quinta-feira, 11 de setembro de 2008

António Souto – Crónica (3)

Depois de duas crónicas sobre Saramago (esta e esta), uma terceira. O António Souto publica as crónicas no jornal da sua terra («Jornal D’Angeja»); esta é de Agosto.
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Entre espólios e esculturas
Continua a haver hoje uma vontade enorme de partir e de regressar. Exílio forçado ou desejado, pouco importa. Aventuras e desventuras. Está-nos na alma nossa de gente dada a migrar. E connosco vão e vêm as coisas, em vida ou em morte. Agora parece estar na moda, mais do que antes, mandá-las para lugares de cultura descentralizada, para lugares bons, de boas e acolhedoras condições, espaços criados ou a criar, com patronos cimeiros.
Falamos de livros, de espólios literários, de acervos de escritores e intelectuais que, por deliberação própria ou alheia, são doados a bibliotecas municipais. A leitura democratiza-se, chega onde, em muitos casos, há muito deveria ter chegado, e por esta via a baixo custo para as autarquias. Uma espécie de mecenato.
José Cardoso Pires (falecido) – mais de três mil livros, um quadro e a máquina de escrever do escritor vão para a futura Biblioteca Municipal de Vila de Rei (Castelo Branco) que, quando inaugurada, passará a ostentar o seu nome. Segundo declarações da sua filha, é «um dever deixar para quem queira estudar e apreciar parte da sua obra na biblioteca da sua terra natal».
Eduardo Prado Coelho (falecido) – mais de seis mil volumes doados à Câmara Municipal de Famalicão para integrarem a Biblioteca Camilo Castelo Branco, sendo depositados numa sala (inaugurada para o efeito) com o nome deste escritor e intelectual.
António Lobo Antunes – todo o acervo literário vai para as antigas instalações da Escola Primária do Almonda, em Torres Novas (em regime de comodato). Ali será criada a Casa da Literatura. Em troca, terá o escritor direito a uma casinha para férias, um repouso bem-vindo para a arte da escrita. Da ligação do escritor a este concelho não reza a história, mas sabemos que ali reside o seu irmão, Pedro Lobo Antunes, vereador no executivo camarário, com pelouros atribuídos.
Marcelo Rebelo de Sousa – dezenas ou centenas de livros seguem regularmente para a Biblioteca Municipal de Celorico de Basto (Biblioteca Prof. Dr. Marcelo Rebelo de Sousa), que acumula já cerca de cento e vinte mil documentos (essencialmente livros, manuscritos e quadros), um espólio de fazer inveja a muitas das bibliotecas deste país. Homem dos sete ofícios (professor universitário, político na reserva, comentador…), foi em tempos presidente da Assembleia Municipal deste concelho do distrito de Braga.
A memória literária, entretanto, estará sempre no lugar certo, seja em que parte for, havendo leitores e estudiosos que a não deixem morrer.

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Há descobertas admiráveis. Já neste espaço sublinhei a arte entusiástica cultivada pelo meu amigo Víctor Brotas, médico em Lisboa, no Hospital dos Capuchos. A partir de troncos secos de árvores citadinas, matéria bruta e grosseira, dá-lhes forma e poesia, contornos belos e expressivos, como quem trabalha corpos e lhes desvenda a alma. Entre a medicina e a escultura é tudo uma questão de tempo (pouco) e de apego (muito), uma dedicação ilimitada ao cerne dos seres.
Este mês, numa incursão ao norte da Galiza, quis o destino que poisasse na aldeia de Baamonde (Lugo). Quase sem querer, fui levado a conhecer a Casa-Museu de Víctor Corral. Víctor também, este, devoto como o outro da fibra natural das árvores.
Nascido aqui em 1937, Víctor Corral (escultor, fotógrafo, pintor e poeta) «estudou em Artes e Ofícios da Corunha com o escultor José Juan e em Barcelona com Montagut. Depois de uma estada em Barcelona, onde teve oficina e expôs com notável êxito, instalou-se definitivamente na sua terra natal. Expôs em Lugo, A Corunha, Ourense, Santiago, Vigo, Ferrol… (…) Tem obra nos museus de Chicago, Nova Iorque, Lugo, Museu Arqueológico da Corunha, Casa-Museu de Rosalía em Padrón… Mas, sobretudo, tem uma Casa-Museu para a sua obra, que é simultaneamente a sua oficina de artista e que abre de par em par a todos os amantes da arte».
Foi isso mesmo que fez, era sábado, hora de almoço e a porta aberta. Passeámos pelo jardim (parte integrante do museu) e entrámos na primeira sala da sua própria casa. A hospitalidade acontecia a par com a grandeza das esculturas meticulosamente expostas. A madeira enchia o espaço em recortes figurativos. Cada peça um símbolo, uma denúncia, um apelo, um grito. Fora, por entre a relva do jardim, a madeira estava igualmente presente, mas a pedra e as pedras (algumas raras) ocupavam relevo. Tudo era fonte de inspiração para o espírito e para a matéria. A separar o interior do exterior apenas a erosão do tempo.
Ficou, à partida, a promessa do regresso, com vagar para os olhos e para as palavras do Víctor Corral. Disto há-de saber o meu amigo médico Víctor Brotas, e há-de gostar.
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Imagem: pormenor de um retrato a óleo de José Cardoso Pires, feito por Júlio Pomar em 1954 (o retrato está na contracapa do livro «Histórias de Amor»), publicado por estes dias pelas Edições Nelson de Matos).
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2 comentários:

Luís Graça disse...

Ler esta crónica foi dar um belo passeio.

Manuel Leão disse...

António:

O Luís Graça tirou-me as palavras do teclado. Não se faz...

Um abraço a ambos.