Ler aqui, Pedro Correia sobre Adolfo Suárez, um político absolutamente notável.
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terça-feira, 22 de julho de 2008
terça-feira, 4 de setembro de 2007
sábado, 4 de agosto de 2007
Textos sobre livros - 35
Marías vai-se aos outros
Javier Marías no seu melhor. Vidas de escritores, e não só, contadas de uma forma notável por um adepto do Real Madrid que é ao mesmo tempo um dos nomes maiores da literatura espanhola. Marías conta coisas de Conrad, Joyce e tantos outros, como se viajasse no tempo para conseguir acompanhá-los.
Javier Marías deve ser um escritor bem disposto, pelo menos a julgar pela forma como descreve as vidas deste livro. O adepto do Real Madrid, que foi professor em Oxford (Inglaterra), nos Estados Unidos e na Universidade Complutense de Madrid, e que se tornou num dos criadores mais originais da língua castelhana, tem muitos outros livros traduzidos por cá, mas este é sem dúvida o mais entusiasmante.
A parte final do livro apresenta uma galeria de retratos (igualmente de escritores), tirada directamente da colecção particular de Javier Marías. Essa galeria está acompanhada por um texto onde o autor se detém brevemente sobre cada um dos retratos. Só a título de exemplo, atentemos no que diz sobre o retrato de Jorge Luis Borges, sentado e de óculos numa das mãos: «O pobre Borges parece paciente e cheio de compaixão (...) Não sabe que quando alguém se senta num banco deve manter-se direito ou cruzar as pernas com desenvoltura, nem que uns óculos acabados de tirar devem pelo menos ser escondidos da objectiva (...)»
Mas a parte verdadeiramente genial do livro são as vinte pequenas biografias, marcadas sobretudo pelo insólito. Quem conhece as obras de Faulkner, de Stevenson, de Thomas Mann, de Nabokov, de Oscar Wilde, de Kipling, de Joyce, provavelmente vai ficar bastante surpreendido. Ou talvez não. Mas melhores do que as minhas palavras são as de Javier Marías, daí que fui buscar meia dúzia de excertos de algumas das biografias.
Da biografia de Joseph Conrad – «Muito antes de pedir a futura mulher em casamento (isto é, quando ainda não existia muita confiança entre eles), apareceu uma noite com um pacote de folhas entre as mãos e propôs à jovem que lesse em voz alta algumas páginas que faziam parte do seu segundo romance. Jessie George obedeceu, cheia de emoção e temor, mas o nervosismo de Conrad não ajudava nada. ‘Isso não interessa; começa três linhas abaixo; passa essa página, passa essa página!’ Ou então chegava a repreendê-la por causa da dicção: ‘Fala com clareza; se estás cansada, diz. Não comas as palavras. Os ingleses são todos iguais, fazem o mesmo som para todas as letras.’»
Ainda sobre Conrad – «Quando a mulher estava a dar à luz o primeiro filho, (...), Conrad não parava de cirandar pelo jardim, dominado pela agitação. Ao ouvir uma criança a chorar, aproximou-se indignado da cozinha para perguntar à criada o que era aquilo: ‘Faça o favor de mandar embora essa criança! Está a incomodar a senhora!’, gritou. Mas consta que a criada lhe gritou ainda com mais indignação: ‘É o seu filho, senhor Conrad!’»
Da biografia de William Faulkner – «O emprego na central eléctrica fora o pai que lho arranjara depois de ter sido despedido do seu trabalho anterior, como chefe da estação de correios da Universidade de Mississipi. Ao que parece, houve um professor qualquer que apresentou razoáveis motivos de queixa: a única forma de obter a sua correspondência era rebuscando no caixote do lixo, onde com frequência iam parar directamente, por abrir, os sacos de cartas recebidos. Faulkner não gostava nada que lhe interrompessem a leitura, e a venda de selos caiu de maneira alarmante: a modos de explicação, Faulkner disse à família que não estava disposto a levantar-se continuamente para ir atender ao guichet e ter de agradecer a um filho da mãe qualquer o facto de ter dois cêntimos para comprar um selo.»
Da biografia de James Joyce – «Há bastantes anos tornaram-se célebres aquelas cartas obscenas em que o autor costumava prometer que quando Nora (a esposa) e ele se voltassem a encontrar (ele estava em Dublin e ela em Trieste, onde viviam habitualmente) seriam muito felizes (...) Interrogava Nora sobre o seu passado e o seu presente, a fim de alimentar os seus livros (...) ‘Quando aquela pessoa (...) te meteu a mão ou as mãos debaixo das saias, acariciou-te só por fora ou enfiou o dedo ou os dedos? (...) Apalpou-te por trás? Pediu-te que o apalpasses? Fizeste-o? (...)’ Não se pode negar que Joyce era um homem exigente e amante do pormenor.» Já por palavras minhas, e não de Javier Marías, devo referir que evitei trazer aqui a maior parte das perguntas; deixam estas a anos-luz.
Da biografia de Robert Louis Stevenson – «Já se tinha declarado um incêndio noutra zona e estendia-se tão rapidamente que Stevenson, por curiosidade científica, perguntou a si mesmo se a causa seria o musgo que adorna e cobre os bosques californianos. Para averiguar isto, não lhe ocorreu outra coisa que não fosse aplicar um fósforo a um galho, mas sem tomar a precaução de antes arrancar da árvore o galho em causa. A árvore transformou-se rapidamente numa tocha, o que certamente levou Stevenson a considerar concluída a prova, e além disso satisfatoriamente. Mas o seu comportamento pouco cavalheiresco veio depois: não muito longe, ouviu os gritos dos homens que combatiam o fogo original, e compreendeu que só lhe restava fazer uma coisa, a saber, fugir dali antes que fosse descoberto. Parece que correu como nunca antes fizera na vida (...).»
Finalmente, da biografia de Madame du Deffand – «(...) numa célebre ocasião um cardeal mostrou o seu assombro por São Dionísio Aeropagita, depois do seu martírio, ter caminhado com a cabeça cortada debaixo do braço desde Montmartre até à igreja que tem o seu nome, numa distância de nove quilómetros, o que o deixava sem fala. ‘Ah, Monsenhor’, interrompeu-o Madame, ‘numa situação dessas só o primeiro passo é que custa.’»
O resto destas vidas, só mesmo lendo o livro.
Javier Marías no seu melhor. Vidas de escritores, e não só, contadas de uma forma notável por um adepto do Real Madrid que é ao mesmo tempo um dos nomes maiores da literatura espanhola. Marías conta coisas de Conrad, Joyce e tantos outros, como se viajasse no tempo para conseguir acompanhá-los.
Javier Marías deve ser um escritor bem disposto, pelo menos a julgar pela forma como descreve as vidas deste livro. O adepto do Real Madrid, que foi professor em Oxford (Inglaterra), nos Estados Unidos e na Universidade Complutense de Madrid, e que se tornou num dos criadores mais originais da língua castelhana, tem muitos outros livros traduzidos por cá, mas este é sem dúvida o mais entusiasmante.
A parte final do livro apresenta uma galeria de retratos (igualmente de escritores), tirada directamente da colecção particular de Javier Marías. Essa galeria está acompanhada por um texto onde o autor se detém brevemente sobre cada um dos retratos. Só a título de exemplo, atentemos no que diz sobre o retrato de Jorge Luis Borges, sentado e de óculos numa das mãos: «O pobre Borges parece paciente e cheio de compaixão (...) Não sabe que quando alguém se senta num banco deve manter-se direito ou cruzar as pernas com desenvoltura, nem que uns óculos acabados de tirar devem pelo menos ser escondidos da objectiva (...)»
Mas a parte verdadeiramente genial do livro são as vinte pequenas biografias, marcadas sobretudo pelo insólito. Quem conhece as obras de Faulkner, de Stevenson, de Thomas Mann, de Nabokov, de Oscar Wilde, de Kipling, de Joyce, provavelmente vai ficar bastante surpreendido. Ou talvez não. Mas melhores do que as minhas palavras são as de Javier Marías, daí que fui buscar meia dúzia de excertos de algumas das biografias.
Da biografia de Joseph Conrad – «Muito antes de pedir a futura mulher em casamento (isto é, quando ainda não existia muita confiança entre eles), apareceu uma noite com um pacote de folhas entre as mãos e propôs à jovem que lesse em voz alta algumas páginas que faziam parte do seu segundo romance. Jessie George obedeceu, cheia de emoção e temor, mas o nervosismo de Conrad não ajudava nada. ‘Isso não interessa; começa três linhas abaixo; passa essa página, passa essa página!’ Ou então chegava a repreendê-la por causa da dicção: ‘Fala com clareza; se estás cansada, diz. Não comas as palavras. Os ingleses são todos iguais, fazem o mesmo som para todas as letras.’»
Ainda sobre Conrad – «Quando a mulher estava a dar à luz o primeiro filho, (...), Conrad não parava de cirandar pelo jardim, dominado pela agitação. Ao ouvir uma criança a chorar, aproximou-se indignado da cozinha para perguntar à criada o que era aquilo: ‘Faça o favor de mandar embora essa criança! Está a incomodar a senhora!’, gritou. Mas consta que a criada lhe gritou ainda com mais indignação: ‘É o seu filho, senhor Conrad!’»
Da biografia de William Faulkner – «O emprego na central eléctrica fora o pai que lho arranjara depois de ter sido despedido do seu trabalho anterior, como chefe da estação de correios da Universidade de Mississipi. Ao que parece, houve um professor qualquer que apresentou razoáveis motivos de queixa: a única forma de obter a sua correspondência era rebuscando no caixote do lixo, onde com frequência iam parar directamente, por abrir, os sacos de cartas recebidos. Faulkner não gostava nada que lhe interrompessem a leitura, e a venda de selos caiu de maneira alarmante: a modos de explicação, Faulkner disse à família que não estava disposto a levantar-se continuamente para ir atender ao guichet e ter de agradecer a um filho da mãe qualquer o facto de ter dois cêntimos para comprar um selo.»
Da biografia de James Joyce – «Há bastantes anos tornaram-se célebres aquelas cartas obscenas em que o autor costumava prometer que quando Nora (a esposa) e ele se voltassem a encontrar (ele estava em Dublin e ela em Trieste, onde viviam habitualmente) seriam muito felizes (...) Interrogava Nora sobre o seu passado e o seu presente, a fim de alimentar os seus livros (...) ‘Quando aquela pessoa (...) te meteu a mão ou as mãos debaixo das saias, acariciou-te só por fora ou enfiou o dedo ou os dedos? (...) Apalpou-te por trás? Pediu-te que o apalpasses? Fizeste-o? (...)’ Não se pode negar que Joyce era um homem exigente e amante do pormenor.» Já por palavras minhas, e não de Javier Marías, devo referir que evitei trazer aqui a maior parte das perguntas; deixam estas a anos-luz.
Da biografia de Robert Louis Stevenson – «Já se tinha declarado um incêndio noutra zona e estendia-se tão rapidamente que Stevenson, por curiosidade científica, perguntou a si mesmo se a causa seria o musgo que adorna e cobre os bosques californianos. Para averiguar isto, não lhe ocorreu outra coisa que não fosse aplicar um fósforo a um galho, mas sem tomar a precaução de antes arrancar da árvore o galho em causa. A árvore transformou-se rapidamente numa tocha, o que certamente levou Stevenson a considerar concluída a prova, e além disso satisfatoriamente. Mas o seu comportamento pouco cavalheiresco veio depois: não muito longe, ouviu os gritos dos homens que combatiam o fogo original, e compreendeu que só lhe restava fazer uma coisa, a saber, fugir dali antes que fosse descoberto. Parece que correu como nunca antes fizera na vida (...).»
Finalmente, da biografia de Madame du Deffand – «(...) numa célebre ocasião um cardeal mostrou o seu assombro por São Dionísio Aeropagita, depois do seu martírio, ter caminhado com a cabeça cortada debaixo do braço desde Montmartre até à igreja que tem o seu nome, numa distância de nove quilómetros, o que o deixava sem fala. ‘Ah, Monsenhor’, interrompeu-o Madame, ‘numa situação dessas só o primeiro passo é que custa.’»
O resto destas vidas, só mesmo lendo o livro.
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Nota: para ilustrar este texto, escolhi uma foto do autor, na versão bastonário da Ordem dos Advogados (Rogério Alves), só que careca.
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quarta-feira, 1 de agosto de 2007
Textos sobre livros - 34
«Tonto, Morto, Bastardo e Invisível», de Juan José Millás (Temas e Debates, 175 pp.)Jesus e o seu bigode
Um destacado escritor espanhol consegue com as aventuras de um tal Jesus, que é despedido de uma empresa, levar o humor quase até aos limites do absurdo.
O tonto, o morto, o bastardo e o invisível, afinal, são apenas um. Jesus, de seu nome – o que talvez fosse de estranhar se a história acontecesse em Portugal e não em Espanha, onde a ninguém faz espécie que um homem se chame Jesus –, é tudo isso e muito mais, após ser informado pelo chefe de pessoal da empresa onde trabalha de que irá ser despedido. Do mal o menos, terá direito a um ano de salário e a umas palmadinhas nas costas; e depois, conta a certa altura Jesus, «Laura trabalhava, era médica-legista, portanto o horizonte de indigência encontrava-se ainda um pouco afastado». Mas Jesus não consegue encarar a mulher e o filho, sente-se invadido pelo medo e refugia-se na casa de banho. «... deixei que toda a cobardia adiada desde que entrou na empresa uma equipa social-democrata, autorizada a vendê-la em partes, se reunisse de chofre na percepção do espaço (...) fechei várias vezes as torneiras para transmitir a sensação de actividade, confiante de que a angústia se retiraria ao atingir determinada magnitude. Então, lembrei-me do bigode.» Será assim, com a ajuda do bigode, que Jesus irá começar uma vida nova, num mundo bem diferente daquele a que estava habituado e onde as regras são ditadas pela sua imaginação. Juan José Millás, um dos mais destacados nomes da literatura espanhola, consegue com as aventuras de Jesus levar o humor quase até aos limites do absurdo, sem nunca sair dos ambientes quotidianos da vida moderna. Afinal, a vida que leva a sua personagem a empreender uma espantosa fuga, mesmo que para as terras da imaginação. Quantos de nós não terão já estado à beira de fazer o mesmo?
Um destacado escritor espanhol consegue com as aventuras de um tal Jesus, que é despedido de uma empresa, levar o humor quase até aos limites do absurdo.
O tonto, o morto, o bastardo e o invisível, afinal, são apenas um. Jesus, de seu nome – o que talvez fosse de estranhar se a história acontecesse em Portugal e não em Espanha, onde a ninguém faz espécie que um homem se chame Jesus –, é tudo isso e muito mais, após ser informado pelo chefe de pessoal da empresa onde trabalha de que irá ser despedido. Do mal o menos, terá direito a um ano de salário e a umas palmadinhas nas costas; e depois, conta a certa altura Jesus, «Laura trabalhava, era médica-legista, portanto o horizonte de indigência encontrava-se ainda um pouco afastado». Mas Jesus não consegue encarar a mulher e o filho, sente-se invadido pelo medo e refugia-se na casa de banho. «... deixei que toda a cobardia adiada desde que entrou na empresa uma equipa social-democrata, autorizada a vendê-la em partes, se reunisse de chofre na percepção do espaço (...) fechei várias vezes as torneiras para transmitir a sensação de actividade, confiante de que a angústia se retiraria ao atingir determinada magnitude. Então, lembrei-me do bigode.» Será assim, com a ajuda do bigode, que Jesus irá começar uma vida nova, num mundo bem diferente daquele a que estava habituado e onde as regras são ditadas pela sua imaginação. Juan José Millás, um dos mais destacados nomes da literatura espanhola, consegue com as aventuras de Jesus levar o humor quase até aos limites do absurdo, sem nunca sair dos ambientes quotidianos da vida moderna. Afinal, a vida que leva a sua personagem a empreender uma espantosa fuga, mesmo que para as terras da imaginação. Quantos de nós não terão já estado à beira de fazer o mesmo?
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domingo, 29 de julho de 2007
Ainda aquela coisa da união com Espanha
Estranho, muito estranho, o editorial de José António Saraiva no «Sol», este Sábado. Ainda o caso Saramago e da sua despropositada Ibéria. Saraiva, pelo que percebi, tem uma posição contrária, ou pelo menos defende que a nossa independência depende apenas de nós, da nossa vontade (ainda bem que não é da de Saramago). Há uns tempos, ainda no «Expresso», o arquitecto foi um dos «pioneiros» desta ideia manhosa da união com Espanha, mas felizmente agora parece que a coisa lhe passou. Terá mudado mesmo de opinião com a passagem de um semanário para outro?Curiosamente, no mesmo dia, num dos cadernos do «Expresso», Francisco Belard faz uma revelação. Nos anos 80 do século passado, Saramago, nos bastidores de um encontro de escritores ibéricos – em que parece que os escritores o que mais fizeram foi andar às turras –, terá dito que «de Espanha nem bom vento nem bom casamento». Se não estava apenas a declamar provérbios, não deixa de ter a sua piada.
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quarta-feira, 18 de julho de 2007
Saramiago
Isto merece ser lido.
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domingo, 15 de julho de 2007
E a revolução lusitana?
Não sei se Saramago é profeta (ele diz que não é), mas esta coisa da Espanha alargada à nossa custa, ou da Ibéria, tipo teoria do arquitecto Saraiva, deixa-me muito triste. Não com a perspectiva – não me parece que possa acontecer –, mas com a insistência nela de determinadas pessoas (portuguesas), sobretudo das que são bastante conhecidas. Gosto muito de Espanha, é mesmo o país de que mais gosto depois de Portugal, mas daí a uniões… Só se fosse para no mesmo dia começar logo a fazer uma revolução lusitana, na volta até com o apoio do próprio Saramago, se entretanto se arrependesse.
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