sexta-feira, 27 de abril de 2007

Textos sobre livros – 25

Livro: «O Vendedor de Passados», de José Eduardo Agualusa (Publicações Dom Quixote, 231 pp.)


Borges, uma osga

Um vendedor de passados, falsos, já se vê, é a personagem que José Eduardo Agualusa utiliza neste romance para construir uma sátira e ao mesmo tempo uma reflexão sobre a Angola dos nossos dias; um país onde de repente aparece Jorge Luis Borges.

Angola, um país a passar do socialismo para um capitalismo completamente selvagem, segundo o autor de «O Vendedor de Passados», José Eduardo Agualusa (n. Huambo, 1960), e provavelmente com muita gente a assinar por baixo. Podem acontecer aí as coisas mais estranhas, acontecem de certeza, mas estranho não será aparecer um vendedor de passados falsos, passados esses que deverão passar a funcionar como verdadeiros. Em quantos países em plena transformação não poderia um profissional assim fazer fortuna? Pensemos no Portugal do pós-25 de Abril (pensemos até no Portugal de agora, que talvez não chegando para a fortuna na volta dava para construir uma existência, no mínimo, desafogada a vender passados...).
Mas mesmo não sendo estranho o vendedor de passados numa terra em transformação, é indiscutivelmente uma ideia fabulosa para um romance, ainda mais se desenvolvida por um escritor como há poucos na língua portuguesa. Félix Ventura (personagem, não o escritor, que esse é José Eduardo Agualusa) vende passados falsos e tem um cartão de visita onde se pode ler «Ofereça aos seus filhos um passado melhor». Quantas pessoas não gostariam de construir de um dia para o outro um passado melhor? De forma a, para utilizar o chavão, viverem melhor o presente, e assim prepararem o futuro...
José Eduardo Agualusa já afirmou que o romance lhe saiu apenas da imaginação, que ao contrário do que escreveu imediatamente antes («O Ano em que Zumbi Tomou o Rio») não precisou de fazer investigação. Talvez não seja apenas a imaginação, talvez a investigação seja automática, assegurada pelo correr dos dias do país do autor. Mesmo que não quisesse investigar, ele investiga; mesmo que não quisesse preocupar-se, ele preocupa-se. E escreve, divertindo-se, ele que não consegue fazê-lo de outra forma, ao contrário de tantos casos que a literatura conhece de ginjeira. Diverte-se até com Jorge Luis Borges, Borges que mesmo reencarnando no corpo de uma osga não parece chatear-se muito, até porque tem a oportunidade de fazer as considerações que bem entende, ou melhor, as considerações que José Eduardo Agualusa bem entende que ele deve fazer; e isso basta-lhe.

1 comentário:

Luís Graça disse...

Tive o grato prazer de ser convidado pelo Filipe (o Tiago de Carvalho dos primeiros tempos do DN-JOVEM), responsável pela Biblioteca de Oeiras, para entrevistar o meu amigo Agualusa nas sessões nocturnas. Foi há uns dois anos.

Li e "estudei" os dois livros que referiste. Foi uma bela sessão. A cumplicidade que nos une e o trabalho de base que efectuei permitiram que a audiência tivesse ficado cativada. Mérito maior do entrevistado, claro, que tem um excelente poder de comunicação.

Eu gostei de o entrevistar, ele gostou de ser entrevistado por mim, os responsáveis pela Biblioteca gostaram, as pessoas da audiência também.

Um pleno!

Ontem não consegui jantar com ele, pois o José Eduardo esteve a apresentar a estreia de Francisco Camacho ("Niassa") como romancista.

Ficou a promessa de nos encontrarmos em Junho, na Feira do Livro. O José Eduardo é um cidadão do mundo, por isso é um privilégio apanhá-lo em Lisboa. E basta trocarmos um sorriso e dois ou três comentários cortantes a propósito do nosso meio literário (e não só!) para eu ficar recauchutado!