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domingo, 4 de outubro de 2009

A primeira frase (1)

«O século ainda ia novo, mas a vida – que às idades não parecia ligar muito – já andava outra vez agitada por Lisboa.»
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Primeira frase do livro de contos «Quando o Presidente da República Visitou Monchique por Mera Curiosidade» (frase do conto de abertura do livro, chamado «A Bruxa do Bairro Alto de S. Roque»)
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quinta-feira, 10 de setembro de 2009

O meu primeiro livro

Quase que poderia escrever «há muito, muito tempo». Nessa altura, há muito, mesmo muito tempo, escrevi um livro de contos a que dei um título muito comprido: «Quando o Presidente da República Visitou Monchique por Mera Curiosidade», o título de um dos contos. Guardo recortes de jornais dessa época, e nalguns o livro até aparece nos tops das livrarias, nunca em primeiro lugar, mas em certos casos em segundo, batido se não estou em erro por «O Pesadelo de Obélix» ou pelo «Pequeno Livro de Instruções para a Vida». Podia ser pior…
O tempo passou. Habituei-me a que pouca gente conseguisse dizer o título correcto do livro; geralmente as pessoas começavam por «o dia em que o presidente foi» e a seguir atiravam com os sítios mais diversos: Beja, Santarém, Moura, Silves, Setúbal… Metiam tudo e mais alguma coisa no título, tirando, já se adivinha, a minha terra (Monchique). Isso foi nos primeiros anos. Agora já não acontece muito, porque quando me falam no livro é mais para me dizerem que não o encontram; o meu primeiro livro, «o do título comprido». Às vezes, em sessões de autógrafos, aparecem pessoas com outros livros meus e a perguntarem como poderão arranjar aquele, que não vêem em lado nenhum. Eu aí digo que não posso fazer nada, já que depois de esgotadas as edições que foram feitas só se surgir uma nova oportunidade, porque entretanto eu mudei de editora. E ofertas é coisa que não posso fazer, porque a verdade é que me resta apenas um exemplar de cada uma das edições.
Um dia, nem foi há muito tempo, recebi um comentário no meu blog; era alguém que tinha lido um dos meus livros (o romance «O que Entra nos Livros»). Dizia que o tinha comprado em Lisboa, «na Bulhosa do Campo Grande», isto depois de ter ido procurar a «duas livrarias da Bertrand». E que preferia ter começado por «O Medo Longe de ti», o romance que de certa forma dá origem ao que comprou, só que desse nem sinal nas livrarias. Mas o problema até nem era grave… No comentário estava escrito: «Como faz um brevíssimo resumo desse livro, sempre minimiza o desconhecimento do passado.» E depois, uma pergunta: «A propósito, não estão previstas novas edições dos seus livros?» Neste caso não havia uma referência ao primeiro, mas eu não consegui deixar de pensar nele, enquanto escrevia uma resposta a dizer que de alguns dos títulos por certo haveria livrarias com exemplares. O pior era mesmo em relação àqueles dos meus primeiros anos de escrita, que estavam dados como esgotados, e então no caso do primeiro livro devia ser mesmo impossível.
Eu ia todo lançado a escrever isto quando me lembrei de que a pessoa era do Sporting, como eu (no comentário aparecia também isto: «Estive lá, no meu lugar cativo de sofredor, e tive quase orgulho naquela equipa. Estou de acordo com as suas apreciações. Contudo, julgo que é um pouco injusto para com o Polga.»). Eu tinha escrito no blog, a propósito de um jogo das competições europeias entre o Sporting e uma equipa suíça, que o defesa brasileiro Anderson Polga parecia «mesmo talhado para o desastre». E então fiz um acrescento à resposta, pensando ainda no primeiro livro. Falei de um célebre golo de António Oliveira com a camisola do Sporting, marcado em 1982 ao Dínamo de Zagreb, num jogo da Taça dos Campeões Europeus disputado no antigo Estádio José Alvalade. Oliveira marcou os golos todos do três a zero, depois de uma derrota por um a zero em Zagreb. O golo era o terceiro, com Oliveira a avançar pela direita e depois, em vez de fazer um centro, a atirar a bola de uma forma estranha para a baliza, num remate que parece ter sido feito com a sola. No fim do jogo os jornalistas só lhe faziam perguntas sobre aquele golo, e ele acabou por comentar: «Quem viu, viu; quem não viu, já não vê mais!» Talvez eu possa dizer algo parecido sobre o meu primeiro livro: «Quem leu, leu; quem não leu, já não lê mais!» Mesmo o golo sendo do outro mundo e o livro pertencendo a este em que vivemos.
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(nota: em tempos já tinha publicado aqui este texto)
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quinta-feira, 27 de agosto de 2009

O início

O início do primeiro conto do meu primeiro livro (livro de contos «Quando o Presidente da República Visitou Monchique por Mera Curiosidade», conto «A Bruxa do Bairro Alto de São Roque»).
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O século ainda ia novo, mas a vida – que às idades não parecia ligar muito – já andava outra vez agitada por Lisboa. Ele era milagres de Santo António dia sim dia não, ele era as pessoas a falarem do anjo que alguém tinha avistado no alto da torre da igreja de Nossa Senhora da Graça, ele era ainda outras criaturas, talvez mandadas por Deus e observadas por quem jurava a pés juntos que não eram foliões mascarados. E o bispo inquisidor, enquanto tão grandes maravilhas tinham relato, lá se ia entretendo a mandar queimar hereges e judeus, uns por coisas vistas, outros porque, bem vistas as coisas, não haveria no reino deles necessidade.
Tudo isto, que já não era pouco, ia acontecendo ao mesmo tempo que os castelhanos arranhavam por terra a toda a hora e os franceses picavam por mar de vez em quando. E para ajudar à festa, el-rei todo poderoso, o quinto João com que o reino alombava, ainda se punha a morder dentro das próprias fronteiras com impostos tais que a riqueza de jóias e vestes que à corte se via nunca antes tinha sido assim notada. Mas o
povo não era tão desligado como deixava parecer a quem o observava das varandas reais, e por isso nem a desculpa do ouro de Terras de Santa Cruz o convencia de que nesses altos enxovais não figurava moeda plebeia.
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Os casos de admirar eram tantos que os novos logo abafavam outros já bem repisados. E conseguiam-no mais pela força que tinham do que pela falta dela nos anteriores, pois cada um que surgia deixava três ou quatro para trás no que respeitava a falatórios. Nunca se tinha pensado que no reino pudessem vir a caber todos, mas eles iam cabendo, e isso era uma coisa que ninguém desmentia, tanto mais que Deus também não dava sinais de querer fazê-lo.
Foi por esses tempos que se começou a falar na bruxa do Bairro Alto de São Roque. Inês Duarte, que era o nome que ao baptismo lhe tinha calhado, apareceu de repente aos olhos de todos como uma criatura destinada a tornar ainda mais notável aquele ano de 1706. Deu-se isso de forma tão espantosa que o bispo inquisidor se encarregou de a levar assim que o caso lhe chegou aos ouvidos. E decerto que não iria tardar muito a mandar queimá-la no Rossio, de bruxas e feiticeiros acompanhada, numa fogueira bem grande, que assim era ao gosto do povo, assim Dom João aprovava, assim Deus não se opunha, tão-pouco o Diabo, que esse toda a gente dizia ser das chamas apreciador certo.
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quinta-feira, 6 de agosto de 2009

As capas dos livros (1)

Já velhinha, quase com 13 anos, a do livro de contos «Quando o Presidente da República Visitou Monchique por Mera Curiosidade» (edição Pergaminho).
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Pedro Aquilino chegou a Monchique a meio de uma tarde cálida de Agosto. Nem o calor nem o mau-cheiro do cadáver do elefante, que continuava abandonado à entrada da vila, o fizeram retroceder. E assim foi recebido nos paços do concelho pelo novo presidente da câmara. O antigo, de quem já ninguém se lembrava, resolveu dar sinal de si e voltou a mandar papelinhos por baixo da porta, desta vez com saudações democráticas.
– Ah, têm dois presidentes da câmara! – comentou Pedro Aquilino. – E nem assim arranjaram tempo para mandar enterrar o desgraçado do elefante!
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quarta-feira, 18 de junho de 2008

Recordações do Jaiminho Corvo

Tenho acompanhado os relatos do Pedro Correia das suas férias algarvias no «Corta-fitas». Por vezes, fazem-me lembrar de um dos contos do meu primeiro livro, um conto chamado «O Corvo que Ia Fazer a Praça a Portimão». Começa com o protagonista, um homem de Monchique chamado Jaiminho Corvo, a chegar à praça de Portimão…

O Jaiminho Corvo chegava à praça ainda de madrugada. E sempre um bocado ensonado, porque não dormia tudo o que queria dormir. Tinha-lhe calhado a vida assim, deitar-se tarde e levantar-se cedo.
– E a minha mulher, ainda por cima, é das que gostam da festa!
Quase todas as que o Jaiminho Corvo conhecia gostavam da festa. (…)

Acaba com o Jaiminho Corvo na Praia da Rocha, envolvido numa grande disputa por causa de uma mulher. Disputa com um cão e três gaivotas…

(…) Exactamente, haveria de ser mesmo aquela. Uma mulher cuidadosa que parecia preocupar-se com o perigo dos raios solares. Mas que tinha tido um descuido, quando ao comprar um gelado tinha agradecido com uma voz muito alta.
– Thank you! – tinha ela dito, de gelado na mão.
E o Jaiminho Corvo, que ia passando na altura, tinha-a ouvido bem. E dessa maneira confirmado que servia perfeitamente.
Foi então que chegaram as gaivotas, e o cão não demorou dez segundos. Ficou em quarto lugar na lista dos bichos, por causa de as gaivotas serem três, mas não se deixou abater por isso. Afinal, bem vistas as coisas, tinha sido o primeiro dos cães, o primeiro dos que ladravam e o primeiro dos que roíam ossos. Tudo vitórias importantes. Pelo menos era o que ele pensava, ele o cão, que tinha jeito de ser um bicho convencido e até parecia estar com ganas de se antecipar ao Jaiminho Corvo. Ia-se aproximando pela esquerda, enquanto o Jaiminho Corvo o fazia pela direita. Do objectivo, como é lógico. Portanto, os ataques iriam ser pelos flancos. Entre homem e cão, escolhesse o Diabo o campeão.

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