou ser Maradona, haveria sempre de optar por ser Maradona.

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Começos prometedores - 7

«Numa quarta-feira de cinzas de há muitos anos, pelo menos duzentos anos, o cavaleiro Michael Percival, o Agachadiço, encarou a sua própria silhueta e, desembainhando o cutelo do monte, o de rematar javalis, cortar cajados de cerejeira, sabina ou faia e gravar corações e flechas nas cascas dos freixos, falou-lhe com alguma estudada serenidade e a meia voz.»
Início do romance «O Assassínio do Perdedor», de Camilo José Cela, 1994 (ed. portuguesa DIFEL, 1994)

terça-feira, 24 de julho de 2007

Antes de recomeçar a escrever sobre futebol

Com a nova época futebolística já em preparação, e antes de recomeçar a escrever sobre futebol – sobre o Sporting, já se vê –, deixo aqui um texto que escrevi há uns anos (em 2001, também em princípio de época, e agora corrigido) sobre um pequeno livro de Camilo José Cela chamado «Onze Contos de Futebol». Leitura muito, mas mesmo muito recomendável.

Textos sobre livros – 33

«Onze Contos de Futebol», de Camilo José Cela (Edições ASA, 74 pp., primeira edição portuguesa em 1994)

Cela e o joga da bola

Agora que estamos em começo de época de futebol, talvez seja a altura ideal para apresentar um livro sobre o tema. Para não diminuir o jogo da bola, trazendo aqui um qualquer desconhecido, escolhi «Onze Contos de Futebol», obra de um génio que até teve direito a Nobel da Literatura.
Camilo José Cela escreveu «Onze Contos de Futebol» em 1963, quando o futebol era bem diferente do de agora. De qualquer forma, estes pequenos contos não estão colados a nenhuma época em especial. São verdadeiramente intemporais.
Camilo José Cela nasceu na Galiza, na localidade de Iria Flávia, em 1916. O pai era espanhol e a mãe inglesa. Estudou Direito, Medicina e Filosofia. Não foi propriamente um romancista, mais do que isso, muito mais, foi um escritor, dono de uma obra multifacetada, onde se destacam os contos e os livros de viagens. E também os romances, obviamente, romances que em muitos casos acabam por ser emaranhados de histórias e mais histórias, surgidas em catadupa; histórias da Galiza e do seu mundo fantástico, da Galiza fantástica de Cela.
Nestes «contos de futebol», Cela não conta simples histórias do pontapé na bola. O que neles se pode encontrar é de novo um certo mundo de fascínio do grande escritor galego, com personagens mirabolantes e situações inusitadas. Como exemplo, deixo o início de uma das histórias, que levou o título «Como um cão no entrudo».
O ofício de cão é um mau ofício, um ofício sem meio termo: pelos vistos entre os cães não há classe média, mas sim áurea aristocracia e sebenta e faminta vulgaridade.Uns cães vivem como duques e comem peitinhos de frango e bebem leite, e outros, pelo contrário, farejam nos matadouros, levam pauladas e, quando chega o carnaval, até voam pelos ares, com o espinhaço partido em dois. Os cães, pelo entrudo, são pintados às riscas para maior e mais cauteloso escárnio do próprio e regozijo dos outros, e assim, quando vão pelos ares, as pessoas dizem: «Parecem borboletas!», e divertem-se honestamente e sem fazer mal a ninguém (o cão não conta, pois para isso é cão e não vereador, ou proprietário de uma loja de souvenirs).
A Blas Tronchón, Harinita, quando o jogo acabou, puseram-no no meio da manta e começaram a atirá-lo ao ar e a divertir-se com ele, como fazem aos cães no entrudo. A cena foi de muita graça e crueldade, e o público, enquanto moíam os ossos a Blas Tranchón, Harinita, divertiu-se com uma circunspecção muito recatada.
– Que não tivesse falhado o penalti, não é verdade?
– Pois claro, é como eu costumo dizer: que não tivesse falhado o penalti. Assim vai aprender a afinar a pontaria!