sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

A capa

A capa do meu romance «Uma Noite com o Fogo». Vai estar nas livrarias na segunda quinzena de Fevereiro.
Foto de capa: Rui André
(clicar na imagem para aumentar)
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A pátria

Mandou-me isto há uns dias o meu amigo Carlos Perdigão.
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«Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta.
Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não descriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados na vida íntima, descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira à falsificação, da violência ao roubo, donde provém que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis no Limoeiro.
Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este criado de quarto do moderador; e este, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do País.
A justiça ao arbítrio da Política, torcendo-lhe a vara ao ponto de fazer dela saca-rolhas.
Dois partidos sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes, vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se malgando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento, de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar.»
Guerra Junqueiro, «Pátria», 1896
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(Nota: colocado há dias no blog «Delito de Opinião»)
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terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Revista «human» – edição de Fevereiro

Número dois da revista «human», edição de Fevereiro de 2009. Nas bancas já esta quarta-feira, dia 28. (clicar na imagem para aumentar)
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domingo, 25 de janeiro de 2009

Margem sul

Agora quem se pronuncia sobre a trapalhada do Freeport é o ministro Mário Lino. Presumo que seja por tratar-se de uma coisa da margem sul.
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Uma tremenda desilusão

O Nacional 1, Sporting 1 (Vukcevic), que podia levar a equipa para a frente da classificação, foi uma tremenda desilusão. O Sporting não teve a sorte do Benfica e do Porto nos jogos com o Braga (casos de Polícia Judiciária), porque se tivesse tido certamente que o golo anulado a Liedson (estava fora-de-jogo) teria contado e assim a vitória dificilmente nos escaparia. Mas mais do que falta de sorte para o árbitro nos beneficiar (que agora é o que parece que faz os campeões), creio que a falta de qualidade é que foi o problema. Deixo algumas notas…
- Rui Patrício confirmou que é um guarda-redes problemático, com um frango e uma saída maluca que podia ter dado uma grande penalidade (depois defendeu a que o árbitro marcou, como noutras vezes tem feito, tirando aquelas em que se trata de jogos decisivos, de desempate, em que não agarra uma bola);
- A asneira de Abel ao empurrar um adversário dentro da grande área (Abel que até é um bom jogador) é imperdoável;
- Polga, um dos jogadores mais azelhas que já passou pelo clube, mas também um dos mais lutadores, agora, inexplicavelmente, não mostra interesse pelo jogo e os seus níveis de aplicação estão ao nível dos fraquíssimos níveis de Caneira;
- Rochemback em campo – lento, gordo, longínquo – desmotiva qualquer adepto;
- Paulo Bento continua incapaz de reagir às adversidades, como se viu neste jogo depois de estar a perder, e além disso teima na asneira nas escolhas que faz (o que está a fazer a Yannick, além de desumano, é de uma enorme estupidez que só penaliza o clube).
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segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Dois jogos

Dois jogos da Taça da Liga, com a qualificação para as meias-finais. O Rio Ave 0, Sporting 1 (Vukcevic) e o Sporting 5 (Liedson 3, Izmailov, Vukcevic), Paços de Ferreira 1 da noite de domingo. Só agora digo alguma coisa. Fica a ideia de uma competição arranjada em cima do joelho, e também o falhanço da arbitragem no golo que deu a vitória em Vila do Conde (de qualquer maneira, não se pode comparar com os escândalos sucessivos a favorecer o Benfica) e todo o génio de Liedson contra o Paços de Ferreira (agora que quase ninguém se lembra de que existe uma selecção nacional, culpa de Carlos Queiroz e do pouco profissionalismo que tem posto no desempenho do cargo de seleccionador, talvez não fosse mal pensado convencê-lo a jogar no ataque de Portugal).
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terça-feira, 13 de janeiro de 2009

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Um jogo tranquilo

Parece que bastou Filipe Soares Franco dizer que se afastava para termos um jogo tranquilo, o Sporting 2 – Marítimo 0 (Vukcevic, Liedson). Foi pena não ficarmos à frente da classificação, destacados, por causa da roubalheira do Estádio da Luz (talvez o Braga devesse chamar a PJ); entretanto, confirmaram-se as esperanças que eu tinha na ajuda do simpatiquíssimo Trofense.
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Os políticos

Estou a reler um romance de Santiago Gamboa, chamado «A Vida Feliz do Jovem Esteban». A certa altura, fala dos políticos do seu país, a Colômbia, com umas frases que, tirando algumas expressões (o «pó branco», os «dois oceanos»…), me fizeram lembrar um pouco daquilo que por cá temos. Assim…
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E os nossos insignes políticos, os pais da pátria? Aí estão, roubando com todas as mãos, esvaziando os esquálidos cofres do Estado, e aí continuam, ainda hoje, lutando no meio das cinzas, insultando-se para obter uma parte maior desse corpo em que têm cravadas as suas garras; pedaços do mesmo cadáver que mataram a golpes de punhal e que jaz à deriva, entre dois oceanos. A gordura obstruiu-lhes o cérebro e os seus rosados cus gordos já não cabem nas cadeiras que ocupam. Traseiros adiposos que têm o nome de insignes e históricos partidos. Gorduras sustentadas com rios de whisky e secas no pó branco, o mesmo que nos levou à ruína, gastando ao desbarato os dinheiros deste generoso país que cometeu o erro de os parir.
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sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

O meu apoio total a Filipe Soares Franco

Por uma vez, Filipe Soares Franco tem o meu apoio total. O anúncio de ontem, de que vai largar a presidência do Sporting, deixou-me tão surpreendido quanto feliz. Espero que não volte mais uma vez atrás com a palavra para se candidatar a um novo mandato. Já agora, uma curiosidade… Fiquei com a ideia de que Filipe Soares Franco culpou os sócios e os adeptos por se ir embora, inclusive num jornal vi a expressão «chicotada psicológica» aplicada aos sportinguistas, e dada pelo próprio presidente. Não creio que em lugar nenhum do mundo tenha alguma vez havido um presidente de um clube com lata para tanto. Será que Filipe Soares Franco é mesmo do Sporting? Eu já tinha dúvidas desde aquela história vergonhosa de desejar o segundo lugar para o clube, para poupar nos prémios aos jogadores, e então agora…
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quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

O regresso, quase dois anos depois

Depois de quase dois anos no montado, a Tecla voltou ontem à tarde para casa.
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Chamem a polícia!...

Já me tinham falado desta disponibilidade há algum tempo, mas na altura eu não acreditei. Pelo menos disse para comigo que era melhor não acreditar. Gonçalo Amaral estava «disponível para ser presidente de câmara no Algarve», e inclusive já alguém tinha tentado ver se dava para Monchique, a minha terra (havia de ser bonito um duelo entre o Tuta, presidente infelizmente já há 25 anos, e o polícia do «Caso Maddie»…). Agora confirma-se que a história da disponibilidade, afinal, era verdadeira.
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quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

domingo, 4 de janeiro de 2009

Apenas um bocadinho

Um bocadinho, ao calhas, do meu novo romance. Início aqui.
… um ministro até podia depois de aterrar no ribeiro, levantar-se, passar as mãos pelo corpo a ver se não tinha nada partido, e depois andava uns metros até à levada e ia pela parede sempre a par do ribeiro, no sentido em que as águas corriam e em cinco ou dez minutos chegaria à aldeia da antiga casa da minha avó, onde a levada embocava na represa. E aí era só andar mais uns metros que no escuro da noite lá estaria o carro com o motorista para levá-lo para o remanso da capital, a dupla mansidão do seu gabinete onde tudo esqueceria, o tempo suspenso no ar com os outros iguais a ele em desqualificação e vadiagem, de costas voltadas para a linha de fogo, todos diluídos no escuro, esperando que disparasse uma máquina fotográfica mas de repente o que viam era uma pedra a partir da minha mão, ou nem viam, porque para eles eu também era escuro, também estava misturado com o escuro da noite, e a pedra a mesma coisa; apenas ele, o ministro, sentia o embate, confuso por não ter visto disparar nenhum flash e a pensar que ia ter uma foto para a capa de uma revista ou para a primeira página de um jornal, com sorte uma foto em que haveria chamas como pano de fundo. Mas afinal, fundo, apenas o fundo do vale, para onde ele ia com um galo na cabeça, e depois ainda tinha um bom bocado para andar até ao sítio onde o motorista o esperava.
Foto: Rui André
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Paulo Bento, ontem à noite, deixou de lado parte da sua tradicional casmurrice (isto para não usar o termo estupidez)

Muita gente cá por casa para jantar e ver o Sporting ontem à noite – Setúbal 0, Sporting 2 (Liedson, João Moutinho) –, tanto que nem deu para prestar grande atenção ao jogo. Mas deu para ver que foi tudo nas calmas e que estamos a entrar bem no ano. Paulo Bento fez bem em deixar de lado parte da sua tradicional casmurrice (isto para não usar o termo estupidez), colocando Vukcevic em campo. Estranhei a falta de Yannick (na volta está lesionado, ou castigado), lamentei a presença do débil e enervante Caneira e mais uma vez notei que Derlei (provavelmente por não jogar a titular – e não seria difícil fazer melhor do que Hélder Postiga) anda de cabeça perdida (mal entrou em campo meteu-se logo em lutas de galos com um tipo qualquer do Setúbal que ainda por cima é bem maior do que ele e não é vesgo). Outra coisa, a indisponibilidade do anafado Rochemback ontem caiu que nem ginjas.
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A frase do ano

Eventualmente poderá não ser a frase do ano de 2008 em termos absolutos, mas é de certeza a frase literária do ano, e aquela que mais me chamou a atenção. Aqui fica…
«A reputação de Auster sempre foi um dos grandes mistérios contemporâneos.» (Rogério Casanova)
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sábado, 3 de janeiro de 2009

O dia em que eu nasci

Publiquei esta história em tempos aqui; chama-se «Pelo fim da manhã».
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Foi pelo fim da manhã; uma manhã de Fevereiro de 1968, enquanto decorria mais uma reunião do executivo da câmara, em Monchique. Vivia-se o tempo pachorrento do costume, numa terra oficialmente despreocupada com as guerras de África, salvo nas casas de quem nessas guerras tinha alguém. Por muitas que fossem, as casas, nelas sofria-se em silêncio com os tormentos da incerteza. A bem, ao que se dizia, da nação. Pouco antes do meio-dia, ainda com vários assuntos por discutir, alguém interrompeu a reunião e chamou o presidente de parte. Sussurrou-lhe qualquer coisa ao ouvido, posto o que ele voltou para o lugar, mas só para avisar de que tinha de ir rapidamente para o hospital. Voltaria assim que pudesse, mas o mais certo era só se despachar depois do almoço.
Da câmara ao hospital a distância não era muita, cerca de um quilómetro. Dificilmente poderia ser mais, numa pequena vila de província do estado novo português, bem no interior do Algarve. Um estado com um ditador velho, sempre pacóvio, maldoso, cínico e decadente, ainda que longe de imaginar que mais mês menos mês haveria de se estampar com a própria cadeira. Acabou por acontecer em Setembro, de noite. Transportado numa limusina negra, pelo meio do trânsito desordenado de Lisboa, foi mandado parar pelo sinaleiro no Cais do Sodré. Ao lado do condutor ia um detestável figurão chamado Fernando Eduardo da Silva Pais, o director da PIDE, a polícia política do regime. Assim que o viu, o sinaleiro pareceu ficar sem voz.
– Avance! Avance! – terá ordenado Silva Pais.
E o motorista conduziu a alta velocidade para o Hospital de S. José, o primeiro poiso do estampado Salazar antes da convalescença na clínica da Cruz Vermelha, em Benfica. Haveria de morrer dois anos depois, pensando que continuava como presidente do conselho.
Em Monchique, a caminho do hospital onde ia nascer mais um bebé, naquele final de manhã de Fevereiro de 1968, o presidente da câmara também conduzia depressa. Mas ninguém lhe fez sinal para parar. Ia num Fiat, um carro dele, não do Estado, que ser presidente de câmara, nomeado pelo governador civil, ainda não dava para grandes luxos. Talvez alguns anos depois… O presidente ganhava a vida como médico, de manhã quase sempre no hospital, onde era o director, e à tarde em casa a dar consultas particulares. A presidência da câmara tinha-lhe sido entregue por se tratar de uma das figuras mais prestigiadas da terra.
Quando chegou ao hospital, estava na hora para o parto. Era para isso que o tinham chamado. Pouco passava do meio-dia. A mulher tinha chegado na noite anterior, indo logo para o quarto onde funcionava a maternidade. Ainda haveria de ficar mais três ou quatro dias no hospital, mas já num dos quartos particulares. O presidente da câmara por pouco não chegava a tempo, mas ainda fez o parto, com as enfermeiras a assistirem. Tudo acabou em bem por volta do meio-dia e meia e o presidente da câmara pôde ir dizer ao homem que aguardava à porta que tinha mais um menino. Só já depois da uma é que deixou o hospital.
Até essa altura, o presidente da câmara ficou a acompanhar o trabalho das enfermeiras com o bebé. Não sabia bem se ainda se justificava passar pela câmara, para a continuação da reunião do executivo. Os outros elementos, provavelmente, tinham aproveitado para almoçar. Se continuassem da parte da tarde e despachassem as coisas cedo, ainda poderia ir para casa a tempo de atender alguns doentes. Aquele parto tinha-lhe complicado a agenda, assim como as dos colegas na câmara. Mas no pachorrento tempo de 1968, ainda por cima na serra algarvia, a velocidade da vida não era muita. Tudo haveria de se arranjar.
O presidente da câmara, mesmo sem saber bem o que fazer, não dava mostras de estar preocupado. E o recém-nascido, no quarto, também não. Haveriam de passar muitos anos até ele começar a perceber certas coisas.
Terá sido algum bebé importante? Para originar tanta labuta, seria bem possível. Mas não. Pelo fim daquela manhã de Fevereiro de 1968, no hospital de Monchique, nasceu um bebé que depois haveria de ser registado com o nome de António. Era eu. Apenas eu.
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Blogs de 2008

Não sei se são os melhores de 2008, mas continuam a ser os que mais visito. Blog colectivo, «Corta-fitas»; individual (ou quase), «A Origem das Espécies». Visitas frequentes também, entre outros, a este, este e este.
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Já agora...

Já agora, a propósito de diálogos (post anterior), ia para dar um exemplo de um do Luís Graça, no conto «Dick Hard e a aventura editorial» (incluído no livro «Dick Hard Detective Privado»), mas afinal não dou. Ainda alguém fazia com que me excomungassem… Os diálogos do conto são geniais, e o conto na totalidade não lhes fica atrás. Já agora número dois… O Luís vai ter mais uma oficina de escrita. A imagem acima é a que ele está a usar para a promoção; o texto, tal como o recebi, é o que coloco a seguir.
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LUÍS GRAÇA À NOITE EM ODIVELAS
EM CURSO DE ESCRITA CRIATIVA POLICIAL

O escritor Luís Graça começa dia 19 de Janeiro (à noite, no Centro de Exposições de Odivelas) um curso de Escrita Criativa Policial, com ponto de partida em duas obras de Dennis McShade (pseudónimo de Dinis Machado), inicialmente publicadas em 1967 e recentemente reeditadas: “Mão direita do Diabo” e “Requiem para D.Quixote”.
Pretexto para acompanhar o assassino profissional Peter Maynard durante seis sessões de três horas (segundas e quintas, início a 19 de Janeiro e final a 5 de Fevereiro) com licença para matar personagens, criar outras, descobrir assassinos e fazer desaparecer vítimas.
Inscrições:
escrita_criativa@if-pt.com, 96 264 6230, 91 620 5859, 93 603 8656
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Uma heresia

Faz de conta que eu não disse isto… A verdade é que alguns diálogos de Harold Pinter não parecem ser nada por aí além.
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sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

António Souto – Crónica (7)

Sétima crónica de António Souto, depois desta, desta, desta, desta, desta e desta. O António mantém uma crónica («Ex-abrupto») no jornal da sua terra («Jornal D’Angeja»). Esta é a da edição de Dezembro de 2008.
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Fraternidade universal
Último mês do ano de 2008. Um mês de amizade, de calor e de fraternidade superlativamente transbordante. Um mês de prendas adivinhadas e de puídas mensagens (que postais, com presépios muito alinhadinhos, com casinhas muito pequeninas com neve a chegar às janelinhas e com pinheirinhos derreados de branco, tudo muito quimérico, praticamente já nem vê-los…).
Este ano, por via das coisas, espécie de teste de benquerença, fiz-me de esquecido, que é como quem há muito dizia na minha terra, armei-me em mula e não mandei mensagens a ninguém, isto é, não tomei a iniciativa de o fazer. O resultado, para meu espanto, superou as expectativas: recebi trinta e sete sms e uma dezena de votos por e-mail (registe-se que, por boa educação e afável prazer, retribuí com uma nota pessoal consoante a inspiração do momento).
Em teoria, questão de estatística, estes são os meus sólidos amigos, à volta de meia centena, aqueles que se lembraram de mim sem esperarem que eu me lembrasse deles. Com a idade que tenho, e abreviando, isto dá uma média de uma provada amizade por ano, o que é muito bom. Bem entendido que fiquei preocupado com o esquecimento de outros que julgava dedicados, mas também a lealdade se não pode aquilatar pela devoção das novas tecnologias. E no fundo no fundo sei que os outros, meus amigos também, se não deslembraram de mim, é bem provável até que, como eu, se tenham igualmente armado em matreiros. De qualquer maneira dou-lhes o benefício da dúvida. Porque é natal, ou, como realçou Antonio Gedeão (na foto) no seu poema «Dia de Natal» (1967), porque…
«Hoje é dia de ser bom./ É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,/ de falar e de ouvir com mavioso tom,/ de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças./ ----- É dia de pensar nos outros - coitadinhos - nos que padecem,/ de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,/ de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,/ de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria./ ----- Comove tanta fraternidade universal./ É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,/ como se de anjos fosse,/ numa toada doce,/ de violas e banjos,/ entoa gravemente um hino ao Criador./ E mal se extinguem os clamores plangentes,/ a voz do locutor anuncia o melhor dos detergentes./ (…)»
Preocupante, mesmo (mais do que a falta de uma mensagem), é a falta que nos faz a efectiva mensagem de fraternidade universal. E logo este ano em que se acaba de celebrar os sessenta anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos (10 de Dezembro de 1948). Basta recordar o Artigo 1 – «Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade.»
Como se sabe e se vê, fraternidade é valia que não falta em cada natal. Teimando em rimar prazenteiramente com fome, miséria e morte…
Por este ano, portanto, e para acabarmos em misericórdia, estamos conversados.
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