Li a análise do último (ou melhor, do mais recente) romance de Miguel Sousa Tavares («Rio das Flores») feita por Vasco Pulido Valente, que saiu hoje no «Público». Não comprei o jornal, nem sabia da coisa; vi por acaso uma referência num blog e depois fui a outro ler o texto. Ainda não li o romance, e quero ver se leio, embora uma espreitadela ao início, numa livraria, me tenha dado que pensar – começo meio à Camilo (com aquela mania do nome completo), meio à García Márquez de «Cem Anos de Solidão», só que o pai da personagem em vez de a levar a conhecer o gelo leva-a a uma tourada; e depois, a personagem tem já não me lembro quantos «anos de idade», recurso estilístico comparado ao «há x anos atrás», que Miguel Sousa Tavares também usa com frequência. Mas conto ler o livro, porque gostei da história do anterior («Equador»), mesmo com os erros – que começavam logo com uma confusão da época em que foi construído o Canal de Suez – e com a escrita que dava a ideia de aquilo ter sido sempre a despachar.Da conta em que tenho Vasco Pulido Valente, só posso dizer que o que escreveu sobre «Rio das Flores» é bem capaz de ser verdade. Há uma frase que me chamou a atenção; esta… «[Miguel Sousa Tavares] Não escreve como quem escreve um romance, escreve como quem escreve um relatório: directamente, com a mesma luz branca e monótona para tudo.» Eu costumo comparar estes casos de forma diferente, com um velho manual de gestão da força de vendas que tinha numa das cadeiras da faculdade, um livro de um cromo norte-americano chamado Tom Hopkins que aparecia na capa a fazer lembrar uma das personagens do «Dallas» (o manual tem uns vinte anos e curiosamente há uns meses chegou-me ao escritório um exemplar de uma nova edição, a quinta, com o cromo ainda e sempre na capa só que mais velho um bocadinho mais bem arranjado).
No meio destas polémicas das literaturas, estranho o silêncio sobre o novo romance de José Rodrigues dos Santos, que também conto ler. Como «Rio das Flores», já o folheei numa livraria e chamou-me a atenção um estranho «crrrrrrr, crrrrrr» que provavelmente é o substituto dos «uhs» da esmagadora maioria das personagens do romance anterior. Os livros deste autor já se sabe que é mais para a palhaçada, mas sempre podia haver alguma coisa tipo Vasco Pulido Valente e «Rio das Flores»; para ver se isto animava um pouco.
