quarta-feira, 13 de dezembro de 2006

Textos sobre livros – 9

Este «textos sobre livros», o número nove, aparece depois do número seis; mas não é um salto, porque ali abaixo estão dois textos, um sobre «A fórmula de Deus», de José Rodrigues dos Santos, e outro sobre um belíssimo romance de uma jovem escritora galega chamada Rosa Aneiros (são eles o número sete e o número oito). Quanto ao número nove, aqui fica, por causa da morte de Pinochet, no domingo.
O livro chama-se «Pinochet, Epitáfio para um Tirano», foi escrito durante o ano de 1999 pelo jornalista e escritor chileno Pablo Azócar e publicado em 2000 (li-o nesse ano) pela editora Campo das Letras. Primeiro comentário: o título, bem explícito, com o nome do ditador e a palavra tirano, e também a palavra epitáfio. Creio que está tudo na medida certa.
Pablo Azócar, a partir da detenção de Augusto Pinochet em Londres, depois da feliz acção do juiz espanhol Baltazar Garzón, mostra quem foi verdadeiramente o todo-poderoso senhor do Chile durante 17 anos (de 1973 a 1990). Mostra-o desde a infância, como passou de burro – na escola – a tenente (esse é aliás o título de um dos capítulos, «De burro a tenente»), como foram importantes na sua vida duas mulheres – a mãe e a esposa –, como progrediu na carreira militar. E como dois dias antes do golpe de 11 de Setembro de 1973 ainda se mantinha fiel ao governo de Salvador Allende. E também como, à última hora, integrou o grupo de generais revoltosos e acabou por imergir como principal figura da junta militar. Para depois ser a figura única.
Este livro mostra também os podres dos governos da transição chilena, após 1990. Denuncia o branqueamento do papel miserável dos figurões da ditadura, com Pinochet à cabeça. Mostra como tentaram – e como conseguiram – transformá-lo num avozinho incapaz de ter algum dia feito mal a uma mosca.
Só para deixar as coisas bem claras, não resisto a trazer aqui alguns diálogos gravados no dia do golpe, desde o posto de comando das operações:
Pinochet – Tenho a impressão de que o senhor civil (refere-se a Allende) arrancou nos blindados. E Mendoza não tem contacto com ele?
Carvajal – Não, mas nos blindados não fugiu. Os carros de assalto partiram antes e eu posteriormente falei com ele pelo telefone.
Pinochet - De acordo. Nesse caso, é preciso impedir a saída e, se ele sair, é preciso prendê-lo.
Carvajal - Também falei depois com o ajudante de campo naval, que me confirmou que Allende está em La Moneda.
Pinochet - Então, devemos estar prontos para actuar em relação a ele. É melhor matar a cadela e assim acaba-se a cria!
Mais adiante:
Pinochet - Rendição incondicional! Nada de parlamentar, rendição incondicional.
Carvajal - Muito bem, de acordo. Rendição incondicional para quem for preso e prometendo respeitar a sua vida, digamos assim.
Pinochet - A vida e a sua integridade física e de seguida despacha-se para qualquer lado.
Carvajal - De acordo. Ou seja, mantém-se a oferta de o fazer sair do país.
Pinochet - Mantém-se a oferta de o fazer sair do país... E o avião pode cair, por ser velho, quando estiver no mar.
Seguiram-se alguns risos.

1 comentário:

Luís Graça disse...

Impressionante diálogo!
Tinha eu 11 anos e estava de férias em Braga, no Bom Jesus. E foi no Hotel do Parque (se não me engano) que vi as imagens de La Moneda a arder.
Depois seguiu-se um episódio de "A flecha negra". Mas as imagens de La Moneda a arder não me saíram da cabeça.