sexta-feira, 6 de junho de 2008
Dezasseis bocadinhos
Coloquei aqui onze bocadinhos de um dos dois livros de histórias que acabei de escrever (um bocadinho por cada história). Faço agora o mesmo para o segundo livro (dezasseis histórias).
1. Já o «pára-quedista», o «prestidigitador», a «amélia» e o «tachista», por exemplo, não costumam requerer acompanhamento, assim como estranhamente não o tiveram «barata tonta», «mosca morta», «picareta falante» e «adiantado mental». Pelo contrário, «deserdado», «dependente» e «desempregado» tiveram («deserdado da política», «político-dependente», «desempregado da política»). E «boy» não teve, ao contrário do que julgo deveria acontecer com «boi», como adiante referirei.
2. Ao lado do condutor ia um detestável figurão chamado Fernando Eduardo da Silva Pais, o director da PIDE, a polícia política do regime. Assim que o viu, o sinaleiro pareceu ficar sem voz. «Avance! Avance!», terá ordenado Silva Pais.
3. Um amigo meu, antigo Capitão de Abril e na altura da conferência a trabalhar como gestor numa grande empresa portuguesa, comentava comigo uns dias depois: «Aquele tipo, ministro ainda por cima, é o que lá na minha terra, ao pé de Leiria, se costuma chamar um burgesso!»
4. Tinha arranjado o meu próprio golpe. Daí que a meio da tarde – já com Marcello Caetano a dizer que se ia embora, mas para o tratarem com dignidade, e que o deixassem levar a biblioteca – eu andasse de um lado para o outro todo contente a mostrar o polegar ferido, como um precioso troféu.
5. E ao mesmo tempo deu uma palmada no ombro da estrela, palmada essa também de concordância, sem saber que ia atingi-la precisamente no ponto mais fraco. Foi assim que o Júlio Isidro levantou voo.
6. A verdade é que o tal homem, o charlatão, jurou fazer do burro um brilhante orador, mas só ao fim de dez anos de aturados exercícios e também de alguma teoria, que fica sempre bem nos conteúdos programáticos, nem que seja só para fazer vista perante o rei.
7. Era o Mário Soares e eu por pouco não o atropelava, embora me tenha parecido que nem ele nem a rapariga se aperceberam da situação. Depois da pequena travagem que tive de fazer, meti a primeira e conduzi apressadamente até casa, porque ia dar um jogo do Sporting na televisão.
8. Nos meus tempos finais da faculdade, houve uma ocasião em que estive quase a receber um prémio das mãos de um secretário de Estado; calhou-me logo o Santana Lopes.
9. Quem vê o Drácula a conduzir as coisas daquela maneira, não pode deixar de se lembrar de figuras como Júlia Pinheiro, Jorge Gabriel, Herman José e outros que a seguir foram surgindo nos ecrãs das televisões portuguesas.
10. Entretanto as coisas evoluíram, com os fantasmas, principalmente o do gato bravo, a tornarem-se atracções turísticas (coisa que a autarquia encorajava).
11. «Lúcio!!», gritou a professora. «Faz-me um retrato físico e psicológico do gigante Adamastor!!» Eu pensei logo que ia haver confusão.
12. O assunto foi a discussão durante uma boa meia hora, e acabou por realizar-se mesmo uma nova votação. Aí, Saramago ficou a ver navios.
13. Disse, claro que disse, mas apesar dos meus esforços não consegui convencer o professor Carvalho Rodrigues da genuinidade da tasca do balde da serradura. Nem a ele, nem a uma pessoa que acabou por apanhar a conversa a meio. Essa pessoa até me disse que aquilo do «pitroil» não era por causa de estar escrito como se calhar a dona da tasca dizia, mas antes por causa da palavra inglesa «oil», que o mais certo era estar escrita no depósito do camião que fazia a entrega do petróleo.
14. Eu conhecia-o de vê-lo na televisão. Era um actor, ainda por cima um que ultimamente andava a aparecer nalgumas séries e em telenovelas. Como é que eu não me tinha lembrado antes? «É teu vizinho?», perguntei ao dono do Farrusco, que continuava entretido a segurar na trela, enquanto os dois animais se divertiam. Ele respondeu-me secamente, sem sequer olhar para mim. «Mora aí.»
15. «Você, que eu ouvi já só na parte final a falar tão apaixonadamente da língua portuguesa e da língua castelhana, diga-me, de que país é?» Respondi-lhe que era de Portugal. «Hum!... É de Portugal...», pareceu ela estranhar. E eu confirmei: «Sim, sou de cá.»
16. Também a opção pelo cavalo não haveria de ser a melhor e o popularucho burro na volta ainda propiciava anedotas e até escárnios (além dos sempre inconvenientes zurros), apesar de ele próprio, o senhor, não o burro, já em tempos ter dado o seu aplauso a uma entrada na cidade de um burro em competição com um Ferrari.
1. Já o «pára-quedista», o «prestidigitador», a «amélia» e o «tachista», por exemplo, não costumam requerer acompanhamento, assim como estranhamente não o tiveram «barata tonta», «mosca morta», «picareta falante» e «adiantado mental». Pelo contrário, «deserdado», «dependente» e «desempregado» tiveram («deserdado da política», «político-dependente», «desempregado da política»). E «boy» não teve, ao contrário do que julgo deveria acontecer com «boi», como adiante referirei.
2. Ao lado do condutor ia um detestável figurão chamado Fernando Eduardo da Silva Pais, o director da PIDE, a polícia política do regime. Assim que o viu, o sinaleiro pareceu ficar sem voz. «Avance! Avance!», terá ordenado Silva Pais.
3. Um amigo meu, antigo Capitão de Abril e na altura da conferência a trabalhar como gestor numa grande empresa portuguesa, comentava comigo uns dias depois: «Aquele tipo, ministro ainda por cima, é o que lá na minha terra, ao pé de Leiria, se costuma chamar um burgesso!»
4. Tinha arranjado o meu próprio golpe. Daí que a meio da tarde – já com Marcello Caetano a dizer que se ia embora, mas para o tratarem com dignidade, e que o deixassem levar a biblioteca – eu andasse de um lado para o outro todo contente a mostrar o polegar ferido, como um precioso troféu.
5. E ao mesmo tempo deu uma palmada no ombro da estrela, palmada essa também de concordância, sem saber que ia atingi-la precisamente no ponto mais fraco. Foi assim que o Júlio Isidro levantou voo.
6. A verdade é que o tal homem, o charlatão, jurou fazer do burro um brilhante orador, mas só ao fim de dez anos de aturados exercícios e também de alguma teoria, que fica sempre bem nos conteúdos programáticos, nem que seja só para fazer vista perante o rei.
7. Era o Mário Soares e eu por pouco não o atropelava, embora me tenha parecido que nem ele nem a rapariga se aperceberam da situação. Depois da pequena travagem que tive de fazer, meti a primeira e conduzi apressadamente até casa, porque ia dar um jogo do Sporting na televisão.
8. Nos meus tempos finais da faculdade, houve uma ocasião em que estive quase a receber um prémio das mãos de um secretário de Estado; calhou-me logo o Santana Lopes.
9. Quem vê o Drácula a conduzir as coisas daquela maneira, não pode deixar de se lembrar de figuras como Júlia Pinheiro, Jorge Gabriel, Herman José e outros que a seguir foram surgindo nos ecrãs das televisões portuguesas.
10. Entretanto as coisas evoluíram, com os fantasmas, principalmente o do gato bravo, a tornarem-se atracções turísticas (coisa que a autarquia encorajava).
11. «Lúcio!!», gritou a professora. «Faz-me um retrato físico e psicológico do gigante Adamastor!!» Eu pensei logo que ia haver confusão.
12. O assunto foi a discussão durante uma boa meia hora, e acabou por realizar-se mesmo uma nova votação. Aí, Saramago ficou a ver navios.
13. Disse, claro que disse, mas apesar dos meus esforços não consegui convencer o professor Carvalho Rodrigues da genuinidade da tasca do balde da serradura. Nem a ele, nem a uma pessoa que acabou por apanhar a conversa a meio. Essa pessoa até me disse que aquilo do «pitroil» não era por causa de estar escrito como se calhar a dona da tasca dizia, mas antes por causa da palavra inglesa «oil», que o mais certo era estar escrita no depósito do camião que fazia a entrega do petróleo.
14. Eu conhecia-o de vê-lo na televisão. Era um actor, ainda por cima um que ultimamente andava a aparecer nalgumas séries e em telenovelas. Como é que eu não me tinha lembrado antes? «É teu vizinho?», perguntei ao dono do Farrusco, que continuava entretido a segurar na trela, enquanto os dois animais se divertiam. Ele respondeu-me secamente, sem sequer olhar para mim. «Mora aí.»
15. «Você, que eu ouvi já só na parte final a falar tão apaixonadamente da língua portuguesa e da língua castelhana, diga-me, de que país é?» Respondi-lhe que era de Portugal. «Hum!... É de Portugal...», pareceu ela estranhar. E eu confirmei: «Sim, sou de cá.»
16. Também a opção pelo cavalo não haveria de ser a melhor e o popularucho burro na volta ainda propiciava anedotas e até escárnios (além dos sempre inconvenientes zurros), apesar de ele próprio, o senhor, não o burro, já em tempos ter dado o seu aplauso a uma entrada na cidade de um burro em competição com um Ferrari.
quinta-feira, 5 de junho de 2008
Uma frase
«Achei saudável, como abrir uma janela e entrar ar puro, a vitória da doutora Manuela Ferreira Alves, leite!»
José Pacheco Pereira, esta noite na SIC Notícias (programa «Quadratura do Círculo»)
A irracionalidade do acordo
No «Corta-fitas», Pedro Correia com frases sobre o acordo ortográfico que tentam impingir-nos. Para já, duas frases, de Miguel Sousa Tavares e Vasco Graça Moura, que mostram bem até onde pode ir a irracionalidade do acordo.
Etiquetas:
Acordo ortográfico,
Miguel Sousa Tavares,
Pedro Correia,
Vasco Graça Moura
Propriedade comutativa
Títulos de hoje: «Porto fora, Benfica dentro» (jornal «O Jogo»); «Benfica dentro, Porto fora» (jornal «Record»).
Etiquetas:
Corrupção,
Criatividade,
Futebol,
Jornais desportivos,
Porto,
Títulos,
UEFA
O reverso da medalha
Nos últimos anos passei algumas tardes na feira do livro, sentado ao sol, sentado à chuva, sentado a ver as pessoas a subirem e a descerem o parque, sentado a assinar livros e procurando evitar aquelas dedicatórias às três pancadas, como as que são referidas no final deste post («Para Joaquim Oliveira, António Lobo Antunes», «Cordialmente, José Saramago»). Ontem, durante umas horas (final da tarde, princípio da noite), foi o reverso da medalha; por razões profissionais, dei por mim a contemplar os pavilhões estranhamente minúsculos da feira desde a varanda do Eleven, com empregados que nunca mais acabavam, sempre de um lado para o outro, de bandejas a abarrotar. Não vi nenhum escritor conhecido (e desconfio que dos desconhecidos a mesma coisa) – já políticos, empresários e aproximados havia com fartura. À saída deram-me uma caixa que tinha dentro uma garrafa de vinho e ainda, imagine-se, um livro (sem autógrafo mas com cartão).(foto: Eleven)
Etiquetas:
Feira do Livro de Lisboa,
Restaurante Eleven
quarta-feira, 4 de junho de 2008
Quase contradições
Os Livros Ardem Mal ***
– Quanto tempo passou desde que queimou o livro ali no grelhador?
– Cerca de um mês e meio.
»»» Excerto de um diálogo no meu romance «O que Entra nos Livros»
– Cerca de um mês e meio.
»»» Excerto de um diálogo no meu romance «O que Entra nos Livros»
terça-feira, 3 de junho de 2008
Onze bocadinhos
Terminei recentemente dois livros de histórias. Coloco a seguir onze bocadinhos de um deles (um bocadinho por cada história).
1. A moderadora, uma escritora mais velha do que nós e com ar entediado, a certa altura tinha-se lembrado de perguntar aos «escritores para o futuro» se se imaginavam, nesse futuro, a escrever os próprios livros em inglês.
2. Poderia ter-me lembrado de Américo Tomás, o almirante que na ditadura lambia as botas a Salazar e depois também um bocado a Marcello Caetano, ou do arquitecto Tomás Taveira, ou talvez até de São Tomás de Aquino, mas não, lembrei-me do velho livro.
3. Durante um debate numa sala de um hotel da Avenida da Liberdade, em Lisboa, o jurista Fernando Seara, bem conhecido nos meios desportivos, afirmou que a questão do novo treinador do Sporting, que parecia envolta em grandes mistérios, afinal não tinha nada de misterioso.
4. Onde é que já se tinha visto uma coisa assim, um barrete verde, vermelho e amarelo e com o escudo nacional com as cinco chagas de Cristo numa pessoa de fato e gravata, ainda por cima ministro da nação?
5. Mas na manhã do jogo, como que esquecendo-me do que anos antes tinha acontecido, levado por um estranho instinto de imitação, fiz asneira. Comprei um cachecol.
6. A ele tudo parecia tolerar-se; afinal, Cadete era «o capitão Jorge Cadete», não era nem o Capitão América, nem o Capitão Nemo, nem o Capitão Tormenta, nem sequer o Capitão Roby. Era o ponta-de-lança da equipa, ainda por cima bem diferente de um qualquer tony-sealy inglês, ou até do polaco Juskowiak, a que muitos preferiam chamar Juskofiasco.
7. Terá sido Guterres que deu azar ao Sporting? Ou terá sido o Sporting, e quem sabe até o próprio Real Madrid, terão sido os dois clubes a dar azar a Guterres? A verdade é que nunca cheguei a uma conclusão.
8. Devia ser nalguma cave, foi o que pensei, ou então nalgum descampado urbano onde a rede não chegasse. Quem sabe poderia haver ali no meio do casario a cair uma planície municipal à espera de alguém, eventualmente de Braga, que lhe pusesse as unhas sem o vereador Sá Fernandes dar por isso…
9. Por exemplo, o daquele jornalista que arranjou gravações de um seleccionador nacional de futebol a dizer com a maior das naturalidades que o que era preciso era matar dois ou três fulanos.
10. Fui ouvindo o que ele contava, as histórias de Madjer, umas que eu conhecia, outras que nem imaginava, até que a certa altura não me contive e interrompi-o.
11. Haveria de ser uma bela cerimónia, a da entrega do Grande Prémio do Romance e da Novela ao futebol português, de certeza representado ainda por Gilberto Madail...
2. Poderia ter-me lembrado de Américo Tomás, o almirante que na ditadura lambia as botas a Salazar e depois também um bocado a Marcello Caetano, ou do arquitecto Tomás Taveira, ou talvez até de São Tomás de Aquino, mas não, lembrei-me do velho livro.
3. Durante um debate numa sala de um hotel da Avenida da Liberdade, em Lisboa, o jurista Fernando Seara, bem conhecido nos meios desportivos, afirmou que a questão do novo treinador do Sporting, que parecia envolta em grandes mistérios, afinal não tinha nada de misterioso.
4. Onde é que já se tinha visto uma coisa assim, um barrete verde, vermelho e amarelo e com o escudo nacional com as cinco chagas de Cristo numa pessoa de fato e gravata, ainda por cima ministro da nação?
5. Mas na manhã do jogo, como que esquecendo-me do que anos antes tinha acontecido, levado por um estranho instinto de imitação, fiz asneira. Comprei um cachecol.
6. A ele tudo parecia tolerar-se; afinal, Cadete era «o capitão Jorge Cadete», não era nem o Capitão América, nem o Capitão Nemo, nem o Capitão Tormenta, nem sequer o Capitão Roby. Era o ponta-de-lança da equipa, ainda por cima bem diferente de um qualquer tony-sealy inglês, ou até do polaco Juskowiak, a que muitos preferiam chamar Juskofiasco.
7. Terá sido Guterres que deu azar ao Sporting? Ou terá sido o Sporting, e quem sabe até o próprio Real Madrid, terão sido os dois clubes a dar azar a Guterres? A verdade é que nunca cheguei a uma conclusão.
8. Devia ser nalguma cave, foi o que pensei, ou então nalgum descampado urbano onde a rede não chegasse. Quem sabe poderia haver ali no meio do casario a cair uma planície municipal à espera de alguém, eventualmente de Braga, que lhe pusesse as unhas sem o vereador Sá Fernandes dar por isso…
9. Por exemplo, o daquele jornalista que arranjou gravações de um seleccionador nacional de futebol a dizer com a maior das naturalidades que o que era preciso era matar dois ou três fulanos.
10. Fui ouvindo o que ele contava, as histórias de Madjer, umas que eu conhecia, outras que nem imaginava, até que a certa altura não me contive e interrompi-o.
11. Haveria de ser uma bela cerimónia, a da entrega do Grande Prémio do Romance e da Novela ao futebol português, de certeza representado ainda por Gilberto Madail...
Uma frase
«Isso seria deixarmos os Rádio Macau e voltarmos ao José Mário Branco!»
Carlos Abreu Amorim, a propósito de uma possível intervenção do Estado na formação do preço dos combustíveis (num debate com João Teixeira Lopes esta noite na RTPn)
Etiquetas:
Carlos Abreu Amorim,
Crise dos Combustíveis
A minha proposta
A ideia de Osvaldo Manuel Silvestre (ver post anterior) é muito boa. Depois de Pedro Mexia, Jorge Reis-Sá propõe aqui Francisco José Viegas. Eu proponho José Luís Peixoto (se o Jorge não se tivesse adiantado, eu próprio haveria de propor o Francisco). Já agora, alguém podia propor uma mulher.
Pedro Mexia
Imagine-se que dois dias antes de eu fazer oitenta anos, se lá chegar, morria o Pedro Mexia. Imagine-se ainda que o «Correio da Manhã» (se lá chegar) dava a notícia. Ver aqui, em 2048.
Etiquetas:
Osvaldo Manuel Silvestre,
Pedro Mexia
Subscrever:
Mensagens (Atom)