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domingo, 3 de janeiro de 2010

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Uma reportagem

Da revista «Gingko».
(clicar nas imagens para aumentar)
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segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Uma entrevista

Há mais de setenta anos que eu não dava uma entrevista. Agora está uma aqui.
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domingo, 13 de julho de 2008

E ainda há quem diga, ou escreva, que não há coincidências…

Um comentário de Tomás Vasques a propósito do post anterior fez-me lembrar do que se passou comigo aquando da publicação em Portugal do romance de Monica Ali «Alentejo Blue», que ele refere. Nunca falei muito disto… Eu tinha um livro para publicar nessa altura e que era para se chamar não «Alentejo Blue», mas «Alentejo Blues». Só que entretanto apareceu o da Monica Ali e pronto, tive de arranjar outro título à última hora. Mais... Até uma das fotos que estavam a ser consideradas para capa apareceu na capa da edição portuguesa do «Alentejo Blue». De forma que eu acabei por escolher para título «O que Entra nos Livros», e a foto de capa ficou a de uma conhecida rua de Évora (Alcárcova de Baixo). A foto foi comprada pela editora a um banco de imagens. Poucos dias depois de o meu romance ter saído, o homem que na foto caminha debaixo do arco foi identificado, através de um comentário deixado aqui no blog. Soube também mais tarde que esse homem costumava ler os meus livros.
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quinta-feira, 26 de junho de 2008

O convidado 66

Há um texto meu no «Corta-fitas», mais propriamente aqui (rubrica «convidado de honra», número 66, 25-06-08).
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quinta-feira, 3 de abril de 2008

Uma recordação

Ainda não existia este blog em finais de 2005, quando foi feita a apresentação do meu livro de contos «O Amor por entre os Dedos». Nas arrumações de fotos, dei agora com esta. Foi na Fnac do Chiado, no final da tarde de 17 de Novembro. Eu, Lídia Jorge e Nelson de Matos, o editor.

sábado, 8 de março de 2008

Os meus diálogos - 11

(excerto de «O que Entra nos Livros», 2007)
(…)
– Quanto tempo passou desde que queimou o livro ali no grelhador?
– Cerca de um mês e meio.
(…)

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Os meus diálogos - 10

(do livro «O Amor por entre os Dedos», 2005; conto «Gagueline, o gagueloso)
(…)
- Esperem aí! Quanto é que mede esse tal francês gagueloso?
Não houve resposta. Até que uma criança disse:
- Oito metros!
Zifardo estrebuchou, quase largando o machado.
- Que exagero!... - apressou-se o presidente da junta de freguesia a dizer. - Oito metros nem nas histórias esquisitas daquele rapazito escritor ali de Santo Estêvão
- Qual escritor? - perguntou Zifardo.
Um velho, que estava mesmo atrás do presidente da junta de freguesia, gritou:
- É um escritor de histórias esquisitas mas que também escreve histórias de amor a falar de uma bela rapariga que se chama Kate! E já deu origem a não sei quantos bustos ali em Santo Estêvão, de tudo o que é personalidade e não só! A partir do dele a coisa não há meio de parar, de maneira que!..
- Bom, adiante que isto não é hora para literaturas nem para homenagens! - interrompeu o presidente da junta de freguesia. - Oito metros de tamanho para aquela criatura é um exagero! Estas crianças vêem mas é tudo a dobrar!...
- A dobrar!! - protestou Zifardo. - Se o gagueloso medir quatro metros, acha que é pouco?!
O presidente da junta de freguesia calou-se. E a mulher que tinha sorrido para Zifardo disse:
- Senhor Zifardo, independentemente do tamanho, rache-o ao meio.
(…)

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Os meus diálogos - 9

(do romance «Os Sonhos e Outra Perigosas Embirrações», 2000)
(…)
- Pode ter sido um cão a comer o olho esquerdo do Zé da Silva, ou um corvo, ou até uma osga, ou um cabrão de um rato.
- Sim, por aí há bichos bem capazes de comerem um olho. Mas olhe, já agora, senhor presidente, o senhor tem alguma coisa contra os ratos?
- O quê?!
- Se tem alguma coisa contra os ratos, queria eu saber! Como para o cão, para o corvo e para a osga não disse nada, como só adjectivou o rato!...
- Bem, foi uma maneira de falar, uma forma genuína de apimentar a conversa cá à moda da serra.
- ...
- E já ganhei muitas eleições assim!

(…)

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Os meus diálogos - 8

(do romance «O que Entra nos Livros», 2007)

(…)
– Bom, nada de especial. Apenas isso da entrevista e do texto sobre o livro. Sabe que o escritor Ondjaki até pode vir cá?
– Sim?!
– Estou a ver se é possível. Eu vi-o ali em Montemor…
– Viu-o em Montemor?! – estranhei.
– Exactamente! Ele estava num debate sobre viagens, com muita gente – explicou o senhor Sapinho Júnior.
– Eu assisti a esse debate – disse-lhe, enquanto tentava recordar-me do público, na esperança de chegar à imagem de alguma pessoa que correspondesse ao livreiro.
(…)

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Os meus diálogos - 7

(do romance «Os Sonhos e Outra Perigosas Embirrações», 2000)

(…)
O Perdido da Arrojela é um fantasma bem nutrido, ou melhor, dizem que é um fantasma. Nunca ninguém o pesou, mas deve ter para cima de oito ou nove arrobas, ou talvez umas dez.
- Há porcos com dez arrobas e até com mais, porcos grandes e gordos como um monte. Há porcos que até partem as pernas com a gordura que têm em cima. Quem faz tenções de engordar um porquinho, vai-lhe dando ração abundante e um dia por outro faz-lhe umas festinhas nas fuças. Tudo para ver se o põe a jeito de dar alimentação para um ano inteiro.
- Foi vossemecê que estudou para engenheiro de porcos, não foi?!
- Fui sim, senhor. Sou o engenheiro de porcos cá do concelho.
- E estudou onde, em Inglaterra?!
- Não, tirei o curso na Rússia, porque o meu pai era filiado no partido.
- Comunista?!
- Exactamente.
- E como é que se diz porco em russo?
- Disso já não me lembro. Mas também o que é que o amigo ia fazer só com uma palavra, ainda por cima tratando-se de um animal...
- Vossemecê está a chamar-me animal?!
- Não, de forma nenhuma! Eu estava a dizer que se trata, o porco, entenda-me o senhor, que se trata de um animal de fracas conotações em certos círculos de importância não desdenhável.
- Ah, sim. Mas eu depois havia de aprender outras palavras, com o tempo.
Quem também conta histórias de porcos, como não podia deixar de ser, é o Raposo do Besteiro.
- Certa vez, contou ele já há muito tempo, possuiu uma porca ...
- Possuiu uma porca?! Olha o grande tarado!!
- Certa vez, teve uma porca ...
- Teve uma porca?!
- Bem, ele era dono da porca, e então ...
- Ah, assim estava no seu pleno direito.
- Cala-se e ouça, amigo!
O Raposo do Besteiro era dono da porca. Tinha-a comprado no mercado de Monchique, e ela criou dezoito porquinhos, todos do mesmo tamanho, mas uns mais vivaços do que outros.
- Pois, isso é sempre assim.
- Escute lá, vossemecê estudou na Rússia?
- Eu não, fiz a quarta classe aqui em Foz de Zimbrais, depois o ciclo em Monchique e o liceu em Portimão. Só que a seguir não consegui entrar na faculdade.
- Então, se não estudou na Rússia, não dê palpites sobre este assunto! Limite-se a ouvir! Uma águia, um dia, quis-lhe roubar um porquinho ...
- A mim?!
- Porra! A águia quis roubar um porquinho à porca do Raposo do Besteiro.
- Ao porco do raposo do Besteiro, quer vossemecê dizer?! Àquele grande porco?!
- Isto é preciso uma paciência! O senhor não me diga que também é contabilista, ou deputado?!
- Olhe, por acaso, até já fui, na constituinte.
- Pois, tinha de ser.
- Fui deputado...
- Obviamente!
- Mas também fazia certas contabilidades.
(…)

sábado, 19 de janeiro de 2008

Os meus diálogos – 6

(do livro de contos «O Velho que Esperava por D. Sebastião», 1996/ conto «À Espera de Brenda McFlain»)

(…)
- É uma cerveja para lavar as goelas!! - gritou Joe Horsy, ao sentar-se numa mesa de um dos cantos.
O barman apressou-se a cumprir a ordem.
- E manda preparar aí um bife do tamanho de um cavalo! - continuou o pistoleiro. - Com um disparate de batatas fritas em cima!
Na cozinha ouviram-no bem, tanto que o
barman nem precisou de fazer o pedido.
- E rápido!! - voltou Joe Horsy a gritar. - Estou com uma fome que até era capaz de engolir umas três vacas!
- Sim, senhor - disse o
barman.
- E já agora, por falar em vacas, aquela puta da Brenda McFlain, chega quando?!
- Hoje - respondeu o
barman, enquanto voltava com a cerveja. - Chega hoje na diligência, se o Revel Bill apertar com os cavalos.
(…)
Imagem: «Western Saloon» (Lee Dubin)

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

O aparecimento do mágico velhinho

Um excerto do meu romance «O Medo Longe de Ti» (edição Temas e Debates, 2003); o aparecimento do mágico velhinho, o causador de boa parte dos muitos problemas que acontecem no meu romance «O que Entra nos Livros» (edição AMBAR, 2007).

(…) Subi a uma das árvores, com todas as certezas de estar bem por baixo da estrela pequenina, mas com medo de me ter enganado no mapa da minha imaginação. Subi como um macaco, de novo criança, eu, que sempre tinha andado em cima das árvores com a mesma segurança com que andava no chão. Nunca tinha percebido como era possível, não o meu equilíbrio nos ramos, mas a falta de equilíbrio de colegas do liceu. Como eles se espantavam com o meu equilíbrio, sempre que era preciso ir buscar a bola ao cimo das árvores que rodeavam o campo de jogos... Eu andava nos ramos como no chão, e nos ramos era tão feliz como nos campos onde caçava grilos. Lembrei-me disso a subir à árvore alta da floresta das regras, para apanhar o beijo da estrela pequenina. Lembrei-me de tudo isso, eu, pequenino, nos ramos das árvores, nos ramos dos limoeiros, sem ligar aos espinhos que rasgavam a pele ao menor descuido. Ouvia os adultos queixarem-se deles, o meu pai, sempre que era preciso apanhar limões. Já comigo isso não acontecia, porque eu ignorava a dor de cada ferida e fechava os olhos sempre que encarava um espinho, como se fosse um instinto ganho à nascença. E nos sobreiros, na época de tirar a cortiça, eu sem ligar às formigas pequeninas, que picavam que nem feras, ou melhor, mordiam que nem feras, davam dentadas pequeninas, como elas, dentadas que doíam mesmo, e andavam sempre às centenas, aos milhares, num carreiro interminável.
Não, em cima das árvores eu sempre tinha sido como um macaquinho saltitão capaz de se segurar bem, e por isso estava a subir tão desembaraçadamente que nem mesmo as martas e os esquilos, mal acordados, estremunhados, de olhares parvos, nem mesmo eles pareciam acreditar ser possível. Teria o município contratado um humano como animal da floresta? E tencionaria contratar mais? Isto pareciam eles perguntar, com medo de perderem os lugares, os abrigos para se recolherem e a comida a horas certas, e a hipótese de posarem para as máquinas de fotografar e de filmar dos turistas. Pareciam com medo, mas eu não me compadecia, também estava cheio de medo, o comboio-ladrão tinha-te levado de mim e algo me dizia que não ias voltar. Ele tinha aumentado a velocidade, o comboio-ladrão, de repente tinha aumentado a velocidade, e depois eu tinha chocado com a mastodonta maluca, eu a descer a colina dos destroços, aos trambolhões, e ela a subir, toda com os calores, mesmo na noite fria.
Quando cheguei ao cimo da árvore, aos últimos ramos, que mal suportavam o meu peso, a estrela do teu último beijo, a estrela pequenina... Caramba... Percebi que ela continuava longe, percebi que estava iludido. Mesmo assim, não me resignei, olhei-a fixamente, apelei a todas as minhas forças, equilibrei-me nos ramos que quase não me conseguiam suportar e tentei apanhar o teu beijo. Chamei os mágicos, que andavam à solta, como todos os outros maus, com excepção, talvez, do terrível Joe Dangerous, ligado a El Paso nem eu sabia por que cordão umbilical. Mas os mágicos não apareceram, deixaram-se estar na fábrica, tirando um, um velhinho de bengala e com uma cartola já comida pelo tempo
(…)

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Os meus lugares

No «Jornal de Letras» que saiu ontem, está um trabalho sobre os meus lugares (um restaurante, um sítio, um monumento, um café e por aí adiante). Num dos próximos dias coloco aqui.

domingo, 30 de dezembro de 2007

Um bocadinho de «O Medo Longe de Ti»

(…) Lembras-te? Foi o que disse. E depois, um bocadinho depois, aí é que consegui falar mesmo de forma continuada. Falei muito, disse que não, que talvez a coragem não tivesse voltado, que talvez não fosse falta de coragem a razão do meu silêncio. Talvez até fosse o contrário, talvez a falta de coragem estivesse em dizer que te amava e querer meter-me todo dentro dessa expressão tão pequenina, como se ela me pudesse valer. Mas como fazê-lo de outra maneira que não pelas palavras? Tinha de te dizer que te amava, que te amo, porque não havia, não há, outra expressão, outras palavras, a menos que eu as conseguisse inventar. Mas não conseguia. Não consigo. Ou não queria. Ou não quero. Como eu falava, tanto...
– Penso se não seria preferível não dizer nada. Ficar apenas de mão dada contigo.
Era o que te dizia, que talvez fosse preferível perder-me na cartografia serena e acolhedora que se desenhava nos cantos dos teus lábios quando sorrias. Apenas. Não seria isso, afinal, o amor?
– A sensação de quando se vê o mar pela primeira vez, quando somos pequeninos e alguém nos leva pela mão, e há o medo da areia que nos foge debaixo dos pés…
Sim, era o que te dizia, o meu fascínio pelo mar, que em criança eu via ao longe, do alto da serra, da minha floresta do Sul, o mar, a vinte quilómetros de distância, aonde eu não ia muitas vezes. Era o que te dizia, o que eu falava, todo aquele mar cabia dentro de nós, o mar que por vezes surge também como um reflexo do que trazemos dentro.
– Já nem sei... Tu sabes? O mar que, então, percebemos já conhecer, o mar que mesmo assim nos assusta, mas que ao mesmo tempo nos acalma. Foi dessa forma que te perguntei o nome, talvez não tanto para o saber, mas para o confirmar, nem sei...
Mexeste os lábios. Os pequenos traços que eu já tinha decorado, perto, os pequenos traços no teu rosto, numa agitação breve. Pensei que ias dizer qualquer coisa, mas não, não disseste nada. Falei de novo:
– Foi assim que te perguntei o nome, eu, pequenino outra vez, de frente para o mar, eu, pequenino e sem ninguém, nessa vez, sem ninguém que me segurasse a mão. A minha mãe, ao longe. Eu, pequenino, e a areia a fugir-me debaixo dos pés. Eu, pequenino, com medo de me desequilibrar.
Tu não dizias nada. Largaste a minha mão, e com as duas mãos escondeste o rosto, como se não quisesses que eu te visse a chorar, se chorasses, ou a sorrir, se sorrisses. E eu, atrapalhado, de novo atrapalhado com esse teu gesto, calei-me. Por um segundo pensei que ias desistir, um segundo que me pareceu que poderia demorar quase toda a noite a passar. Olhei para o céu, fiz um olhar de estranheza, sem saber bem por quê. O céu negro, sem uma estrela, sem um rasto da passagem da bruxa dos ciúmes. E o gnomo, na algibeira... Estaria lá? Meti a mão, as duas, as duas ao mesmo tempo na algibeira do lado esquerdo. Era essa. Se não tivesses os dedos a tapar os olhos, irias estranhar tudo aquilo.
(…)

(excerto do meu romance «O Medo Longe de Ti», ed. Temas e Debates)

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Uma perspectiva sobre o romance «O que Entra nos Livros»

Coloco abaixo o texto de suporte da intervenção do Prof. José Vilhena Mesquita, da Universidade do Algarve, na apresentação do meu romance «O que Entra nos Livros» (29.09.07, em Monchique).

Aquilo que verdadeiramente entra no livro de António Manuel Venda
Por José Carlos Vilhena Mesquita
A primeira questão que se sobrepôs à leitura deste livro de António Manuel Venda foi precisamente a mais elementar, isto é, a de saber se efectivamente estava, ou não, perante um romance na verdadeira acepção da palavra, e do teórico conceito que lhe é inerente. O trago de dúvida com que fiquei no final da sua leitura obriga-me a definir os termos e os conceitos em que me exprimo. Um pouco à laia de Voltaire, urge pois aclarar os conceitos com que nos expressamos para que a sintonia das palavras não se disperse na confusão ou no calor da discussão.
Comecemos por definir a palavra «romance», para perceber sem mais delongas aquilo que traduz o seu conceito. A palavra, na sua nudez original, deriva do étimo latino romanice, do qual descende romanicus, que significa, em latim popular, uma narrativa, verdadeira ou imaginária, escrita em prosa ou verso, repartida por cenas, quadros ou capítulos, pejados de pormenores e longas descrições, cuja acção se desenrola através de várias personagens, de entre as quais só algumas assumem o protagonismo de se tornarem no centro da diegese. Isto no que concerne à palavra.
Porém, no que incumbe ao conceito de romance, importa dizer que só muito tardiamente é que o mesmo foi equacionado, numa perspectiva mais simples, mais sintetizada, mas não menos abrangente. Com efeito, só no declinar do século XVIII é que se definiu o romance como «uma narração em prosa de uma acção fictícia que tem por quadro a pintura de costumes». Dito desta forma não há nada mais simples, nem menos directo. E sendo assim, a obra «O que Entra nos Livros», de António Manuel Venda, integra-se inquestionavelmente, tanto no conceito como na palavra, na correcta designação de romance. Não unicamente de «costumes» – porque isso está fora de moda e qualquer dia nem existe –, mas de um maravilhoso fantástico, a que mais adiante me referirei com relativa acuidade.
Ao longo da História da Literatura Portuguesa publicaram-se diversos tipos de romances: históricos (Romantismo); sócio-moralistas (Naturalismo), ético-científicos (Realismo); político-revolucionários (Neorealismo); anti-dogmáticos e universalistas (Modernismo) psico-surrealistas (Pós-Modernismo); e outros que nem sei até como qualificá-los. Em todos estes modelos de criação ficcionista o que está em causa são os costumes das sociedades humanas no tempo e no espaço, numa espécie de simbiose, ou de intercepção espacial, entre a História e a Sociologia.
Ora acontece que o romance «O que Entra nos Livros», afasta-se de todos estes modelos classificativos, ou de todas os movimentos literários que acabei de enunciar sumariamente, muito embora o seu discurso narrativo se integre naquilo a que chamo o «modernismo milenarista». Isto é, na tentativa de criação artística através do pictorismo ficcionista da palavra, ascendendo a patamares supra-fantasistas, que rapidamente se transformam numa diegese fantástica, surreal, imateral e anti-ascética. Nada de novo, diria, se com isso não se cortassem definitiva e diametralmente os cânones da ficção dominante. O paradigma romancista, na sua feição soberana e imperante, preocupa-se com a construção de grandes quadros sociais, ao longo dos quais o autor vai fazendo uma descrição evolutiva dos interesses percepcionais e dos seus consequentes jogos de poder, assim como das virtudes e dos defeitos dos protagonistas, dos assimilados ou dos desintegrados numa sociedade enquistada nos defeituosos costumes do individualismo social. O romancista torna-se assim num crítico e num psicanalista da sociedade, no que isso tem de mais contraditório e de paradoxal, usando geralmente o amor e as relações laborais nas suas conexões e correspondências com as intrigas que vulcanizam os diversos poderes em que se reparte a vida real. O romancista é, em suma, um ficcionista do real.
No caso presente, a natural bonomia de António Manuel Venda, a sua candura bucólica, a sua inocência e pureza de carácter, insuflada de um certo torpor algarviista, influenciou decisivamente a sua inspiração e consequente criação artístico-literária, visivelmente enraizada nos telúricos vergéis da sua saudável Monchique, onde os romanos procuravam a cura para os seus achaques através do princípio natural da água, ou seja, o termalismo, modernamente designado por SPA, sigla romana que se traduz por «salute per aqua».
Neste livro, como aliás, em quase todos os outros da sua lavra, a terra-natal, o Algarve e a peneplanície alentejana, que lhe serve hoje de residência e de ninho conjugal, estão presentes com uma insistente acuidade, e até por vezes com inusitado protagonismo. O mesmo acontece com as reminiscências da sua infância e juventude, aqui e ali afloradas, num contrastante quadro dos sentidos, entre a fresca e verdejante montanha e as estivais praias do barlavento algarvio. Essa enriquecedora vivência, a que certamente se conjugaria uma marcante e muito atenta convivência social, serviu-lhe, e provavelmente ainda lhe servirá, para povoar de vida os seus romances, os seus contos e as suas novelas, cujo inquestionável talento, e insofismável sucesso literário, enobrece hoje não só a literatura portuguesa como, muito particularmente, o seu e nosso Algarve.
Relativamente ao estilo, à concepção narrativa deste livro, direi que impera na estruturalização dos seus capítulos uma insistente, e consistente, preocupação realista da envolvente descritiva, através do recurso ao enquadramento paisagístico em que decorre a diegese. A descrição de aves e animais que abundam no montado onde reside, dos pormenores sobre a flora alentejana e sobre o parco coberto florestal, a contrastar com a sua Monchique originária, é uma constante neste romance. A descrição das estradas por onde circula, com as alarmantes brigadas de trânsito (que por insistência descritiva acabam por o interceptar quase no final do livro), assim como as pessoas que na berma da estrada, nos largos e jardins das aldeias, aguardam serenamente o decurso dos seus dias, numa entediante monotonia. Apesar de aqui e ali depararmos com uma certa acintosidade crítica, contra a ditadura salazarista, mas também contra os políticos actuais, a que não escapam os autarcas, o certo é que a acção do romance decorre de forma lenta e parcimoniosa, à imagem do clima mental, mas também socioeconómico, que se vive nas terras sulinas. Mesmo com essa aparente lentidão, desse torpor ao Sul, a minha atenção de leitor (ainda que pouco disponível para a ficção literária) não se conseguiu despegar das páginas que se iam sucedendo, envoltas no crescente mistério da fantasia que paira por detrás das palavras.
O autor, na sua prodigiosa imaginação, assume-se, quase despudoradamente, como personagem principal, como confidente do leitor, e por vezes como um cavaqueador tertuliano, do qual não nos podemos divorciar. Num estilo pós-moderno, António Manuel Venda encanta-nos com a fantasia dum «mágico velhinho», figura levemente fantástica, duma bonomia desarmante e quase infantil, muito invulgar por causa dessa inofensividade, contrária à agressividade das personagens surreais que caracterizam este género de literatura.
Acima de tudo, o livro está primorosamente bem escrito, escorreito na linguagem e absolutamente correcto na estrutura frásica e na concordância gramatical, em que por vezes o autor se coloca, diegeticamente, com pruridos de perfeccionista. Numa visão sintética e desconstrucionista da concepção narrativa, eu diria que este livro é uma espécie de alegoria aos Livros e ao Mundo da Escrita, cuja acção se desenvolve num quase monólogo entre o autor e o leitor. Numa estratégia modelarmente concebida, a atenção do leitor é constante e abruptamente interrompida pela desconcertante forma como se encerram os capítulos, deixando-lhe um trago de insaciável curiosidade. Desse estratagema narrativo resulta uma inebriante concentração do leitor na sucessão diegética das páginas, que o leva sempre por diante na progressiva sucessão dos capítulos.
Falando, ainda mais concretamente, deste livro, parece-me que, em primeiro lugar, dele ressalta a surpresa do título: «O que Entra nos Livros». Assim, de repente, apetece-me dizer que o que está dentro deste livro mais não é do que a própria alma do autor, consubstanciada no seu talento e na sua genialidade, eufemisticamente identificada na figura do «mágico velhinho». Acima de tudo, o que está dentro deste livro é a rara e mui singular capacidade imaginativo-fantasista de António Manuel Venda.
Curiosamente, ao contrário do que seria normal e expectável, este livro não se distancia dos anteriores; bem pelo contrário, engasta-se no romance que o antecede, intitulado «O Medo Longe de Ti». Não é a sua continuação, como se de uma saga se tratasse, mas antes de um romance de anamnese, em que uma das figuras secundárias e quase inócuas do livro anterior passou, ou saltou qual malabarista, para o livro seguinte, como se tivesse vida própria, ou, talvez mais concretamente, como se já existisse antes de ser inventado. É a figura do «mágico velhinho», uma criatura inventada pelo autor, inocentemente inspirado em «Branca de Neve e os Sete Anões», obviamente uma reminiscência da infância, modelado pela sua imaginação no aspecto físico do Dunga, mas com o carácter e os trejeitos do Zangado.
Tudo aparentemente infantil e inocente, mas que no decurso da narrativa se transforma numa misteriosa errância psicanalítica, pejada duma envolvência fantasista e quase fastasmática, geradora dum clima enigmático, nebuloso e enleante. O misterioso e insondável «mágico velhinho» vagueava pelos livros, saindo de um e entrando noutro, numa irrequieta odisseia entre autores de diversos quadrantes culturais, aparentemente desconexa e sem qualquer critério, mas que, ao fim e ao cabo, revelava ou estava intimamente relacionada com as preferências literárias do próprio António Manuel Venda. Em certo sentido, o «mágico velhinho» constitui a personificação do espírito errante e irreverente do próprio autor.
Mas o mais desconcertante neste romance é o facto de ser apenas constituído por duas personagens, mais essa omnisciente figura do «mágico velhinho». Em boa verdade, na intercepção dos diferentes estratos narrativos, estão apenas duas personagens, o Autor, especificamente identificado, e o Livreiro, um tal Sapinho Júnior, proprietário duma livraria em Évora, que numa simples carta indagava o «caríssimo escritor» sobre os verdadeiros traços fisionómicos do «mágico velhinho». Esta missiva funciona como rastilho para despoletar todo o romance em torno de uma absoluta ficção: o «mágico velhinho», esse pressuposto duende ou gnomo, híbrida figura inspirada no Dunga, um anão do humor infantil, que talvez por humildade do autor nunca poderia transformar-se num Mago Merlin da Corte do Rei Artur.
O certo é que em torno do «mágico velhinho» nasce, cresce e se desenvolve um belo romance, uma apaixonante história de fantasia e de mistério, que absorve e confunde a atenção do leitor, transformando-se numa espécie de romance policial, sem violência, sem sangue e sem criminosos.
Perante tudo isto, coloca-se-me, porém, e a priori, esta pertinente questão: terão os livros vida própria, e, por isso, a faculdade de gerarem descendência? Terão as personagens de ficção a possibilidade de se tornarem reais e de se independentizarem do berço/ livro em que nasceram? Lendo atentamente «O que Entra nos Livros» somos levados a crer que sim, os livros reproduzem-se e as personagens podem fugir deles para virem connosco passear por entre as nossas vidas.