sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Do que nós nos livrámos

Falo, é claro, em relação aos sportinguistas. Livrámo-nos disto.

Textos sobre livros - 36

«A Tia Julia e o Escrevedor», de Mario Vargas Llosa (Publicações Dom Quixote, 342 pp.)

A história de Varguitas

Um dos grandes romances de Mario Vargas Llosa, na volta talvez o mais fascinante. O jovem Varguitas em grandes confusões com uma tia e também com a literatura.
Pus ali acima a referência ao número de páginas, que fui espreitar a um site de venda de livros, da edição da Dom Quixote. A que li (tenho-a há quase vinte anos) é do Círculo de Leitores.
Bom, o que no livro se conta é a história de um rapaz – o próprio Vargas Llosa adolescente, o Varguitas – e da sua relação amorosa com uma tia por afinidade (que pouco antes se tinha divorciada de um tio do jovem). Estamos nos anos cinquenta do século passado, quando a televisão ainda não tinha chegado ao Peru. À rádio cabia por isso entreter, informar e divertir as famílias. Eram os tempos áureos das radionovelas.
Varguitas estudava Direito, embora sem grande interesse (aliás, Vargas Llosa viria a formar-se em Letras), e ganhava a vida a trabalhar na Rádio Pan-Americana. É ele quem conta… «Tinha um trabalho de título pomposo, salário modesto, apropriações ilícitas e horário elástico: director de informação (...) Consistia em recortar as notícias interessantes que apareciam nos jornais e maquilhá-las um pouco para que fossem lidas nos noticiários. A redacção, sob as minhas ordens, era um rapaz de cabelo empastado e amante de catástrofes chamado Pascual.»
A par do romance com Julia, o jovem Varguitas toma contacto com um sujeito fascinante, um tal Pedro Camacho. Trata-se de um autor e intérprete de folhetins radiofónicos, boliviano, contratado para encantar as gentes de Lima e fazer aumentar os níveis de audiência. As radionovelas de Pedro Camacho aparecem como capítulos do próprio livro, alternando com os da história que vai sendo contada na primeira pessoa pelo próprio Varguitas.
Duas notas... Este romance foi passado ao cinema de uma forma, na minha opinião, bastante infeliz. O filme, cujo título é «A Paixão de Júlia», não tem praticamente nada a ver com o que Vargas Llosa escreveu, inclusive ao nível dos espaços em que a acção decorre. O próprio Pedro Camacho, que no livro odeia argentinos, no filme odeia albaneses; e chama-se Pedro Carmichel. É interpretado por Peter Falk, o actor que fazia de Inspector Columbo. Esta é a primeira nota. A segunda… Muitas personagens da radionovelas de Pedro Camacho são no romance caracterizadas da seguinte forma (e isto em redacção livre, apenas da minha responsabilidade): «tinha chegado aos cinquenta e as suas características particulares, fronte larga, nariz aquilino, olhar penetrante, rectidão e bondade de espírito...» Não ficam dúvidas de que o boliviano era um fraco amante da variedade. Mas tinha piada, muita, muita piada.
Um romance para ler ou reler em qualquer altura.

Nota: a foto é de Mario Vargas Llosa, há muitos, mesmo muitos anos; o artista quando jovem Varguitas.

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

Saramago

E vale a pena ler isto, claro.

Fantástico

Mandou-me este link o meu amigo Helder Figueiredo. Vale a pena ver e ouvir. Mais informações, por exemplo, aqui.

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

Eça Lisboa

Um excerto de um texto de Francisco Almeida Leite no «Corta-fitas» (sobre o novo número dois da Câmara de Lisboa)… «António Costa escolheu para vice-presidente da Câmara Municipal de Lisboa o simpático Marcos Perestrello. Escolhido para super-vereador (durante a campanha foi anunciado que teria a pasta do Ambiente, só que esta acabou por ser negociada com Sá Fernandes) este licenciado em Direito nunca exerceu advocacia por ter andado sempre nos gabinetes ministeriais de Guterres, tendo depois passado para o Parlamento, onde não se lhe conhece uma intervenção digna de registo, sob o consulado de Sócrates. Para além de ser o primeiro ‘costista’, o secretário-nacional do PS para a organização, vulgo o aparelho, dá um salto de gigante dos gabinetes e da última fila na Assembleia da República, onde repetidamente se sentava, para a ribalta política como número dois da maior câmara do país. Como disse, e repito, acho que Marcos Perestrello é simpatiquíssimo. É fino no trato, bem-educado, coisa rara entre os políticos da praça de hoje em dia, e repetem-me à exaustão que é inteligente e um valor socialista a acompanhar. Tem só 36 anos; também não acho que a idade possa ser apontada como factor de risco nesta indigitação.»
Pouco ou nada sei sobre o novo vice-presidente da câmara, mas a descrição de Francisco Almeida Leite faz-me lembrar um tal Pacheco, criado por Eça há mais de cem anos. Ora vejam… «Pacheco não deu ao seu país nem uma obra, nem uma fundação, nem um livro, nem uma ideia. Pacheco era entre nós superior e ilustre unicamente porque tinha um imenso talento (...). O talento imenso de Pacheco ficou sempre calado, recolhido, nas profundidades de Pacheco! Constantemente ele atravessou a vida sobre eminências sociais: deputado, director-geral, ministro, governador de bancos, conselheiro de Estado, par, presidente do Conselho - Pacheco tudo foi, tudo teve, neste país que, de longe e a seus pés, o contemplava, assombrado com o seu imenso talento (...). A testa de Pacheco oferecia uma superfície larga e lustrosa. E muitas vezes, junto dele, conselheiros e directores-gerais balbuciavam maravilhados: - Nem é preciso mais! Basta ver aquela testa!»
Há, é claro, aquilo do «simpático», do «simpatiquíssimo» e mais o resto de que fala Francisco Almeida Leite. Eça não parece pintar o Pacheco da mesma forma. Por exemplo, aqui, numa resposta a um deputado da oposição, depois de este o ter criticado como Ministro do Reino… «Ao ilustre deputado que me censura só tenho a dizer que, enquanto S. Exa., aí nessas bancadas, faz berreiro, eu aqui nesta cadeira, faço luz!»
Já agora, Eça escrevia que «Pacheco e Portugal, de resto, necessitam insubstituivelmente um do outro». E justificava... «Sem Portugal Pacheco não teria sido o que foi entre os homens; mas sem Pacheco Portugal não seria o que é entre as nações!» E Lisboa, como ficará entre as cidades agora vice-presidida (ou sub-presidida, nem sei como se deve dizer) pelo «simpático» e «fino no trato» Perestrello.

Na volta...

terça-feira, 7 de agosto de 2007

Câmara de Lisboa

Uma coisa interessante sobre a corrida à câmara, aqui.

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

A derrota de ontem no Algarve

Copiei isto do «Record»… «’Penso que não assistimos a uma arbitragem isenta. A forma como o Pedro Henriques controlou a partida não foi a melhor. Costumam elogiar o seu estilo mas não foi uma arbitragem à inglesa’, afirmou o responsável máximo dos leões que, entre outros lances, não apreciou as picardias que se verificaram no relvado. Recorde-se os episódios que envolveram Romagnoli, Manuel Fernandes, Liedson, Luisão e David Luiz.»
Filipe Soares Franco ao menos nisto saiu-se bem. Pedro Henriques, que ao contrário do que se diz é um mau árbitro, prejudicou o Sporting na final do Torneio do Guadiana, em Vila Real de Santo António, frente ao Benfica. De qualquer forma, parece-me que não foi por ele que a equipa perdeu.
Ou seja, este Benfica 1, Sporting 0 deixou-me a ideia de que a equipa perdeu de forma estranha; mostrou que era melhor, mas não conseguiu dar forma a essa ideia no resultado, e afinal o Benfica até teve mais oportunidades.
Outras impressões…
- O novo lateral direito é bom; mas, a confirmar a falta de senso dos dirigentes, para essa posição já havia dois jogadores igualmente bons (Abel e o adaptado Pereirinha).
- Não fica muito bem sofrer um golo de um jogador como David Luís (assim como não fica muito bem sofrer um golo de Luisão); ontem aconteceu, por incompetência de Polga (como antes tinha acontecido no frango de Ricardo que deu o último título ao Benfica) – Ricardo finalmente saiu e a equipa arranjou um guarda-redes que parece muito bom, mas Polga dá a ideia de que é inamovível.
- Confirma-se que a equipa vai ser parecida à do ano passado, mas continua a haver ali alguma coisa que não funciona e que pode comprometer a luta pelo campeonato (para além dos dirigentes, que podem muito bem mandar jogar para o segundo lugar de forma a poupar nos prémios, como no final da época passada).
- É provável que haja lugar para Adrien Silva na equipa.
- Moutinho é muito bom, mas acaba por ser um bocado azelha nos remates e noutras jogadas de finalização (está aí a diferença para jogadores como, por exemplo, o notável Nani); acaba por ter o mesmo problema de Yannick Djaló, embora não tão acentuado.
- Paredes e Farnerud, mesmo não jogando ontem, deu para lembrá-los, não sei por quê – nem pensar em metê-los na equipa (e se deu para mantê-los, por que não foi possível aguentar Carlos Martins).
- Derlei emperra o ataque; não sei se alguma vez recuperará o nível que atingiu com Mourinho.
- Romagnoli não serve para maestro da equipa, mas deve jogar num lugar qualquer do meio campo para a frente porque tem muito talento.
- Sei que isto é uma banalidade, mas Miguel Veloso e Liedson são imprescindíveis.
- Vukcevic e Izmailov sabem jogar, mas daí a serem imprescindíveis não direi que vão anos-luz, mas uns largos meses de certeza.
- E mais uma coisa, aquilo da imagem ali no início – o que estará Soares Franco a combinar com Luís Filipe Vieira?; será uma coisa do género da que arranjou na visita do Sporting à Luz na última época, para que a equipa desistisse de ganhar na segunda parte do jogo?; tipo esta época vocês lutam pelo título e a gente fica atrás a ver se foge ao pagamento dos prémios de campeão?
Vamos a ver no que isto vai dar.

Pergunta discreta

ENTREVISTA COM O VAMPIRO
Em que entrevista dos jornais do passado fim-de-semana ficaria bem este título?

domingo, 5 de agosto de 2007

Vale a pena ler

Vale a pena ler José Adelino Maltez, ao que parece em descanso para os lados da Ria Formosa. Aqui.

A propósito

A propósito do segundo comentador referido no post anterior, sobre o jogo do Sporting com o Bétis de Sevilha, recupero aqui um texto que escrevi em Dezembro de 2001 (para uma crónica da abertura das tardes desportivas do fim-de-semana, numa rádio). É um texto sobre um dos piores árbitros que o futebol português conheceu nas últimas décadas, Isidoro Rodrigues. Ontem quem apanhou com o «Isidoro Rodrigues» foi o árbitro do jogo, Lucílio Baptista. O segundo comentador, não sei por quê, teimava em chamar-lhe, imagine-se, «Isidoro Rodrigues». Aqui fica o texto, sobre um árbitro que depois haveria de tornar-se cantor (ver foto).

Há muito, muito tempo...
Há muito, muito tempo, ainda o senhor Isidoro Rodrigues era uma criança como árbitro, o Sporting foi ao Funchal defrontar o União da Madeira. Era um jogo muito importante, porque os adversários mais directos, nomeadamente o Futebol Clube do Porto, tinham feito maus resultados no dia anterior. Uma vitória colocava a equipa no primeiro lugar e fazia os adeptos sonharem com o regresso do título, depois de 1982.
Estava a ser um jogo, como dizem os mais inspirados comentadores do pontapé na bola, sem história. Até que a certa altura, com os minutos já bem avançados, o ponta-de-lança Cadete, então conhecido como «o capitão Jorge Cadete», cabeceou a bola já dentro da grande área do União da Madeira. Quando os adeptos gritavam golo, de repente, um futuro jogador do Sporting, o brasileiro Marco Aurélio (um defesa central extraordinário), resolveu agarrar a bola com as duas mãos, mesmo em cima da linha de baliza. Segurou-a bem firme, mas só por um ou dois segundos, e depois atirou-a pela linha de cabeceira.
Não foi golo, mas nenhum sportinguista se importou. Era
penalty, o que haveria de ir dar ao mesmo. Mas não, o árbitro, sem que alguém percebesse por quê, assinalou pontapé de canto. A favor do Sporting, é certo, mas apenas pontapé de canto.
Se fosse agora, depois da carreira que esse árbitro veio a construir, ninguém estranharia que de um lance assim ele arranjasse inclusive um pontapé de canto a favor do União da Madeira. Mas ele ainda não era conhecido; como árbitro ainda era uma criança. Isidoro Rodrigues, que ao tempo se arrastava pelas divisões secundárias, foi parar ao jogo à última hora, e aproveitou para fazer das dele. O Sporting não venceu, e a luta pelo campeonato ficou, uma vez mais, comprometida.
Ainda hoje, pelo que se vai observando, o senhor Isidoro Rodrigues continua uma criança como árbitro. Provavelmente por ter escutado nalgum dia de sol mais intenso aquela frase que fala de o melhor do mundo serem as crianças. Talvez algum raio de sol lhe tenha trocado os raciocínios. Logo a ele, que como árbitro, por certo, deve ter sonhado que um dia haveria de ser o melhor do mundo.
[texto de 2001]

Bétis contra betinhos

Bétis 1, Sporting 1 (Liedson). Primeiro jogo do Sporting no Torneio do Guadiana, em Vila Real de Santo António. Novas contratações e sobretudo jovens da academia, com algumas vedetas a aparecerem na segunda parte. As coisas estiveram mal durante muito tempo, com a impressão de que quem defrontava o Bétis de Sevilha era um grupo de betinhos. Algumas ideias que me ficaram…
- Não vamos ter nenhum Nani esta época, mas Adrien Silva é bom; Yannick Pupo, de quem tanto se falava, não parece grande espingarda, mas pode ser que eu esteja enganado; o central Paulo Renato pareceu-me que pode vir a ser um bom jogador se ganhar capacidade de luta, o que não é fácil.
- Bruno Pereirinha, a quem Rui Oliveira e Costa chama «Parreirinha», dá a ideia de que evoluiu muito com as oportunidades da época passada; já Yannick Djaló, que é muito bom, parece como que anestesiado, além de ter-se agudizado um problema já conhecido (costuma ter pouca sorte em muitos lances e por vezes é desastrado).
- Paredes pouco se viu, o que não é novidade, e de Farnerud como habitualmente não faço grandes comentários (dá a ideia de ser mais jogador de ténis do que de futebol, ou então ciclista).
- Não gostei do lateral esquerdo eslovaco; parece ter qualidades mas é sarrafeiro e maldoso (fez um penalty que o árbitro deixou passar e agrediu um adversário à maluca, tipo Polga dos piores dias).
- Vukcevic, como tem acontecido também com Ismailov, mostra que é bom mas que não se pode contar com ele para coisas geniais, tipo Liedson ou Romagnoli.
- A entrada de Liedson, Romagnoli e Moutinho e a notável reviravolta no jogo, mostrou que vamos ter uma época com a equipa a jogar na base do que havia na época passada, com duas ou três alterações.
- Gladstone, o central com nome de jogador de sallon dos livros de cowboys, pode vir a ter lugar na equipa (obviamente que teria de caras para substituir o desastrado Polga, mas Polga tem o lugar garantido por Paulo Bento…).
- Derlei, enfim, pode ser que renasça esta época, com um bocado de sorte.
- E, finalmente, Ricardo; foi bom tê-lo na baliza adversária, até nos penalties.
- Finalmente, parte dois: a televisão (SIC), além do narrador e do comentador principal (creio que Jorge Baptista), tinha um segundo comentador (ou jornalista, nem sei) que passou o jogo com tiradas ridículas, despropositadas e algumas completamente idiotas.