Um romance sobre a tragédia dos incêndios florestais; disponível aqui; blog; entrevista.
António Manuel Venda (amvenda@sapo.pt) nasceu em Monchique, no sul de Portugal, em 1968. Informações sobre todos os livros aqui.
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O romance «O que Entra nos Livros» (edição AMBAR) está disponível nas livrarias, e também on-line (por exemploaqui,aqui ou directamente na AMBAR; quanto ao livro que lhe dá origem, está disponível aqui). O início... Chamo-me António Manuel Venda. Talvez não devesse começar assim, até porque se este relato for publicado, imaginemos que sob a forma de livro, o nome do autor aparecerá na capa. E depois, no interior, é bem provável que esse mesmo nome seja repetido quase até à exaustão, no topo de cada uma das páginas da esquerda, as de numeração par, numa espécie de desafio ao título, que dominará cada uma das da direita. Mas também há a hipótese de este relato não conhecer a publicação, e aí as coisas já serão diferentes. Se alguma pessoa o encontrar, nem interessa agora estar com especulações sobre o tipo de suporte, poderá querer logo saber quem o escreveu. Neste caso, a presença do nome a abrir o texto não será despropositada. Mas adiante, que os factos são muitos e importa deixá-los escritos antes que a memória, a minha memória, os remeta para um qualquer compartimento enevoado, daqueles onde as coisas parecem ser apenas o resultado de um sonho. (...) Há uma frase na capa, no canto inferior esquerdo, que aqui não se consegue ler; é a seguinte... «Há livros que ficam para sempre na nossa memória.» A entrevista para a qual existe um link já aqui abaixo foi dada à Antena 1 (Ana Aranha, programa «À Volta dos Livros»).
Antologia Crítica »»»Uma ingenuidade desarmante e patentemente trabalhada desenha cenários que, sendo deste mundo, descansam em altas improbabilidades. Ou é a Natureza que gravemente desvaira, ou é o reino animal que ganha um imprevisível discernimento, ou são os poderes estabelecidos, locais ou nacionais, que entram em mais do que habitual tresvario. Quando não for tudo isso ao mesmo tempo. (Fernando Venâncio, «Expresso») »»»AMV é uma figura singular. Há algo na sua literatura nada costumeiro. Ligação intensa à realidade, urbana ou citadina; atenção aos costumes dos jovens contemporâneos; bonomia irónica que compreende, mas não desculpa. (Torcato Sepúlveda, «Grande Reportagem») »»»Seria um bom livro para David Lynch filmar, e o realizador nem teria de mexer muito para que todos reconhecessem a sua marca. AMV procura o nonsense em cada diálogo, tenta surpreender-nos com episódios bizarros e anormais e não poupa os homens do poder, com socos sucessivos no estômago, sempre que representa um ministro, um presidente de câmara, os seus assessores ou mesmo o resto da população. (Luís Mateus, «Portugal Diário») »»»Éextremanente singular a aventura de AMV num mundo cheio de fronteiras como o da literatura portuguesa. O seu olhar não é o de um escritor urbano que tenta decifrar as misteriosas histórias que se vão desenrolando no país profundo. É, antes, o de alguém que comunga connosco essa raia atravessada por malteses que procuram um pouco de sentido para a sua vida. (Fernando Sobral, «Jornal de Negócios»)
«O Medo Longe de Ti»
Antologia Crítica»»»O labirinto do amor, o lugar de todos os desencontros. É isso que AMV descreve de uma forma única. A sua escrita contagia-nos, através de toda a simbologia que vai percorrendo as frases, como slow-motions de um filme cheio de pequenos pormenores de beleza. (Fernando Sobral, «Jornal de Negócios») »»»O narrador tece uma ponte entre a narrativa que perante nós se desenrola e o seu delírio íntimo e assim opera a junção entre uma história ancorada num espaço e num tempo «reais» e o mundo da imaginação, conotado com o Sul e a sua floresta desordenada, manancial de perigos, mas também doce memória da infância, de onde provém o protagonista e aonde regressa no final. O Sul opõe-se pois ao Norte, à floresta alemã «das regras», onde até os bichos parecem obedecer aos ditames das autoridades municipais. (Manuela Barreto, «Público») »»»O amor singular do narrador por Catarina, cuja temática não é física e carnal (sexual), não é social (o casamento), não é juvenil ou adolescente (o namoro, o flirt), não é um amor rompido (o divórcio), um amor que tudo engole (aulas, colegas, professores na universidade), narrado universalmente segundo os atributos do sentimento da paixão, torna-se uma metáfora de Portugal (a «floresta do Sul») no seu actual processo de racionalização e estandardização europeia (a «floresta das regras»). (Miguel Real, «Jornal de Letras»)
«Os Sonhos e Outras...»
Antologia crítica»»»Um sistemático delírio narrativo, histórias absurdas a um ritmo alucinante, cheias de humor e ironia, contadas numa linguagem rigorosa, que enfeitiçam o leitor. Um universo ficcional particular com características próprias, um tipo de escrita pessoal, um «estilo» (pese embora a palavra estar teoricamente fora de moda), regidos por uma invulgar maturidade, um profundo conhecimento e uma brilhante exploração da língua portuguesa. (Helena Barbas, «Expresso») »»»Um universo privado delimitado não tanto pelo espaço físico (o Algarve nas imediações da Serra de Monchique, povoações com nomes imaginários a coexistirem com outras que têm existência nos mapas), mas pela natureza da situação narrativa (diálogos que se entrecruzam e criam um espaço narrativo em três planos) bem como pela matéria narrada (fantasmagorias atravessadas por referências à actualidade política e social portuguesa) que se deixa adivinhar no título. (Linda Santos Costa, «Público») »»»Muitas histórias, cruzadas segundo uma eficaz narração. Como escreve o autor, «trata-se de assuntos dignos de conversa». A história do lagarto das Cimalhas, que se matou por amor e cujo fantasma se integrou na normalidade possível. A história do Zé da Silva, que tinha a embirração de chegar a ser pássaro e que, como não tinha responsabilidades, podia ir para pardal-de-asa-branca à vontade, nem que fosse no outro mundo. E outras histórias... (João Paulo Guerra, «Diário Económico»)
«O Velho que Esperava...»
Antologia crítica»»»Um aspecto notável na escrita de AMV é a espontaneidade que resulta do emprego da voz directa, muitas vezes cumprindo a função de comentário atribuído a testemunhas da acção nem sempre identificadas. No segundo grupo de histórias, há um conto sobre a Padeira de Aljubarrota em que essa tarefa é sabiamente cometida a duas gaivotas, com um resultado bastante divertido. (Manuel Dias, «DN Jovem») »»»Podia tratar-se de um livro de viagens. No tempo, bem entendido. Vidas, paisagens, sonhos e fantasias, num livro que peca apenas pela brevidade. (S/ indic. autor, «Semanário») »»»Mais parecem histórias de meninos contadas a adultos, ou vice-versa. Um mimo oferecido ao leitor, reportado de forma simples, despretensioso mas cheio de sabor, a lembrar as narrativas sul-americanas, temperadas de cor, emoção e irrealidades. (S/ indic. autor, «24 Horas»)
«Até Acabar com o Diabo»
Antologia Crítica»»»Um apurado domínio da língua portuguesa, uma ironia refinada e uma estrutura narrativa veloz arrebatam-nos da primeira à última página. Uma boa razão para crer que a nossa literatura está viva e de boa saúde. (Filipa Melo, «Visão») »»»Uma narrativa que quase se lê de um fôlego. Num estilo directo e utilizando a linguagem «regional», o autor revive o ambiente de remotas aldeias algarvias, mergulhando num mundo de superstições, medos e desconfianças que fizeram (fazem) parte da mentalidade portuguesa. (Appio Sottomayor, «A Capital») »»»Um pouco mais calmo - sem a exuberância alucinante dos contos de «Quando o Presidente da República Visitou Monchique por Mera Curiosidade», com mais profundidade psicológica do que em «Os Abençoados Fiéis do Senhor S. Romão» - AMV prova o seu crescimento como escritor, confirmando as promessas primeiras, prometendo novos caminhos. (Helena Barbas, «Expresso») »»»Quando a uma imaginação prodigiosa se alia o dom de um contador de histórias o resultado é, sem dúvida, o convite a uma leitura compulsiva. É o caso do romance «Até Acabar com o Diabo». (Antónia Santa Clara, «O Independente»)
«Os Abençoados Fiéis...»
Antologia crítica »»»Reencontramos a mesma mestria de linguagem, o mesmo ritmo, a mistura de registos e intenções [de «Quando o Presidente da República Visitou Monchique por Mera Curiosidade»], embora mais comedidas. Perdeu-se muita da crueldade. Exacerbou-se, no entanto, uma ironia mais feroz espadeirada em particular nos jogos de palavras com o tempo e o envolvimento do leitor. (Helena Barbas, «Expresso») »»»Quem gostou dos dezasseis contos de «Quando o Presidente da República Visitou Monchique por Mera Curiosidade» (e um título destes não é todos os dias...), surpreendendo-se com a prosa invulgarmente trabalhada, sentir-se-á grato por poder prolongar o feitiço. (Carla Maia de Almeida, «Notícias Magazine»)
«Quando o Presidente...»
Antologia crítica»»»AMV usa uma forma de se expressar, na escrita, de tal maneira pessoal e intransmissível que seria mais fácil falsificar um quadro de Salvador Dali do que assinar um livro seu com outro nome. (Victor Mendanha, «Correio da Manhã») »»»São caso raro, mas às vezes lá aparecem daquelas pessoas que gostam de contar histórias e sabem mesmo contá-las. Desbobinam-nas umas atrás das outras a um ritmo alucinante, nunca se repetindo e surpreendendo sempre com situações cada vez mais inesperadas, absurdas, hilariantes. AMV tem esse dom, e a ele associa um profundo conhecimento da língua portuguesa, um cuidado extremo no seu uso. (Helena Barbas, «Expresso») »»»Pequenos contos de bruxas violadoras, Manuéis cornudos, Oréades desleixadas, costureirinhas que tiram as medidas aos homens e não só ou macacos clunâmbulos que servem licor de amoras silvestres. Num estilo delicioso, três horas de sequiosa leitura. De espantar e pedir mais. (Filipa Melo, «Visão»)
A Floresta do Sul
A floresta do Sul é a mesma do meu romance «O Medo Longe de Ti», que publiquei em 2003. É a floresta da terra onde nasci. Nesse romance aparece também a floresta das regras, que o narrador, um jovem escritor português, localiza na Alemanha. O romance começa assim…
Há dezoito anos, talvez dezanove, fugi. Quase sem dar por isso, dia após dia, fui-me habituando a ter-te apenas na imaginação, às vezes até a ser capaz de sentir o cheiro a flores silvestres da tua presença ou de responder ao teu sorriso dos pequenos traços no rosto. Depois de abandonar a Universität, acabei por me ver de novo envolvido nas minhas histórias, sempre com bruxas em redor, com gnomos, com pistoleiros, com mágicos, até com animais que falavam. E nem todos apareceram como meus amigos. Nunca escrevi sobre ti, por mais forte que fosse a sensação de que estavas perto, mesmo que apenas num lugar da minha imaginação. E se agora o faço, passados todos estes anos, não é porque tenha vencido uma barreira imensa, é pela revelação que acabo de ter. Quero que saibas que nem por um dia esqueci o tempo que passámos juntos, que nem por um dia deixei de arrepender-me de não ter lutado para que esse tempo continuasse, e que nunca hei-de perdoar-me por não ter esperado até que descesse o último passageiro do comboio-ladrão. Naquela manhã, há dezoito ou dezanove anos.../ Não, nunca escrevi sobre ti, nunca, durante todo este tempo. Acabei foi por usar o teu nome em muitas das histórias. Contos, romances, quantas vezes o teu nome tomou o corpo de uma personagem... Sem que fosse uma das feias, das más, das loucas, enfim, sem que fosse mais uma a arrastar-se de página para página. Não, o teu nome só para uma mulher muito bonita, quase como tu, ou até para uma flor, também bonita quase como tu. Nem que para isso fosse preciso arranjar para cada história uma personagem de última hora, imprevista, deslocada, até deslocada, no meio de tantas desgraças. O teu nome, sempre o teu nome... Por mais que quisesse evitar, até pelos reparos constantes da crítica – que tantas vezes se tem aventurado em artigos de fundo sobre a insistência no mesmo nome –, eu usei-o mesmo, todo cheio de certezas e alheio ao que iam dizendo, quase como se o mundo que realmente importava fosse o da minha imaginação./ Lembras-te de como eu costumava embrenhar-me na floresta, ao fim da tarde, depois das aulas? Depois de sair da Universität, como todos os estrangeiros chamavam à faculdade, se calhar para não fazerem má figura perante os alemães? Eu deixava as coisas na cabana, preparava algo que pudesse levar para comer e partia sem destino certo. Quantas vezes quiseste falar das razões para eu ser assim... Até chegaste a pensar que eu ia correr, a princípio perguntaste-me isso, e eu disse simplesmente que não, que não ia para a floresta apenas para correr./ – Correr, só correr, posso fazê-lo aqui à volta da cabana./ – Pensar, talvez./ Foi o que ainda arriscaste, «Pensar, talvez», e eu fiquei em silêncio, com os olhos postos nos teus, procurando neles, nem sei... Uma luzinha, sim, uma luzinha que fosse, isso haveria de me bastar./ Eu ia para a floresta, mas acho que era apenas na ilusão de regressar à minha floresta do Sul, onde tinha sido verdadeiramente feliz, anos antes, em criança. Era isso. Sim, por mais que arriscasses que eu ia para lá com esperanças de, no meio das árvores, conseguir pensar numa história. Como a Sophie chegou a arriscar, ainda antes de ir observar-me. Por vezes eu corria, mas o mais normal era ficar dentro do carro a olhar para um lado e para outro, feito parvo. A floresta, eu achava que aquela floresta era toda certinha, com a estrada a atravessá-la, quase a parecer uma pista. Da estrada, ainda por cima, saíam caminhos todos bem planeados, limpos de mato, cheios de indicações, e invariavelmente com famílias a andarem de forma muito ordenada, como se estivessem numa repartição pública. E depois havia os animais, as corças, as martas, os esquilos, até os pássaros, cada um na sua zona, parecendo que tinham um contrato de prestação de serviços com o departamento florestal do município, sempre todos limpinhos, todos bem arranjados. E os raios de Sol, esses mal conseguiam passar as copas das árvores./ Naquela floresta cheia de regras, por mais que eu insistisse em lá voltar, não conseguia ver nada da minha floresta de Portugal, os campos, as serras, tudo ainda livre dos espartilhos do ordenamento. A minha floresta do Sul, onde os animais apareciam quando calhava, quando se lembravam, e não por obrigação, fossem dos bons, fossem dos maus, como os terríveis escorpiões pretos. Corças, aí, nem vê-las, esquilos tão-pouco, e martas ainda menos, tudo animais que eu costumava associar ao Jardim Zoológico de Lisboa. Bom, martas se calhar nem ao Jardim Zoológico. A minha floresta do Sul, a minha floresta de sempre, essa era outra, com escalavardos, com ouriços-cacheiros, com lontras, com escorpiões, dos amarelos e dos pretos, com javalis, até com um ou outro texugo de vez em quando. E nela as pessoas andavam pelos caminhos traçados ao sabor de impulsos de muitos e muitos anos, porque era aí que trabalhavam, ou passavam a caminho do trabalho, ou porque tinham de apanhar uns matos para prepararem a cama dos animais de criação.
António Manuel Venda nasceu em Monchique, no Sul de Portugal, em 1968.
Publicou nove livros de ficção («Quando o Presidente da República Visitou Monchique por Mera Curiosidade», contos; «Os Abençoados Fiéis do Senhor S. Romão», novela; «Até Acabar com o Diabo», romance; «O Velho que Esperava por D. Sebastião», contos; «Os Sonhos e Outras Perigosas Embirrações», romance; «O Medo Longe de Ti», romance; «O Amor por entre os Dedos», contos; «O que Entra nos Livros», romance; «Uma Noite com o Fogo», romance). Destes, alguns receberam prémios literários de instituições como o Instituto Abel Salazar, o Centro Nacional de Cultura, a Câmara Municipal de Almada, a Secretaria de Estado da Cultura e a Sociedade Portuguesa de Autores.
Mantém inéditos dois livros de histórias («O Bilhete do Senhor Scolari» e «Políticos, esses Animais») e uma primeira aventura de um pequeno super-herói chamado Zeca Zângão («Mandriões na Roda Gigante»).
Trabalha actualmente em diversos projectos de ficção.
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