terça-feira, 12 de agosto de 2008

Dois textos sobre Saramago (1)

Primeiro de dois textos sobre José Saramago (o segundo publicarei por estes dias). Foram escritos pelo meu amigo António Souto para uma crónica («Ex-abrupto») que mantém no jornal da sua terra («Jornal D’Angeja»); este é o da edição de Junho.
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Saramago, depois do limbo
Estamos (ainda) em mês de santos populares [escrito em Junho passado]. Já lá vão o Santo António e o São João, e o São Pedro, à hora em que fecho esta crónica, está mesmo por um fio.
Também já lá vão o europeu e a selecção e o Scolari e as bandeiras ao vento e o sonho de sermos campeões… De sermos, que é como quem diz, que eu nunca alimentei esperanças, sequer embarquei nesta onda arrebatadora a roçar o delírio, que há coisas mais graves e preocupantes, coisas que nos deveriam igualmente convocar e solidarizar, coisas que com menos milhões (de euros) tornariam certamente muito mais felizes muitos mais milhões (de seres). Mas, desditosamente, somos assim, passada que é a bola, abandonamos o campo e partimos para férias, cada um para seu lado, e felizes sempre, enquanto não (nos) atormentarem as contas e as dívidas.
Ah, e também já lá vai o Menezes (e só não foi o Santana ou porque já fora ou porque teima em «andar por aí») e já lá vai a estação da chuva. Agora só orvalho e sol, e um ventozinho que, por ser vento, semelhante e permanentemente vai.
Mas, como no dizer do poeta (Manuel Alegre), «há sempre alguém que resiste»…
***
Saramago. José Saramago. Nobel da Literatura. Um dia destes, numa entrevista, afirmou mais ou menos isto: «Para que é que havemos de querer saber o que é o inferno se estamos num e não somos capazes de sair dele?».
Há quem o considere demasiado de esquerda, um arreigado comunista, demasiado ortodoxo, por natureza um insatisfeito, um pessimista. Poderá ser tudo quanto quiserem que ele seja, mas é sem dúvida um homem de princípios e de valores, um homem de coerência e de consciência – «Eu sou um privilegiado, mas a maior parte da humanidade não é.»
Conheci pessoalmente Saramago em Estrasburgo, em 7 de Fevereiro de 1997, quando ali se deslocou, a convite da FNAC, para apresentar o seu livro «Ensaio sobre a Cegueira» em tradução francesa («L’Aveuglement»). Álvaro Guerra (escritor e, na ocasião, embaixador junto do Conselho da Europa) apresentou José Saramago; eu, que ali ensinava na universidade, apresentei sumariamente o romance. Foi um fim de tarde agradável que terminaria num restaurante alsaciano, junto à catedral, em amena cavaqueira. A senhora embaixatriz e a esposa do escritor, Pilar del Rio, completavam o requinte do encontro. Uma surpreendente descoberta – a do homem por detrás do escritor, a do escritor humanamente incansável. Um ano mais tarde, era ele o nosso Nobel da Literatura.
Depois desse encontro, vi-o mais duas vezes, na Feira do Livro de Lisboa. Há pouco mais de um ano, ia vê-lo de novo, na capital, mas adoecera e voltava apressado para Lanzarote, onde vive (por culpa de um aspirante a censor que, pelos vistos, sobreviveu ao 25 de Abril e alguém convidou para um governo de má memória).
Agora voltei a vê-lo, a Saramago, já restabelecido e lúcido como sempre, mas na televisão. Numa entrevista. A falar dos outros e de si, que é quase a mesma coisa, sobretudo quando o fundamento da (sua) escrita reside no cuidado por aqueles de quem muito pouca gente fala. Aqueles que não têm nome, massa anónima como aquela que em «Memorial do Convento» se relata em trabalhos forçados por extravagância de um rei – (...) «já que não podemos falar-lhes das vidas, por tantas serem, ao menos deixemos os nomes escritos, é essa a nossa obrigação, só para isso escrevemos, torná-los imortais» (...).
Lembrou potenciais escritores que poderiam ter sido «nobelizados», como Aquilino Ribeiro ou Miguel Torga (Pessoa, não, porque, como afirmou, nem nós o conhecíamos na sua altura, quanto mais os suecos!), mas registou igualmente novos talentos promissores (tudo Josés, curiosamente), como o José Eduardo Agualusa, o José Luís Peixoto ou o José Riço Direitinho.
Recordou a recente enfermidade que quase o ceifou – «Da morte, sei que estive já à porta, mas não entrei, estive assim num limbo… Mas sempre com uma enorme serenidade.»
E da razão de escrever agora livros mais pequenos, confessa: «O que acontece é que aos 85 anos o calendário tem importância, o tempo que resta torna-se mais reduzido, e é sempre uma preocupação pensar que não se tem tempo de acabar um livro (hoje, dificilmente me lançaria na escrita de um ‘Memorial do Convento’).»
Já no fim da entrevista, e quando perguntado sobre como gostaria de ser recordado, a resposta, metaforicamente ao seu jeito, foi a seguinte: «Como aquele tipo que fez como o cão que bebeu as lágrimas a uma mulher [alusão clara a «Ensaio sobre a Cegueira»]. Aquele cão que teve compaixão de um ser que estava em desespero e, não podendo fazer nada por ele, lhe secou as lágrimas.»
Isto bastou para lhe sabermos, uma vez mais, a grandeza de alma, para lhe compreendermos a bondade da escrita, para o continuarmos a admirar em cada obra. Isto bastaria, a nosso ver, para lhe justificar o Nobel. Mas há, seguramente, quem nunca lho perdoe…

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3 comentários:

Manuel Leão disse...

António:

Li recentemente na revista LER, uma entrevista a Saramago, conduzida por Carlos Vaz Marques, onde alguns desses temas também foram abordados. Aprende-se muito a ler ou a ouvir Saramago. Tem, de facto, dimensão mundial. O Homem de que ele fala é Universal.

Um abraço.

d.e. disse...

A última vez que vi Saramago foi numa sessão de homenagem a Jorge de Sena, no passado mês de Junho, uma iniciativa da sua Fundação que teve lugar no Teatro Nacional de S. Carlos. Nobel por inteiro merecimento (se bem que isso dos prémios literários seja matéria controversa), não há nenhum escritor vivo de língua portuguesa que tenha colocado na sua obra uma dose igual de originalidade.
Mas a questão dos prémios dava para uma longa conversa. Terão os escritores - a Literatura! - de viver esta vertigem concorrencial de que se reveste hoje a indústria do livro? Veja-se o que disse recentemente um grande escritor português (esse mesmo que muitas vezes é apresentado como émulo de Saramago): "Os prémios são sempre bons, especialmente se trouxerem muito dinheiro." Acho que é uma afirmação excessiva, mercantilista, eu sei lá!
Sobre o Nobel para Aquilino ou Torga: quem pesquisar sobre os episódios (ocorridos em fins dos anos 50) que rodearam estas possíveis candidaturas, não deixará de ficar admirado com tanta mesquinhez e emulação.
Quanto a Pessoa não ser conhecido, talvez nessa altura já começasse a sê-lo, graças à revista "presença" e, fundamentalmente, a José Régio. Este, curiosamente, também não deixou de tecer algumas considerações sobre a "nobelização" de Torga, de que discordava, indo a sua preferência para Aquilino.

Manuel Leão disse...

D. E.

Infelizmente, Fernando Pessoa, era "relativamente" pouco conhecido, nessa altura, para que pudesse ter tido o Prémio Nobel. À data da sua morte, salvo erro, só estavam publicados a "Mensagem" e os "Sonetos Ingleses". E, nem à “Mensagem”, foi feita justiça".