sábado, 13 de setembro de 2008

Uma crónica do Luís Graça (5)

Quinta de uma série de crónicas do Luís Graça. A primeira pode ser lida aqui, a segunda aqui, a terceira aqui e a quarta aqui.
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Setembro chega sempre à traição
Pequim esfumou-se. Os Jogos Olímpicos são passado. Roger Federer ganhou o seu décimo terceiro torneio do Grand Slam, em Nova Iorque. Na RTP2 passa um documentário sobre um dos saltadores suicidas do Empire State Building.
O estômago aperta-se e vou para a rua passear. No Galeto encontro o José Luís Peixoto e fico a colocar a conversa em dia, encostado ao parapeito da esplanada. Como Romeu e Julieta. Ele de t-shirt preta de Raul Seixas, eu de t-shirt branca de Porto Seguro. Ele de tatuagens nos braços, eu de cicatrizes.
Setembro chega sempre à traição, para nos lembrar dos amores que não surgiram em Agosto, dos bichinhos que andam no nosso quarto, emigrados dos livros para baixo dos tapetes cobertos de DVD sortidos, num deslizar de estância de esqui. Sem controlo, com fracturas emocionais.
Agarramos num CD de Dotschy Reinhardt e bolinamos uma crónica a pedido da Comissão de Regatas. Pianamos as teclas. Como nos confessou John Simenon, filho de Georges Simenon, num fim de tarde do Franco-Português, a propósito do autor dos livros do Comissário Maigret. Era assim que o seu pai escrevia um policial num fim-de-semana. A pianar as teclas. Era fácil, barato e dava milhões.
Dotschy vai-nos sussurrando promessas. Na ausência dos seus seios, vamos acariciando as teclas e um discurso mais ou menos coerente vai-se formando à frente dos nossos olhos. Clicamos pela quarta vez no primeiro tema «Gai Rath». É uma massagem para a alma, apesar de não percebermos patavina: «Gai Rath hi da sterni gar dur...»
As cartas começaram a chegar. Vêm da Cornucópia a anunciar Beatriz Batarda. Vêm do Franco-Português. Vêm da Casa Fernando Pessoa.
Juramos fidelidade. Prometemos não faltar. Colocamos as datas e os acontecimentos na agenda, em códigos de duas ou três palavras, com a hora à frente.
Para trás ficou o passeio nocturno de uma hora. Com raide-surpresa à Rua Flores do Lima. O Quarteto está à venda. Há ainda dois cartazes de filmes cá fora. «O Bom Alemão» deixa-nos em testamento o rosto de Cate Blanchett.
Mais abaixo, a Casa de Tomar lembra bolas vermelhas que teimosamente me colocam na mente a falta de aptidão para o snooker. Aqueles jogos à pressa, para não perder o início dos filmes...
O dia, entretanto, nasceu.
(na foto, Dotschy Reinhardt)
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sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Talvez não devesse escrever isto…

… mas o Chávez, além de petróleo, tem piada.
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Último pormenor da tarde

Outros pormenores aqui, aqui e aqui.
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«Stava yo en la mi tierra…»

Publico a seguir, na íntegra, o artigo de que falei aqui e que foi escrito pelo meu amigo Artur Fernandes (na foto). O Artur é natural de Sendim, daí ter escrito em sendinês.

La proua de ser sendinês
Stava yo en la mi tierra – Sendim, tierra de scobas, piornos e tumilhos –, que queda alhie nun planalto an pi del Douro, i apus-m’a tenir l’ideia de screbir la mi cronica an sendinês, la lhengua que yau ampecei a falar i num quiro ser agabaçola, era la lhengua de mis abós i de mi may. An pecanho era la lhengua que yo falaba i l grabe so an Lisboa lo amprendi.
Hai quien dia que Sendim bino d’ende Ancho de Mondin. Que muraba puli un tal mondino i apuis Mondin dou Sendim mas esto nun será cirto porque nun hai paepls que çtemunhan esso. En l’Ancho sta uma olibeira que ye um toco bilho que queda alhá nuã lata dum Barnabei. Dizen q’ye la olibeira mais bilha de Sendim. Nun hai acá un cuonto i un dito que nun amente neilha.
En la rue de Stº Cristo hai uã capelica mui guapa que tem adentro un letreiro onde se leien cousas que firen l coração. Quaige todas las pecissones paran nesta capelica.
L’home mais lembrado plus sendineses ye tiu Manun. Fzia spantalhos que parecian uã cousa de l’outro mundo. Muitos fúrum scatchados quando andubirun a arrincar la binha mas algun quedou a guardar l termo.
ls sendineses son balients i hablidosos, son diabos mui grandes, anchos e n’l planalto todos tenen que ber con els.
Tenemos l poço de l’anferno que queda na ribeira de las Lagas antre ls molinos. Hoija yá stá todo antupido cun broça, murgaça i arena, mas dizen que detrás butaban las burras bilhas dalhi abaixo sin tener pena deilhas.
I cumo hai las fraugas, hai lugares mui ruins como l piquete de l diabo que queda an zelado de San Paulo caras al riu. Cul bico mui aguçado parece un speto, pus ten par’ ende sessente metros d’ altura i nun sei quanto d’ancho, mas hai otros piquetes mui afamados en las fraugas del Douro.
L que nun falta en las fraugas son peinhas. Hai uma que queda n’l Pilo. Te uã peinha que se bei de la strada i a longe parece un roque. Stá toda uca i cheina de buracos, apuis l’ aire faç remolino dentro deilha até mete mido.
La lhengua qu’ls sendinenes falan antre elhes no ye grave nin mirandês. L sendinês ye una lhengua que l’outros nun la intenden an bias de no tener l tu.
Un sendinês se me bê diz: «Ah Artur il que faç?»
L’s mirandeses dizen: «Ah Artur tu que faces?» Mas hay outras.
Ls rapazotes de l’outras tierras dizen: «Sendinês mala rês/ Cun una agulha faz três/ Cun l sapato faz quatro/ I arregunha como un gato.»
Mas l sendines i buna rês i gente mui hunrada, d’uã bila tan galana cumo num bie aoutra, i com uã lhengua tchapada q’ye es armana de la mirandesa mas sin scrita nin regras gramaticals, mas yau sou algoç i agabarrião i quiro que la lhengua de mius abós seya uficializada.

Artur Fernandes (Moma), Agusto 2008
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Sem palavras

Provavelmente sou o único a nada dizer sobre a derrota de quarta à noite com a Dinamarca (a Dina marca, ou marcou, como ouvi a alguém). Mas a verdade é que não tenho palavras.
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quinta-feira, 11 de setembro de 2008

António Souto – Crónica (3)

Depois de duas crónicas sobre Saramago (esta e esta), uma terceira. O António Souto publica as crónicas no jornal da sua terra («Jornal D’Angeja»); esta é de Agosto.
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Entre espólios e esculturas
Continua a haver hoje uma vontade enorme de partir e de regressar. Exílio forçado ou desejado, pouco importa. Aventuras e desventuras. Está-nos na alma nossa de gente dada a migrar. E connosco vão e vêm as coisas, em vida ou em morte. Agora parece estar na moda, mais do que antes, mandá-las para lugares de cultura descentralizada, para lugares bons, de boas e acolhedoras condições, espaços criados ou a criar, com patronos cimeiros.
Falamos de livros, de espólios literários, de acervos de escritores e intelectuais que, por deliberação própria ou alheia, são doados a bibliotecas municipais. A leitura democratiza-se, chega onde, em muitos casos, há muito deveria ter chegado, e por esta via a baixo custo para as autarquias. Uma espécie de mecenato.
José Cardoso Pires (falecido) – mais de três mil livros, um quadro e a máquina de escrever do escritor vão para a futura Biblioteca Municipal de Vila de Rei (Castelo Branco) que, quando inaugurada, passará a ostentar o seu nome. Segundo declarações da sua filha, é «um dever deixar para quem queira estudar e apreciar parte da sua obra na biblioteca da sua terra natal».
Eduardo Prado Coelho (falecido) – mais de seis mil volumes doados à Câmara Municipal de Famalicão para integrarem a Biblioteca Camilo Castelo Branco, sendo depositados numa sala (inaugurada para o efeito) com o nome deste escritor e intelectual.
António Lobo Antunes – todo o acervo literário vai para as antigas instalações da Escola Primária do Almonda, em Torres Novas (em regime de comodato). Ali será criada a Casa da Literatura. Em troca, terá o escritor direito a uma casinha para férias, um repouso bem-vindo para a arte da escrita. Da ligação do escritor a este concelho não reza a história, mas sabemos que ali reside o seu irmão, Pedro Lobo Antunes, vereador no executivo camarário, com pelouros atribuídos.
Marcelo Rebelo de Sousa – dezenas ou centenas de livros seguem regularmente para a Biblioteca Municipal de Celorico de Basto (Biblioteca Prof. Dr. Marcelo Rebelo de Sousa), que acumula já cerca de cento e vinte mil documentos (essencialmente livros, manuscritos e quadros), um espólio de fazer inveja a muitas das bibliotecas deste país. Homem dos sete ofícios (professor universitário, político na reserva, comentador…), foi em tempos presidente da Assembleia Municipal deste concelho do distrito de Braga.
A memória literária, entretanto, estará sempre no lugar certo, seja em que parte for, havendo leitores e estudiosos que a não deixem morrer.

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Há descobertas admiráveis. Já neste espaço sublinhei a arte entusiástica cultivada pelo meu amigo Víctor Brotas, médico em Lisboa, no Hospital dos Capuchos. A partir de troncos secos de árvores citadinas, matéria bruta e grosseira, dá-lhes forma e poesia, contornos belos e expressivos, como quem trabalha corpos e lhes desvenda a alma. Entre a medicina e a escultura é tudo uma questão de tempo (pouco) e de apego (muito), uma dedicação ilimitada ao cerne dos seres.
Este mês, numa incursão ao norte da Galiza, quis o destino que poisasse na aldeia de Baamonde (Lugo). Quase sem querer, fui levado a conhecer a Casa-Museu de Víctor Corral. Víctor também, este, devoto como o outro da fibra natural das árvores.
Nascido aqui em 1937, Víctor Corral (escultor, fotógrafo, pintor e poeta) «estudou em Artes e Ofícios da Corunha com o escultor José Juan e em Barcelona com Montagut. Depois de uma estada em Barcelona, onde teve oficina e expôs com notável êxito, instalou-se definitivamente na sua terra natal. Expôs em Lugo, A Corunha, Ourense, Santiago, Vigo, Ferrol… (…) Tem obra nos museus de Chicago, Nova Iorque, Lugo, Museu Arqueológico da Corunha, Casa-Museu de Rosalía em Padrón… Mas, sobretudo, tem uma Casa-Museu para a sua obra, que é simultaneamente a sua oficina de artista e que abre de par em par a todos os amantes da arte».
Foi isso mesmo que fez, era sábado, hora de almoço e a porta aberta. Passeámos pelo jardim (parte integrante do museu) e entrámos na primeira sala da sua própria casa. A hospitalidade acontecia a par com a grandeza das esculturas meticulosamente expostas. A madeira enchia o espaço em recortes figurativos. Cada peça um símbolo, uma denúncia, um apelo, um grito. Fora, por entre a relva do jardim, a madeira estava igualmente presente, mas a pedra e as pedras (algumas raras) ocupavam relevo. Tudo era fonte de inspiração para o espírito e para a matéria. A separar o interior do exterior apenas a erosão do tempo.
Ficou, à partida, a promessa do regresso, com vagar para os olhos e para as palavras do Víctor Corral. Disto há-de saber o meu amigo médico Víctor Brotas, e há-de gostar.
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Imagem: pormenor de um retrato a óleo de José Cardoso Pires, feito por Júlio Pomar em 1954 (o retrato está na contracapa do livro «Histórias de Amor»), publicado por estes dias pelas Edições Nelson de Matos).
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quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Mais um pormenor da tarde

Outros pormenores aqui e aqui.
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Uma crónica do Luís Graça (4)

Quarta de uma série de crónicas do Luís Graça. A primeira pode ser lida aqui, a segunda aqui e a terceira aqui.

Os matraquilhos e a eternidade
Não há tecnologia que consiga perturbar a noção de eternidade que uma mesa de matraquilhos implica. Os matraquilhos existem porque são a representação perfeita da competição. Mesmo quem não gosta de futebol aprecia um bom jogo de matraquilhos, vulgo «matrecos», ou «bonecos».
Poder-se-á pensar que os matraquilhos rimam com tasca, copos de tinto a granel e jogos de bisca lambida. Nada mais errado. Os matraquilhos rimam com tudo isso, mas são também fonte de deleite nos corredores austeros de uma universidade ou em casa faustosa de «jet-set». Os matraquilhos, enquanto reprodução do futebol, causam unanimidade.
Os matraquilhos são uma espécie de pinturas rupestres. Traduzem a pré-história do futebol de mesa, mas ao mesmo tempo possuem um espírito fraterno que eleva o ser humano ao êxtase mais profundo. Que se saiba, nunca um credo religioso, filosófico ou político se pronunciou contra os matraquilhos. Nunca se descortinaram efeitos perversos para a saúde numa partida de matraquilhos. Jocosamente, diz-se mesmo que desenvolvem a acuidade visual, os reflexos e a coordenação motora. Ao mesmo tempo que modelam os bíceps.
Os fundamentalistas esquecem, no entanto, que os matraquilhos provocam calos na palma das mãos e que são extremamente ruidosos. Mas é para isso mesmo que servem os matraquilhos: para afirmar a virilidade do Ser, mesmo que toda a gente ache muito bem que as senhoras pratiquem este desporto/ jogo de mesa.
Os matraquilhos também fazem transpirar das axilas, mas é para isso mesmo que servem: para que as glândulas sudoríparas gritem a viva voz a alegria de se expressarem livremente. Um jogo de matraquilhos que não misture sabiamente os odores do Paco Rabanne com as fragrâncias do suor das sete da tarde não merece ser cognominado de matraquilhos. Será algo aproximado, mas falso.
Claro que é irritante ter as mãos sujas de óleo dos matraquilhos. Nesse sentido, é mais um jogo para mecânicos do que para cirurgiões; mais uma actividade para culturistas do que para engenheiros informáticos, mais um passatempo para moçoila comprometida com o cultivo do campo do que para uma esteticista/ nutricionista. Não nos esqueçamos, todavia, da questão subsidiária: para que serve a pedra-pomes? As mãos podem conspurcar-se, mas é muito mais importante ter a alma limpa. Esta poderia ser mesmo a divisa de todos os matraquilhistas: «Mãos sujas, alma limpa».
Que crédito nos poderá merecer um jogador sem calos, os dedos imaculados, a expressão apática de um ente sem paixões de qualquer espécie? O verdadeiro atleta dos matraquilhos (atleta, sim, porque aos matraquilhos não se joga sentado) revela no olhar o espírito predador da águia, o calculismo de um xadrezista sem pudor, a malícia de um lince com hienas na família, a astúcia de um felino em ninho de cucos.
Os matraquilhos são mais do que um jogo, são um estado de alma. Naqueles quatro varões joga-se o destino da Humanidade. Aprende-se de um fôlego as regras da confraternização e da sobrevivência: bola na defesa, é preciso levantar os pezinhos dos médios e avançados; bola do outro lado, urge ter o guarda-redes desencontrado com os dois defesas.
Tacticamente, os matraquilhos são como a vida: atrás, um guarda-redes desamparado (as surpresas que o destino nos revela); à sua frente, um par de defesas cheios de responsabilidade e frequentemente desapoiados (as traições); no meio-campo, cinco homens lado-a-lado, prontos para o que der e vier (a luta quotidiana pelo pãozinho); à frente, três heróis de peito feito às balas, aptos para recolher os louros da vitória (e muitas vezes não sabem parar uma bola vinda dos defesas).
Quando a bola pára nos pés da linha avançada, não nos podemos impedir de pensar: chegou a hora. Porém, nem todos os avançados são bafejados com a perícia que transforma uma bola parada num golo inevitável, num «ballet» perverso que dura uma fracção de segundo e consegue criar no feliz concretizador a ilusão de ser um D. Juan das balizas.
Os matraquilhos são uma arte clemente: nunca ninguém foi parar a um divã de psicanalista por não ter jeito para os matraquilhos. É uma coisa que se aceita com a mesma afabilidade de um pôr-do-sol. E nunca nenhum «nabo» recolheu um abaixo-assinado para acabar com os matraquilhos. Eles são imunes a jogos de computador, Segas, Playstation, Stationwagon, monovolumes, pastilhas elásticas e acid jazz.
Senhores e senhoras, os matraquilhos são eternos.
Com os varões empenados, com as pernas da mesa desequilibradas e cheias de caruncho, com as salas sem luz, com o tabaco em valsas loucas a rodopiar nos salões, com o vernáculo empenhado de dançarina de cabaret apaixonada pelo tratador de elefantes do circo de Natal, com tudo isto e tudo o mais que se dignem imaginar, os matraquilhos são mesmo eternos.
A única coisa estranha é não ter havido ainda uma tese de doutoramento intitulada «A influência dos matraquilhos no desenvolvimento motor da criança». Ou um Action Man a jogar matraquilhos, enquanto a Barbie dá banho aos putos.
Aposto que nunca tinham pensado nisto.
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terça-feira, 9 de setembro de 2008

O que vou escrevendo

Um pouco do que vou escrevendo…
Uma invasão de pirilampos vermelhos? Ou um acontecimento que fizesse com que todos ocorressem ali com luzes que apenas colocavam em ocasiões especiais?
(imagem do cenário aqui)
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segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Outro pormenor da tarde

Primeiro pormenor aqui.
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A errata de Octávio Machado (4)

Ainda a errata do livro de Octávio Machado. Depois do que coloquei aqui, aqui e aqui, mais uma correcção.
Na p. 186, onde se lê «impor», deve ler-se «pressionar».
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domingo, 7 de setembro de 2008

Os Dias do Blog – 5

Quinta crónica sobre blogs da série que fiz mensalmente entre finais de 2003 e meados de 2007. Esta é a crónica de Abril de 2004. Início aqui.
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O que lêem alguns portugueses
(Abril de 2004)
O mundo dos blogs, que dá espaço a tantas confissões, também haveria de trazer à luz do dia a informação sobre aquilo que se vai lendo, ou melhor, aquilo que aqueles que o alimentam (esse mundo) vão lendo. Não será propriamente uma originalidade, que isso de mostrar o que se vai lendo já fazem, e desde há muito tempo, jornais, rádios e até, imagine-se, televisões. Vamos então às confissões...
Para abrir, referência a um peso pesado, «Equador». Quinta-feira, 12 de Fevereiro, Manuel Jorge Marmelo (blog «Apenas um pouco tarde»): «Li, finalmente, ‘Equador’ (...) Não tenho muito a dizer, excepto que vivi o livro com prazer, mais rapidamente do que as suas 500 e tal páginas faziam supor. Não sei se MST prestou um serviço à literatura portuguesa, à medida do umbigo do próprio, mas sei que está ali uma boa história, que acumula o predicado de ser bem contada. Discordo, porém, da opinião de uma amiga, segundo a qual MST resistiu à tentação do happy end - a morte pode muito bem ser um happy end.»
Depois, Fernando Assis Pacheco, referência um dia antes, a 11, a cargo de Paulo Moreiras (autor de um dos grandes romances que a literatura portuguesa conseguiu apresentar nos últimos anos, «A Demanda de D. Fuas Bragatela»), no seu blog «O elogio da ginga». Moreiras, especialista na matéria (da ginja, com livro publicado e tudo), escreveu: «Ao regressar a ‘Trabalhos e Paixões de Benito Prada’, de Fernando Assis Pacheco, leitura de outros tempos, voltei a deliciar-me com aquela sátira mordaz e fina de um grande escritor. Agora mais maduro, consigo encontrar nas palavras e nas frases de Assis Pacheco um eco que anteriormente me era esquivo. Para rematar, encontro num belo pedaço de prosa, a ginja de que tanto gosto – ‘... o qual trouxera um outro que falava muito menos e ingurgitava álcoois de todos os sabores, tanto que depois queixou-se por gestos da ginja com mofo e da orquestra antiquada, cuspiu um caroço para longe, pediu mais um cálice...’».
Voltando ao dia 12, uma visita ao «Abrupto», onde há indícios de que Pacheco Pereira lê Kafka e Simone de Beauvoir. «Hoje, há oitenta e nove anos, Kafka queixava-se que as discussões da senhoria com um vizinho não o deixavam escrever. ‘Desespero absoluto! Será que sou perseguido por senhorias que não me deixam trabalhar?’ pergunta Kafka. Simone de Beauvoir, pelo contrário, não tinha que aturar senhorias. Passou este dia, há cinquenta e sete anos, a barafustar contra os costumes americanos. Beauvoir estava em Nova Iorque e irritava-se com as montras preparadas para o Dia de S. Valentim, cheias de coraçõezinhos. Os americanos ‘gastam o tempo’ com isto, anotou irritada. Ainda mais a irritava o costume de cantar ‘Parabéns a você’ nos locais públicos. Estou com ela.»
Ainda no «Abrupto, conselhos de um visitante, a 11 (um post de Francisco de Sousa Fialho): «O Pacheco Pereira chama a atenção para a ‘sensibilidade contemporânea (…), que será muito diferente (ou distante) da sensibilidade de outros tempos’. Talvez o seja. Ou talvez sejam outras coisas que mudaram, mas não a sensibilidade. Ou talvez seja sobre a noção de ‘sensibilidade’ que se alimente o equívoco. Concordo plenamente que há hoje um apetite renovado pelos clássicos, que não é apenas uma moda mas talvez a intuição de que algures se perdeu o fio ou se emaranhou o novelo e que vale a pena recapitular o percurso para destrinçar os nós que entretanto nos confundiram. A este propósito, ainda que aparentemente sem propósito nenhum, recomendo-lhe vivamente um livro recente: ‘Reformation’, de Diarmaid MacCulloch (Penguin Books).»
Ainda na quarta-feira, 11 de Fevereiro, mas já no blog «Meia livraria», que tem uma frase de apresentação de Fernando Pessoa, «Sê todo em cada coisa. Põe quanto és/ No mínimo que fazes.» O assunto, Paulo Coelho. Cláudio, que alimenta o blog, escreve, sob o título «Paulo, o Coelho»: «Gente que lê os livros do Paulo Coelho diz frases como: ‘Hades ler o novo do Paulo Coelho! Comprei o meu na Shell, é espectacular!’ ou ‘Vocêses não gostam de Paulo Coelho é porque não percebem, aquilo tem um segundo sentido. Leiam e hadem ver!’ Alvitro até um postulado: Nem todos os que dizem hades sabem ler, mas todos os que lêm Paulo Coelho dizem hades. Espero que gostem do esotérico pormenor do itálico em Coelho. Tem um segundo sentido.» Como não se diz nada sobre outros itálicos (em «hadem», por exemplo – mas não em «lêm»), aqui neste texto ficou só mesmo o «Coelho» em itálico.
Outro blog, «Bomba inteligente», de Carla Hilário de Almeida Quevedo. Recuo até 8 de Fevereiro: «Já que o Marcelo Rebelo de Sousa não falou de uma das edições portuguesas mais importantes do ano, falo eu. Trata-se da tradução das ‘Tragédias’ de Sófocles por Maria Helena da Rocha Pereira, Maria do Céu Fialho e José Ribeiro Ferreira, da editora Minerva de Coimbra. Uma beleza de livro. A seguir a esta maravilha, só mesmo a tradução da ‘Ilíada’ do Frederico Lourenço.» No dia seguinte, e depois de tão elevadas leituras, piadas de argentinos (não um livro, mas piadas mesmo). Duas, para amostra – «Jogam as selecções do Brasil e da Argentina. O jogo está empatado. O comentador argentino diz: ‘Brasil zero golos, Argentina zero golaaaaçoooos!’»; «Dois argentinos estão no estrangeiro, prestes a entrar numa festa. Um diz: ‘E se dissermos que somos argentinos?’ Diz o outro: ‘Nã... que se lixem.’» Piadas de argentinos, e eu com um romance escrito por um argentino nos meus planos de leitura mais imediatos. Veremos no que dá…
Para acabar, uma referência a um livro escrito pelo autor do primeiro blog. Recuando mais, até 2 de Fevereiro, e no «Aviz, de Francisco José Viegas, que não poderia faltar num «inquérito» destes. «Estou a ler e a divertir-me. Pessoa aparece no meio de um vendaval semeado por Manuel Jorge Marmelo. O livro tem o título ‘Os Fantasma de Pessoa’, e a colecção é a ‘Literatura ou Morte’, da Asa.» Pode ser uma boa alternativa, se me chatear com o argentino.
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Blogs consultados
http://www.marmelo.blogspot.com/, mantido por Manuel Jorge Marmelo;
http://www.elogiodaginja.blogspot.com/, mantido por Paulo Moreiras;
http://www.abrupto.blogspot.com/, mantido por José Pacheco Pereira;
http://www.meialivraria.blogspot.com/, com textos assinados por Cláudio;
http://www.bomba-inteligente.blogspot.com/, mantido por Carla Hilário de Almeida Quevedo;
http://www.aviz.blogspot.com/, mantido por Francisco José Viegas.
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