terça-feira, 10 de abril de 2007

As tarefas da oficina

Em tempos, convidaram-me para coordenar uma oficina de escrita. Aceitei, sem pensar muito no que haveria de fazer depois, quando tivesse de propor um plano de trabalhos. E quando tivesse de arranjar tempo para as sessões. Mas tudo se resolveu. Uma das situações que mais me pareceu agradar aos participantes teve a ver com a realização de treze tarefas, que na prática eram catorze. Como primeira tarefa, deviam escrever o início de uma história. Só depois podiam ver a segunda, e assim sucessivamente, até à número treze.
As tarefas eram as seguintes – 1) Escrever o início de uma história, na terceira pessoa; a primeira palavra é «Primeiramente» (não utilizar mais advérbios de modo); tem de haver duas personagens; convém que a história decorra ao ar livre. 2) Rescrever tudo do ponto de vista de cada uma das personagens (a tal tarefa dupla). 3) Rescrever tudo do ponto de vista de uma andorinha que sobrevoa o sítio onde decorre a acção. 4) Rescrever tudo do ponto de vista de um milhafre que sobrevoa o sítio onde decorre a acção. 5) Rescrever tudo de forma a incluir quinze advérbios de modo terminados em «mente». 6) Rescrever tudo de forma a expurgar do texto os adjectivos. 7) Rescrever tudo de forma a incluir dez preposições «que». 8) Rescrever tudo de forma a expurgar do texto todas as palavras começadas por «P». 9) Rescrever tudo através de um diálogo entre as duas personagens. 10) Rescrever tudo através de um diálogo entre a andorinha e o milhafre. 11) Rescrever tudo de forma a incluir um ataque do milhafre à andorinha, de repente, a meio da acção, suscitando comentários das duas personagens. 12) Rescrever tudo, de forma a incluir um ataque do milhafre às personagens, mas do ponto de vista da andorinha. 13) Rescrever tudo, decorrendo a acção num recinto fechado (uma casa, por exemplo); pode incluir o milhafre e/ ou a andorinha.
Bem, a verdade é que acabei por ter de cumprir também as tarefas. Mesmo o efeito da surpresa não existindo para mim. Por mais que tentasse livrar-me, os participantes nunca deixaram de insistir. Afinal, e muito provavelmente, nada mais justo. De forma que lá tive de meter mãos à obra. E as tarefas apareceram escritas (inclusive, ajudaram-me a começar um dos contos do último livro que publiquei – «O Amor por entre os Dedos»). Deixo as primeiras a seguir...

O começo da história
Primeiramente, pode dizer-se que ainda ninguém tinha dito nada a respeito da cruz vermelha cravada mesmo ao lado da porta da câmara municipal. Por mais que a olhassem, uns de lado, mas outros bem de frente, por mais que isso acontecesse, não havia quem se pronunciasse. Nem o novo presidente da câmara, quando passou a caminho da tão aguardada tomada de posse, com a secretária atrás a tentar escovar-lhe o fato junto aos ombros, nem mesmo o presidente pareceu com disposição para abrir a boca. A secretária ainda fez menção de dizer qualquer coisa, mas não saiu das hesitações e acabou por seguir caminho. Via-se bem que ainda tinha muito para escovar antes do início da cerimónia.

O relato do presidente
Começo o meu mandato com uma cruz vermelha à porta da câmara. Já não bastavam os comunistas… Mas pronto, isto o melhor que um político tem a fazer é não ligar a provocações, só que também é bom não esquecer, que é para a rédea não alongar demais. Pulso firme e rédea com o fim bem à vista dos olhos, é o que se pede a quem ocupa certos cargos. Porque nesta vida de político nem nas palmadinhas nas costas se pode verdadeiramente confiar. Aliás, não se pode confiar mesmo nada, senão é a morte do artista, às vezes ainda enquanto jovem, como dizia o outro. Para mim, palmadinhas nas costas, ou nos ombros, só as da minha secretária, que têm razões devidamente fundamentadas. Além da inegável admiração que a rapariga nutre pela minha pessoa…
E quanto à cruz, para acabar, assim que aqui a terra entrar nos eixos, e para isso não reservo mais do que duas semanas, assim que isto entrar nos eixos, vai nem que seja a poder de escavadora. Ai não que não vai...

O relato da secretária
Sempre me interessei por caspa. E então se for caspa de altas figuras, daquelas mesmo importantes, assim de vereador para cima, isto falando em termos locais, que é o tipo de poder a que estou vinculada, ui, se for caspa de altas figuras, nem vale a pena falar.
Poderão as pessoas perguntar, mas por quê uma promissora engenheira, jovem, bem jovem, e bonita, muito bonita até, por quê uma criatura assim sujeitar-se ao papel de secretária? Por quê? As pessoas, ui, as pessoas muitas vezes não sabem o que dizem. A vida não é só prazeres e mordomias. É preciso lutar para se conseguir aquilo que verdadeiramente se quer. E eu, para levar em frente o meu projecto de doutoramento, eu não olhos a meios. Sim, a minha tese assenta na investigação da caspa, nos seus mais ínfimos processos de formação. E agora, ui, estou numa fase em que procuro determinar a verdadeira relação entre a formação da caspa e o stress das mais diversas actividades. Da actividade política, por exemplo. Onde até nem pagam mal.

O relato da andorinha
Construí o meu ninho no beiral da câmara. Não fiz por menos. Igreja, tribunal, casas de ricos, praça do peixe, qual quê… Fui logo para a câmara. Ainda por cima, sendo época de eleições locais, as vistas não haveriam de ser monótonas, pensei. E não me enganei.
Isto, claro, tem sido um fartote. E ainda por cima, ainda por cima quem ganhou as eleições foi o candidato da caspa. Quando nascerem os meus passaritos, boa alimentação para eles ali terei. O pior é a puta da serviçal que sempre acompanha o homem, sempre a recolher-lhe a substância, quem sabe se para enviar para alguns serviços centrais, daqueles que estão sempre à mama.
E depois, bem, depois há uma coisa... Uma noite, bem, foi na véspera da tomada de posse do casposo, uma noite puseram uma cruz vermelha à porta da câmara. Claro que não digo quem foi. Prezo muito a vida.

O relato do milhafre
Os milhafres, em geral, não recuam perante as dificuldades. Só que há dificuldades e dificuldades. Como em tudo na vida. E então deu-se o caso, para passar já à história que aqui me traz, deu-se o caso de que um dia destes vi uma cruz vermelha mesmo à porta de um grande casarão, mesmo no centro de uma vila aqui bem próxima. Ora, nem estive com coisas, fui logo lá pousar, na esperança de até ser um bom ponto de observação.
Estava muita gente presente, parecia até ocasião de festa, mas eu mesmo assim fui. E ninguém me apedrejou. Se calhar, pensando bem, tiveram medo de partir a cruz.
Só que a coisa não correu bem. Nada bem, mesmo. Vi uma rapariga formosa, das bem formosas, e decidi logo. Esta vou besbicá-la... Ai vou, ai isso é que vou… Mas quando levantei voo – vou, voo, boa artimanha discursiva –, quando levantei voo, dizia, quando levantei voo e me preparei para subir o suficiente para sobre a rapariga cair a pique... Miséria… A rapariga ia a recolher caspa de um homem, bem repelente por sinal. E eu caspa, brrrreeeeee... Caspa, para mim, é mesmo o pior que os humanos carregam. Voei para bem longe em menos de um tiro.
E a rapariga era tão formosa...

1 comentário:

Luís Graça disse...

Estes exercícios de escrita criativa são sempre úteis.
Dão disciplina e ajudam a fazer mão.

Mas têm um perigo: podem dar a entender que se pode passar a escrever utilizando receitas.
Por isso, é necessário que as pessoas saibam que as ferramentas são úteis quando postas ao serviço de algo e não sendo utilizadas de forma automática.

Estou agora a passar por isto num workshop de escrita para teatro, em que os exercícios são bastante exigentes, deixando-nos frustrados em alguns casos.

Gosto de escrever sem barreiras e o facto de ter de cumprir directivas pode ser constrangedor. Mas faz-nos crescer em termos dramatúrgicos.

Afinal de contas, para saber escrever o que interessa é: ter talento, instinto, criatividade, bom senso, capacidade de trabalho, espírito de sacrifício, disciplina e uma dose de saudável loucura.
Como se mistura tudo isto nas doses recomendáveis?
Isso é que já é mais complicado de responder...