sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Mais do que Alcochete, a indiferença

Francisco José Viegas, no «A Origem das Espécies». Parte a vermelho pintada por mim.
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Alcochete, ou lá o que é. [Agora a sério.]
O governo decidiu Alcochete depois da pressão da opinião pública e da guerra de lobis. Parece-me bem ou, pelo menos, ajustado. Fazer disso uma grande vitória da oposição é ridículo. A política real desapareceu nos últimos tempos, soterrada pelos escombros da ASAE, da lei do tabaco ou de outros epifenómenos a que é preciso dar importância. A guerra do BCP é um enredo da luta pelo poder, mas parece-me assunto. Se falamos do bem público, custa-me a acreditar que ninguém pestaneje quando se fala das reformas de 400 euros aumentadas em uns euros. O secretário de Estado apareceu a falar da distribuição duodecimal sem pestanejar, e é um exemplo de como a indiferença toma conta de toda a gente. Umas coisas arrastam as outras e vai haver empregos em Alcochete e no Tejo daqui a um ano, aproximadamente, o que significa que as estatísticas vão mudar. Umas coisas arrastam as outras. Só que algumas delas são pequenas janelas abertas sobre o deserto, e este não é o da margem sul.

1 comentário:

Manuel Leão disse...

Sr. AMV:

Este assunto, tratado com algum rigor, dava “pano para mangas”.

Por um lado é certo que – salvo raríssimas excepções - os governantes não sentem nem querem sentir a verdadeira dimensão dos problemas dos mais pobres, isto é, daqueles que passam grandes privações, quer sejam económicas, sociais ou até de cuidados de saúde.

Eles são de outra esfera, sentem que têm um mandato “divino” e não um mandato popular (no fundo, há muito mais monárquicos do que o que parece).

Dizem que os portugueses têm que fazer sacrifícios e ao mesmo tempo defendem que os gestores, tanto da “coisa pública”, como da esfera privada, ainda estão mal pagos, mesmo que alguns ganhem 100 vezes mais do que a média dos seus próprios “subordinados” (como eles gostam desta palavra!).
O cínico argumento utilizado, é que - se houvesse alguma contenção na sua retribuição - o que se poupava, dividido por todos, não seria significativo. Pasme-se!

Quer dizer, sacrifício para todos, menos para eles, que são quem precisamente apela aos ditos sacrifícios. E não há jornalista, nem moderador, em tantas mesas redondas, que ponha, ao menos, esta questão elementar: e onde está a solidariedade nacional perante os sacrifícios? Acham bem colocarem-se de fora, relativamente a um apelo que é vosso? Mesmo que, sob o ponto de vista de redistribuição, isso possa ser irrelevante?

Não querendo alongar-me muito mais, queria apenas desmontar outra falácia: a de que sendo poucos os gestores de topo, é necessário pagar muito aos que são bons. Poucos, porquê? Ninguém diz, ninguém pergunta. Poucos, porque esses lugares são escolhidos segundo o critério “cartonado”, fazendo com que muitas pessoas, com “curriculum” para os alcançar, nunca cheguem a ter quaisquer hipóteses. Haverá sempre uma “vara” desconhecida que se lhes atravessa no caminho. Haverá sempre um “delfim” que chega primeiro.

Mas, se algum dia, Portugal conseguir “respirar” um pouco melhor, logo virão os mesmos dizer: Fizemos sacrifícios, mas valeu a pena. Fizemos…

Fiquemos por aqui.

Cumprimentos.