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sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Um bocadinho

Um bocadinho do romance «O que Entra nos Livros», na Praça do Giraldo, em Évora.

(…)
O senhor Sapinho Júnior levantou-se do cadeirão, sempre a segurar o romance de Roberto Ampuero, e pôs uma samarra pelas costas; estava num cabide junto ao sofá. Depois aproximou-se da porta que dava para a rua a seguir às duas janelas da livraria, abriu-a e saiu. Nem esteve para ir pela livraria, foi logo por ali, o mais rápido que podia, em direcção à loja das fotocópias, que ficava bem perto, a caminho da Praça do Giraldo. Só já quando ia a chegar é que se lembrou de que devia estar fechada àquela hora e então foi invadido por um desembaraço confuso, atabalhoado. Correu de novo, sem saber bem o que fazer, até que ao fim de uns cinco minutos viu que estava mesmo em frente da agência de um banco, daquele de que era cliente, já em plena Praça do Giraldo. Costumava ficar gente até tarde na agência, isso ele sabia. Aproximou-se da montra e espreitou através do vidro e das persianas corridas. Com alguma dificuldade, conseguiu ver o interior e reconheceu um dos gestores de conta; não era o seu, mas já tinha falado com ele algumas vezes. Foi até à porta e bateu, pequenas pancadas hesitantes com a mão esquerda, como se estivesse a fazer algo que fosse inadequado. Na mão direita segurava o romance, com força, parecendo ter medo de que as páginas se abrissem e deixassem fugir uma parte do seu conteúdo.
(…)

sexta-feira, 20 de julho de 2007

Sessão de autógrafos – Vilamoura

Este Sábado, 21 (entre as 21h30 e as 24h00), sessão de autógrafos na Feira do Livro de Vilamoura, no Algarve. Espero não dar de caras com nenhum cartaz daquele idiota do «Allgarve». Os livros são o conjunto de contos de «O Amor por entre os Dedos» e o romance «O que Entra nos Livros».
Dois excertos algarvios, ou quase…
«Foi aí que a notícia correu mesmo o mundo. A pequena cidade de Portimão, pequena e pacata, porque o Verão e os turistas já tinham abalado, estava coberta por uma nuvem negra de pássaros.» (de «O Amor por entre os Dedos»)
«Já era o Alentejo próximo da serra algarvia, com uns montes de vez em quando, antes dos montes mesmo a sério da Serra de Monchique; aqueles montes que a par com os da Serra do Caldeirão pareciam querer proteger o Algarve de alguma doença que a planície lhe pudesse pegar.» (de «O que Entra nos Livros»)

sábado, 14 de julho de 2007

Um bocadinho de Lisboa

É um bocadinho de Lisboa no meu romance «O que Entra nos Livros» (apresentação no próximo dia 25). A Lisboa que amanhã vai a eleições e que provavelmente vai eleger mais um dos do costume. A mesma Lisboa que ontem eu queria deixar rapidamente (como sempre) a caminho de casa, depois de ter saído do escritório em Algés já depois das sete. Foi o cabo dos trabalho, com tanto carro parado sem jeito de entrar na ponte Vasco da Gama, lá fui eu dar a volta a Vila Franca, por falta de paciência para esperar nem sabia até que horas. Sempre deu para ver outras paisagens, pois só retomei percurso habitual até Montemor-o-Novo já na rotunda de Pegões. Demorei mais tempo, e por isso pude ouvir quase na totalidade uma entrevista de Rui Tavares no Rádio Clube Português, boa parte dela sobre a peça de teatro que publicou recentemente – «O Arquitecto». Quando deixei de ouvir já era perto de casa, no meio do montado. Rui Tavares falava das eleições em Lisboa, para as quais me estou completamente nas tintas, embora se me obrigassem a lá viver e me desse para lá votar (em vez de votar na minha terra de nascimento, Monchique) pusesse a cruz no quadrado de José Sá Fernandes.
Desliguei o rádio quando no escuro do montado vi um par de olhos, muito brilhantes. Parados. Pareciam-me estar bem junto ao chão, por isso pensei que seria uma gineta, mas acabei por dar com uma raposa, pequena, muito pequena. Tentei segui-la com o carro, só que fora da estrada de terra era complicado. Ela acabou por afastar-se no escuro da noite, sem olhar para trás uma única vez que fosse; pelo menos pensei isso, pois não voltei a ver os dois olhos verdes. Rui Tavares falava sobretudo de Costa e de Carmona quando desliguei o rádio para ver se conseguia observar a pequena raposa durante mais tempo, sem outras coisas que me desviassem a atenção. Não a vi mais. Se não estivesse sozinha talvez fosse diferente, como há uns dois meses, quando vi também à noite duas na mesma zona, maiores, a saltitarem todas contentes, indiferentes ao barulho do motor do carro e às luzes.
Mas isto são desvios… O que eu queria era colocar um bocadinho de Lisboa neste post, a Lisboa do meu romance, já bem distante de ser uma verdadeira cidade (no romance e, infelizmente, também na realidade). Aqui fica o bocadinho…
(…) Achava que Lisboa era uma cidade absolutamente caótica, sem futuro, condenada nem eu sabia bem a quê, uma cidade que só me despertava algum interesse quando a observava do meio do tabuleiro da nova ponte, diante de mim, a descer para o rio, ameaçando afundar-se a qualquer momento. De longe parecia bonita, não se via o lixo, a degradação dos edifícios, a publicidade, nem se percebia a confusão das ruas; os caixotes de apartamentos quase que faziam algum sentido e até os aviões, a voarem um pouco acima do volume que descia para o Tejo, pareciam ter uma certa graça, tanto que eu observava-os com um bocadinho do mesmo fascínio com que no montado que cercava o monte observava as águias uns metros acima de mim. Às vezes ia no carro pela estrada de terra que atravessava o montado até à estrada de alcatrão e via à minha frente uma sombra; travava então um pouco e uma águia surgia a voar uns dez metros acima do chão, enorme, quase do tamanho de uma galinha, mas vigorosa, dona dos ares, a águia a dar a ideia de que era capaz de ser dona de tudo o que quisesse naquele momento.
Curiosamente, os aviões que eu via pequeninos de cima do tabuleiro da nova ponte de Lisboa, esses aviões quando eu já conduzia na Segunda Circular, mesmo ao lado do aeroporto, surpreendiam-me como as águias ao passarem de repente uns metros acima do carro, se calhar apenas trinta ou quarenta metros nalgumas das vezes. Quase que me causavam a surpresa das águias, não fosse o ruído tremendo que de repente surgia nem eu sabia de onde, como se o mundo estivesse mesmo a acabar e no momento decisivo chegasse a algum deus com currículo a ideia de tocar um gongo para assinalar devidamente a ocasião. Mas depois o mundo continuava, sempre, a cada avião que me passava por cima, às vezes a dar a ideia de que poderia riscar-me a pintura do tejadilho do carro com o trem de aterragem. Já com as águias, na estrada de terra do montado, eu não pensava nisso, quando me voavam por cima do carro e eu as percebia pela sombra que no chão as denunciava se os dias fossem de sol.
(…)

No próximo dia 25

O convite para a apresentação do meu romance «O que Entra nos Livros», no próximo dia 25. Toda a gente convidada, claro.
(clicar na imagem para aumentar)

quinta-feira, 12 de julho de 2007

Apresentação – «O que Entra nos Livros»

Este é um dos posts de toda a história do blog «Floresta do Sul» que escrevo com mais alegria, e escrevo-o também com um orgulho enorme.
A apresentação do meu romance «O que Entra nos Livros» do próximo dia 25 (Lisboa, Casa Fernando Pessoa, Rua Coelho da Rocha, 16, em Campo de Ourique; 21.30) será feita por José Eduardo Agualusa, um escritor por quem tenho uma profunda admiração.

Eu a entrar numa reunião da câmara

O que coloco a seguir é um excerto do romance «O que Entra nos Livros». Sou eu a entrar numa reunião do executivo municipal de Monchique, há uns três anos. O vereador referido é o agora rebelde (ver post «Um golo de Pinto da Costa marcado com as duas mãos», ali abaixo). Na reunião imediatamente a seguir às ameaças referidas no excerto, confrontado com o sucedido, o vereador esteve sempre calado. O presidente, que agora lhe retirou os pelouros (um deles, imagine-se, o da cultura), disse nessa reunião que tinha de condenar o sucedido mas que compreendia certos estados de alma (presumo que estados de alma como os que tinham levado às ameaças). Bom, o excerto é o seguinte:
(…)
Perto do edifício da câmara o meu colega propôs que entrássemos num café, para ver se eu despertava um pouco. Alguns minutos depois, de lá de dentro, acabámos por assistir à chegada do presidente, que se encaminhou para um restaurante onde por vezes passava antes de seguir até à câmara e aí, na câmara, – supunha eu – ver no que paravam as coisas; a expressão era adequada, pensei, «ver no que paravam as coisas». Depois dele passaram os vereadores que o acompanhavam a tempo inteiro, e com remuneração, na autarquia; primeiro passou um, depois o outro. Aquilo era a vida deles, os empregos que tinham, daí que não se tornava difícil perceber a forma como se lhes agarravam, ano após ano, ainda por cima com o bónus manhoso que a política portuguesa tinha passado a atribuir a cargos do género, o de o tempo de serviço contar a dobrar para efeitos de reforma. Já se vê, é claro, que com algo daquele tipo podia dar-se o caso de uma pessoa num cargo político ter numa determinada altura mais anos de descontos para a segurança social do que anos de vida.
Mas adiante… Tomados os cafés e paga a conta, eu e o meu colega dirigimo-nos para o edifício da câmara. Entrámos e subimos as escadas que nos levariam ao primeiro andar, onde ficava o salão nobre, que acolhia as reuniões. Por aquelas escadas abaixo, segundo previsões do vereador a tempo inteiro que na prática era o número três na hierarquia, ainda outro colega meu, precisamente o que eu estava a substituir, haveria de rebolar para ser expulso de vez do executivo – mas não eram previsões muito fiáveis, pois o seu autor estava embriagado na altura em que as fazia. Eu lembrava-me da situação nalgumas das vezes em que por ali passava. E normalmente nessas alturas chegava-me um sorriso, discreto, acompanhado por uma pergunta, a de como é que uma coisa daquelas tinha sido possível sem que se estivesse na rodagem de um filme de Emir Kusturica.

(…)

terça-feira, 10 de julho de 2007

«O que Entra nos Livros», na Casa Fernando Pessoa

Será no próximo dia 25 a apresentação em Lisboa do meu romance «O que Entra nos Livros».
Na Casa Fernando Pessoa (Rua Coelho da Rocha, 16 – Campo de Ourique), pelas 21.30.
(...) Depois peguei novamente na escritora e afastei-me, com o senhor Sapinho Júnior a dizer para eu voltar sempre. Prometi que sim, sem me virar, mas ao mesmo tempo pensava que não sabia se iria conseguir cumprir a promessa. Provavelmente não voltaria ali. Estava a afastar-me, já devia ter andado uns dez metros. Ouvi novamente o livreiro, a dizer que talvez o mágico velhinho tivesse andado à procura de outros livros (...)

domingo, 8 de julho de 2007

Apresentação de «O que Entra nos Livros», Algarve

Uma sessão de apresentação esta Segunda-feira, dia 9 (16 horas) - ver aqui.
(...)
– António Manuel Venda. O nome, colega, diz-lhe alguma coisa?
– Autor? – perguntou o outro.
– O romance «O Medo Longe de Ti». Editora Temas e Debates.
O homem repetiu tudo para a funcionária, a quem tinha captado o olhar, como se aquilo fosse um jogo de passa-palavra. Enquanto ela se embrenhava nos registos informáticos, ele chegou-se ainda mais perto do senhor Sapinho Júnior e disse-lhe:
– Na Sapinho Livros não têm a obra, presumo…
– Ora exactamente – confirmou o senhor Sapinho Júnior. – E pretendo adquiri-la.
(...)

sexta-feira, 6 de julho de 2007

Uma apresentação no Algarve

Uma apresentação do romance «O que Entra nos Livros»… Segunda-feira, dia nove, pelas 16 horas, no Algarve (Vila Real de Santo António – Centro Cultural António Aleixo). A apresentação está integrada na iniciativa «Nas Páginas dos Livros», da Câmara Municipal de Vila Real de Santo António.

terça-feira, 3 de julho de 2007

Entrevista sobre «O que Entra nos Livros»

Uma entrevista sobre o romance «O que Entra nos Livros»… Será no programa «Essência», da SIC Mulher, esta Quinta-feira, dia 5 (18h15 – 19h45); apresentação de Ana Marques. O programa será repetido no próximo Domingo, dia 8, às 15h00.