sábado, 4 de agosto de 2007

Textos sobre livros - 35

«Vidas Escritas», de Javier Marías (Quetzal Editores, 209 pp.)

Marías vai-se aos outros

Javier Marías no seu melhor. Vidas de escritores, e não só, contadas de uma forma notável por um adepto do Real Madrid que é ao mesmo tempo um dos nomes maiores da literatura espanhola. Marías conta coisas de Conrad, Joyce e tantos outros, como se viajasse no tempo para conseguir acompanhá-los.
Javier Marías deve ser um escritor bem disposto, pelo menos a julgar pela forma como descreve as vidas deste livro. O adepto do Real Madrid, que foi professor em Oxford (Inglaterra), nos Estados Unidos e na Universidade Complutense de Madrid, e que se tornou num dos criadores mais originais da língua castelhana, tem muitos outros livros traduzidos por cá, mas este é sem dúvida o mais entusiasmante.
A parte final do livro apresenta uma galeria de retratos (igualmente de escritores), tirada directamente da colecção particular de Javier Marías. Essa galeria está acompanhada por um texto onde o autor se detém brevemente sobre cada um dos retratos. Só a título de exemplo, atentemos no que diz sobre o retrato de Jorge Luis Borges, sentado e de óculos numa das mãos: «O pobre Borges parece paciente e cheio de compaixão (...) Não sabe que quando alguém se senta num banco deve manter-se direito ou cruzar as pernas com desenvoltura, nem que uns óculos acabados de tirar devem pelo menos ser escondidos da objectiva (...)»
Mas a parte verdadeiramente genial do livro são as vinte pequenas biografias, marcadas sobretudo pelo insólito. Quem conhece as obras de Faulkner, de Stevenson, de Thomas Mann, de Nabokov, de Oscar Wilde, de Kipling, de Joyce, provavelmente vai ficar bastante surpreendido. Ou talvez não. Mas melhores do que as minhas palavras são as de Javier Marías, daí que fui buscar meia dúzia de excertos de algumas das biografias.
Da biografia de Joseph Conrad – «Muito antes de pedir a futura mulher em casamento (isto é, quando ainda não existia muita confiança entre eles), apareceu uma noite com um pacote de folhas entre as mãos e propôs à jovem que lesse em voz alta algumas páginas que faziam parte do seu segundo romance. Jessie George obedeceu, cheia de emoção e temor, mas o nervosismo de Conrad não ajudava nada. ‘Isso não interessa; começa três linhas abaixo; passa essa página, passa essa página!’ Ou então chegava a repreendê-la por causa da dicção: ‘Fala com clareza; se estás cansada, diz. Não comas as palavras. Os ingleses são todos iguais, fazem o mesmo som para todas as letras.’»
Ainda sobre Conrad – «Quando a mulher estava a dar à luz o primeiro filho, (...), Conrad não parava de cirandar pelo jardim, dominado pela agitação. Ao ouvir uma criança a chorar, aproximou-se indignado da cozinha para perguntar à criada o que era aquilo: ‘Faça o favor de mandar embora essa criança! Está a incomodar a senhora!’, gritou. Mas consta que a criada lhe gritou ainda com mais indignação: ‘É o seu filho, senhor Conrad!’»
Da biografia de William Faulkner – «O emprego na central eléctrica fora o pai que lho arranjara depois de ter sido despedido do seu trabalho anterior, como chefe da estação de correios da Universidade de Mississipi. Ao que parece, houve um professor qualquer que apresentou razoáveis motivos de queixa: a única forma de obter a sua correspondência era rebuscando no caixote do lixo, onde com frequência iam parar directamente, por abrir, os sacos de cartas recebidos. Faulkner não gostava nada que lhe interrompessem a leitura, e a venda de selos caiu de maneira alarmante: a modos de explicação, Faulkner disse à família que não estava disposto a levantar-se continuamente para ir atender ao guichet e ter de agradecer a um filho da mãe qualquer o facto de ter dois cêntimos para comprar um selo.»
Da biografia de James Joyce – «Há bastantes anos tornaram-se célebres aquelas cartas obscenas em que o autor costumava prometer que quando Nora (a esposa) e ele se voltassem a encontrar (ele estava em Dublin e ela em Trieste, onde viviam habitualmente) seriam muito felizes (...) Interrogava Nora sobre o seu passado e o seu presente, a fim de alimentar os seus livros (...) ‘Quando aquela pessoa (...) te meteu a mão ou as mãos debaixo das saias, acariciou-te só por fora ou enfiou o dedo ou os dedos? (...) Apalpou-te por trás? Pediu-te que o apalpasses? Fizeste-o? (...)’ Não se pode negar que Joyce era um homem exigente e amante do pormenor.» Já por palavras minhas, e não de Javier Marías, devo referir que evitei trazer aqui a maior parte das perguntas; deixam estas a anos-luz.
Da biografia de Robert Louis Stevenson – «Já se tinha declarado um incêndio noutra zona e estendia-se tão rapidamente que Stevenson, por curiosidade científica, perguntou a si mesmo se a causa seria o musgo que adorna e cobre os bosques californianos. Para averiguar isto, não lhe ocorreu outra coisa que não fosse aplicar um fósforo a um galho, mas sem tomar a precaução de antes arrancar da árvore o galho em causa. A árvore transformou-se rapidamente numa tocha, o que certamente levou Stevenson a considerar concluída a prova, e além disso satisfatoriamente. Mas o seu comportamento pouco cavalheiresco veio depois: não muito longe, ouviu os gritos dos homens que combatiam o fogo original, e compreendeu que só lhe restava fazer uma coisa, a saber, fugir dali antes que fosse descoberto. Parece que correu como nunca antes fizera na vida (...).»
Finalmente, da biografia de Madame du Deffand – «(...) numa célebre ocasião um cardeal mostrou o seu assombro por São Dionísio Aeropagita, depois do seu martírio, ter caminhado com a cabeça cortada debaixo do braço desde Montmartre até à igreja que tem o seu nome, numa distância de nove quilómetros, o que o deixava sem fala. ‘Ah, Monsenhor’, interrompeu-o Madame, ‘numa situação dessas só o primeiro passo é que custa.’»
O resto destas vidas, só mesmo lendo o livro.
***
Nota: para ilustrar este texto, escolhi uma foto do autor, na versão bastonário da Ordem dos Advogados (Rogério Alves), só que careca.

Ainda Sá Fernandes

Pode ser ingenuidade minha, mas eu não estava nada à espera disto. Isto, quer dizer, José Sá Fernandes juntar-se a António Costa na câmara de Lisboa. Fiquei sem saber bem o que pensar, ou melhor, até consegui pensar em alguma coisa, principalmente que fiz figura de parvo ao escrever aqui antes das eleições de dia 15 de Julho que se fosse eleitor em Lisboa votaria em Sá Fernandes. Que coisa estranha esta aliança... Foi mesmo um choque para mim. Quase como se há tempos, de repente, tivesse aparecido uma notícia a dizer que Sá Fernandes tinha dito que sim à proposta do homem de Braga.

A Padeira – VII e VIII

Mais dois capítulos (VII e VIII) de «Brites e as Gaivotas» (início aqui).

Brites e as Gaivotas
Uma história da Padeira de Aljubarrota

»»» Cap. VII
Do alto, duas gaivotas controlavam o barco, enquanto iam esvoaçando de um lado para o outro. E grasnavam.
- Ainda bem que a gente tem asas.
- Sim.
Brites seguia no barco, a contemplar a imensidão do oceano. Nova vida ia começar, pensava ela sem ligar ao vento que lhe fustigava o rosto. Até que de repente algo lhe prendeu a atenção, e às gaivotas que voavam por cima também. Um outro barco aproximava-se.
- Barco à vista!!!
Ou vinha em paz e tudo se resolveria, ou então vinha por mal. E aí é que seria o bom e o bonito. Por via das dúvidas, Brites começou a arregaçar as mangas. Isto enquanto a tripulação já andava de um lado para o outro, como se o seu destino se decidisse naquele momento.
- Chamem o capitão!
- Sim, chamem o capitão, que se retirou para descansar!
O capitão apareceu daí a pouco, e nessa altura já se avistava a bandeira dos do barco que antes tinha surgido do nada na linha do horizonte. E só podiam vir mesmo por mal, porque a bandeira indicava que eram piratas árabes, dos muitos que infestavam as águas do Mediterrâneo.
- Preparem-se, homens!! Preparem-se, que temos de nos defender daqueles labregos!!

»»» Cap. VIII
- Ainda bem que a gente tem asas, não me canso eu de grasnar.
- Sim, daqui de cima vê-se bem aquela desgraça.
A peleja foi tão grande que só Brites escapou com vida. Do lado cristão, bem se vê, porque do dos mouros ainda sobraram muitos para a segurarem. De modo que decidiram levá-la mais o saque para a venderem como escrava a algum rico mercador de olhos vesgos ou apreciador de maus encantos.
- Muito fortes devem ser estes mouros.
- Sim, nem Brites lhes resistiu. Eu até daqui de cima tive medo!...
- Os amaldiçoados eram muitos.
- Pois, tivesse Dom Afonso pelejado com uns assim em Lisboa e haveriam os portugueses de estar hoje a seguir o Corão.
- E achas que isso teria tido implicações práticas na nossa vida de gaivotas?
- Acho que não, mas isto sou só eu para aqui a grasnar.

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

A resposta

A resposta à minha última pergunta discreta encontrei-a neste cartaz que vi no «Blasfémias».

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

Dalila Rodrigues

Impressionante a entrevista de Dalila Rodrigues, a directora do Museu Nacional de Arte Antiga, agora demitida, apenas porque não tem medo de dizer aquilo que pensa. Foi há pouco, na SIC Notícias. Percebe-se que cada vez mais se desvaloriza o mérito em Portugal, enquanto os responsáveis políticos vão confirmando a ideia, muitos deles, de terem uma convivência difícil em ambiente democrático, para além da tradicional incompetência. A ministra da Cultura, por exemplo, ao permitir que se tivesse chegado a esta situação, marca mais não sei quantos pontos nessa escala, a da incompetência, muitos pontos, muitos mesmo; não me espanta, se pensar que ainda no fim-de-semana passado a vi num molho de papéis vendidos com o «Sol» a autopromover-se (tal como Manuel Pinho e o «boy» que preside ao Turismo de Portugal) e a insultar a minha terra com a idiotice do «Allgarve». Situações como esta só vêm acentuar a ideia de que se instaurou em Portugal um ambiente que faz lembrar o fascismo, embora para nossa sorte os fascistas ainda sejam dos de aviário.

Pergunta discreta

Afinal, a quem é que o Zé fazia falta?

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

Aí vai Lisboa

Depois das eleições em Lisboa, há duas semanas, se não estou em erro não escrevi nada. Escrever o quê?!... Hoje, dia da posse, lembrei-me disso. Ouvi no carro o discurso do novo presidente da câmara. E também uns bocados do da presidente da assembleia municipal, que continua a mesma. Deixo aqui algumas coisas de que me lembrei…
- Dá que pensar o acordo anunciado entre o vereador José Sá Fernandes (em quem já disse que provavelmente teria votado se morasse em Lisboa) e o presidente António Costa.
- Por vezes, penso se Lisboa justifica a existência de uma câmara municipal. A verdade é que de município pouca coisa tem; parece-me apenas uma zona confusa, sobretudo com edifícios e vias de comunicação (a maior parte delas atrofiadas). Talvez fosse bom estudar uma nova forma de gestão, tipo com um secretário de Estado, ou um ministro, ou então com um enviado especial das Nações Unidas.
- Se a opção fosse ficar como concelho e com uma câmara municipal, talvez todos os portugueses devessem ter direito a votar (veja-se a campanha, feita para todo o país, assim como o período de reflexão foi para todo o país, com jornais a saírem até um dia antes, fosse em Lisboa, fosse, por exemplo, no Alentejo).
- Não consigo compreender esta coisa de José Sá Fernandes se ter aliado a António Costa; muita gente de certeza que se terá sentido traída, além de que a explicação de José Sá Fernandes de que não vai votar obrigatoriamente no mesmo sentido de António Costa me parece despropositada, pois se é para isso para que é que assinou um acordo? (bastava dizer sim ao que achasse bem e não ao que achasse mal, e que se abstivesse quando se tratasse de algum assunto de que não percebesse nada, ou de que percebesse pouco).
- Uma sugestão de aliança, minha, para se obter uma maioria: António Costa e Fernando Negrão juntavam-se, obtinham nove lugares no executivo e como o que representam é mais ou menos o mesmo eliminava-se o risco de Fernando Negrão ir para outro lado e assim só estragavam uma instituição.

Outra vez

Hoje falou-se outra vez da questão do aeroporto de Lisboa (andava tudo muito calado). Já não é apenas um novo aeroporto, mas aquela coisa do «Portela mais um», que lembra – embora de forma comedida – uma tirada de um treinador de futebol (Quinito), já há muitos anos, quando chegou ao Porto: fazer a equipa, dizia ele, deslumbrado, não o preocupava, era «o Gomes mais dez». A coisa, no entanto, acabaria por correr mal. Mas isso foi já há muitos anos. Antes da anedota que em 1993 celebrizou o homem (na altura ministro de um governo de Portugal) que agora tem a responsabilidade máxima dos estudos que estão a ser feitos para a opção de localização em Alcochete. A anedota, tal como o seu desastrado autor (Carlos Borrego), pode ser recordada aqui. Espera-se que Borrego não ceda a nenhuma tentação de incluir anedotas nos documentos que vier a entregar.

Textos sobre livros - 34

«Tonto, Morto, Bastardo e Invisível», de Juan José Millás (Temas e Debates, 175 pp.)

Jesus e o seu bigode

Um destacado escritor espanhol consegue com as aventuras de um tal Jesus, que é despedido de uma empresa, levar o humor quase até aos limites do absurdo.
O tonto, o morto, o bastardo e o invisível, afinal, são apenas um. Jesus, de seu nome – o que talvez fosse de estranhar se a história acontecesse em Portugal e não em Espanha, onde a ninguém faz espécie que um homem se chame Jesus –, é tudo isso e muito mais, após ser informado pelo chefe de pessoal da empresa onde trabalha de que irá ser despedido. Do mal o menos, terá direito a um ano de salário e a umas palmadinhas nas costas; e depois, conta a certa altura Jesus, «Laura trabalhava, era médica-legista, portanto o horizonte de indigência encontrava-se ainda um pouco afastado». Mas Jesus não consegue encarar a mulher e o filho, sente-se invadido pelo medo e refugia-se na casa de banho. «... deixei que toda a cobardia adiada desde que entrou na empresa uma equipa social-democrata, autorizada a vendê-la em partes, se reunisse de chofre na percepção do espaço (...) fechei várias vezes as torneiras para transmitir a sensação de actividade, confiante de que a angústia se retiraria ao atingir determinada magnitude. Então, lembrei-me do bigode.» Será assim, com a ajuda do bigode, que Jesus irá começar uma vida nova, num mundo bem diferente daquele a que estava habituado e onde as regras são ditadas pela sua imaginação. Juan José Millás, um dos mais destacados nomes da literatura espanhola, consegue com as aventuras de Jesus levar o humor quase até aos limites do absurdo, sem nunca sair dos ambientes quotidianos da vida moderna. Afinal, a vida que leva a sua personagem a empreender uma espantosa fuga, mesmo que para as terras da imaginação. Quantos de nós não terão já estado à beira de fazer o mesmo?

segunda-feira, 30 de julho de 2007

Fraca apresentação

Sporting 1 (Carlos Paredes), Huelva 1, na apresentação da equipa (que já se tinha apresentado há uns dias, mas enfim...). Fiquei preocupado. O Benfica este ano dá a ideia de que não tem remédio (com Fernando Santos a continuar, também já era para ir desconfiando) e o Porto parece-me ainda com tudo muito confuso. Poderia ser uma boa oportunidade para o Sporting… Mas a equipa está como que adormecida e o que se ouve mais é lamentos pela saída de um jogador tão mau como Caneira (antes chorar a saída de Nani). Curiosamente, neste jogo, comentava-se que Polga tinha de estar sempre perto de Ronny, por este ser demasiado fraco a defender. Grande ajuda para Ronny (que sabe jogar futebol), a presença de Polga sempre disponível para alguma entrada à maluca ou para um pontapé no ar… Mas o melhor é esquecer Polga, porque de certeza que vai jogar sempre e ainda por cima como vedeta e sub-capitão (onde pode chegar a imaginação humana…). A ideia que fica é que este ano vai ter de ser a mesma equipa do ano passado a jogar, com algumas excepções, porque os reforços não parecem capazes de melhor. Ou seja, um deles para o lugar de Nani, um para o de Caneira (se não for Ronny), o que é um bênção, e outro para o de Ricardo (bênção número dois). Por guarda-redes, fiquei preocupado com aquela saída tresloucada de Rui Patrício que deu a grande penalidade ao Huelva (não sei se não me terei enganado quando na época passada mostrei esperanças de que estivesse ali um guarda-redes de futuro). E tive pena de ver Carlos Martins a defrontar o Sporting (talvez um líder a sério conseguisse tirar dele o grande futebol que já demonstrou). Últimas palavras para Liedson: é mesmo o grande jogador do Sporting.

Lição

Uma verdadeira lição sobre gestão cultural, aqui; Francisco José Viegas em entrevista ao «Correio da Manhã».

Frases mal ditas - 6

«A democracia faz-se também e sobretudo da capacidade de dizer não, da capacidade de dizer não ao autoritarismo, a qualquer espécie de tentativa de controlo político-partidário sobre a administração pública, sobre a sociedade civil, sobre a comunicação social livre ou sobre a vida de cada um de nós.»

Augusto Santos Silva, ministro dos Assuntos Parlamentares, 29.07.07



Nota: A frase até poderia ser bem dita. Mas como levá-la a sério dita por esta personagem, perdão, por esta personalidade?