terça-feira, 21 de junho de 2011

terça-feira, 14 de junho de 2011

Entrevista – jornal «i»


Entrevista de Diana Garrido, para o jornal «i» (suplemento «LiV», secção «Faz-se assim», edição de fim-de-semana, 11/12.06.11) – a propósito do livro «O Sorriso Enigmático do Javali»

Início do livro: «Junto à vedação da Herdade do Convento, bem perto de onde poucos dias antes tinha retirado dos bicos do arame farpado o corpo de uma garça, o pequeno Tukie viu duas perdizes atravessarem a estrada de terra. Não lhe tomaram medo e entraram tranquilas na herdade, quase a tocarem o primeiro dos arames da vedação. Ele lembrava-se bem de que a garça tinha perdido a vida no terceiro, a pouco mais de meio metro de altura.»

Tem algum método de escrita?
Não se pode dizer que é bem um método. Eu costumo escrever muito depressa para depois trabalhar com calma sobre o que ficou escrito. Posso até mudar tudo várias vezes, ou deitar fora, mas ajuda-me muito escrever a primeira versão o mais depressa que puder, seja de uma página, seja de um conto, seja de um capítulo de um romance.
Tem alguma rotina ou truques?
Rotinas não tenho, sobretudo porque a minha vida vai muito para além da escrita. Se fosse apenas escritor talvez as tivesse. Quanto a truques, o que contei sobre escrever depressa para depois trabalhar sobre isso pode-se dizer que é um truque.
Faz pausas para comer ou qualquer outra coisa?
As pausas que faço enquanto escrevo podem ser por inúmeras razões, minhas, da minha família, do meu trabalho. Talvez o mais correcto seja dizer que eu escrevo durante as pausas de tudo o resto, sem pausas.
É como se fosse um emprego das nove às cinco ou espera pela inspiração?
Pelo que disse, nem é um emprego nem eu espero pela inspiração. É mais normal que escreva à noite, embora durante o dia escreva muito, por causa do meu trabalho ligado ao jornalismo. No fundo, escrevo os meus livros quando posso.
Usa um tipo de letra específico?
Sim, Arial, porque me habituei.
Escreve a computador ou à mão?
Mais no computador. À mão quase só o princípio de um livro, de um capítulo, ou então um conto.
Tem manias do género acabar sempre uma página, por exemplo?
Uma página não. Mas tenho a mania de chegar ao fim, já não digo de um romance, que aí tento ter mais calma, mas de um capítulo. Nos contos é capaz de ser diferente, porque já fui muitas vezes avisado de que os meus contos não acabam.
Pensa logo no título ou surge depois?
Nos meus romances os título chegaram-me quase sempre no fim e nalguns casos muito depois de ter acabado de escrevê-los: por exemplo os romances «O Medo Longe de Ti» e «O que Entra nos Livros», que têm uma ligação, porque o segundo é uma espécie de continuação do primeiro, com uma personagem que vem ter comigo.
Faz algum esboço antes das personagens e da trama?
Não faço. Mas já vi coisas de escrita criativa onde aconselham a fazer. Uma vez li que se deve fazer fichas para as personagens, falar inclusive da roupa e da mobília. Fiquei um bocado atrapalhado, porque me lembrei de que muitas das minhas personagens não tinham mobília, ou pelo menos eu não falava disso. Mas depois passou-me.
A primeira frase da primeira página mantém-se, ou muda depois?
Normalmente mantém-se. Mesmo na escrita inicial rápida de que falei, sujeita a muitas mudanças. Só começo a escrever quando há um ponto de partida em relação ao qual não tenho dúvidas. Se pensar na frase inicial do romance «Uma Noite com o Fogo», por exemplo, ou antes, nas frases, todas as dúvidas para começar a escrevê-lo – e que se prolongaram por quatro ou cinco anos – desapareceram quando descobri as primeiras frases: «Há muito tempo que escrevia este livro. Alguns anos. Mas escrevia-o apenas na minha mente, com o que pensava, com tudo aquilo que ia recordando.»
Evita ler livros quando escreve?
Não. Se puder leio sempre. O problema é que há alturas em que não é fácil arranjar livros que me interessem.
Ouve música enquanto escreve, ou prefere silêncio?
Prefiro o silêncio.
Qual é a sensação que fica, quando termina um livro?
Uma sensação de tranquilidade. Depois de descobrir até onde quero ir com o livro, que é o mais difícil, eu tento chegar lá. E isso custa-me muito, sempre.
Trabalha em mais do que um livro ao mesmo tempo?
Sim. Mas quando encontro o caminho num deles deixo os outros de lado por uns tempos.
O que é que não pode faltar na sua mesa de trabalho?
O computador.
Escreve em casa?
Sim.
Em que é que está a trabalhar neste momento?
Estou a tentar escrever um romance e um livro de contos.
Já deitou fora muita coisa que tenha escrito?
Já. Apago no computador. Ou rasgo folhas de papel. E há muitos anos deitei fora um romance, ainda escrito à máquina. Foi o primeiro que escrevi. Tinha uma história que eu acho que era boa, mas estava mal contada, por isso o melhor foi deitar fora.
Como é que dá o nome às suas personagens?
De muitas formas. Depende dos livros. Nalguns inventei. Noutros foi diferente; por exemplo, num de há muitos anos, chamado «Os Sonhos e Outras Perigosas Embirrações, que tem centenas de personagens, não tive grande trabalho, pois elas existiram quase todas na serra do Algarve; já num que referi há pouco («Uma Noite com o Fogo), praticamente não precisei de nomes, porque tirando eu quase não aparece ninguém.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Já depois das oito e meia

Estádio Municipal de Estremoz, no Domingo passado, dia de eleições. Já passava das oito e meia da noite e eu ainda não fazia a mínima ideia de quais eram os resultados. A quem caberia em sorte roubar-nos nos próximos anos?, era o que eu poderia ter perguntado a mim próprio nesse momento. Mas não, não fiz nenhuma pergunta. Concentrei-me nas fotos. Em cima está um pormenor de uma delas. Os miúdos a erguerem o troféu conquistado. O primeiro para a maior parte deles. Com seis anos, estavam completamente deslumbrados.

Uma entrevista

Uma entrevista de João Brito Sousa, para o jornal algarvio «O Olhanense», publicado em Maio passado.

À conversa com António Manuel Venda

Tive contacto com a obra literária do escritor António Manuel Venda, através de conversas tidas com o meu José Carlos Vilhena Mesquita, também escritor, além de historiador e professor. Na opinião desta eloquente personalidade, «a narrativa de António Manuel Venda enquadra-se perfeitamente na definição clássica de romance», sendo que, «acima de tudo, escreve primorosamente bem, numa linguagem escorreita e absolutamente correcta na estrutura frásica e na concordância gramatical, em que por vezes o autor se coloca, diegeticamente, com pruridos de perfeccionista».

Qual o livro que tem à cabeceira neste momento? Pode falar-nos dele?
Esta não é uma boa altura para responder a uma pergunta assim. São vários, porque os que para lá tenho levado têm sido uma desilusão. Por isso o melhor é não dizer títulos nem nomes de autores. Excepto num caso, um romance de Graham Greene chamado «O Factor Humano». Comecei a ler pelos azares com os outros seis ou sete que tinha ido acumulando e a princípio ainda estive um bocado apreensivo, mas depois revelou-se uma boa surpresa – uma história de agentes secretos onde as relações humanas acabam por ser o maior mistério.
Um livro que tenha gostado muito de ler... Dos inesquecíveis. Fale-nos dele também?
Tinha de ser de um dos meus escritores preferidos, o colombiano Santiago Gamboa, mas também podia ser um dos romances do espanhol Javier Cercas ou um dos do chileno Roberto Ampuero. Chama-se «Os Impostores» e passa-se na China, país para onde viajam diversas personagens absolutamente geniais.
Considera-se um escritor? O que é para si um escritor? O escritor tem obrigações?
Muita da minha vida tem a ver com a escrita, seja no trabalho ligado ao jornalismo, seja nos meus livros. O facto de ser ou não escritor tem mais a ver com o que pensam de nós do que com o que nós pensamos sobre o assunto. Há quem me considere escritor, há quem de certeza pense que não, há até quem não saiba que eu existo. Quanto a obrigações de um escritor, não acho que tenha mais do que as outras pessoas, mas convém estar à vontade com o idioma que usa, coisa que como se sabe nem sempre acontece.
O que está a escrever agora?
Tento escrever um romance, de uma série que se pode aproximar do género policial. E tenho vindo a escrever alguns contos de dois projectos: novas histórias do pequeno Tukie, o miúdo que é o protagonista do meu livro mais recente – «O Sorriso Enigmático do Javali» –, e um conjunto de contos passados numa câmara municipal, num ambiente que conheço bem.
O primeiro dever de quem fala é dizer o que pensa, disse o presidente Sidónio Pais na sua tese doutoramento. Concorda?
Aí está um tema em que não gosto de falar em deveres nem de fazer hierarquias. Acho que devemos dizer o que pensamos, se quisermos, coisa que na história de Portugal, até na mais recente, nem sempre tem sido possível. No caso da figura que citou, tenho dúvidas de que no tempo dele como presidente fosse conveniente dizer-se o que se pensava.
A literatura pode mudar o mundo?
Talvez já tenha tido o seu tempo para isso. Agora o mundo muda todos os dias, sem precisar da literatura para nada, e surpreende-nos cada vez mais. Tudo ficou demasiado rápido para a literatura.
Acha que se sentiria infeliz sem os seus livros e sem escrever?
À partida acho que sim, mas só passando pela experiência para ter a certeza. Gosto muito de escrever, por isso prefiro ficar sem saber como seria se não escrevesse.
Qual o livro que mais gostou de escrever? E por quê?
Um romance chamado «O Medo Longe de Ti» e logo a seguir o livro mais recente, que já referi. São diferentes, um tem uma história de amor, outro é uma narrativa em que conto as aventuras de um miúdo no Alentejo, mas foram os dois livros que mais me fizeram regressar à infância.
Considera-se um escritor de leitura fácil? Acha que um escritor deve escrever para compreensão de todos? Ou um escritor deverá escrever difícil?
Falo por mim. Escrevo o que me interessa escrever e o que eu próprio consigo entender. Apenas isso. Falar pelos outros é difícil, mas acho que dá para perceber os meus livros, embora certezas nunca se possa ter. Basta pensar na quantidade de livros que eu não consegui entender, ou ler, apesar das tentativas que fiz.
Hemingway escrevia das seis da manhã até ao meio dia, Saramago escrevia duas páginas por dia. E o senhor, como faz?
Bom, aí acho que eles tiveram mais sorte do que eu, porque eu escrevo apenas quando posso.
«Entre o nada e a dor prefiro a dor», disse Faulkner. Que acha?
Não tem muito a ver, mas a frase, talvez pela estrutura, fez-me lembrar um político de má memória mas se calhar não tão mau como os que agora temos que suportar – António Guterres, quando disse que se o colocassem entre a espada e a parede haveria de preferir a espada. Quanto a Faulkner, não me choca a frase do nada e da dor num livro dele, dita por uma personagem, mas conhecendo-lhe a biografia acho que ele na prática iria preferir sempre o nada.
A literatura tem evoluído? Há muita ou pouca gente a escrever em Portugal? Sente que o país tem mercado para os livros?
Há muita gente a escrever, muito mais do que há uns anos, ou pelo menos há muita gente a publicar livros, até pelas mudanças que aconteceram no mundo editorial. Além disso, a Internet também permitiu a muita gente mostrar aquilo que escreve. A literatura tem evoluído não apenas por se tratar de literatura mas porque o mundo evoluiu, evolui todos os dias, e muda, muda muito, como já referi. Quanto ao mercado português, é muito pequeno, mas isso tanto é um problema para os livros como para os produtores de vinho ou para os criadores de galinhas.
O livro é uma mulher, como se dizia em Coimbra?
Nunca pensei muito nisso, embora já tenho ouvido a frase. Mas há uma coisa que muitas vezes aconteceu com os meus livros, escrevê-los por causa de uma mulher, ou a pensar numa mulher. Acho que quem ler alguns deles percebe isso facilmente.
Quando começa a escrever já tem tudo desenhado na mente? E o título, surge antes ou depois?
Quando começo, pelo menos das experiências que tenho, quase nada está desenhado na minha mente. Sei apenas como começa o caminho. Quanto ao título, depende. Já me aconteceu ter o título e pouco saber da história, sobretudo nos contos.
O que é que gostava de responder que não foi perguntado?
A verdade é que não sei. Tenho experiência de fazer perguntas, sobretudo pelo meu trabalho, mas é aos outros. Perguntas a mim? Muito difícil. Mas não quer dizer que não me questione, não, isso faço-o todos os dias.
*****
António Manuel Venda nasceu em Monchique, no Sul de Portugal, em 1968. Publicou vários livros de ficção («Quando o Presidente da República Visitou Monchique por Mera Curiosidade», contos; «Os Abençoados Fiéis do Senhor S. Romão», novela; «Até Acabar com o Diabo», romance; «O Velho que Esperava por D. Sebastião», contos; «Os Sonhos e Outras Perigosas Embirrações», romance; «O Medo Longe de Ti», romance; «O Amor por entre os Dedos», contos; «O que Entra nos Livros», romance); «Uma Noite com o Fogo», romance; e «O Sorriso Enigmático do Javali», narrativa. Destes, alguns receberam prémios literários de instituições como o Instituto Abel Salazar, o Centro Nacional de Cultura, a Câmara Municipal de Almada, a Secretaria de Estado da Cultura e a Sociedade Portuguesa de Autores. Escreve no blog «Floresta do Sul».

sexta-feira, 3 de junho de 2011

No próximo domingo

No próximo domingo, a mais de 200 quilómetros da «minha» mesa de voto, o cenário deverá ser mais ou menos assim. Obviamente que não ia trocá-lo por uma longa viagem para votar em branco ou escrever uns comentários no boletim.

Canções Inesquecíveis – 4


Canções anteriores: 1, 2, 3.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Diálogo de hoje

– Já decidiste em que chulo vais votar?
– Não vou votar em ninguém.
– O quê, vais votar em branco?!
– Não.
– Ah, vais escrever umas coisas no boletim…
– Não.
– Então?
– Eu não vou votar.
– Mas devias ir.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Dia da Criança

No Dia da Criança, logo pela manhã. Uma casinha de fadas na margem direita do Rio Almansor.