sexta-feira, 7 de setembro de 2007

A Padeira – XIII e XIV

Mais dois capítulos (XIII e XIV) de «Brites e as Gaivotas» (início aqui).

Brites e as Gaivotas
Uma história da Padeira de Aljubarrota

»»» Cap. XIII
Quando a patroa morreu, Brites chorou. Era uma coisa que já não fazia havia tanto tempo que até as gaivotas ficaram a olhar uma para a outra.
- Ela, afinal, além de ter coração, também produz lágrimas!
- Sim, e agora fica a ser a padeira de Aljubarrota.
- Quer dizer que já podemos regressar?!
- Não, muitas coisas ainda podem acontecer.
- Pronto, pronto, ficamos mais uns tempos então.
Algum herdeiro da padaria que houvesse não chegou mesmo a dar as caras. Quem um belo dia resolveu visitar Brites foi um honesto lavrador, e descomprometido, como fez logo questão de deixar bem claro, para não haver confusões.
- Aquele não vai comprar pão…
- Pois, pela cara vê-se logo que não.
Convidou Brites para um passeio. E daí a uns dias para outro, e depois para mais outro. E Brites começou a aparecer cada vez mais arranjada. Ainda que nela poucos trabalhos de aparelhamento houvesse a fazer. Mas o lavrador lá sabia as linhas com que cosia o seu pobre coração solitário.
- As pessoas às vezes mudam.
- Sim, Brites nunca ligou muito a coisas de paixão, mas agora está diferente.
- Lá isso é verdade...
O lavrador acabou por pedir a mão à padeira, durante um dos passeios. E sem que as gaivotas percebessem a conversa, os dois desapareceram a correr para o meio de uns arbustos.
- Para onde será que vão tão apressadas aquelas criaturas?
- Sabe-se lá, até a gente as perde de vista!
- Sim, no meio daqueles matos, quem é que pode ver o que está a acontecer?!

»»» Cap. XIV
Brites manteve a padaria, pois não era mulher para viver às custas do marido, por mais rico lavrador que ele fosse. E as gaivotas foram observando a nova família. Finalmente, a padeira parecia andar em paz.
- Só que a paz, até uma gaivota o sabe, nunca dura muito.
De repente, assim sem mais nem menos, apareceu nas redondezas D. João, mais o condestável D. Nuno Álvares Pereira, os dois à frente do exército de Portugal.
- Será que vêm todos para prender Brites?
- Não, nada disso! Não vês lá adiante, bem ao longe, o exército de Castela?!
- Ah, aqueles artolas são os castelhanos!
- Sim, devem vir à conquista de Portugal.
- Trazem o Saramago ou esqueceram-se dele?
- Esse não vejo… Na volta vem disfarçado….
Brites recebeu o melhor que pôde D. João e o condestável.
- Quanta honra tê-los em minhas terras, senhores!
Só não os convidou para entrarem porque eram muitos, à volta de seis mil e quinhentos, contando com o exército inteiro.
- Nem todos podem ter palácios grandes.
- Sim, os pobres cometem sempre estas indelicadezas.
- Mas Deus não há-de levar a mal.
- Qual?! O deles ou o das gaivotas.

Luís Graça

Luís Graça na revista «Os Meus Livros». Cronista. A crónica de Setembro («Mau Tempo no Bacanal») é fantástica. Outra coisa não seria de esperar do Luís.

Adivinhem quem poderia estar neste jantar

Coloco a seguir três curtíssimos excertos do romance «Estranha Forma de Vida», de Carlos Ademar (Oficina do Livro, 2007) – são de uma conversa que decorre durante um jantar na Torre Vasco da Gama, em Lisboa, no qual participam um «empresário da noite» (nestes excertos não fala) o líder de uma organização criminosa (Alberto, sócio do empresário), um vereador de um executivo municipal (Afonso) e o assessor deste (Gustavo). O autor diz que todos os factos referidos no romance são fruto da sua imaginação.

– Pois é assim, temos que ser nós, os empresários, a fazer avançar o país – proferiu Alberto, enquanto bebia da sua água.
– E cabe ao poder político criar as condições para que este progresso se dê com sustentabilidade – respondeu Afonso Fontelo.
– Bem que os senhores podiam facilitar um pouco mais este nosso trabalho – continuou Alberto.
– Acredite, senhor Alberto, que, no que me diz respeito, tudo faço e farei para que essa ajuda seja concreta. Só que temos, e ainda bem, regras para cumprir. A sociedade assim o exige.
(…)
– Muito bem! – disse com gentileza Gustavo, em jeito de remate.
– Então, e o senhor, que fazia antes de chegar à Câmara? – devolveu Alberto a pergunta.
– Era deputado. Fui eleito nas últimas eleições. Antes disso, fiz o estágio de advocacia.
– Então, e o senhor vereador? – continuou Alberto.
– Eu e o doutor Gustavo temos um percurso quase paralelo. Entrámos para o partido ainda miúdos. Ali nos conhecemos. Depois fomos para a faculdade, fizemos o curso juntos. Com o canudo na mão foi o estágio, dei umas aulas na universidade, depois veio o Parlamento, durante dois anos, e finalmente a Câmara. Quando ganhámos as eleições autárquicas, convidei o meu amigo Gustavo para me ajudar a organizar a papelada do gabinete.
– Os amigos são exactamente para isso – exclamou Alberto, não poupando no sarcasmo. Depois, tentando remediar: – Houve uma altura em que pensei dedicar-me à política. Mas com os poucos estudos que tenho não ia longe.
– Os estudos não são tudo. A vontade de fazer coisas pela sociedade com total desprendimento é o mais importante – retorquiu Gustavo, pedagógico.
– Pois, pois! Não, isso tenho, faltam-me apenas os estudos.
(…)
– O jantar estava óptimo e a companhia também, mas eu tenho aqui um envelope. Gostava de contribuir para a próxima campanha eleitoral do partido. Sabemos quanto custam essas campanhas e que o dinheiro que recebem do Estado não chega para nada.
– Infelizmente é verdade, senhor Alberto caro vizinho. Se não fossem os financiamentos particulares, não sei o que seria da política portuguesa – concordou Afonso, parecendo reconciliado com o anfitrião.
– O senhor Alberto não ignora que este tipo de operação se reveste de uma grande discrição? – lembrou Gustavo, preocupado.
– Com certeza, doutor. Como pretende fazer?
– Sugiro que desçamos juntos, e dentro do seu carro, que é menos referenciável que o nosso… – aventou o chefe de gabinete.
– Pois muito bem! Assim seja! – anuiu Alberto. – Já agora, o senhor vereador vai-nos resolver a questão da discoteca, não vai?
– Ó senhor Alberto, dito assim até parece que o senhor nos está a comprar! – reparou Afonso.

O jogador dos livros de cowboys

Tenho estado desatento às notícias. É o Carlos Leone que me avisa por e-mail da convocação para a selecção brasileira do defesa central do Sporting que me lembra pistoleiros e jogadores de póquer que apareciam em muitos livros de cowboys – como este defesa central, tinham o nome de Gladstone. A notícia é tanto mais curiosa quanto nos últimos dias se andava por aí a apregoar o regresso de Polga à selecção brasileira. Foi Gladstone em vez do jogador-macaco das falhas inacreditáveis. Pelo menos por agora, Dunga não perdeu a cabeça.

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Escritores no meu romance (4)

Naguib Mahfouz, Egipto
… como se em Portugal tivessem editado a história contada por Naguib Mahfouz num livro a pilhas, ou como se o próprio livro fosse algo vivo que de repente estivesse a sentir um arrepio, e depois outro, e outro, sempre assim…
(excerto de «O que Entra nos Livros», página 159)

Cerveja e literatura

Luís Carmelo iniciou no «Miniscente» uma série de posts sobre «cerveja e literatura».

Dez livros que não mudaram a minha vida

Aqui estão dez livros dos que não mudaram a minha vida, depois do pedido que referi no post ali abaixo, logo a seguir àquele sobre o Rui Meireles. Um destes dias conto referir mais dez, mas de outro tema (pior): dez livros que atrapalharam a minha vida (explicarei por quê).
- «Viagens na Minha Terra», Almeida Garrett
- «Timbuktu», Paul Auster
- «O Pequeno Mundo», Luísa Costa Gomes
- «Lolita», Vladimir Nabokov
- «O Ano da Morte de Ricardo Reis», José Saramago
- «Estranhos Perfumes», Marie Darrieussecq
- «Cronicando», Mia Couto
- «Vamos Todos Matar Constance», Ray Bradbury
- «Tudo o que Não Escrevi – I», Eduardo Prado Coelho
- «Money», Martin Amis
A ideia começou aqui (blog de Manuel A. Domingos, «meia-noite todo o dia»).

A saída de Rui Meireles do Sporting

Rui Meireles saiu do Sporting. Depois de alguns anos discretos no clube, teve uma ascensão meteórica. Voltaria a seguir aos tempos da discrição, para finalmente sair agora. Entrevistei-o em 2003 com o jornalista Humberto Simões. A entrevista está aqui.

A minha lista

Depois do comentário a um dos posts ali de baixo («Uma excelente ideia»), vou procurar fazer também uma lista de dez livros que não mudaram a minha vida. O desafio para fazerem o mesmo é para o Luís Graça, o Fernando Sobral, a Isabel Ramos, o José Carlos Barros e o Fernando Venâncio.

Os perigos da literatura

Mais um escritor com pouca imaginação. Este. Deve ter percebido agora que a literatura é uma coisa bem perigosa.

Vale mesmo a pena ler

Sobre os livros que não mudaram a vida, vale mesmo a pena ler isto e isto e mais isto.

terça-feira, 4 de setembro de 2007

Escritores no meu romance (3)

Clara Pinto Correia, Portugal
Era bom mergulhar de mão dada com ele num tempo muito breve assim desprovido de formas, um mar cego, pensou. Estou navegando. Que grande pedrada.
– Anda, mágico. Estamos quase no patamar.
(excerto de «O que Entra nos Livros», página 120)