sexta-feira, 11 de julho de 2008

Talvez a PJ...

(clicar na imagem para aumentar)
O presidente da Galp, Manuel Ferreira de Oliveira, disse numa entrevista ao «Expresso» qualquer coisa como «não gosto que nos chamem ladrões». Dias depois, foram divulgadas estas duas facturas (de antes e depois da descida do IVA), e imagine-se de que empresa são... O ministro da Economia chamou a ASAE, mas não sei se o melhor não teria sido chamar a PJ.
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quinta-feira, 10 de julho de 2008

A frase da noite

«José Miguel Júdice compara-me aos seus heróis da juventude, Hitler, Mussolini, José Antonio Primo de Rivera…»
António Marinho e Pinto, bastonário da Ordem dos Advogados,
numa entrevista a Judite de Sousa, na RTP
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Livros quase de cabeceira

Não são fotos de agora, já têm algum tempo. A Tecla com Dan Brown («Anjos e Demónios») e o Lito com um livro fabuloso que eu próprio traduzi, de Juan José Millás, chamado «Contos de Adúlteros Desorientados». Já os dois filhos (Palhinha e Punkinho) é mais banda desenhada, e os quatro cães nem isso.
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A literatura invadida pelas formigas

«Uma vez, melhor, um dia, pedi-lhe uma história para uma revista. Um conto. Pedi-lhe ao fim da tarde. Telefonei-lhe e pedi. O Luís nem disse que sim nem que não, disse apenas qualquer coisa como não valer a pena preocupar-me. No outro dia de manhã eu tinha a história na minha caixa de correio electrónico, enviada algures durante a madrugada. Uma história de formigas, cuja narradora – uma formiga, obviamente – dizia muitas vezes ‘a malta anda por todo o lado’, quase tantas vezes como um conhecido treinador de futebol diz ‘na realidade’ ou um desconhecido colega de um trabalho que tive no século passado dizia (se calhar ainda diz) ‘por conseguinte’.» Este é um excerto do prefácio que escrevi para um livro de contos do Luís Graça. Já o conto que pedi ao Luís é o que coloco abaixo; chama-se «Formiga Zé».

Formiga Zé
Um conto de Luís Graça

A malta anda por todo o lado. Essa é que é essa. Somos uma organização. Tem de ser. Sem organização não se faz nada. Já vivo há uns tempos em Vila Nova dos Carreirinhos e posso assegurar que as vias de comunicação estão bastante desenvolvidas.
Quando eu era miúdo, ainda nem conseguia carregar um grão de açúcar, andar à volta de uma bolacha já era uma verdadeira aventura. Agora não. A malta anda por todo o lado. Somos uma organização.
Este ano resolvemos ocupar a casa dos Fonseca, que fica no centro de Vila Nova dos Carreirinhos. Uma operação de média dimensão, apenas três brigadas de trezentas operárias cada. A brigada mais conceituada é a do Matias, que passou dois meses em África, num embondeiro. O Matias tirou um mestrado em marabuntas.
A brigada do Matias é essencialmente constituída por tropas de choque, que fazem escolta às carregadoras, que são basicamente formigas de leste, com formação superior e muito diligentes. A brigada do Matias foi destacada para a cozinha, com missões frequentes ao açucareiro, ao caixote do lixo e ao armário das loiças.
A malta anda por todo o lado e o Matias é um trabalhador qualificado. Claro que isso não invalida um número de baixas considerável, mas com as formigas é mesmo assim. Não temos a capacidade de fuga de uma melga ou a possibilidade de dissimulação de uma pulga.
Não, a malta anda por todo o lado mas tem as suas limitações. Nós, as formigas, temos um grande problema: a nossa costela germânica permite-nos ser altamente organizadas mas limita-nos sobremaneira a capacidade de improviso.
O sacana do filho do Fonseca deu-nos cabo de um mês de trabalho só por brincadeira. Nós tínhamos o quartel-general montado no interior da parede da cozinha. Um pequeno orifício permitia-nos transitar organizadamente de dentro para fora e de fora para dentro. Sempre em fila indiana, ao longo de uma linha imaginariamente traçada, com dois sentidos.
Pois, a malta anda por todo o lado, mas o filho do Fonseca resolveu obstruir o buraco da parede com um stick de cola UHU. Resultado: o quartel-general ficou completamente obstruído e levámos mais de um mês a abrir um buraco ao lado. Mal o filho do Fonseca descobriu, pôs-se a inventar. Partiu uma série de palitos e tapou o buraco à malta.
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Bem, não vou negar que isso nos causou sérios engulhos, mas a malta anda por todo o lado. Demos a volta à situação, literalmente. Embora tenha havido alguns danos colaterais. Uma patrulha da brigada do Menezes perdeu-se e foi parar ao fogão. Até aqui, nada de especial. O pior é que estava na hora do almoço e a mulher do Fonseca foi pôr as panelas ao lume.
Pois. A malta anda por todo o lado, mas há lados por onde não devia andar. Nós, as formigas, somos pequeninas e perante fontes de calor muito elevadas não conseguimos resistir. Lastimo dizer que a patrulha da brigada do Menezes não resistiu. Entre as refeições, o fogão não é um local potencialmente perigoso. Nas férias dos Fonseca, as formiguitas mais novas até costumam ir para o fogão andar de skate. Mas há tempo para tudo. A hora das refeições não pode ser usada pelas formigas para atravessar o fogão.
Já saiu uma resma de circulares sobre o assunto, mas ainda assim as baixas continuam. É altamente frustrante para toda a comunidade. Também estamos fartos de avisar para não se circular em freelance. É perfeitamente suicida tentar angariar migalhas de pão ou de queque em manobras lunáticas. Qualquer um pode agarrar-se a um saco de guardanapo. É fácil subir para um tabuleiro e ficar agarrado a um saco de guardanapo. Damos de barato que se transita até via aérea da cozinha para a sala.
O problema é este: a malta anda por todo o lado, mas não pode permitir que os Fonseca nos identifiquem. Chegados a este ponto, estamos perfeitamente vulneráveis. Ora, qualquer formiga apanhada em campo aberto tem o destino marcado. A mesa da sala de jantar é um local de alto risco e de escasso abrigo. Até agora, o único sobrevivente de uma incursão à sala de jantar foi o Esteves Orelhas-Surdas.
E foi por um acaso do destino. Valeu-lhe subir para a manga da camisa do Fonseca, num instinto abençoado. O Fonseca foi para o duche e deitou a camisa para o alguidar da roupa suja, onde fomos dar com o Esteves Orelhas-Surdas, muito amarfanhado, debaixo de um par de cuecas e de meia dúzia de peúgas.
Apesar de todos os cuidados, há sempre necessidade de missões de elevada perigosidade. Por exemplo, uma vez por mês temos de ir buscar comida ao caixote do lixo, missão cumprida de noite, enquanto os Fonseca estão a dormir. O percurso é longo e sinuoso. Não adianta estar com paninhos quentes.
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É preciso atravessar toda a parede da cozinha, passar por cima do lava-loiças, fazer agulha para o cabide das colheres de pau e descer para o caixote através do pano da loiça. Depois, é preciso seleccionar os géneros e trazer a comida para o quartel-general.
Se conseguirmos efectuar toda a operação durante a noite, muito bem. É coisa para umas cinco horas, porque a malta anda por todo o lado. O pior é se o filho dos Fonseca regressa às cinco da madrugada de uma saltada a uma discoteca da 24 de Julho. O idiota do puto, de brinquinho na orelha, gel no cabelo e olhar de bezerro, dá-lhe para vir carregado de shots e põe-se a matar formigas por diversão.
Nessas ocasiões, não há nada a fazer. É cada um por si. Mas pouca gente consegue sobreviver. É preciso manter o sangue-frio e tentar subir para as roupas do filho do Fonseca, permanecendo nelas o tempo que for necessário. É imperioso evitar a circulação por áreas mais sensíveis, como por exemplo o pescoço, as bochechas ou as costas da mão. A malta anda por todo o lado, mas tem de saber que há lados por onde não deve andar. Nomeadamente, os lados em que os humanos são mais sensíveis aos nossos passos. Numa fracção de segundo se perde uma vida.
Eu estou há cinco meses em Vila Nova dos Carreirinhos e há três semanas em casa dos Fonseca. Sou um veterano de quinta comissão. Estas tour of duty são registadas em acta no «Livro de Missões, Omissões e Demais Circulações».
Já ganhei duas «Purple Heart» por bravura para além do exigível. Salvei o Chiquinho Antena-Mole de ser lambido pelo cão dos Fonseca, que já o tinha farejado. O Chiquinho Antena-Mole ainda podia andar, mas estava todo molhado pelo nariz do cão. Eu andava por ali e mandei uma patrulha efectuar uma manobra de diversão em cima do osso do cão. Enquanto o cão agarrava no osso, pus o Chiquinho Antena-Mole a salvo. Sei que não devia ter arriscado uma patrulha numa operação tão delicada, mas andei com o Chiquinho Antena-Mole na Escola de Sargentos e não o podia deixar ser lambido por um Pékinois castanho que passa a vida a arfar e a ganir.
A malta anda por todo o lado, mas o que perturba sobremaneira a nossa vida é o desaparecimento súbito de uma brigada. Basta um dos Fonseca mudar uma coisa de lugar de modo imprevisto. Sabem como é. Por exemplo: a malta está a empanturrar-se na casca de uma banana, esquecida há duas horas em cima da máquina de lavar. Vem a mãe Fonseca e manda a casca para o caixote do lixo. Se ficarem três ou quatro formigas em cima da máquina de lavar, está tudo estragado. Perdem por completo o sentido de orientação. Sem o chefe de brigada, qualquer formiga fica completamente à toa.
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Já fiz milhentos requerimentos ao ministro do Equipamento Social, mas as novas antenas com GPS alcalino ainda estão empanadas na alfândega. Assim é muito mais difícil, não só trabalhar em condições como sobreviver.
A malta anda por todo o lado e sabe os perigos que nos espreitam, mas também não há necessidade nenhuma de morrer de forma gratuita. O sofrimento é geralmente reduzido, valha-nos isso. Os humanos costumam esmagar-nos entre o polegar e o indicador e depois fazem uma pequena bolinha.
Os mais perversos vão buscar os binóculos para tentar perceber as razões da nossa maneira de agir, mas eu acho que tudo não passa de desvarios sexuais e desvios. Os humanos estão firmemente convencidos de que nós somos todas pretas, o que é uma asneira enorme, como é sabido. Qualquer ser inteligente tem consciência de que o nosso corpo é alaranjado e a aparência negra não passa disso mesmo: uma aparência.
Ultimamente, o Grão-Mestre Florindo tem vindo a trabalhar num projecto ultra-secreto. Está a estudar a viabilidade de pilhar a pasta de dentes aos humanos. Até aqui temos vindo a concentrar-nos em alimentos simples, como migalhas, minúsculos restos de comida, coisas assim. Mas a partir de agora criou-se a possibilidade de nos alimentarmos de pingos de pasta de dentes. Mandámos já vários agentes ao lavatório da casa de banho, mas os resultados têm sido desanimadores.
O Pereira Kamikaze chegou ao lavatório, identificou um pingo, aproximou-se, recolheu uma amostra e regressou ao quartel-general. Poderia pensar-se que tudo correu bem, mas não é verdade. O Pereira Kamikaze morreu um dia depois, com uma overdose de Colgate, antes mesmo de ter podido escrever o relatório.
Quanto ao Carlitos Spidado, não conseguiu usar o discernimento para regressar à base e saiu de casa dos Fonseca sem se aperceber do facto, depois de ter cumprido o percurso para o lavatório sem problemas. Pensa-se que esteja a viver na casa dos Lopes, mas é mera conjectura. Talvez lá mais para o Verão se consiga esboçar uma certeza.
O Jimbrinhas Xoné foi liquidado sem hipóteses de se defender, enquanto tentava passar da torneira para o lavatório, pendurando-se na corrente da tampinha do ralo. Desequilibrou-se e foi pelo cano.
De modo que o projecto ultra-secreto do Grão-Mestre Florindo não tem corrido grandes riscos de divulgação. Todos os que trabalharam nele deram a alma ao Criador.
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Quanto a mim, por vezes fico a pensar em qual será o significado da nossa existência, sempre em fila para algum lado, sempre à cata de uma migalhita como se fosse a coisa mais importante do mundo. Às vezes ponho-me a pensar: e se a malta andasse sozinha, em vez destas manias de andar sempre em carreirinho, umas atrás das outras?
Agora quando penso que há cães presos às casotas por uma corrente, sinto-me orgulhoso e sei que a malta anda por todo o lado.

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quarta-feira, 9 de julho de 2008

A falta de vergonha da SEDES

A SEDES (Associação para o Desenvolvimento Económico e Social) divulgou por estes dias uma «tomada de posição» sobre aquilo que designa como «O Estado da Nação», em que acusa o governo de eleitoralismo, nomeadamente referindo que este «dá agora sinais de preocupação com o calendário eleitoral em detrimento da administração do país». Não me vou alongar em considerações sobre tal opinião. Aquilo que me choca é o facto de esta associação, parecendo desligar-se de um passado de quase quatro décadas em que construiu um enorme prestígio, ter agora a presidir ao seu Conselho Coordenador nem mais nem menos do que Luís Campos e Cunha, que numa fugaz e bem triste passagem pelo actual governo se tornou numa das figuras que mais enlameou a política portuguesa no pós-25 de Abril.
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Pouco antes de um beijo

O que vou escrevendo

Um pouco do que vou escrevendo…
Aproximei-me devagar da porta da azenha. Não sabia bem o que fazer, tinha apenas decidido não perguntar se estava alguém lá dentro, nem em voz alta, nem como se perguntasse apenas a mim próprio, com a voz sumida.
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Em defesa da honra de um gato amarelo

Este post serve apenas para mostrar ao Luís Graça e ao António Souto que o Lito não passa a vida a dormir. Até costuma acompanhar os quatro cães em longos passeios.
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terça-feira, 8 de julho de 2008

Uma surpresa

Ontem à tarde este pequeno ouriço-cacheiro voltou aqui ao monte. Não o vi porque estava em Lisboa, mas depois contaram-me. O meu filho deu com ele na relva e os dois estiveram por um bocado na brincadeira; já se vê que mais o meu filho, ainda bem pequenino, porque o ouriço ficou o tempo todo feito uma bola. Até que o meu filho se cansou e foi brincar com outras coisas, e então o pequeno ouriço voltou para o montado. Podia ser outro, igualmente pequeno, mas pela descrição que ouvi tenho quase a certeza de que era o mesmo de sexta à noite.
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Ainda a Margarida na capa

Ainda a polémica sobre a capa da revista «Ler» com Margarida Rebelo Pinto. Esta é a melhor reflexão que li sobre o assunto, da autoria de Osvaldo Manuel Silvestre.
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O lago

Domingo passado os cães saíram às nove da manhã para irem tomar banho no lago. Eu esperava que voltassem daí a bocado, um quarto de hora, vinte minutos, mas não, apareceram no monte já perto das cinco da tarde. Imagino que correram pelo menos meio Alentejo.
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segunda-feira, 7 de julho de 2008

Uma entrevista inventada

Tinha de ser o Luís Graça. Fez uma entrevista comigo em que eu nem tive de mexer uma palha. Ou seja, ele fez as perguntas e de caminho deu logo as respostas. Disse-me que é para uma revista chamada «Guttenborgas», não sei se literária se de carácter generalista ou se outra coisa qualquer. Eu que só bebo água e um ou outro sumo, nesta entrevista farto-me de beber vinho e creio que whisky, ou martinis. E mais, não tendo muito jeito para falar, acabo aqui por ter um discurso fluente; e por vender muitos livros e dar muitos autógrafos; e por ter filhos com nomes estranhíssimos, embora, digamos assim, literários. Bom, mas adiante com a entrevista…

António Manuel Venda
«Comparado comigo o Lobo Antunes não passa de um Saramago»
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A caminhar fortemente para os 40 anos, o escritor António Manuel Venda passa os dias entre Montemor e Lisboa, mas os maiores incêndios que provocou ocorreram em Monchique, em épicas batalhas florais com o presidente da edilidade, Carlos Tuta. Mais veemente como vereador do que como escritor, o pão para a mesa é ganho numa revista, de que é director. Modesto, António Manuel Venda não é de grandes polémicas. E só não estranhámos o seu tom provocador nesta entrevista para a revista Guttenborgas porque tanto o entrevistador como o entrevistado estavam completamente bêbedos. Assim aconteceu. Porque os 39 graus de Montemor e uma viagem atribulada entre Lisboa e o Alentejo nos predispuseram para o álcool e as confidências. Ter as páginas do «DN Jovem» no sangue é algo que constrói laços. Desses e doutros laços vos falamos nesta entrevista.
Texto: Luís Graça
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. «The more I give, the more you want.» (Barry White)
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Esta é uma verdade inconveniente. Quando mais damos à escrita, mais ela exige. António Manuel Venda já deu bastante.
Revista Guttenborgas (RG) – Já deste bastante à escrita. Achas que a escrita te deu o suficiente?
[o escritor olhou para o infinito, fez uma festa no Monge, um dos seus três cães de raça Labrador, tomou um gole bem aviado de «Monte das Servas 2003», tinto]
António Manuel Venda (AMV) – Pá, isso é uma pergunta tramada para começar a entrevista... O que é que te posso dizer? Para já, não escrevo por vaidade, para ser o Nobel mais conhecido de Montemor... Escrevo porque tem de ser, porque me faz falta... A escrita já me deu bastante, mas ainda não me deu o suficiente. Por isso é que todos os escritores continuam a escrever. Acho que se perguntassem a todos os escritores, na hora da morte, se eles gostariam de ter mais um mês de vida para escrever, todos responderiam que sim.
RV – Tens alguma mágoa com os livros que escreveste até agora?
AMV – Tenho. Sinceramente. E não é por apenas vender uns 30 mil por edição. Vender é uma coisa secundária, que vem por acréscimo. Vendo mais ou menos o mesmo que um livro do Mário de Carvalho, o que não é mau, tendo em conta o valor literário dele. O que me magoa é não conseguir chegar aos leitores de forma mais corrente. Gosto de estar a dar autógrafos na Feira do Livro, a de Lisboa. Dou uns 100 ou 150 autógrafos naquelas duas horas em que lá estou. Mas a maior parte das vezes eu percebo que os leitores não compreenderam as minhas mensagens.
RV – És um escritor de mensagens?
[o Monge apareceu com algo na boca e preparava-se para provocar o Lito, um gato amarelo, de feitio alentejano, vocacionado para dormir e comer; o escritor conseguiu afugentar o cão para longe; o Lito abriu um olho e tornou a deitar a cabeça em cima do último exemplar da revista «Os Meus Livros»]
AMV – O que é isso de ser um escritor de mensagens? Dito assim parece uma coisa um bocado intelectual, no mau sentido do termo. Eu quero... Sei lá o que quero... Sei, por acaso até sei... Quero que percebam o sentido das coisas que escrevo. Mas isso é o que toda a gente quer, desde a Margarida Rebelo Pinto ao Saramago e ao Lobo Antunes, passando pelo Geofrey Stokes...
[elevámos uma sobrancelha; podia ser falha nossa, mas nunca tínhamos ouvido falar de Geofrey Stokes]
RG – Geofrey Stokes?...
AMV
– Sim, Geofrey Stokes. Não conheces? Pois é. Se eu falar do Barnaby Nickleby toda a gente já leu «Nas Asas de Um Engano». Ou a poesia da Mafalda Chambel. Mas ninguém sabe que o Stokes escreveu uma verdadeira obra-prima com «A Besta Escondida». Disse-me o Luís Oliveira, da Antígona, que foi a melhor coisa que editou nos últimos cinco anos.
[parámos a entrevista para o jantar; tomámos alguns martinis dos novos e depois fomos levar os cães a passear; António Manuel Venda não esqueceu a máquina fotográfica e durante a hora e meia que durou o passeio deixei-me invadir por uma orgia de beleza e harmonia; foi o meu momento Júlio Roberto; no regresso, jantámos maravilhosamente e eu caí pela primeira vez; efeito da meia-garrafa de «Esporão»; e depois fomos até uns sofás-baloiço e eu carreguei outra vez no botão do gravador Sony, o que diz «rec»]
RG – O Beaudelaire disse que devíamos andar sempre bêbedos. Achas que um escritor devia ser obrigado a estar bêbedo quando escreve, para ser mais autêntico?
AMV
– Olha, acho que sim. Mas bêbedo a sério, como nós estamos agora. Não é bêbedo a brincar. É bêbedo à Hemingway, à Jack London... Porque há para aí escritores que se estiverem bêbedos a brincar continuam sem escrever nada de jeito...
RG – Costumas ler muito?
AMV
– Só não leio mais porque não tenho tempo. Até na auto-estrada eu leio, entre Lisboa e Montemor...
RG – Isso não é perigoso? Ler e conduzir ao mesmo tempo...
AMV
– Só é perigoso se o livro for mau. Especula-se demasiado com o que é perigoso na estrada. Devia era haver uma ASAE da literatura. Por exemplo, apanhava-se uma miúda de 14 anos acampada na Expo à espera do concerto dos Tokyo Hotel e via-se logo o que a miúda estava a ler... O que é isso que estás a ler? Margarida Rebelo Pinto? Bem, como vais ao concerto dos Tokyo Hotel podes continuar a ler. Se fosses para um concerto dos Corrs ficavas já sem o livro...
RG – Já que referes Margarida Rebelo Pinto… Se pudesses escolher um português para o Nobel, em quem recairia a tua escolha? Lobo Antunes ou Saramago?
AMV
– Nem um nem outro. Para mim era de caras o padre António Vieira. Ou o Joaquim Paço d’Arcos. Ou o Geofrey Stokes, se ele fizesse como o Pepe e se naturalizasse português, e se largasse Dublin. Tirando o clima, Montemor é muito parecido com Dublin.
RG – Não reconheces méritos literários a Lobo Antunes e a Saramago?
[o escritor olhou para mim, suspirou, fez uns gestos no ar, tentou apanhar uma melga que tinha pousado em cima da orelha direita do Lito, ganhou fôlego e respondeu]
AMV – Pá, comparado comigo o Lobo Antunes não passa de um Saramago.
RG – Explica-te lá.
AMV
– Não dá para explicar. É uma coisa que se sente. É outra gramática emocional. Não quero dizer que sou melhor ou pior. Mas sinto que o Lobo Antunes comparado comigo não passa de um Saramago. Ou que o Miguel Sousa Tavares comparado com o José Rodrigues dos Santos não passa de uma Margarida Rebelo Pinto... Já não sei bem o que digo... Olha lá, não devíamos ter comido as empadinhas na estação de serviço... Que horas são isto? Eh, pá, três da madrugada e ainda estão uns 30 graus... Ainda bem que amanhã é sábado e não tenho de ir para Lisboa...
RG – Amanhã é domingo...
AMV
– Pois. Não interessa… O que eu queria dizer é que não tenho de me fazer à estrada...
[ouviu-se um «clic» do gravador; estava na hora de acabar a entrevista]
RG – Tens projectos para o futuro, em termos literários?
AMV
– Estava a ver que não fazias essa pergunta. É muito original...
RG – É o que há. Dói-me a cabeça. Amanhã devo estar com uma ressaca bonita…
AMV – Nunca discuto a beleza de uma ressaca…
RG – Diz lá o que andas a escrever.
AMV – Há muita coisa em carteira, por assim dizer. Primeiro, um livro de contos para a «Esfera dos Crivos».
RG – Já tens título?
AMV
– Em princípio vai ser «De Montemor e dos Algarves», mas ainda não é certo. Pode ser que fique «Monchique, Mon Genre», mas o Zé Barnabé diz que há gente que não percebe o trocadilho com «bon chic, bon genre». Nestas coisas, convém ouvir o editor...
RG – Estás muito adiantado?
AMV – Mais um ou dois contos e depois começo a rever. Mas tenho entremeado com um novo romance.
RG – Chama-se?...
AMV – «O Meco Longe de Ti». Passa-se nos anos sessenta, entre a Costa da Caparica e a Praia do Meco. É um romance de costumes. Terá uma costela do «Sinais de Fogo», do Sena. O processo de escrita é mais o do Cardoso Pires, mas quem ler as primeiras páginas vai notar algumas influências do Vergílio Ferreira no «Manhã Submersa» ou do Carlos de Oliveira de «Uma Abelha na Chuva». Enfim, eu não tenho bem a noção do que estou a escrever, durante o processo. De resto, quem notou estas influências foi o meu filho mais novo.
RG – O Flauberto agora está com quantos?
AMV
– Está com doze, mas quem costuma ler os meus livros em primeiro lugar é o Mopassânico, que tem dez.
RG – E ele já leu isso tudo, aos dez anos?
AMV
– Já. Para desenjoar da banda desenhada japonesa e da Playstation.
RG – Deixas os teus miúdos horas e horas à frente da Playstation?
AM
V – Ó pá, em primeiro lugar isto é Montemor. Em segundo lugar, num mundo de margaridas, que mal tem a Playstation?
RG – Falaste outra vez de Margarida Rebelo Pinto por algum motivo particular?
AMV
– Não, tu é que estás a falar. Olha, já bebia qualquer coisa. Vamos para a sala de snooker?
RG – Eh, pá, eu vejo as bolas todas duas vezes…
AMV
– Quem é que vai jogar? Tenho lá um scotch de doze anos que é um mimo... Traz aí o gato... Espera, deixa-me meter-lhe a trela, que já dá para arrastares...
RG – Isso não magoa o gajo?
AMV
– Não. Ele é lixado quando dorme. Ferra o galho e é do caraças.
RG – Não podias simplesmente pegar-lhe ao colo?
AMV
– Quer dizer, para o ano há toiros de morte em Montemor e tu estás preocupado com isto de levar o gato de rojo enquanto dorme...
[duas horas depois adormeci; quando a amizade existe entre dois seres humanos, falar de literatura é um simples exercício de lógica; na segunda-feira seguinte cheguei à redacção da revista e o editor perguntou-me: «Então essa entrevista com o Venda? Correu bem?»; disse-lhe que sim, puxei de um cigarro, fui para o pé da nova estagiária meter conversa e passadas umas horas atirei-me à desgravação]
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