terça-feira, 16 de setembro de 2008

Vinte e cinco anos a mentir

Coloco a seguir um texto escrito pelo meu amigo António José Santos, vereador da Câmara Municipal de Monchique. Foi lido hoje pelo próprio autor durante a sessão do executivo da câmara, na presença do presidente.
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A história das visitas de um político à casa de Francisco Duarte Correia
Estávamos em Dezembro de 1983 quando um discípulo enviado por Deus, ou pelo Diabo, ainda não se sabe bem, chegou a Monchique e iniciou a sua caminhada por montes e vales, percorrendo todos os lugares do concelho, visitando muitos monchiquenses nas suas humildes habitações. Nesta lufa-lufa, chegou a um lugar denominado Penedo, onde moravam três pessoas, o senhor Francisco Duarte Correia, a sua esposa, dona Margarida, e uma menina deficiente chamada Belinha, a filha do casal.
Quando se apresentou à família, o discípulo disse que era o candidato à Câmara Municipal de Monchique. O senhor Francisco, muito admirado, pois não o conhecia, fez-lhes algumas perguntas para saber as suas afinidades. A dona Margarida, com a sua hospitalidade, convidou o visitante para casa e o marido ofereceu um copo de medronho e umas bolachas, como por ali era costume. Quanto à Belinha, permanecia no seu rude quarto, deitada, pois a deficiência não lhe permitia andar, nem sequer levantar-se da cama.
O senhor Francisco apressou-se a fazer alguns pedidos ao candidato à câmara, nomeadamente o que fazia mais falta, o arranjo da estrada; isto porque, conforme explicava, a menina tinha que ir muitas vezes ao médico e os bombeiros não queriam ir buscá-la devido ao estado em que a estrada se encontrava. Como ainda hoje faz, e sempre fez, o candidato respondeu que se ganhasse as eleições o caminho seria arranjado. Houve um aperto de mão, e de imediato se passou às despedidas.
Quando o viu a entrar no carro de campanha, o senhor Francisco ainda lhe disse: «Mas não se esqueça!...» O senhor Francisco sabia bem a importância de aquela estrada estar em condições.
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Chegamos a Dezembro de 1986, com o senhor Francisco junto à lareira, na sua cozinha fumosa, a comentar com a esposa que estava na altura de o senhor presidente lhes fazer uma visita. As eleições iam ser já no domingo seguinte. Dona Margarida disse-lhe: «Tens razão, Francisco. Não te esqueças de falar da estrada. E bom, mesmo bom, era se nós tivéssemos luz eléctrica, mas isso nunca cá há-de chegar...»
Sexta-feira à tarde. O senhor Francisco, que tinha acabado de regressar a casa com um braçado de lenha, vê aproximar-se um carro. Vem muito devagar, pois a estrada ainda está pior do que três anos antes. Era o presidente da câmara, que ao chegar junto dele lhe deu um abraço. Talvez com isso quisesse agradecer o voto das eleições anteriores, pois desde a primeira visita nunca mais se tinham visto.
O presidente começou a falar com o senhor Francisco e de novo este lhe pediu para mandar arranjar a estrada, falando-lhe pela primeira vez da luz, referindo até que tinha conhecimento de que andavam a electrificar outros lugares.
O presidente-candidato disse que a questão da luz era difícil, mas que as máquinas para arranjar a estrada estariam ali a trabalhar logo a seguir às eleições, para melhorar o acesso à casa. E depois pediu ao senhor Francisco e à dona Margarida para irem votar. O acordo foi selado com apertos de mão, partindo o candidato para nova paragem, sabe-se lá onde.
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Em Dezembro de 1989 a situação repete-se. Está a aproximar-se o dia das eleições e o pensamento do senhor Francisco e da dona Margarida está na estrada para a sua casa e na electricidade, que muitos amigos já tinham. Falam os dois, que desta vez vão pedir ao senhor presidente para mandar que lhes levem a luz ali para casa; da estrada não era preciso falar, pois as máquinas, seis anos depois do primeiro pedido, estavam a arranjá-la (tinham começado havia três dias, mas como chovia muito, tinha sido preciso parar os trabalhos).
Mais uma vez, na sexta-feira antes das eleições, ouve-se na casa do casal Correia o barulho de um carro a chegar. «Quem será?», pergunta a dona Margarida ao senhor Francisco. Este vai abrir a porta e vê logo o presidente da câmara. Manda-o entrar, como era seu costume fazer aos visitantes.
De imediato, o presidente mais uma vez candidato à câmara pergunta se não tem um medronho daquele que bebeu durante a última visita, em 1986. O senhor Francisco apressa-se a ir buscar a preciosa garrafa e oferece um copo bem servido.
Entra a dona Margarida na conversa e não perde tempo a pedir ao presidente da câmara que os ajude a terem luz eléctrica ali em casa. Prontamente o presidente-candidato responde: «Agora estamos a arranjar a estrada, o tempo não tem ajudado, mas segunda-feira fica tudo acabado. Quanto à luz eléctrica, no próximo ano vamos pô-la em Padescas e nessa altura vamos trazer também aqui para a sua casa.»
O senhor Francisco e a dona Margarida pareciam nem acreditar no que estavam a ouvir. À dona Margarida apareceram-lhe as lágrimas nos olhos, tanto que se abraçou ao presidente da câmara («o senhor presidente»), muito comovida, agradecendo muito encarecida a oferta.
Estava a anoitecer. Depois de beber mais um trago, o presidente-candidato e a sua companhia partiram para mais uma acção de campanha, completamente convencidos – «estes estão no papo, já somamos mais dois votos».
A dona Margarida comentou pouco depois com o marido: «Desta vez é que o senhor presidente não nos vai enganar, vamos ter luz aqui na nossa casinha e vamos comprar um frigorífico para podermos ter coisas frescas para dar à nossa Belinha.» Francisco, com a sua frontalidade, contrapôs: «Eu já não acredito nele.»
***
Decorria o mês de Dezembro de 1993 e, como de costume, o senhor candidato e também presidente da câmara de Monchique, em período de campanha eleitoral, planeia fazer mais uma visita aos seus fiéis votantes. Pensa, na sua iluminada mente: «Como é que vou este ano enganar aqueles dois? A estrada deve estar uma miséria, porque o último Inverno destruiu tudo, e a luz, bom, quanto à luz não lhes vou dar esse prazer.»
Chegou o momento da visita e, mais uma vez, o senhor Francisco e a dona Margarida imploram que lhes seja arranjada a estrada, e falam na luz que tinha sido prometida («a luz que o senhor prometeu»). A dona Margarida insiste: «Estamos à espera, já passaram quatro anos e estamos à espera de ver cumprida a sua promessa. Será que não merecemos ter luz aqui em casa?»
Prontamente, o presidente respondeu que sim, que mereciam e iam ter luz eléctrica. «Estamos a tratar do projecto, que está quase pronto. No próximo ano a luz vai chegar a vossa casa. Já fizemos um acordo com a EDP e está tudo acertado, a câmara paga uma parte e a EDP paga o restante.»
A dona Margarida ficou convencida, tanto que disse: «Senhor presidente, eu sempre tenho votado em si, e vou outra vez votar. Espero que não se esqueça da sua promessa.» Entretanto, o senhor Francisco meditava nas palavras que tinha acabado de ouvir do presidente-candidato, e lembrando-se de que a sua saúde já não lhe permitia beber um copinho de medronho, daquele que habitualmente servia a quem o visitava.
O candidato, como fazia desde 1983, selou o acordo com um aperto de mão e partiu dali com grande pressa, quase atropelando o Piloto, o cão de caça do senhor Francisco, o que deixou o pobre homem furioso. Aquele cão era as suas pernas para cobrar as perdizes que abatia na época da caça, por ali, nas proximidades de casa.
***
Estamos no ano de 1997. O senhor Francisco vê erguerem os primeiros postes na zona de Padescas e comenta com a mulher: «É desta, Margarida!... A luz vem a caminho!» Mal sabiam eles que a sua casa não estava contemplada.
Aguardaram o desenrolar dos trabalhos, mas acabaram por ver que os mesmos chegavam perto dali, mas apenas isso. Não conseguiam compreender a razão de terem ficado de fora. Como era Dezembro e sabiam que ia haver eleições para a câmara, aguardaram a visita do presidente, de novo candidato, para que ele explicasse o que se estava a passar.
Sexta-feira à noite, junto da lareira, o casal fala da luz que tanta falta lhes faz. Nenhum dos dois compreende a atitude do presidente da câmara. A dona Margarida diz: «Francisco, domingo há eleições para a câmara e hoje é sexta-feira, e ele não nos veio visitar, como era hábito.» O senhor Francisco responde: «Ele não teve coragem, e sabia que se aparecesse eu ia zangar-me com ele, por isso não veio.»
No dia seguinte, sábado, véspera das eleições, estavam o senhor Francisco e a Dona Margarida a almoçar quando ouviram chegar um carro. A dona Margarida apressou-se a espreitar; não queria acreditar no que estava a ver, então não é que o senhor presidente afinal sempre tinha vindo visitá-lo…
A dona Margarida mandou-o entrar, mas o senhor Francisco nem se levantou da cadeira. Deram-se os bons-dias e de imediato a dona Margarida perguntou por que razão não tinham tido direito a luz, ao contrário de todos os vizinhos. O presidente-candidato arranjou logo mil desculpas, que ficava muito caro a extensão até ali, que a câmara não tinha dinheiro, que a EDP não queria pagar, que as verbas tinham acabado e por aí adiante. O senhor Francisco comentou: «O senhor sempre nos enganou, e continua, senhor presidente. Não sabe o estado em que se encontra a nossa filha, não percebe que isto é um caso de necessidade. Não podemos ter nada fresco para dar à nossa filha, e a luz que temos é a de um candeeiro a petróleo, e com ela não se vê quase nada. Por que é que não nos ajuda?»
O presidente voltou a falar de as verbas se terem acabado. Mas disse a seguir que estivessem descansados, que ia mandar colocar ali em casa energia solar, que a seguir às eleições tratava logo do assunto. Assim, disse no fim, ficava barato e a câmara ia ajudá-los.
O semhor Francisco e a dona Margarida não ficaram convencidos, mas pensaram que era melhor do que nada. O pobre homem sentia-se enganado, mas a sua hospitalidade era tão grande que lá foi buscar a tal garrafa do tão precioso líquido que sabia que o senhor presidente adorava. Ofereceu-lhe um copinho e ele aceitou. Depois foram as despedidas. Até domingo.
***
Dezembro de 2001, a estrada para a casa do senhor Francisco e da dona Margarida está feita numa miséria; é só pedras e pó. A luz eléctrica foi apenas para a vizinhança e a energia solar também não chegou. O senhor Francisco e a dona Margarida estão com mais de 80 anos, a Belinha com mais de 50 (numa cama, com uma deficiência profunda); o fim das suas vidas aproxima-se, o sofrimento foi muito e as ajuda prometidas nunca se concretizaram. Não contando já com nada, apercebiam-se eles próprios de que estavam a chegar ao fim.
Só que… Numa sexta-feira, antes das eleições, alguém mal intencionado aparece para lhes pedir o voto. Era o presidente, mais uma vez candidato, e que até estava convencido de que o senhor Francisco e a dona Margarida já tinham energia solar. Afinal, até a energia solar era apenas um sonho.
O senhor Francisco e a dona Margarida já nem sequer pedem nada ao candidato, por um lado porque já não acreditam nele, por outro por terem consciência de que estão com a saúde muito debilitada, que a Belinha está cada vez pior, que estão a ficar sem forças para a tirarem da cama.
É o fim da tarde dessa sexta-feira. O candidato de sempre cumprimenta a humilde família e promete mandar colocar energia solar na sua casa, esquecendo-se de que já tinha feito essa promessa quatro anos antes.
O senhor Francisco, muito zangado, diz: «Eu já não acredito em si, e nem sequer vou votar. Há quatro anos também o senhor, aqui mesmo, fez essa promessa. Ou já se esqueceu?!»
O candidato fica um pouco embaraçado, desfaz-se em desculpas e acaba por dizer: Desta vez é que é, a seguir às eleições vem logo cá alguém pôr os painéis solares e fazer a instalação.»
A dona Margarida, visivelmente doente, diz que já não estará ali para conhecer isso, e depois desfaz-se em lágrimas.
Apercebendo-se da grande injustiça que tinha cometido, o presidente-candidato fica uns momentos em silêncio. Depois dá as boas-tardes e despede-se, esquecendo-se de propósito de pedir o voto; ele sabia, no seu íntimo, que ali já não ir conseguir ter nenhum voto.
***
Em Outubro de 2005, o senhor Francisco teve conhecimento de que o presidente era de novo candidato à câmara de Monchique. Mas não acreditava que este lhe fosse pedir mais uma vez o voto; como sempre desde 1983 não tinha cumprido as promessas e de certeza que os seus informadores lhe tinham dito que a dona Margarida e a Belinha tinham entretanto falecido. O presidente-candidato não apareceu mesmo.
Em Abril de 2008, faleceu o senhor Francisco.
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Outubro de 2009 será o mês das novas eleições. O presidente-candidato não irá pela segunda vez ao lugar do Penedo, na freguesia de Marmelete, concelho de Monchique.
O senhor Francisco Duarte Correia – tal como a mulher, a dona Margarida, e a filha dos dois, a Belinha – já partiu. Um dia, um qualquer dia do futuro, os três hão-de deixar o Céu, apenas por algumas horas, e farão uma viagem até um lugar de onde poderão avistar as portas do Inferno. Assim que virem o presidente perder-se por elas adentro, regressarão ao sítio onde encontraram o descanso eterno.
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5 comentários:

Luis Eme disse...

Sublime, António...

retrato magnifico de tantos políticos, por este país fora, que só vestem a fatiota de pagadores de promessas, antes das eleições...

amv disse...

Luís, foi lido hoje na presença do presidente da Câmara Municipal de Monchique, que por coincidência está no poder desde a altura em que começa a história.

Abraço,

António

antónio souto disse...

E os estranho da história (que nada tem de estranho para o país inteiro) é que este país continua votando em presidentes de promessas incumpridas... E pensarmos nós que estamos em república e em liberdade e em democracia... Um dia terão de ser os mortos a rebelar-se...

amv disse...

António

É uma história muito triste. E bem reveladora do nível de muitos dos energúmenos que nos vão governando. Por vezes pergunto-me como é que este tipo de gente consegue viver com a sua consciência mas a resposta que invariavelmente encontro é a de que ou a perderam ou então nasceram sem ela. E por isso sentem-se sempre bem.

Um abraço,

António

Manuel Leão disse...

António:

A não ser o facto de se tratar de uma história, com gente bem identificada e com promessas concretas, em que é que isto difere das promessas dos sucessivos governos para com o povo em geral?

A história, no entanto, impressiona quer pela paciência de quem foi enganado, quer pela desvergonha do enganador.

Espero, no entanto, que não sejam os mortos a rebelarem-se.

Um abraço.