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sábado, 3 de janeiro de 2009

Já agora...

Já agora, a propósito de diálogos (post anterior), ia para dar um exemplo de um do Luís Graça, no conto «Dick Hard e a aventura editorial» (incluído no livro «Dick Hard Detective Privado»), mas afinal não dou. Ainda alguém fazia com que me excomungassem… Os diálogos do conto são geniais, e o conto na totalidade não lhes fica atrás. Já agora número dois… O Luís vai ter mais uma oficina de escrita. A imagem acima é a que ele está a usar para a promoção; o texto, tal como o recebi, é o que coloco a seguir.
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LUÍS GRAÇA À NOITE EM ODIVELAS
EM CURSO DE ESCRITA CRIATIVA POLICIAL

O escritor Luís Graça começa dia 19 de Janeiro (à noite, no Centro de Exposições de Odivelas) um curso de Escrita Criativa Policial, com ponto de partida em duas obras de Dennis McShade (pseudónimo de Dinis Machado), inicialmente publicadas em 1967 e recentemente reeditadas: “Mão direita do Diabo” e “Requiem para D.Quixote”.
Pretexto para acompanhar o assassino profissional Peter Maynard durante seis sessões de três horas (segundas e quintas, início a 19 de Janeiro e final a 5 de Fevereiro) com licença para matar personagens, criar outras, descobrir assassinos e fazer desaparecer vítimas.
Inscrições:
escrita_criativa@if-pt.com, 96 264 6230, 91 620 5859, 93 603 8656
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sábado, 6 de dezembro de 2008

Uma crónica de Luís Graça (7)

Sétima de uma série de crónicas do Luís Graça. As anteriores… Primeira, segunda, terceira, quarta, quinta e sexta.
Nota: esta crónica é a versão editada por mim de um comentário deixado pelo Luís ao que escrevi aqui sobre o último «Sporting – Porto» para a Taça de Portugal.
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Onde estou? Quem sou eu? Por que é que já não há futebol de jeito no campeonato português?
Eu bem queria ver o jogo, mas os imponderáveis impediram-me de chegar a tempo ao Snooker Clube, equipadinho com o pólo Stromp, de que tanto gosto.
A primeira vez que o vi ao vivo (já tinha visto em fotos antigas) foi na temporada de 1979/1980, com a linha atacante formada por Manoel, Manuel Fernandes e Jordão.
(Que grande golo marcou o Manoel a um grande ídolo meu, o sueco Ronnie Hellstrom, num jogo de má memória com o Kaiserslautern, arbitrado por um árbitro com nome de realizador de cinema de culto: John Carpenter. Acho que o jornal «A Bola» titulou «O Regresso do Mal», título português do famoso «Halloween». Vi o filme numa sessão das 18h30m do Monumental, com um auricular de transístor Sanyo e a ouvir o «Portugal – Itália» do Europeu de hóquei. Quando era golo de Portugal eu tirava o auricular do Sanyo e toda a gente festejava o golo de Portugal, enquanto um gajo com uma agulha de tricot andava a furar gente numa terreola dos Estados Unidos.)
Bem, como estive a ajudar os amigos a «desmontar a tenda» no Festival de BD da Amadora (e eu e o Eduardo Raposo ficámos presos na escada que dava acesso ao salão, porque àquela hora já só se podia sair, não dava para entrar outra vez; lá mandei um berro à menina que estava ao pé da ambulância, ela chamou o segurança, o segurança disse para saltarmos por cima de uns vasos com plantas que já estavam a bloquear o caminho para o piso inferior, a garagem; e da garagem subimos para a entrada do Festival, onde o Rui Brito e o Lameiras andavam à nossa procura, porque eu me tinha esquecido do telemóvel em casa).
Com tudo isto chegámos ao Snooker Clube só a tempo de sofrer com os penalties e nos batermos com uns cachorros especiais e uns pregos, cortesia do Zé. E nem foi preciso beber muito para esquecer. Depois fomos dar umas tacadas para o pano verde e já saímos bem dispostos. Estar com os amigos é bem mais importante do que sportingues, benficas e fcportos.
E o Snooker Clube é o local onde sou mais do que cliente, sou amigo e sempre bem tratado, apesar de o amigo Almeida ser do «inimigo» – Benfica. Mas é um «inimigo» fidalgo, fraterno e com sentido de humor. Ao ponto de me vir dar o cartaz de anúncio do «Sporting – Porto» para o campeonato nacional, no final da nossa desgraça.
– Ó Luís, é capaz de querer ficar com isto para recordação...
– Mas o amigo Almeida tem de autografar...
– Isso já não consigo...
E lá nos rimos os dois, que isto de ser do Sporting dá uma estaleca do camarquilhão nas derrotas.
Portanto, foram duas derrotas seguidinhas no Snooker Clube, equipado à Stromp. Mas não desisto. Hei-de lá ir ver o próximo Sporting – Porto, ou Porto – Sporting. E equipado com um pólo do Sporting. Mas por causa das coisas levo o outro pólo do Sporting, que também é lindíssimo. É aquele de fundo branco, com listas amarelas e verdes horizontais. Pode ser que pegue.
Enfim, saudações leoninas.
E nem sei o que se tem passado com a nossa equipa carismática e vencedora, a de ténis de mesa. Pelo meu lado, comecei o Campeonato do Inatel. Podem ler tudo brevemente em http://www.oprazerdamesa.blogspot.com/.
E as reportagens do Salão Erótico no blogue do BD Voyeur. É ir através do link do «Prazer da Mesa» até ao Kuentro (que é sobre BD) e depois o Kuentro avisa quando começar a mandar brasa sobre o Salão. Mal o Machado tenha tempo de postar, é só saúde e muitas mulheres nuas.
Algumas delas andaram em cima de mim. Ou melhor, do Dick Hard. Vou aparecer uma terça-feira destas no «Boa-noite, Alvim», na rábula com o Nuno Costa Santos. E mais não conto. Deve ser lá para o final de Novembro, princípios de Dezembro. Mas até pode ser uma terça anterior. Previsões só no final do encontro.
Viva a SIC Radical! Viva o Alvim! Viva o Nuno Costa Santos! Viva o Gimba! Viva o papagaio Baixinho! Viva o Pedro Dias! Viva o João Manzarra!
E vivam as miúdas do Curto-Circuito! Principalmente a Joana Dias, que faz anos no mesmo dia que eu. E aquela que curte gajas também é simpática. Já para não falar da fresquinha Rita Andrade.
Viva o «Cabaret da Coxa»! (pode ser que regresse, tenho um dedo mindinho a dizer-me coisas, eles andam a dar repetições do programa; será só coincidência?)
Realmente, eu não posso andar nos blogs. Perco-me. Não tenho GPS. Tudo isto a propósito da derrota do nosso clube... Então e quando é que durmo?
Estúpido! (é comigo, não é com vocês) Devia estar a preparar já o curso de escrita criativa que vou dar na Learning Inovation, ali para as bandas do El Corte Inglés, nas segundas e sextas-feiras de Fevereiro, entre as 18h e as 21h, com pausa para sexo, whisky e cigarrinho, a meio da sessão. Começa a 9 e acaba a 27. (mais pormenores pelo telefone 309912840)
Mas estou a dizer isto por acaso. Pagam-me o mesmo, independentemente do número de alunos.
Mas curto dar aulas numa rua com o nome de um homem que muito admiro (Ramalho Ortigão). E já conheci o caniche Pipo, que anda lá pela zona e «ladra porque quer que as pessoas lhe façam festas», segundo a versão da dona.
Olha lá, ó António, o Fernando Pessoa das paredes aí de casa e o ouriço das visitas nocturnas também ladram, ou isso é só o Monge e os colegas?
E por aqui me fico, que daqui a meia hora começam a martelar as paredes do prédio. As obras já duram há mais de um mês e meio, a darem-me cabo da cabeça. E eu para aqui. Não resisto aos blogs dos amigos. Amanhã (hoje!!!), se tiver enxaquecas, posso queixar-me?
Bem, o melhor é tomar um kainever, para ver se descanso o mínimo. Mas daqui a umas sete horas vou acordar tipo zombie. Onde estou? Quem sou eu? Por que é que já não há futebol de jeito no campeonato português?
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terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Feliz Natal, senhor Lourenço

Divulgação do próximo curso de escrita criativa do Luís Graça (texto sem edição, colocado aqui exactamente como foi recebido por e-mail).
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LUÍS CARGA VOLTA À GRAÇA NA RUA DO JASMIM
O magnífico escritor, dramaturgo, poeta, jornalista, ensaísta, actor, travesti, publicitário, mesa-tenista, hidro-ginasta, romancista e modesto como o caraças Luís Graça vai voltar à carga com mais um curso de Escrita Criativa na Associação Agostinho da Silva, na Rua do Jasmim, número 11. Se não sabem onde é podem perguntar na esplanada do café do Príncipe Real, costuma lá estar o João Botelho. Ou perguntam ao pessoal que está a jogar à sueca na esquina que dá para a Rua do Jasmim. Para quem vem do snack-bar "O desejo" é subir a rua e entrar à esquerda no edifício da Junta de Freguesia das Mercês.
Como é um Curso de Escrita Criativa Natalícia será disputado entre 15/20 Dezembro, de segunda a sexta, mas podem meter a rapidíssima, se quiserem, embora se arrisquem a partir o motor. Horas: as ideais para qualquer pessoa civilizada: 18h/19h30m. (O Renato Epífânio é que manda e as inscrições são com ele, pelos telelés ring-ring-ring 96 704 42 86 e 21 34 22 783).
O quê?!? O 21 não é telelé? Ó pá, vão dar banho ao canis, venho eu de um clube de strip onde faltaram as húngaras que iam dar show lésbico e estão-me a chatear a carola com pormenores? Vejam lá se crescem.
O título do curso? O que é que isso interessa? Está bem, pronto, eu digo: FELIZ NATAL, SR.LOURENÇO.
Porquê? Porque é dado a partir de uma peça de teatro cá do Luís Graça (entrem em
www.gandaordinarice.blogspot.com --- cuidado com a bolinha vermelha nos outros dias --- e procurem a peça nos arquivos, a 16 de Setembro de 2007).
E a partir de uma obra cinematográfica menor de um realizador chinês, ou coreano, ou japonês, chamado Nagisa Oshima, ou Adalgisa China ou uma coisa assim. O gajo fez um filme que se chama "Feliz Natal, Mr.Lawrence". Mete gajos amarelos e o David Bowie. Vi no Trindade, no Porto, numa noite de Inverno e a minha mãe saiu a meio. Afinal, alguém tem de vender droga para sustentar a família. Mas como estava a chover muito ela deu a droga aos pombos (por isso é que as gaivotas do Porto agora já atacam os pombos, estão revoltadas com a falta de equidade) e voltou para a sala de cinema. No final perguntou-me:
--- Então, filho, gostaste?
--- Assim, assim. Estava à espera que o Bowie cantasse um tema ou dois. E o japonês era mesmo mau. Mas também não se pode esperar muito de um realizador desconhecido, um actor que vai para a cama com homens e mulheres e música de um gajo que é ladrão de motos em Tóquio. O nome do gajo diz tudo: Sakamoto.
Resumindo: venham mas é lá inscrever-se no curso, que as Private Dance não são à borla, uma Stout num club de strip normal custa 9 euros e um Drambuie 12. E nos clubes de strip ninguém acredita no Pai Natal.
Os gajos pagam-me na mesma, mesmo que os alunos fiquem na conversa no jardim do Príncipe Real e comecem a dar tangas do género: "Ai, coiso e tal, a porta estava fechada, pensámos que o stôr não vinha e fomo-nos embora".
Olhem, para mim é tinto. Por acaso até nem foi. Fiquei a mamar garrafinhas de cachaça com o Sardinha --- na rua, na rua, fora do horário de trabalho, que eu não conduzo e o Sardinha tinha de estar na lota de manhã cedo, no outro dia --- que é um bacano lá do ATL que controla os putos nos computadores e não deixa os gajos entrar na página da Assembleia da República. Acho muito bem que antes dos 18 anos a pornografia seja barrada.
Apareçam, paguem e comam umas fatias de bolo-rei no último dia do curso. Oferece a Associação.
No curso anterior ofereci eu bombons Mon Chérie, em homenagem à grande stripper bocagiana Mimi Monchérie.
O texto é muito grande, Inês? Que se lixe! A maior parte da malta só vê os bonecos. Quem aparecer é por causa do bolo-rei à borla e na esperança de encontrar "engates". A Escrita Criativa está na moda.
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quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Uma crónica de Luís Graça (6)

Sexta de uma série de crónicas do Luís Graça. Anteriores: 1, 2, 3, 4 e 5.
Nota: escrita para o projecto «Cidades Crónicas», um espaço da lusofonia com grande colaboração de brasileiros (o que justifica certas explicações ao longo do texto); o Luís participou no projecto em 2006 e 2007 a convite do seu criador, Paulo José Miranda.
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Um mouro na invicta
«Mouros, mouros, andamos nós a trabalhar o ano inteiro lá em cima para vocês torrarem tudo cá em baixo.»
Foi assim. Há uns anos valentes. Um adepto portista (torcedor do Futebol Clube do Porto) e portuense (presumo que o senhor fosse natural ou habitante da Cidade Invicta) não resistiu às provocações bem-humoradas de um adepto do Sporting em pleno Estádio de Alvalade (o antigo estádio do Sporting, em Lisboa).
A discussão começara a propósito de uma jogada qualquer entre «leões» (Sporting) e «dragões» (Porto). Rapidamente passou do futebol para o famoso e clássico Porto – Lisboa, bem ao estilo de um duelo verbal entre cariocas e paulistas.
Esta pequena história, presenciada na bancada Superior Norte de Alvalade por um sportinguista (eu) e um portista e portuense (o meu amigo Manuel Perez), serve para ilustrar as enormes diferenças culturais que três centenas de quilómetros podem provocar.
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Gosto do Porto. Do Porto-cidade de gente com o coração quente e a língua sempre afiada para um vernáculo consagrado, cujo templo é o Mercado do Bolhão, onde as vendedoras exercitam a bem-falância de insultar sem maldade, como dizia outro amigo meu, que exerce o mister de camionista.
Passei mais de dez anos sem ir ao Porto. O casamento de uma prima levou-me de volta às margens do Douro (o rio que banha a cidade, onde navegam os barcos com os tonéis do famoso Vinho do Porto).
Fiquei triste. A crise económica e as obras deram à cidade um ar ainda mais cinzento e circunspecto do que aquele que lhe era já bem tradicional.
Na Praça da Batalha, onde fiquei instalado, os toxicodependentes misturam-se com as gaivotas e os pombos (em confrontos por vezes letais para os pombos, na discussão da migalha diária); com os estudantes que desenham a fachada do imponente Teatro de S. João, enquanto a cem metros de distância a palavra «Águia» no topo de um edifício sujo é apenas um jazigo do defunto cinema onde os cartazes de «Os Vikings» (com Kirk Douglas e Tony Curtis, realizado pelo falecido Richard Fleisher) me fascinaram sem remissão.
Em pleno século XXI, há pessoas que consideram andar de skate um passatempo eticamente reprovável. Em frente do falecido cinema, os miúdos espinoteiam alegremente, enquanto um cidadão não resiste a invectivá-los: «Vão trabalhar, caralho!»
O Porto é agora uma cidade em que os grandes centros comerciais asfixiaram o pequeno comércio. As lojas são cada vez mais iguais. E mesmo a vetusta Livraria Lello, um prodígio arquitectónico, não resiste à ignorância de algumas pessoas, porque os livros são um luxo. «A Lello? Não sei. Mas há ali uma livraria antiga.»
O Majestic, deslumbrante café no centro da cidade (na Rua de Santa Catarina, que deu origem ao pequeno poema de Jorge de Sousa Braga, chamado «Nos semáforos de Santa Catarina» – «ao menos os teus olhos/ permanecem verdes/ todo o ano») é mais frequentado por estrangeiros do que por portugueses. Paga-se nove euros e setenta e cinco cêntimos por um «Chá à Majectic» (dá direito a chá, cacau ou leite, torradas com compota, scones e uma tarte), mas sabe-se que é apenas um investimento. A limpeza da alma também se paga. Faz muito bem ficar sentado nas mesas do Majestic a ouvir o piano e ver os empregados a circular nas suas fardas brancas, a lembrar os grumetes de navio.
À noite, sai-se do Majestic, sobe-se a Rua de Santa Catarina e corta-se à esquerda por alturas do Automóvel Clube de Portugal. Junta de Freguesia de Santo Ildefonso. Por baixo de um dos únicos edifícios construídos em Portugal para abrigar jornais (no caso o «Jornal de Notícias», líder de vendas), travestis brasileiros e putas portuenses de baixo nível dividem o território numa aparente coexistência pacífica, lado a lado. Nem Santa Catarina nem Santo Ildefonso valem de nada, para as presas dos azares da vida, sejam brasileiras ou lusitanas. Os carros passam no viaduto. As putas estão paradas à chuva. A vida continua.
Alguns metros acima, o Pérola Negra (há não muitos anos famoso pelos espectáculos de sexo ao vivo) converteu-se à língua inglesa e vende Table Dances a cinquenta euros, com entrada a vinte e cinco, correspondente ao consumo mínimo. De ténis não se pode entrar. Nem tampouco de boné, gorro ou lenço na cabeça.
Fiquei à porta. Vi as fotos das strippers. Cheiro de Leste e Brasil. Mas não soube se eram apenas fotos exemplificativas ou se correspondiam às strippers a trabalhar na casa.
A madrugada pode ser boa conselheira. Aconselhou-me a ler a situação. Raciocínio rápido, marcha lenta e descontraída. Podem ser uma boa combinação para evitar um assalto. Não sei se ia acontecer. Podia ter acontecido. Como um pequeno tubarão curioso, um sujeito de mau aspecto e cabelo apanhado em rabo-de-cavalo farejou-me a existência despistada. Talvez a burguesa exibição do meu blusão de pele proporcionasse pensamentos libidinosos ao moinante.
A precaução não deixou o pânico tomar conta de mim. A Câmara Municipal estava a cinco minutos de distância, numa avenida central agora transformada em terreno bombardeado por B-52. Ou talvez seja apenas as crateras/ cicatrizes provocadas pelas obras do Metropolitano.
Um café clássico está travestido de MacDonalds. Não chove, mas está frio. O blusão e o cachecol sabem-me bem. Regresso à Messe da Batalha com duas sanduíches de queijo embrulhadas.
Passa das duas da manhã. Leio os jornais do dia, presos a um pau, fechado a cadeado. Um hábito que não conheço em mais lado nenhum. Como se o leitor se pudesse transformar em toureiro e sacasse de meia-dúzia de verónicas (passe de toureio) para fintar as más notícias com traje de luzes.
Na secção de «Massagens», o calor humano do Porto faz-se sentir. É uma prostituição mais aconchegante, como uma sopa dos pobres, como um pedido de desculpas, uma carícia nos cabelos encaracolados do Princípezinho de Saint-Exupéry. «O que significa cativar?»
«Universitária + amiga. Por necessidade atendem cavalheiros e casais. Show lésbico.»
«25 anos. Faz convívios para poder pagar a renda. Ajude-me.»
«A iniciar. Polaca. Seja educado.»
«Senhora 25 A, loira. Não sou profissional. Recebe alguns amigos em troca de pequena ajuda. Não ligue para brincar.»
Priscila, mulata brasileira, quer brincar. Gosta de sexo. É garota de programa há sete meses. Confessa muita coisa no blog e recusa comparações com Bruna Surfistinha, que começou por se prostituir, experimentou a escrita epistolar blogueira, lançou um livro e reformou-se como celebridade nacional, sem perder a vergonha de sentir o peso da condenação familiar.
Priscila diz apenas que a sua família não pode saber.
Mas não tem medo de assumir a sua preferência clubística: Benfica. Há posts e mais posts sobre o seu clube do coração em Portugal. E nem sequer se importa que os jogadores do Futebol Clube do Porto que conhece pessoalmente possam ficar irritados com o facto. A ideia não é essa.
Para além do Benfica, os clientes também dão prazer a Priscila, que tem de fazer um esforço para não se deixar envolver. Priscila tem orgasmos com os clientes. Precisa de quarenta minutos antes de qualquer marcação. Porque não há desculpas para o desleixo e a falta de higiene. Aprendeu com os seus pais.
«O trem é bagunçado, mas mesmo assim tem gerência.»
Priscila choca-se com a falta de exigência de alguns clientes. É vaidosa. Escreve muitas vezes que é gostosa.
«Tem uns [clientes] que não dispensam nada. Pegam tudo que é bagaceira.»
E o casamento?
A minha prima Irene pegou na faca e arrependeu-se à última da hora, olhando com alguma desconfiança para o bolo de noiva.
«Passo-lhe a palavra para cortar o bolo.» E o sabre imponente passou para as mãos do diligente funcionário do Hotel Nave.
Fui para o bar, ver um jogo de voleibol entre o Benfica e o Vitória de Guimarães. Até à hora do futebol (Sporting de Braga – Benfica) estive só. Depois o bar fervilhou de provocações, uns pelo Benfica, outros contra.
Acordei sem ressacas e fui fazer uma aula de hidroginástica para o Holmes Place da Boavista, onde encontrei um campeão de Riade (Portugal foi campeão mundial de Sub-20 na Arábia Saudita, em 1989). Como agora tenho barba, o Jorge Couto não me reconheceu.
Anónimo continuei na hidroginástica. Mas a sentir o calor humano dentro de água, principalmente quando a monitora Rosália se mandou para dentro da piscina vestida e tudo, executando os exercícios com os alunos, num carnaval de ritmo e salpicos que meteu «rodinhas» e «lagartinhas». No Holmes do Arrábida Shopping (em Gaia, do outro lado do Rio Douro) senti o mesmo calor humano dentro de água. Com um núcleo totalmente diferente.
Regressei de comboio, a ler a revista «Águas Furtadas», cujo editor é o meu amigo Rui Amaral, que já não encontrava desde 1996. Prometi-lhe um conto.
E bamos acabar esta crónica, carago, que já bai longa.
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domingo, 28 de setembro de 2008

Criatividade garantida

O que coloco a seguir é a divulgação de um curso de escrita criativa do Luís Graça. Para os interessados, deixo aqui um e-mail: agostinhodasilva@mail.pt. Acho que a criatividade neste curso está mais do que garantida.
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Luís Graça dá curso de escrita criativa a partir de álbuns de banda desenhada
O jornalista e escritor Luís Graça vai dar um curso de Escrita Criativa a partir de álbuns de Banda Desenhada.
O curso decorrerá durante seis sessões, às quartas-feiras, entre as 18 e as 19h30m, na sede da Associação Agostinho da Silva, ao Príncipe Real, em Lisboa.
O início ocorrerá a 22 de Outubro e o final a 26 de Novembro.
O preço de inscrição é de 50 euros e o número de vagas está limitado a 20, sem prejuízo de reservar vaga para edições seguintes do curso, caso não se consiga inscrever para o primeiro.
No final do curso será construído um blogue pelos alunos, de forma a prosseguir o trabalho de forma interactiva.
Os álbuns de BD a partir dos quais se trabalhará (não é indispensável a sua aquisição, é aconselhável a sua leitura prévia) são os seguintes:
- «A balada do Mar Salgado» (Hugo Pratt), complementada com histórias curtas de Corto Maltese;- «A Marca Amarela» (da série «Blake and Mortimer», de Jacobs);
- «Astérix e o Caldeirão» (Goscinny/ Uderzo);
- «A Trompa de Névoa» (da série «Cavaleiro Ardente», de François Craenhals);
- «O Clic 1» e «O Clic 2» (Milo Manara).
Os álbuns «A Balada do Mar Salgado» e «A Trompa de Névoa» (é muito difícil encontrá-los disponíveis à venda) podem ser lidos na Bedeteca de Lisboa, perto do Metro dos Olivais.

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quarta-feira, 24 de setembro de 2008

O relato

Fez-me lembrar o o futebol dos filósofos. Refiro-me ao que o Luís Graça deixou na caixa de comentários de um post do blog da revista «Ler», isto…
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Temperatura amena no Salão Nobre da Biblioteca Municipal de Lisboa. Os leitores já estão sentados e aguarda-se a todo o momento que Jorge Couto apite para o início do desafio. Vai ser auxiliado do lado da Torre do Tombo por José António Pinto Ribeiro e do lado da estátua da Guerra Peninsular por Teolinda Gersão.
Luís Graça toca curtinho para Dick Hard, Dick Hard introduz um poema de «A Idade das Trovas», de Inocêncio Pinga-Amor. É «Nenúfar», o título do poema.
MRP reclama que Dick Hard não pode colocar em jogo um poema lírico.O jogo está parado e recorre-se ao vídeo-wall, onde Genaro Olivieri, Guido Pancaldi, Vasco Graça Moura e Eduardo Lourenço vão analisar a situação.
As 17 regras do novo Acordo Ortográfico não são bem claras, mas Jorge Couto aponta para o centro de «Sei lá».
MRP segue agora com o livro bem dominado no regaço. Passa por uma tia, diz adeus a outra, diminuiu bruscamente de velocidade numa montra da Prada, volta a correr com o romance na mão. Deixa cair uma metáfora, recupera e aparece Rick Dart e corta pelo parágrafo final.
Livro de cantos. Já vão dez a favor de Luís. Onde Vaz, Graça? Conseguirá aguentar toda a pressão em cima dos seus corners?
MRP, em belo momento de forma, muito leve, muito Light, muito Tahiti duche com monói, mete no coração da área, recebe com «Alma de Pássaro» e sobrevoa a zona de perigo. A obra cai num vidrão.
A equipa técnica da Oficina do Livro está apreensiva. Apesar de um maior domínio estantorial, MRP não conseguiu fazer esquecer «O Homem que Casou com Uma Estrela Porno e outros contos perversos», da Polvo. Rui Brito, encostado ao banco, de braços cruzados, manda aquecer Jorge Deodato, recuperado de uma recente lesão na Feira do Livro.
É agora Luís Graça que avança pelos terrenos da Oficina. Ouvem-se protestos de Gil Cancela Leite, a propósito da capa de João Pita Grós, em «A Idade das Trovas». O dirigente da Camilo Castelo Branco está nervoso. A Universitária poderá ter uma palavra a dizer neste importante prelo a contar para a terceira jornada da primeira fase da Liga das Ilustrações.
João Fazenda despe o fato de treino. Recorde-se que o ilustrador, que já actuou na Polvo e na Oficina do Livro, prepara-se agora para colorir «Português Suave». MRP já tem a cara cheia de algarismos, para que João Fazenda possa colorir em conformidade.
Vem de novo Luís Graça em bom andamento, está a ler a terceira cena de «Meia-Dúzia de Maldades», terceiro prémio do concurso Novos Textos do Inatel, amortece uma didascália, cola na relva, prepara um curso de escrita criativa na Associação Agostinho da Silva, na Rua do Jasmim, número 11.
Brown, serial killer da peça premiada em 2000, pede para ser substituído. Josué Morteirinho entra na Biblioteca e vai colocar-se ao lado de «Fado, Futebol e Farpas, uma aventura psicadélica», uma edição de autor que não fica a dever nada a um autor de eleição como Luís Graça.
Na realidade, Luís Graça foi eleito como a esperança mais promissora dos eventuais potenciais escritores das próximas duas décadas.
E agora, senhores espectadores, temos o encontro interrompido. Dá ideia que MRP deixou cair algo. Parece que é um brinco. Vítor Alçada Baptista vem ajudá-la a procurar.
– Ai, que chatice. Era o «I'm in Love With a Pop Star», um brinquinho de narrativa, um conjunto de prosas que pôs Portugal a ler.
Luís Graça dirige-se a Jorge Couto e solicita o adiamento do prelo. Já está no banco a discutir com Rui Brito a próxima edição. O fisioterapeuta do centro de estágio BD Voyeur, Machado-Dias, traz um recado para MRP:
– Pede-se à menina Margarida que se dirija com prontidão ao prontuário. Os seus revisores aguardam-na com carinho.
– O quê? Não tou a pecebê. Que possidonice!
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sábado, 13 de setembro de 2008

Uma crónica do Luís Graça (5)

Quinta de uma série de crónicas do Luís Graça. A primeira pode ser lida aqui, a segunda aqui, a terceira aqui e a quarta aqui.
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Setembro chega sempre à traição
Pequim esfumou-se. Os Jogos Olímpicos são passado. Roger Federer ganhou o seu décimo terceiro torneio do Grand Slam, em Nova Iorque. Na RTP2 passa um documentário sobre um dos saltadores suicidas do Empire State Building.
O estômago aperta-se e vou para a rua passear. No Galeto encontro o José Luís Peixoto e fico a colocar a conversa em dia, encostado ao parapeito da esplanada. Como Romeu e Julieta. Ele de t-shirt preta de Raul Seixas, eu de t-shirt branca de Porto Seguro. Ele de tatuagens nos braços, eu de cicatrizes.
Setembro chega sempre à traição, para nos lembrar dos amores que não surgiram em Agosto, dos bichinhos que andam no nosso quarto, emigrados dos livros para baixo dos tapetes cobertos de DVD sortidos, num deslizar de estância de esqui. Sem controlo, com fracturas emocionais.
Agarramos num CD de Dotschy Reinhardt e bolinamos uma crónica a pedido da Comissão de Regatas. Pianamos as teclas. Como nos confessou John Simenon, filho de Georges Simenon, num fim de tarde do Franco-Português, a propósito do autor dos livros do Comissário Maigret. Era assim que o seu pai escrevia um policial num fim-de-semana. A pianar as teclas. Era fácil, barato e dava milhões.
Dotschy vai-nos sussurrando promessas. Na ausência dos seus seios, vamos acariciando as teclas e um discurso mais ou menos coerente vai-se formando à frente dos nossos olhos. Clicamos pela quarta vez no primeiro tema «Gai Rath». É uma massagem para a alma, apesar de não percebermos patavina: «Gai Rath hi da sterni gar dur...»
As cartas começaram a chegar. Vêm da Cornucópia a anunciar Beatriz Batarda. Vêm do Franco-Português. Vêm da Casa Fernando Pessoa.
Juramos fidelidade. Prometemos não faltar. Colocamos as datas e os acontecimentos na agenda, em códigos de duas ou três palavras, com a hora à frente.
Para trás ficou o passeio nocturno de uma hora. Com raide-surpresa à Rua Flores do Lima. O Quarteto está à venda. Há ainda dois cartazes de filmes cá fora. «O Bom Alemão» deixa-nos em testamento o rosto de Cate Blanchett.
Mais abaixo, a Casa de Tomar lembra bolas vermelhas que teimosamente me colocam na mente a falta de aptidão para o snooker. Aqueles jogos à pressa, para não perder o início dos filmes...
O dia, entretanto, nasceu.
(na foto, Dotschy Reinhardt)
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quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Uma crónica do Luís Graça (4)

Quarta de uma série de crónicas do Luís Graça. A primeira pode ser lida aqui, a segunda aqui e a terceira aqui.

Os matraquilhos e a eternidade
Não há tecnologia que consiga perturbar a noção de eternidade que uma mesa de matraquilhos implica. Os matraquilhos existem porque são a representação perfeita da competição. Mesmo quem não gosta de futebol aprecia um bom jogo de matraquilhos, vulgo «matrecos», ou «bonecos».
Poder-se-á pensar que os matraquilhos rimam com tasca, copos de tinto a granel e jogos de bisca lambida. Nada mais errado. Os matraquilhos rimam com tudo isso, mas são também fonte de deleite nos corredores austeros de uma universidade ou em casa faustosa de «jet-set». Os matraquilhos, enquanto reprodução do futebol, causam unanimidade.
Os matraquilhos são uma espécie de pinturas rupestres. Traduzem a pré-história do futebol de mesa, mas ao mesmo tempo possuem um espírito fraterno que eleva o ser humano ao êxtase mais profundo. Que se saiba, nunca um credo religioso, filosófico ou político se pronunciou contra os matraquilhos. Nunca se descortinaram efeitos perversos para a saúde numa partida de matraquilhos. Jocosamente, diz-se mesmo que desenvolvem a acuidade visual, os reflexos e a coordenação motora. Ao mesmo tempo que modelam os bíceps.
Os fundamentalistas esquecem, no entanto, que os matraquilhos provocam calos na palma das mãos e que são extremamente ruidosos. Mas é para isso mesmo que servem os matraquilhos: para afirmar a virilidade do Ser, mesmo que toda a gente ache muito bem que as senhoras pratiquem este desporto/ jogo de mesa.
Os matraquilhos também fazem transpirar das axilas, mas é para isso mesmo que servem: para que as glândulas sudoríparas gritem a viva voz a alegria de se expressarem livremente. Um jogo de matraquilhos que não misture sabiamente os odores do Paco Rabanne com as fragrâncias do suor das sete da tarde não merece ser cognominado de matraquilhos. Será algo aproximado, mas falso.
Claro que é irritante ter as mãos sujas de óleo dos matraquilhos. Nesse sentido, é mais um jogo para mecânicos do que para cirurgiões; mais uma actividade para culturistas do que para engenheiros informáticos, mais um passatempo para moçoila comprometida com o cultivo do campo do que para uma esteticista/ nutricionista. Não nos esqueçamos, todavia, da questão subsidiária: para que serve a pedra-pomes? As mãos podem conspurcar-se, mas é muito mais importante ter a alma limpa. Esta poderia ser mesmo a divisa de todos os matraquilhistas: «Mãos sujas, alma limpa».
Que crédito nos poderá merecer um jogador sem calos, os dedos imaculados, a expressão apática de um ente sem paixões de qualquer espécie? O verdadeiro atleta dos matraquilhos (atleta, sim, porque aos matraquilhos não se joga sentado) revela no olhar o espírito predador da águia, o calculismo de um xadrezista sem pudor, a malícia de um lince com hienas na família, a astúcia de um felino em ninho de cucos.
Os matraquilhos são mais do que um jogo, são um estado de alma. Naqueles quatro varões joga-se o destino da Humanidade. Aprende-se de um fôlego as regras da confraternização e da sobrevivência: bola na defesa, é preciso levantar os pezinhos dos médios e avançados; bola do outro lado, urge ter o guarda-redes desencontrado com os dois defesas.
Tacticamente, os matraquilhos são como a vida: atrás, um guarda-redes desamparado (as surpresas que o destino nos revela); à sua frente, um par de defesas cheios de responsabilidade e frequentemente desapoiados (as traições); no meio-campo, cinco homens lado-a-lado, prontos para o que der e vier (a luta quotidiana pelo pãozinho); à frente, três heróis de peito feito às balas, aptos para recolher os louros da vitória (e muitas vezes não sabem parar uma bola vinda dos defesas).
Quando a bola pára nos pés da linha avançada, não nos podemos impedir de pensar: chegou a hora. Porém, nem todos os avançados são bafejados com a perícia que transforma uma bola parada num golo inevitável, num «ballet» perverso que dura uma fracção de segundo e consegue criar no feliz concretizador a ilusão de ser um D. Juan das balizas.
Os matraquilhos são uma arte clemente: nunca ninguém foi parar a um divã de psicanalista por não ter jeito para os matraquilhos. É uma coisa que se aceita com a mesma afabilidade de um pôr-do-sol. E nunca nenhum «nabo» recolheu um abaixo-assinado para acabar com os matraquilhos. Eles são imunes a jogos de computador, Segas, Playstation, Stationwagon, monovolumes, pastilhas elásticas e acid jazz.
Senhores e senhoras, os matraquilhos são eternos.
Com os varões empenados, com as pernas da mesa desequilibradas e cheias de caruncho, com as salas sem luz, com o tabaco em valsas loucas a rodopiar nos salões, com o vernáculo empenhado de dançarina de cabaret apaixonada pelo tratador de elefantes do circo de Natal, com tudo isto e tudo o mais que se dignem imaginar, os matraquilhos são mesmo eternos.
A única coisa estranha é não ter havido ainda uma tese de doutoramento intitulada «A influência dos matraquilhos no desenvolvimento motor da criança». Ou um Action Man a jogar matraquilhos, enquanto a Barbie dá banho aos putos.
Aposto que nunca tinham pensado nisto.
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domingo, 7 de setembro de 2008

A mente por uns instantes invadida

Coloco a seguir o que o Luís Graça deixou ficar na caixa de comentários do post sobre a capa de Setembro da revista «Ler» (Ler Blog»). Uma entrevista a Eduardo Lourenço, como a revista fez (Carlos Vaz Marques), mas admitindo que a mente do ensaísta, não sei como, foi por uns instantes invadida pela de outra pessoa (nota: editei o texto, mas muito à pressa).
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Comentário:
De Luís Graça a 6 de Setembro de 2008 às 06:24
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SE O ESPÍRITO DE MARGARIDA REBELO PINTO POSSUÍSSE EDUARDO LOURENÇO

A LER combinou a entrevista para as 17 horas, no terraço do CCB, a pedido de Eduardo Lourenço (EL), porque «as 17 horas do terraço do CCB são as melhores para ver o transcendente reflexo do sol na prata dorsal das composições da CP».
Eduardo Lourenço chegou com 20 minutos de atraso, porque tinha andado aos saldos nas camisas de manga curta, no Rosa & Teixeira.

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EL – Têm preços muito em conta. Em França as camisas já não são o que eram. Mesmo o povo, tradicionalmente descamisado – e até os sans-coulottes – usa um tipo de camisas globalizadas. Portugal será ainda e sempre a minha terra, apesar de eu estar «avanceado» pelas gálias.
CARLOS VAZ MARQUES (CVM) – Gostou de ter sido convidado para dar uma entrevista à LER?
EL – Não sou elistista, apesar de ser tido como tal. O meu discurso é facilmente compreensível para qualquer mero doutorado em Física Quântica. Por isso, falar para a LER merece-me um enorme respeito. É tão respeitoso estar na capa da LER como na da Selecções do Reader's Digest. Ou na CARAS, para referir a minha revista literária favorita.
CVM – Ouvi dizer que ficou um pouco aborrecido pelo facto de os dois primeiros números da LER terem tido António Lobo Antunes e José Saramago na capa...
EL – Quem disse isso?
Eduardo Lourenço colocou os óculos escuros Ray-Ban Wings e tamborilou nervosamente com os dedos na sua long drink, com um pequeno sombrero a abanar guerrilheiramente na brisa da tarde.
Um longo silêncio. Após uma pausa, Eduardo Lourenço levantou-se, puxou as calças para cima, sentou-se, deu um pequeno gole na sua bebida, tirou os óculos escuros e...
EL – Ó Carlos, isso é muito injusto... Eu respeito toda a gente. Mesmo romancistas que escrevem aos solavancos como o Toni ou que usam pontuação desgarrada, como o Zé. Nem toda a gente pode ser a Margarida Rebelo Pinto. O facto de venderem muito menos que a Margarida não quer dizer que sejam desprovidos de talento. Está a imaginar o que era se as livrarias pusessem nos seus estabelecimentos bonecos de cartão em tamanho natural com a cara do Toni ou do Zé? Não pode ser, a Margarida tem muito mais writing-appeal... A sua ebúrnea verve paragráfica combina maravilhosamente com o azul-turquesa de um poente em Saint-Tropez.As coisas são assim. A Margarida trouxe milhares e milhares de sopeiras para a leitura... Gente que não passava de um «Guerra e Paz», de um João Miguel Fernandes Jorge, de um Guimarães Rosa-dos-Ventos, de um Jorge Marado. Nem toda a gente teve educação e foi sensibilizada para ler Paulo Coelho. Devia haver uma Margarida Rebelo Pinto em cada esquina.
O sol começava já a desaparecer no horizonte quando se aproximou de nós o poeta José Tolentino Mendonça (JTM). Timidamente, dirigiu-se ao ensaísta na sua voz suave e sussurrada.
JTM – Peço desculpa por interromper a entrevista. Mas se o Carlos me desse licença era um grande prazer poder cumprimentar o Eduardo Lourenço...
CVM – Toda a licença.
Eduardo Lourenço fez menção de desligar o gravador, mas José Tolentino Mendonça antecipou-se.
JTM – Por amor de Deus, quem desliga o gravador sou eu.
Voltámos a ligar o gravador. Um diálogo entre José Tolentino Mendonça e Eduardo Lourenço é sempre importante para a literatura portuguesa.
EL – Então, continua a fazer os seus versinhos?
JTM – De vez em quando... É um grande prazer vê-lo por Belém. Posso oferecer-lhe um pastel? Trouxe meia-dúzia. Já abriram outra vez. Domingo passado não houve futebol e as claques foram destruir as rochas da Boca do Inferno. Depois falamos... Depois falamos... Vai ficar muito tempo em Portugal?
EL – Ainda não sei bem. Tenho de falar com as pessoas da Leya. Vou começar a escrever para uma chancela nova, mas ainda não percebi bem qual. Até lá vou ser o coordenador das entregas de livros escolares. Parece que tem havido uns problemas e o Isaías acha que eu sou a pessoa indicada para bater as estradas do país e levar a cultura de lés-a-lés. Afinal, temos 800 quilómetros de costa.
Nesta altura, Eduardo Lourenço levantou-se.
EL – Ó Carlos, desculpe, diga lá ao Francisco que já não há entrevista. Vamos todos até ao Salão Erótico. Pavilhão 4 da FIL, 31/10 a 2/11.

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quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Uma crónica do Luís Graça (3)

Terceira de uma série de crónicas do Luís Graça. A primeira pode ser lida aqui e a segunda aqui.

Caricas ao sprint
Definitivamente, as corridas de caricas fazem parte do passado. Já não há miúdos a jogar à carica na praia, em cima de um muro, no chão, em qualquer lado.
Para quem não saiba, as caricas são as tampas das garrafas. Um produto de grande valor desportivo para qualquer miúdo da minha geração. Uma carica lisa (que não tivesse ficado muito vincada na hora de abrir a garrafa de cerveja ou o refrigerante) possuía grande valor para os potenciais «ciclo-cariquistas» da minha infância.
O processo de criação de um ciclista não era muito complicado, mas requeria humildade, «olho clínico» e paciência. Primeiro, a criança munia-se de um saco de plástico onde guardar as caricas abandonadas pelos empregados de café; posteriormente, dirigia-se ao dito estabelecimento, à «hora de ponta», quando houvesse muitas caricas no chão; depois, recolhia as caricas que estivessem mais lisinhas, ou seja, com aspecto de competição. Ainda era necessário passar pela papelaria mais próxima e comprar papel de lustro de várias cores, bem como fita gomada e uma tesoura. Claro que o lar já estava equipado com o «Diário de Notícias», que incluía na secção de desporto a constituição de todas as equipas participantes na Volta a Portugal.
A etapa seguinte na fabricação de uma carica de alta competição assemelhava-se a um acto cirúrgico. A precisão tornava-se imperiosa na arte de recortar as tirinhas minúsculas com o nome do ciclista. Uma distracção e o ciclista desaparecia abruptamente da Volta a Portugal, verdadeiramente vítima da tesoura involuntária da censura. Qual doping...
Conforme a equipa, assim era a cor do papel de lustro que constituía a «camisola» do ciclista. Seria a primeira coisa a ocupar o pequeno espaço circular de uma carica. Por cima, justapunha-se o nome do ciclista, que muitas vezes sobrava e ficava dobrado. Entrava então na dança a fita gomada, com muito jeitinho, pois mal aderisse ao papel de jornal o ciclista ficava irremediavelmente colado, para o bem e para o mal. O processo repetia-se para todo o pelotão da Volta a Portugal.
Fácil será depreender que a época nobre do «ciclo-cariquismo» coincidia com o mês de Agosto. Por um duplo motivo: as férias escolares (então ditas férias grandes, que na altura se prolongavam até Outubro) e a disputa da Volta a Portugal em Bicicleta.
De férias no campo, eu era um verdadeiro todo-o-terreno do «ciclo-cariquismo». Jogava à carica nos muros da minha vivenda (exercício de perícia, dada a exiguidade do espaço e a irregularidade da superfície), no chão de pedra (onde se desenhou uma pista a tinta vermelha, com bandeira de xadrez na chegada e tudo) e no quintal, na terra batida à volta do pinheiro manso. Aí, a pista era esculpida facilmente com a ajuda de uma colher de pedreiro, criando um carreiro de excelente qualidade. Tudo isto se passava na Venda do Pinheiro, depois tornada famosa pelo «Big Brother». Na altura, os miúdos estavam mais na onda do Joaquim Agostinho, do Fernando Mendes, do Leonel Miranda, do Emiliano Dionísio, do José Martins ou do Firmino Bernardino.
Mas o fenómeno do «ciclo-cariquismo» era universal. Na Praia de S. Martinho do Porto fui espectador privilegiado das competições que decorriam em gigantescas pistas à beira-mar, na areia molhada. Havia de tudo, como na farmácia: túneis, prémios da montanha com subidas em espiral e saltos à MacGyver para rectas enormes, curvas com relevé e dezenas de adultos que observavam com admiração o engenho dos miúdos com 13 ou 14 anos, mais velhos do que eu aquela meia-dúzia de anos que parecia uma eternidade.
Ouviam-se os nomes de Eddy Merckx, Poulidor ou Van Impe, porque nem todos podiam ser o Joaquim Agostinho. Na praia, as caricas não tinham o nome dos ciclistas. Eram de usar-e-deitar-fora.
Outro acessório útil ao «ciclo-cariquista» era o penso rápido. Porque essa coisa de passar horas a mandar piparotes com o indicador numa superfície metálica bicuda fazia mesmo pequenos buracos que nos punham a sangrar ligeiramente. Como uma bailarina clássica com os pés em sangue, por dançar em pontas – a comparação não é a mais feliz, mas foi o que se pôde arranjar.
As caricas eram uma paixão. O berlinde e o pião estavam decididamente a perder terreno para a carica, objecto que possuía a enorme capacidade onírica de transformar uma tampa de garrafa num herói à escolha. Era a vertigem da velocidade.
Curiosamente, a carica nunca foi usada no motociclismo. Não havia caricas do Giacomo Agostini, do Barry Sheene ou do Angel Nieto. Nem havia caricas de pilotos de Fórmula Um. No último caso, a explicação era simples: havia os carrinhos em miniatura.
De resto, as situações eram perfeitamente complementares. Os «ciclo-cariquistas» eram também apreciadores de corridas de carrinhos. E as caricas serviam também como marcos de delimitação das pistas. Obviamente, para delimitar as pistas era necessário muitas caricas. Nada que constituísse um problema na Venda do Pinheiro, terra da fábrica da Laranjina C. Para além do preto-e-vermelho da Laranjina C, havia outras caricas famosas no mercado: Sagres, Trinaranjus, Luso – só para dar alguns exemplos.
Que saudades das caricas, caraças!...

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segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Uma crónica do Luís Graça (2)

Segunda de uma série de crónicas do Luís Graça. A primeira pode ser lida aqui

O cromo do Müller valia 50
O cromo do Gerd Müller, o grande «artilheiro» do Mundial de 1974, valia 50. Era um cromo difícil, daqueles que convinha pôr no cofre dos nossos afectos. «G. Müller (Alemanha Ocidental). Avançado, 28 anos e 50 vezes internacional. Marcou já 62 golos como internacional. Joga actualmente pelo Bayern de Munique.»
Estas quatro linhas do segundo cromo a contar da esquerda da última fila da quinta página da «Caderneta Mundial 74» pareciam-nos mais do que suficientes. Afinal, o futebol era uma religião de ídolos que raras vezes víamos na televisão, numa altura em que a hora de ponta se situava entre as 19 e as 20 horas. Nos dias de transmissão televisiva as buzinadelas eram maiores. Eu saía do liceu e ia a correr para casa. Não se podia perder o Bayern de Munique e o Müller. O Müller que foi a perdição da Holanda do Cruyff na final do Mundial. Sim, o Cruyff que aparecia no último lugar da última fila da décima quarta página: «J. Cruyff (Holanda). Avançado, 26 anos e 26 internacionalizações. Em 1973 foi trespassado do Ajax para o FC Barcelona. Futebolista europeu do ano de 1971. Já ganhou três Taças da Europa.»
E depois a rapaziada discutia. Que as Taças da Europa eram a Taça dos Campeões Europeus, que o Cruyff não tinha sido futebolista europeu do ano só em 1971. O pior é que, vá-se lá saber por que bulas, quem valia 50 cromos era o Müller, que não tinha o poder de finta do Cruyff. E os miúdos portugueses adeptos do Sporting não percebiam mesmo por que raio o Yazalde não aparecia na colecção. Bolas, só avançados era meia página da Argentina: Chazarreta, Telch, Ponce, Balbuena, Guerin, Ayala, Avallay e Alonso. E também faltava o Kempes.
O Mundial de 1974 é das colecções de cromos que tenho completa. Assim como a do Camões. «Colecção de 124 cromos, 4ª edição. A biografia por imagens do maior poeta português, com todos os principais passos da sua atribulada existência de moço trovador, espadachim, guerreiro e genial autor das inspiradas estrofes de ‘Os Lusíadas’.» O moço trovador aparecia na bela capa da quarta edição da Agência Portuguesa de Revistas (1966) já com a pala no olho, numa pose ameaçadora para um «infiel», em cabelo desgrenhado, a proferir um «Yáá» à Bruce Lee, que não se ouvia mas que se adivinhava.
Completei a colecção do Camões em pleno sarampo. A cabeça toda cheia de bolhas e um amigo ex-sarampista à cabeceira da cama, num tráfico de movimentos automatizados, feito com o polegar e o indicador, enquanto os cromos se acumulavam em dois montinhos. «Tens? Tenho. Não. Não. Tenho. Tenho. Não. Pára. Dou-te o 123 por esse.»
Não era fácil completar as colecções de cromos. Os repetidos eram uma praga de impossível erradicação. As praças dos Restauradores e do Rossio acudiam à nossa aflição. Personagens de boné à Pedroto e dedos amarelos da nicotina abriam-nos as malas diplomáticas com o ar clandestino de quem trafica droga. E nós pagávamos mais pelo alegre privilégio de escolher os cromos fora das carteirinhas. Era o que valia.
Por completar ficaram a caderneta didáctica «O Mundo em Bandeiras» (200 cromos), que começava com Portugal e acabava com Angra do Heroísmo; «Notas de banco de todo o mundo» (242 cromos de notas que tinham um carimbo a dizer «sem valor legal»); «Figuras e monumentos nacionais, cromos-adivinhas» (primeira edição, Outubro de 1968, colecção de 167 cromos), desenhos de Júlio Amaro e legendas de J. de Oliveira Cosme.
O primeiro era o Viriato. «Denodado comandante/ De um punhado de serranos/ Em brava luta constante/ Vence os antigos romanos/ E tão grande apreensão/ Acaba por lhes causar/ Que estes resolvem mandar/ Assassiná-lo à traição/ Recordar é sempre grato/ o nome de...». E nós, se fôssemos um bocadinho vivaços, com a nossa caligrafia inocente escrevíamos «Viriato», com a satisfação característica de quem acabou de descobrir a pólvora.
O último cromo era dedicado a Marcelo Caetano. E rezava assim: «Não podendo Salazar/ Prosseguir o seu mandato/ Foi, por Conselho de Estado/ Eleito p’ra o seu lugar/ Activo e desassombrado/ De modernas concepções/ Segue um caminho traçado/ Sem ceder a ilusões/ Quem é? Digam, sem engano/ Doutor...».
Incompletas ficaram ainda «História das Descobertas», «Transportes, terra, mar e ar», «História Natural», «Internacionais da Bola», «Futebol 77, a grande selecção», «Futebol 1975/ 1976», «Futebol 77». Mas a minha maior paixão era a «História de Portugal», graças a Deus completa.
As memórias são dos bens mais preciosos que temos. Escondem os nossos prazeres e conservam os amores numa arca frigorífica cheia de afectos. Coleccionamos os nossos prazeres ao longo dos anos, sabemos que armazenar as nossas afeições é uma tarefa inata de suprema paciência. Todos os nossos afectos têm uma hierarquia, uma espécie de semáforos que regulam um carreiro de formigas. As colecções de cromos fazem parte dela. Pequenos rectângulos de referências múltiplas. São os Picassos, Mirós, Gauguins e Monets das crianças. Ainda bem.

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quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Uma crónica do Luís Graça (1)

Primeira de uma série de crónicas do Luís Graça, depois da promessa feita aqui (pelo começo, deduz-se que a escreveu depois dos quarenta).
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Os melhores momentos da minha vida
Dizem que a vida começa aos quarenta.
Seja.
Assim, não há melhor altura para fazer um balanço. Ora, balanço que se preze implica a existência de um top-ten. Em qualquer coisa da vida, sem discriminações.
Comecemos pelo princípio: nasci. Não, definitivamente, este não poderá ser considerado um momento alto, já que houve uma manifesta má-vontade da minha parte em ocupar o meu lugar no mundo. Pelas oito horas e trinta minutos do Dia das Bruxas do ano de 1962, em Lisboa, em plena Avenida da República, recusei-me a nascer às boas. Foi de cesariana.
Recapitulemos: será que consegui escrever dez poemas aceitáveis ao longo destes 40 anos de vida? Acho que sim. Então, dá-me ideia de que a minha existência está justificada.
Sem mais delongas, assim de repente, utilizando um critério totalmente afectivo, ao correr da pena, passo a reproduzir o top-ten dos melhores momentos da minha vida, por ordem (quase) cronológica.
1) PATRÍCIA. Eu tinha seis anos e andava no Externato de Santa Maria Maior, na primeira classe. E apaixonei-me pela Patrícia, que era uma loirinha de franja, com rosto de anjo. O erotismo supremo, para mim, seria dar-lhe um beijinho na face. Nunca aconteceu. Fomos à nossa vida. Cerca de 20 anos mais tarde, na sala de espera do dentista, deslumbrei-me com uma loura fenomenal que aguardava a vez de ser atendida. «A menina Patrícia pode entrar.» A menina Patrícia entrou antes de mim. Perguntei à empregada, com quem tinha confiança, onde morava a menina Patrícia. E era bem perto da minha casa e do externato. Ou seja, a menina Patrícia era mesmo a Patrícia. Ela saiu da sala e eu fui chamado. Gostaria de ter podido dizer: «É só um momento, que reencontrei a primeira paixão da minha vida.» Mas não se deve fazer esperar um dentista, sob pena de o irritar. Perdi outra vez a Patrícia. Mas tenho lá fotos em casa, de uma festa de Natal.
2) O HERÓI DO 1º 16. Escola Preparatória Eugénio dos Santos. A rasar o 25 de Abril. Crosse inter-turmas dentro da escola. O professor ensinou-nos a respirar em corrida e depois o percurso foi assinalado. A rapaziada misturada por séries, com apuramento dos três primeiros para a final. Fiquei em terceiro da minha série, eu que era um simulacro de naco de gente. O professor da outra turma: «Onde é que está o herói do 1º 16?» Era eu. O ego inchou-me.
3) LICEU CAMÕES. O dia em que acabaram as aulas no Verão de 1977, no Liceu Camões. Acabei o terceiro ano do curso geral dos liceus (antigo quinto, ex-nono, sei lá como se diz hoje) e assisti à reunião de turma em que se davam as notas. A outra turma, com os nossos professores, estava com uma hora de atraso. Eu e dois colegas fomos a um café e vimos na TV o hóquei do Sporting sagrar-se campeão europeu (Ramalhete, Rendeiro, Sobrinho, Chana e Livramento) diante do Villanueva. No regresso, ocupámos os respectivos lugares na sala da nossa turma e o sol estava a bater de lado nos seios de uma menina muito bonita. Via-se tudo aos quadradinhos, por baixo da camisa de renda.
4) ADEUS, APARELHO. Em 1981, após uma dezena anos de correcção com aparelho de ortodôncia (dos dez aos dezoito), resolvi dar descanso à boca. E o Dr. Bação Leal: «Há moura na costa.» Não havia. Nem na costa nem ao largo, mas sabia bem ter outra vez uma boca ao natural.
5) ESTÁDIO UNIVERSITÁRIO. Sábado de manhã. Quase Verão de 1982. Eu e dois colegas de turma da faculdade tínhamos decidido ir jogar futebol «à pendura». Estávamos no relvado da entrada a fazer flexões como aquecimento quando chegou uma colega de outra turma, a Paula. Vinha com uma saia curta, uma T-shirt branca e o sorriso que me ficou colado ao cérebro. O sol invadiu-me o coração e acampou durante imenso tempo.
6) LOS ANGELES, 1984. Carlos Lopes na televisão a correr para a vitória na maratona e o Kiko aos saltos em minha casa: «Já está! Já ninguém o agarra!» E eu: «Ó Kiko, olha os vizinhos. Faz pouco barulho». Na rua, os primeiros carros começavam a apitar.
7) VENDA DO PINHEIRO. Um dia qualquer, em cima do Monte Atalaia, a olhar cá para baixo, ao lado do Henrique, o vento a bater-nos na cara, sozinhos, entre Deus e os homens. Não havia «Big Brother». Havia amizade e ninguém era expulso do Paraíso. Os pássaros sorriam enquanto voavam. Nos dias extraordinários, via-se o Palácio da Pena, em Sintra.
8) RIMINI. Julho de 1995. Uma rapariga estilo Martini, camisa de alças, longos cabelos louros, patins em linha, mochila, passou a sorrir mesmo à nossa frente (eu e o Carlos). Não percebemos bem se a cena era real ou saída de um filme. Dez minutos antes tínhamos estado a visitar o Arco de Augusto.
9) ILHAS CIES. Setembro de 1995. Estou sentado num rochedo, ao lado do farol mais alto dessas maravilhosas ilhas galegas. Acabei de ler um conto de Frank Ronan e uma gaivota veio dividir comigo um bocadillo de atum. O mar estava tão azul que Deus mandou parar a imagem.
10) SELECÇÃO NACIONAL. O décimo melhor momento é composto por todos aqueles que me esqueci de referir agora. São muitos e eram importantíssimos. Uma selecção nacional das pequenas alegrias: a antologia «DN-Jovem», a chegada no Manteigas/ Penhas Douradas, o ténis de mesa do Inatel, a escrita, um pôr-do-sol no Guincho...
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NOTA DO AUTOR: será que este texto faz algum sentido?
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quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Luís Graça

Tenho várias crónicas do Luís Graça para publicar aqui. Ou seja, modéstia à parte este blog promete.
(foto de Carlos Correia)
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quinta-feira, 10 de julho de 2008

A literatura invadida pelas formigas

«Uma vez, melhor, um dia, pedi-lhe uma história para uma revista. Um conto. Pedi-lhe ao fim da tarde. Telefonei-lhe e pedi. O Luís nem disse que sim nem que não, disse apenas qualquer coisa como não valer a pena preocupar-me. No outro dia de manhã eu tinha a história na minha caixa de correio electrónico, enviada algures durante a madrugada. Uma história de formigas, cuja narradora – uma formiga, obviamente – dizia muitas vezes ‘a malta anda por todo o lado’, quase tantas vezes como um conhecido treinador de futebol diz ‘na realidade’ ou um desconhecido colega de um trabalho que tive no século passado dizia (se calhar ainda diz) ‘por conseguinte’.» Este é um excerto do prefácio que escrevi para um livro de contos do Luís Graça. Já o conto que pedi ao Luís é o que coloco abaixo; chama-se «Formiga Zé».

Formiga Zé
Um conto de Luís Graça

A malta anda por todo o lado. Essa é que é essa. Somos uma organização. Tem de ser. Sem organização não se faz nada. Já vivo há uns tempos em Vila Nova dos Carreirinhos e posso assegurar que as vias de comunicação estão bastante desenvolvidas.
Quando eu era miúdo, ainda nem conseguia carregar um grão de açúcar, andar à volta de uma bolacha já era uma verdadeira aventura. Agora não. A malta anda por todo o lado. Somos uma organização.
Este ano resolvemos ocupar a casa dos Fonseca, que fica no centro de Vila Nova dos Carreirinhos. Uma operação de média dimensão, apenas três brigadas de trezentas operárias cada. A brigada mais conceituada é a do Matias, que passou dois meses em África, num embondeiro. O Matias tirou um mestrado em marabuntas.
A brigada do Matias é essencialmente constituída por tropas de choque, que fazem escolta às carregadoras, que são basicamente formigas de leste, com formação superior e muito diligentes. A brigada do Matias foi destacada para a cozinha, com missões frequentes ao açucareiro, ao caixote do lixo e ao armário das loiças.
A malta anda por todo o lado e o Matias é um trabalhador qualificado. Claro que isso não invalida um número de baixas considerável, mas com as formigas é mesmo assim. Não temos a capacidade de fuga de uma melga ou a possibilidade de dissimulação de uma pulga.
Não, a malta anda por todo o lado mas tem as suas limitações. Nós, as formigas, temos um grande problema: a nossa costela germânica permite-nos ser altamente organizadas mas limita-nos sobremaneira a capacidade de improviso.
O sacana do filho do Fonseca deu-nos cabo de um mês de trabalho só por brincadeira. Nós tínhamos o quartel-general montado no interior da parede da cozinha. Um pequeno orifício permitia-nos transitar organizadamente de dentro para fora e de fora para dentro. Sempre em fila indiana, ao longo de uma linha imaginariamente traçada, com dois sentidos.
Pois, a malta anda por todo o lado, mas o filho do Fonseca resolveu obstruir o buraco da parede com um stick de cola UHU. Resultado: o quartel-general ficou completamente obstruído e levámos mais de um mês a abrir um buraco ao lado. Mal o filho do Fonseca descobriu, pôs-se a inventar. Partiu uma série de palitos e tapou o buraco à malta.
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Bem, não vou negar que isso nos causou sérios engulhos, mas a malta anda por todo o lado. Demos a volta à situação, literalmente. Embora tenha havido alguns danos colaterais. Uma patrulha da brigada do Menezes perdeu-se e foi parar ao fogão. Até aqui, nada de especial. O pior é que estava na hora do almoço e a mulher do Fonseca foi pôr as panelas ao lume.
Pois. A malta anda por todo o lado, mas há lados por onde não devia andar. Nós, as formigas, somos pequeninas e perante fontes de calor muito elevadas não conseguimos resistir. Lastimo dizer que a patrulha da brigada do Menezes não resistiu. Entre as refeições, o fogão não é um local potencialmente perigoso. Nas férias dos Fonseca, as formiguitas mais novas até costumam ir para o fogão andar de skate. Mas há tempo para tudo. A hora das refeições não pode ser usada pelas formigas para atravessar o fogão.
Já saiu uma resma de circulares sobre o assunto, mas ainda assim as baixas continuam. É altamente frustrante para toda a comunidade. Também estamos fartos de avisar para não se circular em freelance. É perfeitamente suicida tentar angariar migalhas de pão ou de queque em manobras lunáticas. Qualquer um pode agarrar-se a um saco de guardanapo. É fácil subir para um tabuleiro e ficar agarrado a um saco de guardanapo. Damos de barato que se transita até via aérea da cozinha para a sala.
O problema é este: a malta anda por todo o lado, mas não pode permitir que os Fonseca nos identifiquem. Chegados a este ponto, estamos perfeitamente vulneráveis. Ora, qualquer formiga apanhada em campo aberto tem o destino marcado. A mesa da sala de jantar é um local de alto risco e de escasso abrigo. Até agora, o único sobrevivente de uma incursão à sala de jantar foi o Esteves Orelhas-Surdas.
E foi por um acaso do destino. Valeu-lhe subir para a manga da camisa do Fonseca, num instinto abençoado. O Fonseca foi para o duche e deitou a camisa para o alguidar da roupa suja, onde fomos dar com o Esteves Orelhas-Surdas, muito amarfanhado, debaixo de um par de cuecas e de meia dúzia de peúgas.
Apesar de todos os cuidados, há sempre necessidade de missões de elevada perigosidade. Por exemplo, uma vez por mês temos de ir buscar comida ao caixote do lixo, missão cumprida de noite, enquanto os Fonseca estão a dormir. O percurso é longo e sinuoso. Não adianta estar com paninhos quentes.
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É preciso atravessar toda a parede da cozinha, passar por cima do lava-loiças, fazer agulha para o cabide das colheres de pau e descer para o caixote através do pano da loiça. Depois, é preciso seleccionar os géneros e trazer a comida para o quartel-general.
Se conseguirmos efectuar toda a operação durante a noite, muito bem. É coisa para umas cinco horas, porque a malta anda por todo o lado. O pior é se o filho dos Fonseca regressa às cinco da madrugada de uma saltada a uma discoteca da 24 de Julho. O idiota do puto, de brinquinho na orelha, gel no cabelo e olhar de bezerro, dá-lhe para vir carregado de shots e põe-se a matar formigas por diversão.
Nessas ocasiões, não há nada a fazer. É cada um por si. Mas pouca gente consegue sobreviver. É preciso manter o sangue-frio e tentar subir para as roupas do filho do Fonseca, permanecendo nelas o tempo que for necessário. É imperioso evitar a circulação por áreas mais sensíveis, como por exemplo o pescoço, as bochechas ou as costas da mão. A malta anda por todo o lado, mas tem de saber que há lados por onde não deve andar. Nomeadamente, os lados em que os humanos são mais sensíveis aos nossos passos. Numa fracção de segundo se perde uma vida.
Eu estou há cinco meses em Vila Nova dos Carreirinhos e há três semanas em casa dos Fonseca. Sou um veterano de quinta comissão. Estas tour of duty são registadas em acta no «Livro de Missões, Omissões e Demais Circulações».
Já ganhei duas «Purple Heart» por bravura para além do exigível. Salvei o Chiquinho Antena-Mole de ser lambido pelo cão dos Fonseca, que já o tinha farejado. O Chiquinho Antena-Mole ainda podia andar, mas estava todo molhado pelo nariz do cão. Eu andava por ali e mandei uma patrulha efectuar uma manobra de diversão em cima do osso do cão. Enquanto o cão agarrava no osso, pus o Chiquinho Antena-Mole a salvo. Sei que não devia ter arriscado uma patrulha numa operação tão delicada, mas andei com o Chiquinho Antena-Mole na Escola de Sargentos e não o podia deixar ser lambido por um Pékinois castanho que passa a vida a arfar e a ganir.
A malta anda por todo o lado, mas o que perturba sobremaneira a nossa vida é o desaparecimento súbito de uma brigada. Basta um dos Fonseca mudar uma coisa de lugar de modo imprevisto. Sabem como é. Por exemplo: a malta está a empanturrar-se na casca de uma banana, esquecida há duas horas em cima da máquina de lavar. Vem a mãe Fonseca e manda a casca para o caixote do lixo. Se ficarem três ou quatro formigas em cima da máquina de lavar, está tudo estragado. Perdem por completo o sentido de orientação. Sem o chefe de brigada, qualquer formiga fica completamente à toa.
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Já fiz milhentos requerimentos ao ministro do Equipamento Social, mas as novas antenas com GPS alcalino ainda estão empanadas na alfândega. Assim é muito mais difícil, não só trabalhar em condições como sobreviver.
A malta anda por todo o lado e sabe os perigos que nos espreitam, mas também não há necessidade nenhuma de morrer de forma gratuita. O sofrimento é geralmente reduzido, valha-nos isso. Os humanos costumam esmagar-nos entre o polegar e o indicador e depois fazem uma pequena bolinha.
Os mais perversos vão buscar os binóculos para tentar perceber as razões da nossa maneira de agir, mas eu acho que tudo não passa de desvarios sexuais e desvios. Os humanos estão firmemente convencidos de que nós somos todas pretas, o que é uma asneira enorme, como é sabido. Qualquer ser inteligente tem consciência de que o nosso corpo é alaranjado e a aparência negra não passa disso mesmo: uma aparência.
Ultimamente, o Grão-Mestre Florindo tem vindo a trabalhar num projecto ultra-secreto. Está a estudar a viabilidade de pilhar a pasta de dentes aos humanos. Até aqui temos vindo a concentrar-nos em alimentos simples, como migalhas, minúsculos restos de comida, coisas assim. Mas a partir de agora criou-se a possibilidade de nos alimentarmos de pingos de pasta de dentes. Mandámos já vários agentes ao lavatório da casa de banho, mas os resultados têm sido desanimadores.
O Pereira Kamikaze chegou ao lavatório, identificou um pingo, aproximou-se, recolheu uma amostra e regressou ao quartel-general. Poderia pensar-se que tudo correu bem, mas não é verdade. O Pereira Kamikaze morreu um dia depois, com uma overdose de Colgate, antes mesmo de ter podido escrever o relatório.
Quanto ao Carlitos Spidado, não conseguiu usar o discernimento para regressar à base e saiu de casa dos Fonseca sem se aperceber do facto, depois de ter cumprido o percurso para o lavatório sem problemas. Pensa-se que esteja a viver na casa dos Lopes, mas é mera conjectura. Talvez lá mais para o Verão se consiga esboçar uma certeza.
O Jimbrinhas Xoné foi liquidado sem hipóteses de se defender, enquanto tentava passar da torneira para o lavatório, pendurando-se na corrente da tampinha do ralo. Desequilibrou-se e foi pelo cano.
De modo que o projecto ultra-secreto do Grão-Mestre Florindo não tem corrido grandes riscos de divulgação. Todos os que trabalharam nele deram a alma ao Criador.
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Quanto a mim, por vezes fico a pensar em qual será o significado da nossa existência, sempre em fila para algum lado, sempre à cata de uma migalhita como se fosse a coisa mais importante do mundo. Às vezes ponho-me a pensar: e se a malta andasse sozinha, em vez destas manias de andar sempre em carreirinho, umas atrás das outras?
Agora quando penso que há cães presos às casotas por uma corrente, sinto-me orgulhoso e sei que a malta anda por todo o lado.

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quarta-feira, 9 de julho de 2008

Em defesa da honra de um gato amarelo

Este post serve apenas para mostrar ao Luís Graça e ao António Souto que o Lito não passa a vida a dormir. Até costuma acompanhar os quatro cães em longos passeios.
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quarta-feira, 2 de julho de 2008

Absolutamente extraordinário

Estive hoje a reler um dos contos de um livro de que escrevi o prefácio. Chama-se «A Mulher que Conheceu o Caranguejo que Abafou o Rolex do Bêbedo Escocês»; o Luís Graça no seu melhor (e o melhor dele, já se sabe, é absolutamente extraordinário).
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domingo, 29 de junho de 2008

Luís Graça cria entrevista de Margarida Rebelo Pinto

Ver aqui. A propósito, eu pensava que tinha todos os livros do Luís Graça, mas não tinha. Na edição deste ano da feira do livro (Lisboa, entenda-se), ele foi lá levar-me as aventuras do seu detective Dick Hard, autografado e tudo. Só há uns dias é que peguei nele e tenho lido história após história, nalguns casos a rir até às lágrimas, sem conseguir parar (coisa que não me acontecia desde uma vez em que na praia tive de guardar na mochila um livro de Eduardo Mendoza porque de contrário não haveria de demorar muito a que toda a gente se pusesse a olhar para mim). O conto com a aventura editorial do detective foi dos que mais problemas me causou, mas os outros não lhe ficaram muito atrás. Ou seja, é um livro para ler em casa, e sem ninguém por perto. Querem um verdadeiro escritor? Leiam o Luís Graça.
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sábado, 10 de maio de 2008

Metralhadoras e arame farpado

O genial Luís Graça, sobre a Feira do Livro de Lisboa; ver aqui.

sexta-feira, 7 de setembro de 2007

Luís Graça

Luís Graça na revista «Os Meus Livros». Cronista. A crónica de Setembro («Mau Tempo no Bacanal») é fantástica. Outra coisa não seria de esperar do Luís.