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segunda-feira, 30 de novembro de 2009

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Adiamento

O evento previsto para amanhã, dia 27, em Silves, na Biblioteca Municipal (21 horas), sobre o romance «Os Sonhos e Outras Perigosas Embirrações» (ver aqui) foi adiado por questões burocráticas (que têm a ver com a tomada de posse dos novos eleitos autárquicos), segundo a organização. Assim que houver nova data, farei aqui a divulgação.
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sexta-feira, 16 de outubro de 2009

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Recordar os sonhos

O romance «Os Sonhos e Outras Perigosas Embirrações», que publiquei há quase 10 anos, está este mês no Clube de Leitura da Biblioteca Municipal de Silves, no âmbito do ciclo «Os novos imaginadores da palavra». Irei à biblioteca dia 27/ 10, pelas 21 horas.
O romance começa assim:
Às vezes, carinho, consigo ver-te no mar. As ondas costumam ser pequeninas, quase imperceptíveis, e por isso só te mexes quando os barcos se aproximam. Alguns, de certeza, são apenas a minha imaginação a fazer ondular o teu cabelo caído pelo rosto, mas há muitos que passam por ti como se nem sequer existisses. Esses são bem reais e a velha Luzia dos Engreneiros, do alto da rocha onde pesca ao fim da tarde, não se cansa de os amaldiçoar.
– Deve ser porque lhe espantam os peixes.
– Ou então, amigo, é mesmo por ruindade.
A velha Luzia dos Engreneiros já não tem nariz. E tudo porque um dia, ainda em rapariga, lhe explodiu o caldeirão dos preparos enquanto estava a tomar-lhes o cheiro. Só que isso nunca lhe deu grandes aborrecimentos.
– Ela nem se foi abaixo, até porque não era criatura para isso, amezinhou-se sozinha e ao fim de dois ou três meses apareceu com um nariz novo. Claro que se tratava de um nariz dos de carnaval, daqueles com uns óculos pretos por cima, mas como já uma vez ouvi dizer, minha boa e apreciada amiga, não se pode ter tudo nesta vida.
– É capaz. O mais certo é nem na outra vida se conseguir ter tudo.
Isso não se sabe bem, porque de lá, da outra vida, segundo por aí se diz, só voltam os fantasmas.
– Voltam os que voltam!
– Não, voltam todos. Os fantasmas voltam todos, por isso é que são fantasmas e têm aquelas particularidades absolutamente inegáveis, ainda que um pouco ambíguas, que depois os escritores aproveitam para os romances e que em alguns casos, mais cedo ou mais tarde, acabam nos ecrãs de cinema, ou pelo menos em séries de televisão. Se os cabrões não voltassem, está-se mesmo a ver, então é que não eram fantasmas.
– ...
– Não sei se me fiz compreender?
– Claramente, senhor professor, claramente. E neste ponto deixo a conversa.
(...)
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terça-feira, 11 de agosto de 2009

As capas dos livros (5)

Do romance «Os Sonhos e Outras Perigosas Embirrações», de 2000 (edição Temas e Debates).
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Às vezes, carinho, consigo ver-te no mar. As ondas costumam ser pequeninas, quase imperceptíveis, e por isso só te mexes quando os barcos se aproximam. Alguns, de certeza, são apenas a minha imaginação a fazer ondular o teu cabelo caído pelo rosto, mas há muitos que passam por ti como se nem sequer existisses. Esses são bem reais e a velha Luzia dos Engreneiros, do alto da rocha onde pesca ao fim da tarde, não se cansa de os amaldiçoar.
- Deve ser porque lhe espantam os peixes.
- Ou então, amigo, é mesmo por ruindade.
A velha Luzia dos Engreneiros já não tem nariz. E tudo porque um dia, ainda em rapariga, lhe explodiu o caldeirão dos preparos enquanto estava a tomar-lhes o cheiro. Só que isso nunca lhe deu grandes aborrecimentos.
- Ela nem se foi abaixo, até porque não era criatura para isso, amezinhou-se sozinha e ao fim de dois ou três meses apareceu com um nariz novo. Claro que se tratava de um nariz dos de carnaval, daqueles com uns óculos pretos por cima, mas como já uma vez ouvi dizer, minha boa e apreciada amiga, não se pode ter tudo nesta vida.
- É capaz. O mais certo é nem na outra vida se conseguir ter tudo.

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quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Os meus diálogos - 9

(do romance «Os Sonhos e Outra Perigosas Embirrações», 2000)
(…)
- Pode ter sido um cão a comer o olho esquerdo do Zé da Silva, ou um corvo, ou até uma osga, ou um cabrão de um rato.
- Sim, por aí há bichos bem capazes de comerem um olho. Mas olhe, já agora, senhor presidente, o senhor tem alguma coisa contra os ratos?
- O quê?!
- Se tem alguma coisa contra os ratos, queria eu saber! Como para o cão, para o corvo e para a osga não disse nada, como só adjectivou o rato!...
- Bem, foi uma maneira de falar, uma forma genuína de apimentar a conversa cá à moda da serra.
- ...
- E já ganhei muitas eleições assim!

(…)

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Os meus diálogos - 7

(do romance «Os Sonhos e Outra Perigosas Embirrações», 2000)

(…)
O Perdido da Arrojela é um fantasma bem nutrido, ou melhor, dizem que é um fantasma. Nunca ninguém o pesou, mas deve ter para cima de oito ou nove arrobas, ou talvez umas dez.
- Há porcos com dez arrobas e até com mais, porcos grandes e gordos como um monte. Há porcos que até partem as pernas com a gordura que têm em cima. Quem faz tenções de engordar um porquinho, vai-lhe dando ração abundante e um dia por outro faz-lhe umas festinhas nas fuças. Tudo para ver se o põe a jeito de dar alimentação para um ano inteiro.
- Foi vossemecê que estudou para engenheiro de porcos, não foi?!
- Fui sim, senhor. Sou o engenheiro de porcos cá do concelho.
- E estudou onde, em Inglaterra?!
- Não, tirei o curso na Rússia, porque o meu pai era filiado no partido.
- Comunista?!
- Exactamente.
- E como é que se diz porco em russo?
- Disso já não me lembro. Mas também o que é que o amigo ia fazer só com uma palavra, ainda por cima tratando-se de um animal...
- Vossemecê está a chamar-me animal?!
- Não, de forma nenhuma! Eu estava a dizer que se trata, o porco, entenda-me o senhor, que se trata de um animal de fracas conotações em certos círculos de importância não desdenhável.
- Ah, sim. Mas eu depois havia de aprender outras palavras, com o tempo.
Quem também conta histórias de porcos, como não podia deixar de ser, é o Raposo do Besteiro.
- Certa vez, contou ele já há muito tempo, possuiu uma porca ...
- Possuiu uma porca?! Olha o grande tarado!!
- Certa vez, teve uma porca ...
- Teve uma porca?!
- Bem, ele era dono da porca, e então ...
- Ah, assim estava no seu pleno direito.
- Cala-se e ouça, amigo!
O Raposo do Besteiro era dono da porca. Tinha-a comprado no mercado de Monchique, e ela criou dezoito porquinhos, todos do mesmo tamanho, mas uns mais vivaços do que outros.
- Pois, isso é sempre assim.
- Escute lá, vossemecê estudou na Rússia?
- Eu não, fiz a quarta classe aqui em Foz de Zimbrais, depois o ciclo em Monchique e o liceu em Portimão. Só que a seguir não consegui entrar na faculdade.
- Então, se não estudou na Rússia, não dê palpites sobre este assunto! Limite-se a ouvir! Uma águia, um dia, quis-lhe roubar um porquinho ...
- A mim?!
- Porra! A águia quis roubar um porquinho à porca do Raposo do Besteiro.
- Ao porco do raposo do Besteiro, quer vossemecê dizer?! Àquele grande porco?!
- Isto é preciso uma paciência! O senhor não me diga que também é contabilista, ou deputado?!
- Olhe, por acaso, até já fui, na constituinte.
- Pois, tinha de ser.
- Fui deputado...
- Obviamente!
- Mas também fazia certas contabilidades.
(…)