domingo, 18 de março de 2007

Pequenas histórias - 3

A desistência

As folhas, onde estarão elas agora? Que transformações lhes terão chegado? As minhas folhas. Todas. E os ramos pequenos. E os pássaros pequenos desses ramos. E os passarocos dos ramos grandes, águias, mochos, corujas, até dois ou três gatos com manias a raiar a perversão. Nada… Agora o tempo é outro. Nem chove. Nem me molha a águia, perdão, a água mineral. Nem a outra, a que costumava bater à maluca já nem malembra durante quantos meses do ano. Desisto. Já não resisto. Para quê? Para encarar algum dia um fogo? Ou um tarado metido a serrador?

As coisas pela positiva

Porto – 0, Sporting – 1 (Rodrigo Tello). Bom, toda a gente deve ter visto. Por isso, dizer o quê? Pouca coisa… E ainda bem, porque é sinal de que correu tudo pelo melhor. Eu estava à espera de um jogo controlado, talvez um empate a um golo, ou talvez a zero. Mas qualquer coisa me dizia que o Sporting até poderia ganhar. Com o desenrolar do jogo, que vi muito tranquilo (como tinha visto a primeira parte do jogo com o Porto em Alvalade), fui percebendo que as coisas poderiam acabar bem. Mas ao mesmo tempo, e sobretudo depois, já com o jogo ganho, não consegui deixar de pensar nos falhanços que ao longo da época foram arrastando a equipa para esta posição. Mas vamos ver as coisas pela positiva… O jogo de ontem mostrou que é possível o Sporting ter uma equipa competitiva, personalizada, lutadora. Se se mantiver assim, e se tivermos a sorte de os outros perderem uns pontos aqui e ali, ainda poderemos lutar até ao fim.
Uma última nota, sobre os jogadores em relação aos quais tenho escrito coisas muito negativas. Ontem não se notou uma razão para que escreva coisas dessas. Caneira lutou, esforçou-se como os colegas e se falhou um ou outro lance falhou porque não há quem não falhe. Talvez não fosse má ideia fazê-lo jogar – quando jogasse – a central e não por um dos corredores laterais, onde por vezes se torna penoso ver a sua incapacidade ofensiva. Polga… Deu-me que pensar. A mesma capacidade de luta, as mesmas limitações técnicas, mas – não sei por quê – transmitiu uma ideia de segurança, não aquela de que a qualquer momento pode ter uma falha que resulte num golo do adversário; até uma entrada à maluca que teve (nos últimos segundos) me pareceu que foi a única opção possível. Ricardo… Nem uma falha. Aliás, nos últimos jogos não tem falhado e isso até me vai fazendo esquecer os muitos momentos maus que já teve no Sporting. E Custódio, até Custódio… Entrou quase no fim e nem reparei que andasse a passo de caracol como era habitual quando jogava. Ou seja, ontem foi toda a equipa que me deixou impressionado, foram todos os jogadores, melhores e piores, que me conquistaram.

sábado, 17 de março de 2007

Alarve

Leio no «Expresso» e custa-me a acreditar… «O ministro da Economia apresentou hoje, em Lisboa, na feira ‘Algarve Convida’, um novo conceito de marketing que o Turismo de Portugal vai desenvolver durante três anos, com um primeiro orçamento de três milhões de euros para 2007. A magia do acrescento de um ‘l’ na palavra Algarve deverá permitir um marketing internacional mais agressivo, usando o ‘all’ – palavra inglesa para tudo – como chamariz para um turismo de qualidade multifacetado no sul do país./ O objectivo, segundo o ministro Manuel Pinho, será a focalização na atracção de turistas para eventos de qualidade artística, para o golfe e para investimento em segundas residências no Algarve.»
Bom, de caminho li também uma coisa da agência Lusa (talvez devesse chamar-se Llusa, para captar a comunicação espanhola e dos países de língua castelhana do outro lado do Atlântico). Refere-se ao deputado algarvio Mendes Bota… «O líder do PSD-Algarve, Mendes Bota, exigiu hoje a suspensão da nova marca Allgarve, apresentada pelo ministro da Economia, até que se redefina outra designação. O social-democrata considera que a actual proposta se trata de uma ‘ofensa’ aos algarvios./ (…)/ Num comunicado divulgado hoje, Mendes Bota classifica a criação da marca como ‘mais um atentado do poder central contra a região’ e defende que há muitas décadas que a marca Algarve está consolidada no mercado./ ‘Proceder a esta alteração só poderá servir para destruir um brand name que, a par do vinho do Porto, é dos poucos de que Portugal se pode orgulhar à escala mundial’, afirma o social-democrata./ Apesar de reconhecer mérito no conteúdo da campanha promocional, Mendes Bota rejeita veementemente o título Allgarve, que considera tratar-se de ‘mais uma descaracterização cultural da região’ e uma manifestação de ‘péssimo gosto’ e ‘falta de bom senso’. Mais, segundo o social-democrata, quando é apresentada por um ministro que, depois de ‘colocar em risco o Algarve às mãos dos magnatas do petróleo’, se permite ‘derramar dinheiro a brincar com o nome do Algarve e dos algarvios’, que passarão a chamar-se ‘all-garvios’./ Mendes Bota pediu ainda a todos os autarcas do PSD representados na Região de Turismo do Algarve que convoquem uma reunião daquele órgão para repudiar a campanha e recusar colaborar com ela, até que seja reposta a ‘dignidade’ e o ‘respeito’ pelo nome da região./ O programa apresentado por Manuel Pinho advém de investimentos da responsabilidade do Turismo de Portugal e destina-se a concretizar um conjunto de eventos de diversas áreas com o objectivo de ‘oferecer experiências marcantes em vários domínios’ aos visitantes./ Por isso, a opção pela marca Allgarve, reflectindo diversidade, glamour e credibilidade, é acompanhada do slogan ‘experiências que marcam’, num programa que vai prolongar-se, pelo menos, por três anos, como garantiram os responsáveis governamentais do sector.»
Se um dia for preciso promover Manuel Pinho no estrangeiro (talvez até não fosse má ideia tentar exportá-lo), poderia também partir-se da palavra «Algarve» para a sua divulgação um pouco por todo o mundo, ou pelo menos naquele que por vezes é qualificado como terceiro. Só que em vez de se acrescentar uma letra poder-se-ia retirar uma letra, no caso o «g». Depois, bastaria fazer uns folhetos, e talvez nem fosse preciso pensar muito; «Alarve – Experiências que Marcam» poderia servir muito bem.

Pequenas histórias - 2

Anjos ancorados

Lá adiante, onde não chega o teu olhar, bem nas profundezas, termina uma corda invisível, e que não se sente, e na qual ninguém tropeça. Prende alguns anjos a esta terra triste, para que não se afastem, para que não se ponham com ideias de ir atrás de qualquer peixe que lhes pareça mais agradável, ou de alguma sereia que goste de perseguições. Já não teríamos anjos perto da costa sem a ajuda da velha âncora.

A propósito

A propósito do post anterior, recupero agora um texto que escrevi em finais de Outubro de 2001. É o suporte de uma crónica de rádio (numa colaboração semanal que mantive durante três épocas do nosso futebol). Dias da Cunha andava pelo Sporting, Pinto da Costa pelo Porto (obviamente), João Malheiro pelo Benfica (mas não era presidente) e Boloni pelo Sporting (a treinar).

O presidente que não é…
O presidente que não é mais do que um D. Quixote do pontapé na bola, o doutor Dias da Cunha, lá vai insistindo em levar a água aos moinhos de vento. Se antes contava anedotas do Entreposto, agora vai narrando a qualquer jornalista que lhe apareça pela frente toda a sua saga em nome do monarca que tem muita honra em servir, o senhor Pinto da Costa. Tanta honra, ou mais, até, do que aquela que parece ter o senhor João Malheiro na defesa das águias, que depois de terem estado em vias de extinção parecem agora vir a recuperar.
O famoso fidalgo D. Quixote de La Mancha investia de lança em riste contra os moinhos de vento que só ele via. O outro, o doutor Dias da Cunha, sem lança mas com palavreado de gume bem amolado e com um balde de água em cada mão, lá anda agora a recuperar os velhos romances de cavalariça, perdão, de cavalaria. Carrega água, carrega água, e depois fica de boca aberta quando lhe perguntam onde estão as azenhas, que ninguém mais as vê a não ser ele. «Azenhas?!», acaba por estranhar o doutor Dias da Cunha. Eu cá só vejo entrepostos, ou antes, só vejo moinhos de vento, e é para lá que carrego a minha água, com um balde em cada mão!
Às vezes, algum jornalista mais incisivo ainda lhe pergunta pelo Sancho Pança, mas ele, nada, nem se descose. «Sancho Pança?! Qual Sancho Pança, amigo?», pergunta com ar assarapantado. E o jornalista: «Então, o seu escudeiro...» E o doutor Dias da Cunha: «Escudeiro, mas que escudeiro, ainda por cima agora, em tempos de morte do escudo e de chegada do euro!» Só depois de muitas insistências é que acabará por dizer: «Bem, isso do Sancho Pança, se me está a falar da substituição do senhor Boloni, o melhor é perguntar na sade; eu não sei de nada, mas podem muito bem andar em negociações com o senhor Marinho Peres.»

sexta-feira, 16 de março de 2007

Tinha de copiar

Isto eu tinha de copiar… Um comentário do meu amigo Carlos Antunes (um grande sportinguista, como provavelmente já não há muitos) no blog «O Leão da Estrela» (link ali nos «Percursos Habituais»). É o seguinte, a propósito das coisas que o ex-presidente do Sporting (Dias da Cunha) disse ontem do actual (Soares Franco), de ter muito para revelar, mas não para já…
«Espero que o Dr. Dias da Cunha, quando resolver falar, explique então:
- como deu cabo de um dos principais grupos económicos portugueses (Entreposto), criado a partir de Moçambique nos anos 60 pelo seu pai, o senhor Dias da Cunha, a ponto de ter sido corrido da gestão desse mesmo grupo pelo Dr. Gamito (CIP), um anónimo professor da cidade da Beira (Moçambique) contratado pelo pai do Dr. Dias da Cunha para o ajudar na gestão das empresas, diferendo que ainda hoje se arrasta nos tribunais portugueses;
- como ao mesmo tempo que quase ia desbaratando o grupo criado pelo pai se tornou no maior accionista privado/ não institucional do Grupo BCP, a ponto de ter assento no conselho superior desta instituição bancária;
- por que é que (será que tudo isto não tem ligação) tornou o Sporting refém do Grupo BCP, avalizando a título pessoal o endividamento quase exclusivo do Sporting perante aquele grupo na construção das infra-estruturas desportivas (Academia e Estádio), a ponto de o clube deixar de ter qualquer margem de manobra perante o BCP, que se dá ao luxo de impor as regras de contratação de jogadores (em que a eventual mais-valia de venda de jogadores só pode ser destinada à compra de novos atletas uma vez previamente satisfeitos os compromissos com aquela instituição bancária);
- se, no fundo, esta fúria do Dr. Dias da Cunha contra o Dr. Soares Franco mais não é do que uma luta dentro do Sporting entre o Grupo BCP (representado pelo Dr. Dias da Cunha) e o Grupo BES (representado pelo Dr. Soares Franco).»

quinta-feira, 15 de março de 2007

Pequenas histórias - 1

Guardadas pelas árvores
de braços longos

As vacas, guardadas pelas árvores de braços longos, enquanto não chegam nem o maioral nem o cão, cansados, os dois muito cansados das voltas que foram dar à cidade, o maioral nos departamentos de subsídios – à criação, ao desenvolvimento, à farinha e, entre outros, à boa compleição – e o cão em coisas mais terra-a-terra, como os caixotes de lixo ou alguma sarjeta bem abastecida. As árvores fazem-se obedecer, em silêncio, como se mandassem na planície por simples determinação dos deuses. E nem uma cobra sequer o desconhecesse.

Numa rua de Évora

Numa rua de Évora, um homem a caminhar. Calmamente. Tem uns livros debaixo do braço; pelo menos é essa a ideia que dá. A verdade é que não se percebe bem o que leva. Já comecei a habituar-me a esta imagem, ou melhor, a este bocadinho de imagem. «A livraria do senhor Sapinho Júnior ficava perto da Praça do Giraldo, o centro da cidade. Eu imaginava que seria numa das muitas ruelas que pareciam esperar pelos transeuntes para de repente os aprisionarem com um avanço das paredes dos edifícios, que nalgumas zonas tinham pouco mais de dois metros a separá-las.»

quarta-feira, 14 de março de 2007

Uma entrevista

Não é a entrevista que fiz com o Ondjaki, que referi no post anterior, mas uma outra. Uma vez entrevistei a Margarida Rebelo Pinto para a revista que dirijo («Pessoal»). Foi no início de 2004, tinha acabado de sair o seu romance «I'm In Love With a Pop Star». Começava assim…

Margarida Rebelo Pinto
«Há sempre um Tulius Detritus»

Tulius Detritus, esclareça-se, para quem não leu «A Grande Zaragata», de Asterix, é «uma personagem nojenta que cheira a arenque fumado e anda constantemente a fomentar a discórdia». O esclarecimento tem por base uma opinião de Margarida Rebelo Pinto, quando fala do ambiente que se vive em muitas empresas. Conheceu poucas, especialmente das grandes, onde o ambiente fosse saudável, e mesmo nessas havia sempre o tal Tulius Detritus.

Mas isso foi há alguns anos, ou melhor, há alguns anos atrás, como agora existe muito quem diga no Portugal pós-modernista. Margarida Rebelo Pinto andava então pelo mundo das empresas, mas agora, nesse Portugal pós-modernista, já escritora e com vendas a tocar o meio milhão de exemplares, é ela o pomo da discórdia. Não porque se comporte como a personagem da «Zaragata» de Asterix, mas porque por mais leitores que tenha há quem não lhe reconheça o mérito. «Vulgarólogos» e «impotentes literários», assim os caracteriza uma mulher que fala da sua carreira como se estivesse a apresentar um plano de acção para uma empresa a sério.

Estamos numa publicação ligada a temas de gestão, portanto, ao mundo das empresas. Esse mundo raramente aparece reflectido na literatura portuguesa. O que acha que contribui para que ele não seja um cenário literário, digamos assim, tradicional?
Os escritores portugueses, em geral, vivem sob um certo isolamento e há uma cultura, ou ditadura, literária que dita os temas e os ambientes sobre os quais se deve escrever para se ser reconhecido. Nisso, como em tantas outras coisas, o país e a sua cultura estão atrasados e são ainda muito provincianos.
Os seus livros são um pouco uma excepção. Neles desfilam personagens que trabalham, que têm profissões, não apenas o costumeiro médico, ou o professor, ou o empregado de escritório, que às vezes dá para tudo... O que é que a levou a tomar essa opção?
Eu escrevo sobre o que conheço; como trabalhei mais de 10 anos na imprensa e em agências multinacionais de publicidade, é normal que vá buscar a esses ambientes personagens que, afinal, têm a ver com a nossa existência quotidiana.
E que mundo é este das empresas, para si? Uma personagem sua dizia a certa altura: «quando olho para trás e me lembro que dei sete anos da minha vida às maiores multinacionais do mercado até me dá náuseas.» Será um mundo saudável?
De forma alguma. As empresas podem ser verdadeiros infernos, se os líderes não as souberem gerir do ponto de vista humano. E não há nada mais difícil de gerir do que pessoas… Conheci poucas empresas grandes com ambiente saudável e mesmo nessas havia sempre um Tulius Detritus – aquela personagem nojenta que cheira a arenque fumado e anda constantemente a fomentar a discórdia em «A Grande Zaragata», do Asterix. Por outro lado, há pequenas e médias empresas muito saudáveis, onde o factor humano é uma prioridade. A Oficina do Livro, por exemplo, é assim: toda a gente gosta do que faz, sabe qual o seu papel, há espírito de equipa e de entreajuda. Mas são pouco mais de 10 pessoas.

Bom, a entrevista não acaba assim. Há muito mais. Está a versão completa no portal «RHonline», mais concretamente aqui.

segunda-feira, 12 de março de 2007

Textos sobre livros – 18

A propósito do post ali de baixo, com mais um bocadinho do meu livro… Entre tantos escritores que lá aparecem está o angolano Ondjaki. A certa altura, por exemplo, alguém diz assim: «Bom, eu queria resolver logo o assunto do escritor Ondjaki, mas surgiu aqui uma situação inesperada. Posso voltar a ligar-lhe um pouco mais tarde?» Eu uma vez escrevi sobre um livro de Ondjaki, e antes já o tinha entrevistado. Deixo a seguir o texto sobre o livro, o último que ele publicou. A entrevista, bom, essa pode ser que um dia a coloque aqui.

Livro: «E Se Amanhã o Medo», de Ondjaki (Caminho, 102 pp.)

Um sorriso leve

Segundo livro de contos de Ondjaki, um jovem autor de Angola que nos últimos anos tem vindo a publicar com frequência, entre ficção, poesia e até uma narrativa para crianças. Pequenas histórias plenas de magia, desembaraço e imaginação que nos fazem quase sempre chegar um sorriso.

Uma das vinte histórias de «E Se Amanhã o Medo» chama-se «Amarela». Pedi ao autor se ele a podia escrever para uma revista que dirijo e ele acedeu. Saiu há alguns meses e na altura, como agora, maravilhou-me. Trata de uma «consulta de viajante» e eu ouvi Ondjaki contá-la há pouco mais de um ano [escrevi este texto em meados de 2005], num convento que fica no alto de uma colina, em Montemor-o-Novo. O debate era sobre viagens e Ondjaki, na primeira intervenção, que se pretendia curta, falou dessa consulta, feita antes de uma viagem. Era para falar pouco, mas acabou por falar muito, pois contou a história, deixando a assistência maravilhada. Creio que algumas pessoas foram comprar o seu romance acabado de sair na altura, «Quantas Madrugadas Tem a Noite», à venda numa feira do livro que estava a decorrer no convento, pela maravilha de terem ouvido aquele contador de histórias, um contador que depois foi convidado para integrar a apresentação de um livro de Clara Pinto Correia onde participaram a autora e José Eduardo Agualusa. E assobiou, fartou-se de assobiar enquanto Clara Pinto Correia cantava. E antes, já me esquecia, durante o debate, já tinha descoberto ali, em directo, que era primo de um dos outros participantes, o médico Fernando Nobre, presidente da Assistência Médica Internacional (AMI).
Tudo isto se passou em duas horas, uma sucessão de acontecimentos. A mesma sensação fica de «E Se Amanhã o Medo»; há sempre coisas a acontecer com Ondjaki, e ele se quiser escreve uma história logo a seguir. Poderia ser um contador de histórias, contando-as a toda a hora. A imaginação não pára. Vi-o, também em Montemor-o-Novo, numa escola, a apresentar o seu livro infantil, «Ynari, a Menina das Cinco Tranças», e ele contou aos miúdos uma história de um amigo de infância que saltava de guarda-chuva de uma janela alta, fazendo de pára-quedista. Acredito que um dia hei-de vê-la num livro, em algumas páginas, ou pequenina, bem pequenina, como a da filha de um piloto japonês que em «E Se Amanhã o Medo» me fascinou. O piloto preparava-se para o derradeiro voo. Ao despedir-se da família «crê-se que chegou a dizer: Bem, é certo que não voltarão a ver-me!» Mas «a filha mais nova, a que menos chorava», disse que haveria sempre de voltar a vê-lo, nos seus sonhos. «O piloto japonês sorriu.» Deve ter sido um sorriso leve, pensativo, como aqueles que nos chegam no final de muitas das histórias deste livro.

domingo, 11 de março de 2007

Os montes mesmo a sério

Mais um bocadinho do meu romance que sairá no próximo mês de Maio (ed. AMBAR, colecção «Literatura Universal»). Já escrevi aqui que se passa no Alentejo, nomeadamente em Évora e também Montemor-o-Novo, mas por vezes acontecem umas saídas, para Lisboa, para Santarém, até para a minha terra, nas serranias do Algarve (com montes mesmo a sério, como os da foto). Por exemplo:
(...) Já era o Alentejo próximo da serra algarvia, com uns montes de vez em quando, antes dos montes mesmo a sério da Serra de Monchique; aqueles montes que a par com os da Serra do Caldeirão pareciam querer proteger o Algarve de alguma doença que a planície lhe pudesse pegar, ou como se quisessem eles mesmos não deixar saltar para a planície algo de que tivessem orgulho, que quisessem à força de rochas e terra, tanta terra, guardar apenas para as gentes do extremo sul e que nem pelas estradas, ou pela auto-estrada, fosse capaz de passar. Os montes grandes da Serra de Monchique, despidos pelos incêndios dos últimos anos, despidos a cada Verão, com as chamas a queimarem perante os olhares dos mirones que já começavam a criar a moda do turismo do fogo, perante os olhares dos bombeiros que só as combatiam no resguardo das estradas de alcatrão, perante os olhares de cada político pulha, daqueles que andavam de um lado para o outro a fazer marcação cerrada às câmaras das televisões e de faro fixado num qualquer odor que à pressa imaginavam libertar-se dos gravadores dos jornalistas. (…)

sábado, 10 de março de 2007

A realidade

De volta à realidade, depois da ficção ali de baixo… Sporting – 3 (João Moutinho, Yannick Djalo 2), Estrela da Amadora – 1. Dá gosto ver um jogador normal (Abel) no lugar de Caneira (castigado para este jogo); a mesma coisa para Miguel Veloso (pode ser que Custódio tenha ficado mesmo esquecido e acabe por ser transferido para algum clube que vá na conversa); e Polga, será que enquanto estiver no plantel alguma vez o veremos trocado por um verdadeiro defesa central?