Mostrar mensagens com a etiqueta Romance «O Medo Longe de Ti». Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Romance «O Medo Longe de Ti». Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Personagens de «O Medo Longe de Ti» – 4

O mágico velhinho
«E então vi o mágico velhinho a descer do comboio-ladrão, à frente de toda a gente, a fazer sinal de que não, de que tu não vinhas. Chegou-se ao pé de mim e eu não consegui pontapeá-lo. Por mais que quisesse, não consegui pontapeá-lo como nos últimos ramos da árvore alta da floresta das regras.»
.
Outras personagens: 1, 2, 3.
.

sábado, 25 de setembro de 2010

Personagens de «O Medo Longe de Ti» – 2

Catarina, a rapariga mais bonita do mundo
«Ali estava ele a conferir se tinha todos os estudantes presentes, como se não se visse logo que não, como se não desse para ver que na primeira fila, na nossa, a minha e a da rapariga mais bonita do mundo, faltava gente. Três mesas sem livros nem cadernos, três cadeiras vazias. Alguma coisa se passava.»
..
Primeira personagem aqui.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Personagens de «O Medo Longe de Ti» – 1

O jovem escritor
– Sophie, ou a chamada está sob escuta ou então estás a ranger os dentes de raiva!
– Raiva, jovem escritor, eu?! A ranger os dentes, talvez. Mas isso é dos nervos. Estou nervosa, nervosinha como uma raposa da floresta a aproximar-se da cidade em busca de alguma entrada para o novo aviário que agora fizeram junto à ligação com a auto-estrada para Stuttgart...



.

sábado, 12 de dezembro de 2009

A primeira frase (6)

«Há dezoito anos, talvez dezanove, fugi.»
Primeira frase do romance «O Medo Longe de Ti».
.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

As capas dos livros (6)

Do romance «O Medo Longe de Ti», de 2003 (edição Temas e Debates).
.
Agarrei um dos ferros da ponte, agarrei-o com firmeza, com a mão esquerda, talvez a procurar alguma coisa que justificasse o facto de não me virar, alguma coisa que me prendesse. Como é que eu poderia virar-me depois de estar agarrado ao ferro? Naquele momento, já tinha esperanças até numa desculpa assim, que haveria de funcionar. Eu, que tinha olhado fixamente para ti durante longos minutos, no jantar de boas-vindas, antes de me aproximar para te perguntar o nome e tantas outras coisas. Eu, que te tinha olhado com tanta força, nas escadas, ao encontrar-te pela primeira vez. E agora estava ali, na ponte onde os dois rios se uniam, sem me virar para ti, só porque tinha medo de, ao virar-me, não te encontrar a sorrir. Que faria eu se não estivesses a sorrir? Se estivesses parada a olhar-me, e se calhar já a perder a paciência com as minhas coisas? Tu, parada, talvez até de braços cruzados e a bater o pé direito, e com alguns dos gnomos maus de um lado para o outro, a conterem risinhos sarcásticos sabe-se lá com que sacrifícios, a dobrarem-se para ver se aguentavam aquele divertimento em surdina. E lá atrás, já bem no escuro das primeiras árvores, no sopé da colina da Universität, uma bruxa das más a desaparecer enquanto podia, toda manhosa, como se fosse dali para bem longe toda descansadinha da vida por ter cumprido mais um serviço. Como se regressasse ao cercado.
Sim, eu agarrava-me a um dos ferros da ponte, com quantas forças tinha, com as duas mãos. De repente, dei por mim já com as duas mãos no ferro, como se me preparasse para saltar para junto dos peixes. Já nem sabia o que podias pensar, se é que não te tinhas ido mesmo embora, depois de duas perguntas sem resposta minha. «Por que é que não olhas para mim?», «Por que é que não olhas para mim?» E eu, parvo, não olhava. Mas espreitava, conseguia espreitar, por me ter virado um pouco ao agarrar o ferro da ponte também com a mão direita. Só que não te via bem, nem sequer via um dos gnomos maus, tão-pouco uma bruxa capaz de acompanhá-lo em maldade. Não conseguia vislumbrar-te um sorriso, uma lágrima, um olhar de desdém, nada, porque tu já não estavas no mesmo lugar.
.

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

O aparecimento do mágico velhinho

Um excerto do meu romance «O Medo Longe de Ti» (edição Temas e Debates, 2003); o aparecimento do mágico velhinho, o causador de boa parte dos muitos problemas que acontecem no meu romance «O que Entra nos Livros» (edição AMBAR, 2007).

(…) Subi a uma das árvores, com todas as certezas de estar bem por baixo da estrela pequenina, mas com medo de me ter enganado no mapa da minha imaginação. Subi como um macaco, de novo criança, eu, que sempre tinha andado em cima das árvores com a mesma segurança com que andava no chão. Nunca tinha percebido como era possível, não o meu equilíbrio nos ramos, mas a falta de equilíbrio de colegas do liceu. Como eles se espantavam com o meu equilíbrio, sempre que era preciso ir buscar a bola ao cimo das árvores que rodeavam o campo de jogos... Eu andava nos ramos como no chão, e nos ramos era tão feliz como nos campos onde caçava grilos. Lembrei-me disso a subir à árvore alta da floresta das regras, para apanhar o beijo da estrela pequenina. Lembrei-me de tudo isso, eu, pequenino, nos ramos das árvores, nos ramos dos limoeiros, sem ligar aos espinhos que rasgavam a pele ao menor descuido. Ouvia os adultos queixarem-se deles, o meu pai, sempre que era preciso apanhar limões. Já comigo isso não acontecia, porque eu ignorava a dor de cada ferida e fechava os olhos sempre que encarava um espinho, como se fosse um instinto ganho à nascença. E nos sobreiros, na época de tirar a cortiça, eu sem ligar às formigas pequeninas, que picavam que nem feras, ou melhor, mordiam que nem feras, davam dentadas pequeninas, como elas, dentadas que doíam mesmo, e andavam sempre às centenas, aos milhares, num carreiro interminável.
Não, em cima das árvores eu sempre tinha sido como um macaquinho saltitão capaz de se segurar bem, e por isso estava a subir tão desembaraçadamente que nem mesmo as martas e os esquilos, mal acordados, estremunhados, de olhares parvos, nem mesmo eles pareciam acreditar ser possível. Teria o município contratado um humano como animal da floresta? E tencionaria contratar mais? Isto pareciam eles perguntar, com medo de perderem os lugares, os abrigos para se recolherem e a comida a horas certas, e a hipótese de posarem para as máquinas de fotografar e de filmar dos turistas. Pareciam com medo, mas eu não me compadecia, também estava cheio de medo, o comboio-ladrão tinha-te levado de mim e algo me dizia que não ias voltar. Ele tinha aumentado a velocidade, o comboio-ladrão, de repente tinha aumentado a velocidade, e depois eu tinha chocado com a mastodonta maluca, eu a descer a colina dos destroços, aos trambolhões, e ela a subir, toda com os calores, mesmo na noite fria.
Quando cheguei ao cimo da árvore, aos últimos ramos, que mal suportavam o meu peso, a estrela do teu último beijo, a estrela pequenina... Caramba... Percebi que ela continuava longe, percebi que estava iludido. Mesmo assim, não me resignei, olhei-a fixamente, apelei a todas as minhas forças, equilibrei-me nos ramos que quase não me conseguiam suportar e tentei apanhar o teu beijo. Chamei os mágicos, que andavam à solta, como todos os outros maus, com excepção, talvez, do terrível Joe Dangerous, ligado a El Paso nem eu sabia por que cordão umbilical. Mas os mágicos não apareceram, deixaram-se estar na fábrica, tirando um, um velhinho de bengala e com uma cartola já comida pelo tempo
(…)

domingo, 30 de dezembro de 2007

Um bocadinho de «O Medo Longe de Ti»

(…) Lembras-te? Foi o que disse. E depois, um bocadinho depois, aí é que consegui falar mesmo de forma continuada. Falei muito, disse que não, que talvez a coragem não tivesse voltado, que talvez não fosse falta de coragem a razão do meu silêncio. Talvez até fosse o contrário, talvez a falta de coragem estivesse em dizer que te amava e querer meter-me todo dentro dessa expressão tão pequenina, como se ela me pudesse valer. Mas como fazê-lo de outra maneira que não pelas palavras? Tinha de te dizer que te amava, que te amo, porque não havia, não há, outra expressão, outras palavras, a menos que eu as conseguisse inventar. Mas não conseguia. Não consigo. Ou não queria. Ou não quero. Como eu falava, tanto...
– Penso se não seria preferível não dizer nada. Ficar apenas de mão dada contigo.
Era o que te dizia, que talvez fosse preferível perder-me na cartografia serena e acolhedora que se desenhava nos cantos dos teus lábios quando sorrias. Apenas. Não seria isso, afinal, o amor?
– A sensação de quando se vê o mar pela primeira vez, quando somos pequeninos e alguém nos leva pela mão, e há o medo da areia que nos foge debaixo dos pés…
Sim, era o que te dizia, o meu fascínio pelo mar, que em criança eu via ao longe, do alto da serra, da minha floresta do Sul, o mar, a vinte quilómetros de distância, aonde eu não ia muitas vezes. Era o que te dizia, o que eu falava, todo aquele mar cabia dentro de nós, o mar que por vezes surge também como um reflexo do que trazemos dentro.
– Já nem sei... Tu sabes? O mar que, então, percebemos já conhecer, o mar que mesmo assim nos assusta, mas que ao mesmo tempo nos acalma. Foi dessa forma que te perguntei o nome, talvez não tanto para o saber, mas para o confirmar, nem sei...
Mexeste os lábios. Os pequenos traços que eu já tinha decorado, perto, os pequenos traços no teu rosto, numa agitação breve. Pensei que ias dizer qualquer coisa, mas não, não disseste nada. Falei de novo:
– Foi assim que te perguntei o nome, eu, pequenino outra vez, de frente para o mar, eu, pequenino e sem ninguém, nessa vez, sem ninguém que me segurasse a mão. A minha mãe, ao longe. Eu, pequenino, e a areia a fugir-me debaixo dos pés. Eu, pequenino, com medo de me desequilibrar.
Tu não dizias nada. Largaste a minha mão, e com as duas mãos escondeste o rosto, como se não quisesses que eu te visse a chorar, se chorasses, ou a sorrir, se sorrisses. E eu, atrapalhado, de novo atrapalhado com esse teu gesto, calei-me. Por um segundo pensei que ias desistir, um segundo que me pareceu que poderia demorar quase toda a noite a passar. Olhei para o céu, fiz um olhar de estranheza, sem saber bem por quê. O céu negro, sem uma estrela, sem um rasto da passagem da bruxa dos ciúmes. E o gnomo, na algibeira... Estaria lá? Meti a mão, as duas, as duas ao mesmo tempo na algibeira do lado esquerdo. Era essa. Se não tivesses os dedos a tapar os olhos, irias estranhar tudo aquilo.
(…)

(excerto do meu romance «O Medo Longe de Ti», ed. Temas e Debates)