segunda-feira, 4 de junho de 2012

António Souto – Crónica (48)


Tem dentro dele uma história, uma história triste, de abandono em lugar de amparo e de chuva em lugar de lágrimas, mas tem sobretudo no seu âmago a tessitura aprimorada do texto, o rigor extremo do verbo, a delicadeza da palavra, a harmonia do som, a consciência dos limites do silêncio, a liberdade dos sentidos.

Conto exemplar
Já lá vão muitos anos desde que, por feliz acaso, me chegou às mãos uma então muito recente antologia de contos de Portugal e do Brasil, dezasseis ao todo, contidos e agradáveis de ler, e por isso interessantes para um público estrangeiro, especialmente para jovens estudantes franceses. Uma colectânea com a chancela Le Livre de Poche, na colecção «Lire en…», no presente caso «en Portugais».
Foi há vinte e três anos, leccionava eu a nossa língua e uma (a)mostra da nossa literatura em Estrasburgo, e desse conjunto de contos houve um em particular que me seduziu. Um conto breve, mas muito rico, muito burilado, muito realista, muito poético, muito exemplar. Li-o várias vezes e o prazer de o ler crescia numa permanente descoberta de pintura fascinante.
Ainda hoje o leio para alunos portugueses quando lhes quero mostrar a arte de contar e quero que sintam (sentirão?) a grandeza e a força das palavras. E a par, quase sempre, uma crónica de Lobo Antunes, mestre também em condensar um mundo inteiro em meia dúzia de linhas.
Mas voltemos ao conto, àquele que, de forma peculiar, me cativou. Leva por título «Uma vela para Dario» e narra-nos o episódio de um cidadão comum que se sente mal em plena cidade, dá-lhe um fanico, cai na calçada, alguns «passantes», com o pretexto de o ajudar, vão-lhe roubando os poucos haveres que transporta, a população assiste comprazida ao longo espectáculo da morte, um menino negro acende-lhe uma vela, a chuva cai, a vela apaga-se.
Uma circunstância corriqueira para quem se acostumou com o arrastar da vida a desacreditar na bondade do ser humano e na sua reclamada solidariedade, um acontecimento que daria para um vulgar apontamento de pasquim a somar a muitos outros que se esquecem antes de terminada a leitura.
Porém, este caso é um conto. Este caso tornou-se um conto. Este caso saiu da rua, saiu da cidade, fez-se texto e, por magia, converteu-se em matéria poética. Pouco importa a tonalidade com que se pinta a indiferença, a crueldade, a dor, ou, pensando bem, talvez assim importe mais, e pela coloração da arte o sofrimento entre mais fundo, para lá dos olhos, e o coração do leitor se revigore e a pessoa que é, também por magia, passe a ser mais pessoa.
Regressemos ao nosso conto, chamemos-lhe assim, agora nosso, porque partilhado. Tem dentro dele uma história, uma história triste, de abandono em lugar de amparo e de chuva em lugar de lágrimas, mas tem sobretudo no seu âmago a tessitura aprimorada do texto, o rigor extremo do verbo, a delicadeza da palavra, a harmonia do som, a consciência dos limites do silêncio, a liberdade dos sentidos. Exemplar, portanto, como se disse já, e tudo condensado em seiscentas e vinte e seis palavras.
Nunca li o livro de onde este conto foi extraído («Vinte Contos Menores», Editora Record, 1979), por nunca me ter cruzado com ele, sequer tive curiosidade em saber pormenores do seu autor; poucos portugueses, de resto, terão tido notícias dele e da sua obra. E o Brasil, contudo, aqui tão perto e em português também.
Não fora o «Prémio Camões» deste ano e não o descobriríamos, avesso que é como poucos à notoriedade e ao mercantilismo livresco que transfigura lugares-comuns em best sellers. Em Curitiba continua, e continua escrevendo e esquivo nos seus sossegados 87 anos. Consta-se que não virá a Portugal receber o prémio, para fazer jus à sua caturrice, mas dele não se livrará, porque é justo e devido. Um conto lhe bastaria. Parabéns, Dalton Trevisan!

Crónica de Maio de 2012 de António Souto para o blog «Floresta do Sul»; crónicas anteriores: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14, 15, 16, 17, 18, 19, 20, 21, 22, 23, 24, 25, 26, 27, 28; 29; 30; 31; 32; 33; 34; 35; 3635; 3738;   39; 40; 41; 42; 43; 44; 45; 46; 47.

2 comentários:

Manuel C. Gomes disse...

Nunca percebi bem os critérios de selecção dos premiáveis, espero, porém, que a excentricidade não seja um deles!

António Souto disse...

Pelo que li dele (dele e sobre ele), quando muito haverá alguma 'incentricidade', de resto cultivada já desde os tempos iniciais de jornalista.
Embora seja de opinião que a excentricidade, quando convive com a excelência (i.e. com manifesta qualidade), até pode ser saudável. Agora quando se traduz apenas em folclore... E disso temos bastante pelas bandas de cá!...