terça-feira, 30 de setembro de 2008

A frase da noite

«Eu nunca dormi com uma espanhola.»
Confissão de um jurista, esta noite, no programa «Prós e Contras», da RTP,
sobre a nova lei do divórcio.
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segunda-feira, 29 de setembro de 2008

O que vou escrevendo

Um pouco do que vou escrevendo…
Eu não os via, mas era mais do que imaginá-los o que acontecia comigo. Estavam à minha frente, alguns deles a fazerem um meio sorriso e a cruzarem os braços de diversas maneiras para ensaiarem uns ares de pose, como se pensassem que aquilo que eu tinha apanhado do chão não era uma pedra mas uma máquina fotográfica. Que iam de novo ser capa de revista, ou aparecer na primeira página de um jornal, todos juntos, cada um com a sua pose, uns de braços cruzados, outros com as juntas dos dedos de uma das mãos a suportarem o queixo, outros mexendo no cabelo, outros coçando alguma parte do corpo, outros ainda com uma ervinha seca a fazerem uma limpeza de rotina no intervalo de dois dentes.
(imagem do cenário aqui)
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domingo, 28 de setembro de 2008

Criatividade garantida

O que coloco a seguir é a divulgação de um curso de escrita criativa do Luís Graça. Para os interessados, deixo aqui um e-mail: agostinhodasilva@mail.pt. Acho que a criatividade neste curso está mais do que garantida.
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Luís Graça dá curso de escrita criativa a partir de álbuns de banda desenhada
O jornalista e escritor Luís Graça vai dar um curso de Escrita Criativa a partir de álbuns de Banda Desenhada.
O curso decorrerá durante seis sessões, às quartas-feiras, entre as 18 e as 19h30m, na sede da Associação Agostinho da Silva, ao Príncipe Real, em Lisboa.
O início ocorrerá a 22 de Outubro e o final a 26 de Novembro.
O preço de inscrição é de 50 euros e o número de vagas está limitado a 20, sem prejuízo de reservar vaga para edições seguintes do curso, caso não se consiga inscrever para o primeiro.
No final do curso será construído um blogue pelos alunos, de forma a prosseguir o trabalho de forma interactiva.
Os álbuns de BD a partir dos quais se trabalhará (não é indispensável a sua aquisição, é aconselhável a sua leitura prévia) são os seguintes:
- «A balada do Mar Salgado» (Hugo Pratt), complementada com histórias curtas de Corto Maltese;- «A Marca Amarela» (da série «Blake and Mortimer», de Jacobs);
- «Astérix e o Caldeirão» (Goscinny/ Uderzo);
- «A Trompa de Névoa» (da série «Cavaleiro Ardente», de François Craenhals);
- «O Clic 1» e «O Clic 2» (Milo Manara).
Os álbuns «A Balada do Mar Salgado» e «A Trompa de Névoa» (é muito difícil encontrá-los disponíveis à venda) podem ser lidos na Bedeteca de Lisboa, perto do Metro dos Olivais.

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Um jogo em Marte

Talvez este jogo (Benfica 2, Sporting 0)) tenha sido dos que melhor demonstraram que Paulo Bento é um treinador pouco inteligente. Já por várias vezes me referi neste blog ao «problema do QI», que acaba por ser algo que contrabalança muitas características positivas do treinador do Sporting. Ontem à noite, uma vez mais, o QI ficou bem à vista de quem observou o jogo atentamente e ao mesmo tempo pensou na actuação de Paulo Bento enquanto o mesmo durou; e até depois, na altura de fazer os comentários, onde de novo ele foi fazer uma descrição do que tinha ido acontecendo, como se o jogo tivesse sido disputado em Marte e não tivesse havido condições tecnológicas para a transmissão. Paulo Bento faz sempre isto no fim de cada jogo, põe-se a descrever o que se passou, independentemente de o fazer mal ou bem. Podia trabalhar para a Liga de Clubes, a escrever os relatórios dos jogos em que participa, e até para a UEFA. O que faz sempre é uma descrição. Dá até a ideia de que durante os jogos está mais preocupado em recolher elementos para o que depois «terá» de descrever do que em tentar encontrar formas de ter em campo uma equipa capaz de superiorizar-se ao adversário. É mesmo um problema para o Sporting, ter um treinador que junta boas capacidades, que são inegáveis, ao facto de, afinal, ser um treinador pouco inteligente. No jogo de ontem à noite, aparentemente um jogo fácil, isso ficou mais do que à vista, e a partir do final do primeiro quarto de hora da segunda parte percebeu-se que o Sporting podia de um momento para o outro sofrer um golo e acabar derrotado. Paulo Bento, já se vê, nem deve ter dado por nada.
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quinta-feira, 25 de setembro de 2008

O que vou escrevendo

Um pouco do que vou escrevendo…
Lembrei-me a certa altura de que a linha de fogo, quase sempre tão calma, também poderia desatar a correr. Todos os seus quilómetros de chamas poderiam desatar a correr, ou antes, poderiam meter-se a serpentear pelos montes. O que é que isso causaria por ali? A linha de fogo a serpentear... Se assim calma não era apagada, a serpentear ainda menos seria. Ou o facto de ela serpentear, de se mostrar muito agitada, poderia levar a que os bombeiros a atacassem? Talvez não, talvez pensassem que assim ainda era menos ameaçadora do que se estivesse calma, talvez um chefe – algum «responsável», como era costume ouvir-se dizer, principalmente nos casos em que aquilo que verdadeiramente se percebia era a irresponsabilidade –, talvez um desses mandadores se saísse com uma frase do tipo «cão que ladra não morde», ou «serpente que serpenteia não ferra o dente», e talvez a seguir desse ordem para que deixassem a linha de fogo serpentear à vontade. Talvez até dissesse que a serpentear ela queimaria menos do que se estivesse calma, com tempo e atenção para atingir cada árvore, cada mato, cada erva seca, cada bicho que se atrasasse a fugir para bem longe.
(imagem do cenário aqui)
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quarta-feira, 24 de setembro de 2008

O relato

Fez-me lembrar o o futebol dos filósofos. Refiro-me ao que o Luís Graça deixou na caixa de comentários de um post do blog da revista «Ler», isto…
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Temperatura amena no Salão Nobre da Biblioteca Municipal de Lisboa. Os leitores já estão sentados e aguarda-se a todo o momento que Jorge Couto apite para o início do desafio. Vai ser auxiliado do lado da Torre do Tombo por José António Pinto Ribeiro e do lado da estátua da Guerra Peninsular por Teolinda Gersão.
Luís Graça toca curtinho para Dick Hard, Dick Hard introduz um poema de «A Idade das Trovas», de Inocêncio Pinga-Amor. É «Nenúfar», o título do poema.
MRP reclama que Dick Hard não pode colocar em jogo um poema lírico.O jogo está parado e recorre-se ao vídeo-wall, onde Genaro Olivieri, Guido Pancaldi, Vasco Graça Moura e Eduardo Lourenço vão analisar a situação.
As 17 regras do novo Acordo Ortográfico não são bem claras, mas Jorge Couto aponta para o centro de «Sei lá».
MRP segue agora com o livro bem dominado no regaço. Passa por uma tia, diz adeus a outra, diminuiu bruscamente de velocidade numa montra da Prada, volta a correr com o romance na mão. Deixa cair uma metáfora, recupera e aparece Rick Dart e corta pelo parágrafo final.
Livro de cantos. Já vão dez a favor de Luís. Onde Vaz, Graça? Conseguirá aguentar toda a pressão em cima dos seus corners?
MRP, em belo momento de forma, muito leve, muito Light, muito Tahiti duche com monói, mete no coração da área, recebe com «Alma de Pássaro» e sobrevoa a zona de perigo. A obra cai num vidrão.
A equipa técnica da Oficina do Livro está apreensiva. Apesar de um maior domínio estantorial, MRP não conseguiu fazer esquecer «O Homem que Casou com Uma Estrela Porno e outros contos perversos», da Polvo. Rui Brito, encostado ao banco, de braços cruzados, manda aquecer Jorge Deodato, recuperado de uma recente lesão na Feira do Livro.
É agora Luís Graça que avança pelos terrenos da Oficina. Ouvem-se protestos de Gil Cancela Leite, a propósito da capa de João Pita Grós, em «A Idade das Trovas». O dirigente da Camilo Castelo Branco está nervoso. A Universitária poderá ter uma palavra a dizer neste importante prelo a contar para a terceira jornada da primeira fase da Liga das Ilustrações.
João Fazenda despe o fato de treino. Recorde-se que o ilustrador, que já actuou na Polvo e na Oficina do Livro, prepara-se agora para colorir «Português Suave». MRP já tem a cara cheia de algarismos, para que João Fazenda possa colorir em conformidade.
Vem de novo Luís Graça em bom andamento, está a ler a terceira cena de «Meia-Dúzia de Maldades», terceiro prémio do concurso Novos Textos do Inatel, amortece uma didascália, cola na relva, prepara um curso de escrita criativa na Associação Agostinho da Silva, na Rua do Jasmim, número 11.
Brown, serial killer da peça premiada em 2000, pede para ser substituído. Josué Morteirinho entra na Biblioteca e vai colocar-se ao lado de «Fado, Futebol e Farpas, uma aventura psicadélica», uma edição de autor que não fica a dever nada a um autor de eleição como Luís Graça.
Na realidade, Luís Graça foi eleito como a esperança mais promissora dos eventuais potenciais escritores das próximas duas décadas.
E agora, senhores espectadores, temos o encontro interrompido. Dá ideia que MRP deixou cair algo. Parece que é um brinco. Vítor Alçada Baptista vem ajudá-la a procurar.
– Ai, que chatice. Era o «I'm in Love With a Pop Star», um brinquinho de narrativa, um conjunto de prosas que pôs Portugal a ler.
Luís Graça dirige-se a Jorge Couto e solicita o adiamento do prelo. Já está no banco a discutir com Rui Brito a próxima edição. O fisioterapeuta do centro de estágio BD Voyeur, Machado-Dias, traz um recado para MRP:
– Pede-se à menina Margarida que se dirija com prontidão ao prontuário. Os seus revisores aguardam-na com carinho.
– O quê? Não tou a pecebê. Que possidonice!
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Primeira imagem do Outono

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O prémio do Camões

Disseram-me ontem que se o júri do «Prémio Camões» alguma vez «centrar as suas discussões» em escritores de Monchique eu terei boas hipóteses de ganhar. Disseram-me também que se as «discussões» forem «centradas» em todo o Algarve então o mais certo será eu não ter sorte nenhuma e a Lídia Jorge limpar aquilo.
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domingo, 21 de setembro de 2008

Dois jogos do Sporting

Ainda não tinha escrito sobre os dois últimos jogos do Sporting. Sobre um deles, o da «Liga dos Campeões – Barcelona 3, Sporting 1 (Tonel) –, a verdade é que fiquei sem vontade de escrever fosse o que fosse. A exibição foi tão má que dificilmente eu acreditaria se tivesse viajado para outro planeta e me contassem no regresso. Do jogo ficou-me mais uma vez a ideia de que Paulo Bento é um treinador pouco inteligente, mesmo limitado, embora eu continue a apreciar a sua dedicação ao trabalho com a equipa (da capacidade de liderança já não falo, pois está claro que aquilo a que foi habituando os adeptos do Sporting em termos de disciplina já não é como dantes – veja-se o tratamento desigual de casos como os de Moutinho e Vukcevic).
Quanto a ontem à noite, para o campeonato – Sporting 2 (Hélder Postiga, Romagnoli), Belenenses 0 –, foi um jogo normal e, por do que isso, banal. Mas se calhar eu é que vi mal; se calhar até o jogo de Barcelona eu vi mal e na volta o Sporting até ganhou por cinco a zero e eu é que não percebi.
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sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Talvez um dia um dos meus gatos ganhe o Prémio Nobel da Literatura ou, vá lá, o Grande Prémio do Romance e da Novela da APE

Apesar de eu já ter escrito vários livros, no blog da revista «Ler» o assunto é um dos meus gatos – que em relação a livros o melhor que consegue é dormir em cima deles. Veja-se a parte final do terceiro comentário a um dos posts.
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terça-feira, 16 de setembro de 2008

Vinte e cinco anos a mentir

Coloco a seguir um texto escrito pelo meu amigo António José Santos, vereador da Câmara Municipal de Monchique. Foi lido hoje pelo próprio autor durante a sessão do executivo da câmara, na presença do presidente.
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A história das visitas de um político à casa de Francisco Duarte Correia
Estávamos em Dezembro de 1983 quando um discípulo enviado por Deus, ou pelo Diabo, ainda não se sabe bem, chegou a Monchique e iniciou a sua caminhada por montes e vales, percorrendo todos os lugares do concelho, visitando muitos monchiquenses nas suas humildes habitações. Nesta lufa-lufa, chegou a um lugar denominado Penedo, onde moravam três pessoas, o senhor Francisco Duarte Correia, a sua esposa, dona Margarida, e uma menina deficiente chamada Belinha, a filha do casal.
Quando se apresentou à família, o discípulo disse que era o candidato à Câmara Municipal de Monchique. O senhor Francisco, muito admirado, pois não o conhecia, fez-lhes algumas perguntas para saber as suas afinidades. A dona Margarida, com a sua hospitalidade, convidou o visitante para casa e o marido ofereceu um copo de medronho e umas bolachas, como por ali era costume. Quanto à Belinha, permanecia no seu rude quarto, deitada, pois a deficiência não lhe permitia andar, nem sequer levantar-se da cama.
O senhor Francisco apressou-se a fazer alguns pedidos ao candidato à câmara, nomeadamente o que fazia mais falta, o arranjo da estrada; isto porque, conforme explicava, a menina tinha que ir muitas vezes ao médico e os bombeiros não queriam ir buscá-la devido ao estado em que a estrada se encontrava. Como ainda hoje faz, e sempre fez, o candidato respondeu que se ganhasse as eleições o caminho seria arranjado. Houve um aperto de mão, e de imediato se passou às despedidas.
Quando o viu a entrar no carro de campanha, o senhor Francisco ainda lhe disse: «Mas não se esqueça!...» O senhor Francisco sabia bem a importância de aquela estrada estar em condições.
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Chegamos a Dezembro de 1986, com o senhor Francisco junto à lareira, na sua cozinha fumosa, a comentar com a esposa que estava na altura de o senhor presidente lhes fazer uma visita. As eleições iam ser já no domingo seguinte. Dona Margarida disse-lhe: «Tens razão, Francisco. Não te esqueças de falar da estrada. E bom, mesmo bom, era se nós tivéssemos luz eléctrica, mas isso nunca cá há-de chegar...»
Sexta-feira à tarde. O senhor Francisco, que tinha acabado de regressar a casa com um braçado de lenha, vê aproximar-se um carro. Vem muito devagar, pois a estrada ainda está pior do que três anos antes. Era o presidente da câmara, que ao chegar junto dele lhe deu um abraço. Talvez com isso quisesse agradecer o voto das eleições anteriores, pois desde a primeira visita nunca mais se tinham visto.
O presidente começou a falar com o senhor Francisco e de novo este lhe pediu para mandar arranjar a estrada, falando-lhe pela primeira vez da luz, referindo até que tinha conhecimento de que andavam a electrificar outros lugares.
O presidente-candidato disse que a questão da luz era difícil, mas que as máquinas para arranjar a estrada estariam ali a trabalhar logo a seguir às eleições, para melhorar o acesso à casa. E depois pediu ao senhor Francisco e à dona Margarida para irem votar. O acordo foi selado com apertos de mão, partindo o candidato para nova paragem, sabe-se lá onde.
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Em Dezembro de 1989 a situação repete-se. Está a aproximar-se o dia das eleições e o pensamento do senhor Francisco e da dona Margarida está na estrada para a sua casa e na electricidade, que muitos amigos já tinham. Falam os dois, que desta vez vão pedir ao senhor presidente para mandar que lhes levem a luz ali para casa; da estrada não era preciso falar, pois as máquinas, seis anos depois do primeiro pedido, estavam a arranjá-la (tinham começado havia três dias, mas como chovia muito, tinha sido preciso parar os trabalhos).
Mais uma vez, na sexta-feira antes das eleições, ouve-se na casa do casal Correia o barulho de um carro a chegar. «Quem será?», pergunta a dona Margarida ao senhor Francisco. Este vai abrir a porta e vê logo o presidente da câmara. Manda-o entrar, como era seu costume fazer aos visitantes.
De imediato, o presidente mais uma vez candidato à câmara pergunta se não tem um medronho daquele que bebeu durante a última visita, em 1986. O senhor Francisco apressa-se a ir buscar a preciosa garrafa e oferece um copo bem servido.
Entra a dona Margarida na conversa e não perde tempo a pedir ao presidente da câmara que os ajude a terem luz eléctrica ali em casa. Prontamente o presidente-candidato responde: «Agora estamos a arranjar a estrada, o tempo não tem ajudado, mas segunda-feira fica tudo acabado. Quanto à luz eléctrica, no próximo ano vamos pô-la em Padescas e nessa altura vamos trazer também aqui para a sua casa.»
O senhor Francisco e a dona Margarida pareciam nem acreditar no que estavam a ouvir. À dona Margarida apareceram-lhe as lágrimas nos olhos, tanto que se abraçou ao presidente da câmara («o senhor presidente»), muito comovida, agradecendo muito encarecida a oferta.
Estava a anoitecer. Depois de beber mais um trago, o presidente-candidato e a sua companhia partiram para mais uma acção de campanha, completamente convencidos – «estes estão no papo, já somamos mais dois votos».
A dona Margarida comentou pouco depois com o marido: «Desta vez é que o senhor presidente não nos vai enganar, vamos ter luz aqui na nossa casinha e vamos comprar um frigorífico para podermos ter coisas frescas para dar à nossa Belinha.» Francisco, com a sua frontalidade, contrapôs: «Eu já não acredito nele.»
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Decorria o mês de Dezembro de 1993 e, como de costume, o senhor candidato e também presidente da câmara de Monchique, em período de campanha eleitoral, planeia fazer mais uma visita aos seus fiéis votantes. Pensa, na sua iluminada mente: «Como é que vou este ano enganar aqueles dois? A estrada deve estar uma miséria, porque o último Inverno destruiu tudo, e a luz, bom, quanto à luz não lhes vou dar esse prazer.»
Chegou o momento da visita e, mais uma vez, o senhor Francisco e a dona Margarida imploram que lhes seja arranjada a estrada, e falam na luz que tinha sido prometida («a luz que o senhor prometeu»). A dona Margarida insiste: «Estamos à espera, já passaram quatro anos e estamos à espera de ver cumprida a sua promessa. Será que não merecemos ter luz aqui em casa?»
Prontamente, o presidente respondeu que sim, que mereciam e iam ter luz eléctrica. «Estamos a tratar do projecto, que está quase pronto. No próximo ano a luz vai chegar a vossa casa. Já fizemos um acordo com a EDP e está tudo acertado, a câmara paga uma parte e a EDP paga o restante.»
A dona Margarida ficou convencida, tanto que disse: «Senhor presidente, eu sempre tenho votado em si, e vou outra vez votar. Espero que não se esqueça da sua promessa.» Entretanto, o senhor Francisco meditava nas palavras que tinha acabado de ouvir do presidente-candidato, e lembrando-se de que a sua saúde já não lhe permitia beber um copinho de medronho, daquele que habitualmente servia a quem o visitava.
O candidato, como fazia desde 1983, selou o acordo com um aperto de mão e partiu dali com grande pressa, quase atropelando o Piloto, o cão de caça do senhor Francisco, o que deixou o pobre homem furioso. Aquele cão era as suas pernas para cobrar as perdizes que abatia na época da caça, por ali, nas proximidades de casa.
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Estamos no ano de 1997. O senhor Francisco vê erguerem os primeiros postes na zona de Padescas e comenta com a mulher: «É desta, Margarida!... A luz vem a caminho!» Mal sabiam eles que a sua casa não estava contemplada.
Aguardaram o desenrolar dos trabalhos, mas acabaram por ver que os mesmos chegavam perto dali, mas apenas isso. Não conseguiam compreender a razão de terem ficado de fora. Como era Dezembro e sabiam que ia haver eleições para a câmara, aguardaram a visita do presidente, de novo candidato, para que ele explicasse o que se estava a passar.
Sexta-feira à noite, junto da lareira, o casal fala da luz que tanta falta lhes faz. Nenhum dos dois compreende a atitude do presidente da câmara. A dona Margarida diz: «Francisco, domingo há eleições para a câmara e hoje é sexta-feira, e ele não nos veio visitar, como era hábito.» O senhor Francisco responde: «Ele não teve coragem, e sabia que se aparecesse eu ia zangar-me com ele, por isso não veio.»
No dia seguinte, sábado, véspera das eleições, estavam o senhor Francisco e a Dona Margarida a almoçar quando ouviram chegar um carro. A dona Margarida apressou-se a espreitar; não queria acreditar no que estava a ver, então não é que o senhor presidente afinal sempre tinha vindo visitá-lo…
A dona Margarida mandou-o entrar, mas o senhor Francisco nem se levantou da cadeira. Deram-se os bons-dias e de imediato a dona Margarida perguntou por que razão não tinham tido direito a luz, ao contrário de todos os vizinhos. O presidente-candidato arranjou logo mil desculpas, que ficava muito caro a extensão até ali, que a câmara não tinha dinheiro, que a EDP não queria pagar, que as verbas tinham acabado e por aí adiante. O senhor Francisco comentou: «O senhor sempre nos enganou, e continua, senhor presidente. Não sabe o estado em que se encontra a nossa filha, não percebe que isto é um caso de necessidade. Não podemos ter nada fresco para dar à nossa filha, e a luz que temos é a de um candeeiro a petróleo, e com ela não se vê quase nada. Por que é que não nos ajuda?»
O presidente voltou a falar de as verbas se terem acabado. Mas disse a seguir que estivessem descansados, que ia mandar colocar ali em casa energia solar, que a seguir às eleições tratava logo do assunto. Assim, disse no fim, ficava barato e a câmara ia ajudá-los.
O semhor Francisco e a dona Margarida não ficaram convencidos, mas pensaram que era melhor do que nada. O pobre homem sentia-se enganado, mas a sua hospitalidade era tão grande que lá foi buscar a tal garrafa do tão precioso líquido que sabia que o senhor presidente adorava. Ofereceu-lhe um copinho e ele aceitou. Depois foram as despedidas. Até domingo.
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Dezembro de 2001, a estrada para a casa do senhor Francisco e da dona Margarida está feita numa miséria; é só pedras e pó. A luz eléctrica foi apenas para a vizinhança e a energia solar também não chegou. O senhor Francisco e a dona Margarida estão com mais de 80 anos, a Belinha com mais de 50 (numa cama, com uma deficiência profunda); o fim das suas vidas aproxima-se, o sofrimento foi muito e as ajuda prometidas nunca se concretizaram. Não contando já com nada, apercebiam-se eles próprios de que estavam a chegar ao fim.
Só que… Numa sexta-feira, antes das eleições, alguém mal intencionado aparece para lhes pedir o voto. Era o presidente, mais uma vez candidato, e que até estava convencido de que o senhor Francisco e a dona Margarida já tinham energia solar. Afinal, até a energia solar era apenas um sonho.
O senhor Francisco e a dona Margarida já nem sequer pedem nada ao candidato, por um lado porque já não acreditam nele, por outro por terem consciência de que estão com a saúde muito debilitada, que a Belinha está cada vez pior, que estão a ficar sem forças para a tirarem da cama.
É o fim da tarde dessa sexta-feira. O candidato de sempre cumprimenta a humilde família e promete mandar colocar energia solar na sua casa, esquecendo-se de que já tinha feito essa promessa quatro anos antes.
O senhor Francisco, muito zangado, diz: «Eu já não acredito em si, e nem sequer vou votar. Há quatro anos também o senhor, aqui mesmo, fez essa promessa. Ou já se esqueceu?!»
O candidato fica um pouco embaraçado, desfaz-se em desculpas e acaba por dizer: Desta vez é que é, a seguir às eleições vem logo cá alguém pôr os painéis solares e fazer a instalação.»
A dona Margarida, visivelmente doente, diz que já não estará ali para conhecer isso, e depois desfaz-se em lágrimas.
Apercebendo-se da grande injustiça que tinha cometido, o presidente-candidato fica uns momentos em silêncio. Depois dá as boas-tardes e despede-se, esquecendo-se de propósito de pedir o voto; ele sabia, no seu íntimo, que ali já não ir conseguir ter nenhum voto.
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Em Outubro de 2005, o senhor Francisco teve conhecimento de que o presidente era de novo candidato à câmara de Monchique. Mas não acreditava que este lhe fosse pedir mais uma vez o voto; como sempre desde 1983 não tinha cumprido as promessas e de certeza que os seus informadores lhe tinham dito que a dona Margarida e a Belinha tinham entretanto falecido. O presidente-candidato não apareceu mesmo.
Em Abril de 2008, faleceu o senhor Francisco.
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Outubro de 2009 será o mês das novas eleições. O presidente-candidato não irá pela segunda vez ao lugar do Penedo, na freguesia de Marmelete, concelho de Monchique.
O senhor Francisco Duarte Correia – tal como a mulher, a dona Margarida, e a filha dos dois, a Belinha – já partiu. Um dia, um qualquer dia do futuro, os três hão-de deixar o Céu, apenas por algumas horas, e farão uma viagem até um lugar de onde poderão avistar as portas do Inferno. Assim que virem o presidente perder-se por elas adentro, regressarão ao sítio onde encontraram o descanso eterno.
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