domingo, 11 de março de 2012

António Souto – Crónica (45)



Por muito que me tenha disciplinado, entrei neste universo dos incumpridores e falhei a pontualidade desta crónica que, devendo ser de Fevereiro, é já de Março adiantado.

Quando as voltas se trocam
A escrita anda muitas vezes associada à leitura (e vice-versa). Precisamente por assim ser é que quando tentamos conjugar ambas as actividades as coisas nem sempre correm como desejamos, e depois vamos adiando ora uma, ora outra, e os compromissos acabam por se arrastar. Primeiro um dia, a seguir mais um ou dois, logo passa uma semana, e logo quinze dias, e aquilo que era para ontem passa para o mês seguinte e deixa de haver desculpa que nos valha – somos num ápice uns irresponsáveis. Por muito que me tenha disciplinado, entrei neste universo dos incumpridores e falhei a pontualidade desta crónica que, devendo ser de Fevereiro, é já de Março adiantado. E isto porquê (em jeito de desculpa)? Porque me tinha apalavrado que nesta crónica daria notícia de um livro de um amigo, não por ser amigo (que seria já razão para o fazer), mas porque comecei a ler o ensaio e comecei a gostar dele e comecei a cogitar que merecia ser apregoado (passe a imodéstia minha de me julgar consultado). O problema é que ia eu a meio da dita leitura e entrei pelo último Mário de Carvalho adentro enquanto o diabo esfrega um olho, perdão, pelo «quando o Diabo reza», assim mesmo, com um pós-título apelativo, «vadiário breve», e deixei-me seduzir com os enredos do casal Bartlo e Cíntia. O problema é que ia eu agora em leitura adiantada desta peripécia e mete-se a talho de foice a releitura do «Memorial do Convento» e d’ «Os Maias», questão de dever, questão de relembrar o que a escola e a vida, felizmente, nos não consentem esquecer. O problema é que quem muitos burros toca, algum fica para trás, e ficou, como se notou e vê.
E que ensaio era aquele merecedor de pregão? Um texto de pendor filosófico ou, como escreve o seu autor, «Um divertimento político-filosófico acerca da profundidade do quotidiano». Assim é este «Podemos Matar um Sinal de Trânsito?», uma deambulação entretecida a partir de um sinal de sentido proibido que deixou de estar onde estava, numa rua de sentido único, porque tombado. Para além dos sérios riscos que esta «ausência» pode causar aos automobilistas que por lá passam, é o olhar atento e a reflexão complexa de Porfírio Silva, em primeira pessoa, que nos conduz pelos meandros da aventura do «pensamento estruturado» como quem conta uma história – uma maneira enganadora de nos fazer parecer fácil o que é deveras complexo, ou uma maneira cativante de nos revelar a complexidade do muito que julgamos fácil, só porque deixamos de ver o que olhamos distraidamente no quotidiano.
Este é o ensaio que me trocou as voltas à crónica que deveria ter sido alinhavada em devido tempo, e não foi. Este o livro que ficou a meio, mas que não tardarei a rematar, antes mesmo de deslindar o andamento da reza do Diabo.
É só darem-me o tempo suficiente para orientar o Saramago e o Eça, ou orientar neles os alunos que deles precisam como de pão para a boca, não tanto das criaturas e dos seus ensinamentos, mas de classificações exibíveis, para que não deprimam. Sim, para que não deprimam. Que, pelos vistos, pior do que o estado das escolas é o estado psicológico dos alunos, jovens debilitados, com a auto-estima em baixo, porque os professores, os mesmos que andam a chumbar menos nos últimos anos, teimam em ser parcimoniosos nas notas que atribuem, e aí é que reside o mal do nosso país que há e há-de vir, termos um mundo de alunos infelizes por terem notas baixas, apesar de transitarem, mais infelizes do que aqueles que reprovam pela segunda ou terceira vez, pois nestes o «autoconceito académico já estabilizou», pelo menos assim reza um estudo recente do ISPA – como as rezas do Diabo.
Portanto, e porque quero contribuir para levantar a auto-estima dos meus alunos, preciso de arrumar devidamente os clássicos para me voltar para os meus coevos amigos, o Porfírio que me perdoe. Matar por matar, matemos os sinais!

Crónica de Fevereiro de 2012 de António Souto para o blog «Floresta do Sul»; crónicas anteriores: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14, 15, 16, 17, 18, 19, 20, 21, 22, 23, 24, 25, 26, 27, 28; 29; 30; 31; 32; 33; 34; 35; 3635; 3738;   39; 40; 41; 42; 43; 44.

1 comentário:

Manuel C. Gomes disse...

Se fossem apenas os clássicos a atrapalhar o caminho! Provavelmente parte da abulia dos alunos tem outra fonte: a preguiça de quem não necessita de fazer um esforço.
No entanto, isso passa. A necessidade encarregar-se-á de corrigir o desinteresse, e os clássicos já serão outros...