sábado, 10 de março de 2007

Justificar os ordenados

Paulo Bento, como há dias referi, agora deu-lhe para a asneira. Citado pelo «Record», disse que «considera que a melhor forma dos [de os] jogadores leoninos ultrapassarem o incómodo de ver os vencimentos divulgados na imprensa» seria «’justificarem em campo aquilo que ganham’».
Imaginemos então que justificavam já com o Estrela da Amadora. Por exemplo, uma equipa habitual de Paulo Bento… Ricardo (Rui Patrício aos 80 minutos); Caneira, Polga (Miguel Veloso aos 89 minutos), Tonel e Tello; Custódio (cap.), João Moutinho, Romagnoli e Nani (Carlos Martins aos 20 minutos); Liedson e Bueno.
Imagine-se o que poderia acontecer no jogo de hoje, se todos justificassem o que ganham… Poderia o Sporting ganhar, por exemplo, por seis a um? Talvez. E as notas seguintes, poderiam elas ser bem mais do que apenas um sonho? De novo talvez.
- Liedson (110.000 euros): cinco minutos em campo, dois golos; pode-se perguntar o que teria acontecido ao Estrela da Amadora se o árbitro não lhe tivesse dado ordem de expulsão.
- Bueno (73.000 euros): foi um autêntico leão; sozinho no ataque depois do vermelho a Liedson (amarelo a festejar o primeiro golo aos três minutos tirando a camisola, segundo amarelo e consequente vermelho por ter tirado os calções no segundo, aos cinco minutos, ainda por cima com um estádio cheio de mulheres); mesmo sozinho, Bueno desbaratou a defesa adversária, marcou um golo e ainda atirou três bolas ao poste e uma à barra; não se percebe como é que era suplente de Pauleta em Paris.
- Nani (12.000 euros): mais uma vez ficou a perceber-se por que é que ninguém concorda com a sua inclusão no plantel; vinte minutos em campo quase sem tocar na bola; bem substituído por Carlos Martins (30.000 euros, exibição agradável).
- Romagnoli (66.000 euros): o maestro da equipa e o ídolo dos adeptos; passa muita coisa por ele na equipa do Sporting (além de euros, obviamente).
- João Moutinho (32.000 euros): tarda a afirmar-se na equipa; pouco aplicado, mais uma vez ouviu alguns assobios das bancadas, mas tem a desculpa de desta vez a assistência ter sido maioritariamente feminina.
- Custódio (26.000 euros): mesmo com o seu habitual receio em aventurar-se para terrenos mais avançados, foi o capitão de que a equipa precisava (autoritário, enérgico, lutador, carismático); por vezes fica a sensação de que compensa aquilo que não joga com aquilo que manda os outros jogarem.
- Tello (25.000 euros): cumpriu na defesa e ainda desceu algumas vezes pelo seu corredor, causando algum embaraço na defesa adversária.
- Tonel (24.000 euros): certas limitações foram sempre compensadas pela presença do seu brilhante colega do eixo da defesa.
- Polga (54.000 euros): como diria Rui Oliveira e Costa, «empolgante»; anulou o ponta-de-lança do Estrela da Amadora, disfarçou as limitações de Tonel, construiu jogadas capazes de deixar envergonhado, por exemplo, Ricardo Carvalho, e em duas das múltiplas descidas ao ataque marcou dois golos (cabeceamento num canto e remate de longe depois de uma cavalgada de uns bons cinquenta metros); substituído a um minuto do fim para a ovação merecida (não se percebe como na altura da sua contratação houve dúvidas entre o brilhante Polga e um outro central brasileiro, Anderson, um jogador limitadíssimo, embora esforçado, que Scolari levou ao mundial de 2002).
- Caneira (68.000 euros): simplesmente fantástico (raça, velocidade, brilhantismo, técnica, magia…); anulou o extremo esquerdo da Amadora, ajudou no centro da defesa e desceu pelo seu corredor como uma autêntica gazela, sem falhar nem um dos centros que fez (várias dezenas); duas cerejas no topo do bolo desta exibição, o golo depois de driblar seis adversários e picar a bola por cima do guarda-redes e a grande penalidade que converteu de forma irrepreensível (como Panenka na final do Europeu de 1976 e Hélder Postiga contra a Inglaterra em 2004); percebe-se agora por que é que o Valência mandou este genial futebolista para um campeonato obscuro como o português, a ver se assim (longe dos olhares dos grandes da Europa) o consegue manter nos seus quadros.
- Ricardo (75.000 euros): pouco ou nenhum trabalho (tinha à sua frente o intransponível Polga); substituído a dez minutos do fim porque (segundo depois confessou) já estava um pouco enervado com os piropos das milhares de fãs que tinha nas bancadas; o seu substituto (Rui Patrício, 2.000 euros) não chegaria a tocar na bola (até à saída de Polga o Estrela da Amadora nem se aproximou da baliza do Sporting, mas depois – com Caneira fora do campo a receber assistência – aconteceu algo que ninguém poderia imaginar, já nos descontos um jogador amadorense isolou-se e o jovem guarda-redes desmaiou de susto, sofrendo o Sporting um golo, ou melhor, um auto-golo, porque Tonel ainda empurrou a bola para a própria baliza depois do remate do adversário); nas bancadas comentava-se que até se compreendia tantos nervos numa estreia, ainda por cima com a idade de júnior, mas que se tivesse sido o brilhante Ricardo a estrear-se, nem que fosse com a idade de juvenil, até uma grande penalidade haveria de defender.
Bom, resultado final… Sporting – 7, Estrela da Amadora – 1 (Liedson 2, Bueno, Polga 2, Caneira 2; Tonel na própria baliza).
Uma nota mais… Em relação a Paulo Bento não se conseguiu perceber se teve ou não mérito nesta estrondosa vitória (o seu salário não foi divulgado, nem o do seu treinador principal que faz o papel de adjunto). Já Filipe Soares Franco, esse sim, esse teve mérito, pelo que se imagina que ganha por ser presidente do Sporting (Carlos Freitas, Rui Meireles, Miguel Salema Garção e outros com cargos parecidos no clube – sade? – também deverão ter tido algum mérito).

sexta-feira, 9 de março de 2007

O que se paga no Sporting


Reproduzo a seguir a lista de vencimentos de jogadores da equipa profissional do Sporting (e não só da do Sporting, como se pode ver por algumas informações entre parênteses), divulgada pelo site Sportugal.pt. Uma rápida leitura dá para perceber logo uma das razões para a equipa estar no estado em que está. A mesma rápida leitura dá também para perceber que o Sporting é gerido por gente que não tem a mínima ideia do que é gerir pessoas, seja em que organização for, muito menos num clube de futebol. O que está a verde são comentários meus.

Liedson - 110 mil euros
Ricardo - 75 mil euros (devia pagar o ordenado de Tiago e Rui Patrício para jogar no Sporting)
Bueno - 73 mil euros (devia pagar o ordenado de Alecsandro para jogar no Sporting)
Caneira - 68 mil euros (devia pagar o ordenado de João Moutinho, Nani, Djaló e Pereirinha para jogar no Sporting)
Romagnoli - 66 mil euros (devia pagar o ordenado de Carlos Martins para jogar no Sporting)
Polga - 54 mil euros (devia pagar 90% do ordenado de Liedson para jogar no Sporting)
Paredes - 54 mil euros (devia pagar, a meias com Farnerud, o ordenado de Miguel Veloso para jogar no Sporting)
Alecsandro - 52 mil euros (devia pagar o ordenado de Ronny para jogar no Sporting)
Farnerud - 44 mil euros (devia pagar, a meias com Paredes, o ordenado de Miguel Veloso para jogar no Sporting)
J. Moutinho - 32 mil euros
Pinilla - 30 mil euros (talvez até pudesse estar no Sporting)
C. Martins - 30 mil euros
Abel - 30 mil euros
Custódio - 26 mil euros (devia pagar os ordenados de Paulo Bento e restante equipa técnica para jogar no Sporting, além de 10% do ordenado de Liedson)
R. Tello - 25 mil euros
J. Alves - 25 mil euros
L. Loureiro - 25 mil euros (emprestado ao E. Amadora) (quem sabe não poderia ser pago directamente por Filipe Soares Franco)
Tonel - 24 mil euros
Tiago - 22 mil euros
Ronny - 21 mil euros
M. Veloso - 20 mil euros
Djaló - 20 mil euros
M. Garcia - 17 mil euros
Varela - 13 mil euros (emprestado ao V. Setúbal) (talvez pudesse pagar o ordenado de André Marques)
Nani - 12 mil euros
Pereirinha - 10 mil euros
André Marques - 10 mil euros (emprestado ao O. Moscavide) (talvez pudesse pagar o ordenado de Rui Patrício e assim aliviar um pouco Ricardo)
Nuno Santos - 9 mil euros (emprestado ao V. Guimarães) (talvez o Guimarães lhe pudesse pagar)
Wender - 6 mil euros (vinculado ao Sp. Braga) (talvez os seis mil euros devessem ser pagos por José Peseiro, que arranjou a confusão)
R. Patrício - 2 mil euros (júnior, foi titular com o Marítimo)

Textos sobre livros – 17


Livro: «Na Pista da Dança», de Fernando Sobral (Teorema, 184 pp.)

Saiu um novo romance de Fernando Sobral. Chama-se «O Navio do Ópio» e a edição é da Oficina do Livro. Ainda não li (ou antes, li um bocadinho, porque espreitei um ficheiro com umas trinta páginas que em tempos o autor me enviou). O que deixo a seguir é um pequenino texto sobre um romance anterior de Fernando Sobral, chamado «Na Pista da Dança» e de cuja leitura gostei muito.

«Na Pista da Dança», assim se chama, primeiro romance do jornalista Fernando Sobral (saiu em 2000), oferece-nos a possibilidade de olhar para um mundo de onde a ficção costuma andar afastada. Pelo menos a ficção portuguesa. É o mundo da música, entre o rock e a tecnho, no meio de copos, raves, sexo e droga, com a Internet e a cada vez mais velha e gasta nova economia sempre de soslaio. No Barreiro, na ressaca da grande aventura industrial da margem sul do Tejo. «Os subúrbios têm segredos», pode ler-se na badana. «Escondem muitas coisas que não nos querem dizer. Sabem demasiadas coisas que não nos podem revelar. São territórios que muitos julgam conhecer, mas que nunca conhecerão.» Pior ainda, e pegando numa imagem feliz do autor, «se são subúrbios com subúrbios à volta».
Um mundo povoado de gente pouco afeita a grandes combates, sem paciência para mais revoluções. O mundo deste livro. «O Barreiro já não era nem uma cidade industrial nem um subúrbio. Pelo contrário, tornara-se, a pouco e pouco, um território deserto, ocupado ao fim de semana pelos jovens dos subúrbios que se tinham criado à volta.» O mundo de Rita, a jovem vocalista dos Croma, que não acredita em bruxas, embora admita que se alguma vez existiram no Barreiro «já foram todas de barco para Lisboa». E o mundo de David Guerra, ou apenas David, regressado de Cabo Verde com a ideia fixa de fazer uma editora discográfica, que talvez alguém se encarregue de transformar numa dotcom.
No Ás de Copas, o «bar da moda» do «subúrbio com subúrbios à volta», David e Rita… «Ela sentou-se e David não deixou de a achar bonita. Morena, muito morena, com uns olhos verdes que pareciam ainda mais brilhantes naquele cruzamento de cores do bar./ – Desculpe ter pensado neste sítio, mas é quase sempre um hábito para mim nos últimos tempos. – Não faz mal. Eu não conhecia. Foi aqui que mataram aquela rapariga, há uns anos, não foi?/ David acenou com a cabeça. Perguntou-lhe o que queria beber e pediu dois runs. O dela é Cuba Livre. Depois falou-lhe da sua ideia de fundar uma editora. Um sonho que estava quase a concretizar-se. A culpa é de ter passado anos a ouvir rock, entre ganzas e cervejas. Ia chamar-se Pirotechnia. Rita riu. Eu não gosto muito de tecnho, disse. Nem eu espero que goste, disse David. A única razão porque se chama assim é porque gosto de fazer trocadilhos com as palavras.» É apenas o primeiro encontro dos dois. Num bar do «subúrbio com subúrbios à volta».

Já fora do pequeno texto sobre «Na Pista da Dança», uma nota relativa ao autor. Fernando Sobral começou no jornalismo no «DN Jovem», o histórico suplemento do «Diário de Notícias», tendo trabalhado depois nos jornais «Semanário», «O Independente» e «Diário Económico». Foi também chefe de redacção do jornal «Se7e». Actualmente, é jornalista do «Jornal de Negócios» e colaborador do «Correio da Manhã» e da revista «Sábado».

quinta-feira, 8 de março de 2007

Palhaço indigno e outras coisas do Sporting


Outro comentário, deixado ali abaixo, sobre o «palhaço indigno», expressão criada por Eduardo Barroso durante um descontrolo que teve na última segunda-feira em directo na Antena 1… «Um palhaço indigno é todo o espectador de futebol que se recuse a aceitar o futebol como aquilo que deveria ser sempre: apenas um jogo./ O Pedro Tochas é um grande palhaço (premiado internacionalmente). Mas há palhaços que são indignos. Aqueles que não percebem que um sorriso de criança pode ser uma coisa preciosa./ O futebol está cheio de bandalhos. Não metam os palhaços nisto. Ricos ou pobres.»
Apesar de não ser novidade para mim, não consegui deixar de intrigar-me com a despropositada parcialidade de Eduardo Barroso (a teima de que Liedson não merecia ter sido expulso em Leiria). Não basta o Sporting estar completamente descredibilizado pelos seus responsáveis, ainda aparecem os adeptos com estatuto de comentador a dizer asneiras em programas de grande audiência. Como se não bastasse, depois de ouvir a figura triste de Eduardo Barroso, dei com Rui Oliveira e Costa na televisão a insistir no assunto e depois a meter-se a opinar sobre alguns jogadores do Sporting. Ajudou-me a perceber que muitas vezes são os próprios adeptos do clube que ajudam a afundá-lo ainda mais, pela parcialidade e pelo desconhecimento que revelam. A certa altura, Rui Oliveira e Costa meteu-se a jogar com as palavras e a falar do empolgante Polga no jogo de Leiria, presumo que por causa de uma das corridas à maluca do medíocre, embora esforçado, central do Sporting. Caneira, outro do género de Polga, com a agravante de lhe faltar a capacidade de luta do colega, não foi referido, mas creio que poderia muito bem ter sido, se a Rui Oliveira e Costa tivessem dado mais uns minutos de análise. Mesmo assim, este comentador ainda teve tempo para lamentar a substituição de Romagnoli pelo, como ele dizia, «Parreirinha». Os comentadores do Porto e do Benfica bem que tentaram corrigi-lo, mas ele nada, insistia no «Parreirinha». «Parreirinha» para aqui, «Parreirinha» para ali… E por isso o jovem substituto de Romagnoli, Bruno Pereirinha, ficou por nomear no programa.
Nisto do «Parreirinha» (provavelmente na foto acima), Rui Oliveira e Costa fez-me lembrar um dirigente do Sporting (creio que um que em tempos se especializou em navios de cruzeiro atracados, vazios e alugados a peso de ouro) que uma vez numa entrevista a um jornal se meteu a falar da festa que fez no jogo do título de 1982, ainda um jovem, em Alvalade e curiosamente contra o Leiria; um jogo com uma vitória por três a zero. Dizia que nunca mais se haveria de esquecer dessa festa. Mas não, não era nada disso; ele já se tinha esquecido. A festa foi a do título de 1979. A de 1982 foi bem diferente, embora a vitória tenha sido também por três a zero, ou antes, zero a três; foi num jogo no Estoril, na ante-penúltima jornada, sendo um dos golos marcado de muito longe. Depois ainda haveria um jogo de sete a um (em Alvalade com o Rio Ave, talvez prenúncio dos sete a um de quatro anos depois com o Benfica) e na despedida do campeonato uma derrota nas Antas por dois a zero, com um avançado portista minúsculo (Jacques) a ganhar por um golo (o que marcou nesse jogo) a Bola de Prata a Jordão (27 contra 26). Seria pedir muito, pela tradição destes últimos anos, a um dirigente do Sporting que se recordasse destas coisas correctamente. E a Rui Oliveira e Costa? E, já agora, a Eduardo Barroso, o criador da expressão «palhaço indigno»? Seria também pedir muito? A verdade é que não sei.

terça-feira, 6 de março de 2007

O lateral

Este post não é sobre o treinador que aparece na foto, mas sobre outro, precisamente o que hoje foi eliminado por ele. Entre muitas das considerações que o treinador eliminado fez retive uma sobre o golo que deu a vitória ao Chelsea sobre o Porto. Disse Jesualdo Ferreira que aquele golo era típico das equipas inglesas. Achei piada. Um cruzamento longo para a área, os centrais do Porto às aranhas, um jogador da Costa do Marfim cabeceia para um da Ucrânia, que por sua vez cabeceia para um da Alemanha, e este faz o golo. Assim aconteceu a vitória do Chelsea, uma equipa treinada por um português (que tem adjuntos de Portugal e do Brasil) e pertencente a um multimilionário russo. Mas atenção, o cruzamento foi feito por um defesa lateral inglês.

Ainda aquilo do palhaço indigno

Ainda a propósito do que escrevi ali abaixo, depois do empate do Sporting em Leiria e do descontrolo radiofónico de Eduardo Barroso, deixo aqui excertos de duas das mensagens que recebi a propósito da pergunta que fiz, se alguém me sabia dizer o que é um palhaço indigno. A primeira apareceu nos comentários ao post. A segunda foi apenas para o meu endereço de e-mail. Primeira: «Um palhaço indigno é aquele que devia ser expulso da Ordem dos Palhaços, a qual se não há devia de haver, até porque o país está cheio deles, mais até dos indignos, porque os dignos ainda se dignam ganhar a vida dignissimamente. O palhaço indigno faz falsas palhaçadas, porque devia estar quieto e não torrar o dinheiro e o juízo ao portuga. O palhaço indigno é digno de profundo desprezo.» Segunda, mais um reparo do que uma resposta: «Atenção, há palhaços muito dignos. Em miúdo adorava vê-los a calcorrear os palcos circulares, cheios de cor e de música…»

Textos sobre livros – 16


Livro: «Parque Gorki», de Martin Cruz Smith (Edições ASA, 456 pp.)

Num mundo desaparecido

Um dos mais notáveis romances sobre um mundo desaparecido, o da Guerra-fria, escrito poucos anos antes da queda do Muro de Berlim e da derrocado da União Soviética. «Parque Gorki» é o primeiro título de uma trilogia do escritor norte-americano Martin Cruz Smith.
Uma noite escura. Um Inverno ameno. Os faróis ofuscantes da carrinha de uma brigada de homicídios. Estamos em Moscovo, no célebre Parque Gorki. Da neve que cobre o parque surgem três cadáveres. Talvez «um trio embriagado de vodka que morrera alegremente de frio». Seria um trabalho comum para a brigada de homicídios. Mas não, os três cadáveres têm também por perto, e com um estranho interesse, gente do KGB. Não são bêbados mortos de frio, são três desconhecidos, com os rostos e os dedos mutilados; quem lhes levou a vida parece ter querido esconder as suas identidades para sempre, esconder tantas coisas.
É a partir deste episódio que começa uma investigação do polícia criado por Martin Cruz Smith, representado no grande ecrã – no caso de «Parque Gorki» – por William Hurt (o romance, escrito no início da década de 1980 foi rapidamente adaptado ao cinema por Michael Apted, tendo Hurt a seu lado nomes como Lee Marvin, Joana Pacula ou Brian DeNehy). Chama-se Arkadi Renko esse polícia e é filho de um herói soviético da segunda guerra mundial, a quem parece ter desiludido. «A estas horas podias ser general. O filho do Govorov comanda a região militar de Moscovo inteira. Com o meu nome ainda podias ter subido mais alto. Bem, eu sabia que não tinhas tomates para comandar a unidade de blindados mas, pelo menos, podias ter-te tornado um desses imbecis da secreta.» Isto diz o general ao filho, já «comido de cancro, bichoso», comido também pelas recordações, devorado por elas, sem um mínimo de piedade.
Mas Arkadi Renko não é bem o que diz o velho general. O pacato polícia, que tem por missão investigar os crimes banais de uma cidade que a ditadura comunista transformou num lugar onde nada acontece, vai viver a aventura da sua vida, estranhamente uma aventura que não parece representar nada de novo para ele. A procura da verdade vai levá-lo para bem longe do seu mundo limitado, e ele mantém-se imperturbável, seja com a vida pessoal completamente de pantanas, seja às voltas com o KGB, seja bem longe, no coração da própria América.
Esta primeira aventura de Renko (a ASA prevê publicar proximamente as outras duas, «Havana Bay» e «Red Star») acaba por constituir um retrato por vezes minucioso de uma União Soviética em decadência, devassada pelos espartilhos do regime de Moscovo, pela corrupção das elites e por uma miséria que parece endémica. É sem dúvida uma viagem apaixonante a um mundo desaparecido, o da Guerra-Fria, um mundo de cuja implosão ficaram muitos estilhaços. Recomenda-se cuidado nos pormenores, pois a história que Martin Cruz Smith conta tem por vezes aspectos à primeira vista um pouco confusos.

Alguém me sabe dizer o que é um palhaço indigno?

Leiria – 0, Sporting – 0. Cheguei há bocado a casa (ou como diria o Alberto João Jardim, «há pedaço»). De Lisboa até aqui (é depois da estrada que coloco na foto), entre outros programas ouvi um da Antena 1 sobre futebol, com um comentador do Porto, outro do Benfica e outro do Sporting. O do Sporting era (acho que sempre tem sido) Eduardo Barroso. Estava de cabeça perdida e ameaçava mesmo desistir de participar em programas do género daquele (e incitava outros sportinguistas comentadores a fazerem o mesmo). O problema era o jogo de ontem, sobretudo a confusão que antecedeu a expulsão de Liedson. Não concordava com ela. Achava que Liedson não agrediu ninguém. Depois já achava que sim, mas que não era bem uma agressão e que por isso não dava para cartão vermelho; já só pensava no amarelo a Rossato, um defesa brasileiro do Leiria (um amarelo muito estranho, de facto), e num penalty a favor do Sporting, que bem poderia ter ajudado. Eduardo Barroso disparava «palhaços» a torto e a direito, ainda por cima «indignos», além, é claro, de «palhaçadas». O árbitro, o fiscal de linha que avisou o árbitro da agressão de Liedson, o agredido defesa do Leiria que ajudou à festa, tudo uns «palhaços», só que dos «indignos». Mas alguém me sabe dizer o que é um palhaço indigno?
É óbvio que Liedson foi bem expulso. Contrariamente ao que pensei logo a seguir, mesmo assim a equipa aguentou-se e poderia muito bem ter ganho nas calmas (e se alguns jogadores no momento de rematar tivessem tido calma). A ideia com que fiquei após o jogo foi a de que o Sporting está mesmo numa fase má para a qual parece não haver solução. Paulo Bento, a quem – volto a dizer – sempre apoiei para treinador, parece-me ultrapassado pelos acontecimentos e agora até já diz uma ou outra parvoíce no fim dos jogos. Os responsáveis do clube (ou da sade, ou lá o que é), desses é melhor nem falar para não ficar ainda mais pessimista. Com esses responsáveis (?) os problemas são bem mais graves do que aqueles dos desequilíbrios da equipa, em que à mistura com verdadeiros craques aparecem jogadores absolutamente medíocres. Temo que o Sporting esteja mesmo numa situação muito complicada, e mais do que apenas ao nível da equipa de futebol. Os problemas parecem-me estar a um nível global, com a gestão entregue a gente que cada vez mais se mostra absolutamente incapaz.

domingo, 4 de março de 2007

Segunda edição

Quarta-feira, 12 de Julho de 2006. Nesse dia publiquei aqui um pequeno texto intitulado «Não devia contar isto». Publico-o agora de novo. Parece-me actual, sobretudo devido às teimas do tipo que se pode ver na fotografia aqui ao lado; teimas em retirar a hipótese de milhares de portugueses terem acesso a serviços de saúde, mesmo que muito maus. Uma nota para um pormenor da fotografia. No púlpito aparece a expressão «novas fronteiras»; vem mesmo a propósito, pois as teimas que referi podem muito bem, com o passar do tempo, dar origem a novas fronteiras para Portugal, fazendo com que toda a zona interior passe a ser uma região de Espanha. O pequeno texto então, a itálico…
Eu andava para ir ao médico. Tinha-me aparecido uma borbulha que me parecia estranha e que nunca mais passava. Dias e dias e cada vez pior, até a formar um pequeno volume que me doía se fizesse pressão. A coisa preocupava-me. Tinha de ir mesmo ao médico, provavelmente a uma clínica a que por vezes recorria. Mas para algo assim eu não sabia a que especialidade ir. Então, talvez ir ao médico de família fosse o melhor… Mas isso devia demorar um ror de tempo, era o que eu pensava.
Um destes dias, a meio da tarde, uma tarde de calor, mesmo de muito calor, eu ia a conduzir pelas ruas de Montemor-o-Novo. E lembrei-me de ir ao centro de saúde, em tempos hospital, marcar uma consulta. A ver o que dava. Entrei e só vi dois funcionários, cada um no seu cubículo. Uma senhora e um rapaz. A senhora disse-me para falar com o rapaz. Eu disse que era para marcar uma consulta e acrescentei o nome do médico de família (que não conhecia, por ter recentemente transferido o processo de Lisboa).
O rapaz lá teclou umas coisas no computador e depois disse-me que era três euros e meio. Perguntei por quê, se estava apenas a marcar a consulta. E ele esclareceu-me que aquele era o dia em que o meu médico de família estava na urgência e que eu podia ser atendido (assim como poderia ser por outro médico se o dia fosse outro). Tinha consulta para a urgência.
Eu precisava de ir com o meu filho a Évora daí a duas horas. À pediatra (consulta privada, já se vê). O rapaz disse que dava tempo, e ainda me informou de que para consultas normais poderia fazer a marcação num sítio que ficava na outra ponta do centro de saúde. Depois mandou-me para a sala de espera.
Mesmo com o aviso do rapaz de que dava tempo, eu disse para comigo que se não fosse atendido na hora seguinte desistia, mesmo tendo pago os três euros e meio. Na sala de espera estava uma pessoa, que foi chamada quando eu ia a entrar. Levava uns papéis na mão, provavelmente para mostrar ao médico, pois saiu daí a uns cinco minutos. Fui chamado a seguir e conheci finalmente o meu médico de família. Disse-lhe ao que ia e ele não demorou muito a tranquilizar-me. Não era nada preocupante o que eu tinha; receitou-me um antibiótico e disse para tomar durante dez dias.
Eu não devia contar isto, porque se algum espertalhão armado em ministro da saúde sabe ainda manda encerrar o centro de saúde de Montemor-o-Novo e para a próxima tenho de ir a Évora, ou quem sabe a Badajoz.

Textos sobre livros – 15

Livro: «A Família de Pascual Duarte», de Camilo José Cela (Círculo de Leitores, 179 pp.)

O primeiro livro do viajante incansável
As linhas que vêm a seguir a este parágrafo foram escritas já há uns anos. São de um texto que fiz para uma rubrica sobre livros que tive numa rádio – o autor do livro em causa é o escritor galego Camilo José Cela (1916 – 2002).
«A Família de Pascual Duarte», um romance que fez sair a literatura espanhola dos campos ermos em que se encontrava. É o primeiro livro do escritor espanhol Camilo José Cela, celebrado Prémio Nobel da Literatura em 1989. Em 1942, ano em que foi publicado pela primeira vez, constituiu uma autêntica revelação, pela audácia, pela originalidade do tema e pelo carácter bronco e desgarrado do clima humano que ressalta a cada página. Com este livro a literatura espanhola regressou ao mundo popular, o mundo campestre, povoado por seres absolutamente primários. Seres com instintos básicos e paixões selvagens que traduzem a barbárie ancestral de uma terra marcada pelo violência e pelo ódio. Em plena ressaca da Guerra Civil de Espanha, a um livro como este nada de bom se auguraria por terras de Espanha, onde um verme criminoso, baixote e barrigudo começava a deixar as suas marcas no papel de ditador. Assim, o livro teve a sua primeira edição na Argentina, o que não impediu um sucesso imediato. Haveria de tornar-se um dos mais lidos da língua castelhana.
Camilo José Cela nasceu na Galiza, em 1916, na localidade de Iria Flávia, filho de pai espanhol e mãe inglesa. Estudou Direito, Medicina e Filosofia, mas essencialmente acabaria por ser um escritor. Mais do que um romancista, um escritor, dono de um talento verbal difícil de igualar, com um estilo meticuloso, muito elaborado, misturando habilmente a rudeza e a ternura. A sua obra é multifacetada. Nela destacam-se os contos e, principalmente, os livros de viagens, como o célebre «Viaje a la Alcarria», incluído entre nós num volume das Edições Asa de título «Vagabundo ao Serviço de Espanha». Cela sempre foi um viajante incansável e provavelmente não há caminho em Espanha que não tenha calcorreado. Conheceu o êxito, mas também atraiu o ódio de muita gente, pela escrita, pelos temas que abordava, pelas opiniões que emitia. Tornou-se um dos mais traduzidos e estudados escritores espanhóis, mas também um dos mais polémicos. Nos últimos anos da sua vida, por exemplo, deram brado em Espanha as suas opiniões sobre a homossexualidade de Lorca.
O romance «A Família de Pascual Duarte» trata da história de um camponês dos arredores de Badajoz, filho de mãe espanhola e pai português (de seu nome Estêvão Duarte Diniz). A trama enquadra-se na perfeição no clima de ódio e vingança decorrente dos anos da guerra fratricida que envolveu o país vizinho. Camilo José Cela, curiosamente, dedica o livro aos seus inimigos, que – afirma – tanto o ajudaram na sua carreira. E autodenomina-se um «transcritor». É ele que acha o manuscrito de Pascual Duarte numa farmácia de Almendralejo, perto de Badajoz. É Almendralejo a terra de Pascual Duarte, uma terra que muitas décadas depois se tornaria bem conhecida com uma efémera subida do seu modesto clube, o Extremadura, à multimilionária primeira liga do futebol espanhol.
O «transcritor» acha que finalmente chegou a hora de publicar as folhas do manuscrito maldito (em 1942, três anos depois de o ter encontrado). «… só Deus sabe», diz ele, «que mãos desconhecidas ali as deixaram – fui-me entretendo de então para cá a traduzi-las, a ordená-las, uma vez que o manuscrito – em parte devido à má letra, em parte porque encontrei as folhas sem numeração e desordenadas – era pouco menos que ilegível.» Pascual Duarte, segundo Cela, «é um modelo de comportamento; não um modelo para imitar mas para ouvir; um modelo perante o qual apenas se pode dizer:/ – Vês o que faz? Pois faz o contrário do que devia.» E depois acrescenta: «... talvez seja essa a única razão por que o trago à luz».
Pascual Duarte, tal como o «transcritor», dedica o seu manuscrito. Se Cela o faz a todos os seus inimigos, Pascual é mais modesto. Dedica-o assim: «À memória do insigne conterrâneo Dom Jesus Gonzáles de la Riva, conde de Torremejía, que no momento em que o autor desta narrativa o ia matar, lhe sorria e lhe chamava Pascualzinho.» Dom Jesus Gonzáles de la Riva era o amante da mãe de Pascual Duarte. Tanto ele como ela morreram às mãos do descontrolado Pascual. Pascual que no fim do relato conta a parte do assassinato da mãe. E depois acrescenta: «Larguei-a e saí a fugir. Choquei com a minha mulher; apaguei-lhe a candeia. Alcancei o campo e corri, corri sem descanso, horas sem fim. O campo estava fresco e dava-me uma sensação de alívio que me inundava as veias.../ Podia respirar...»
Uma curiosidade final: já na década de 1990, bem depois de ter ganho o Prémio Nobel da Literatura, Camilo José Cela inscreveu-se num concurso literário. Fê-lo sob anonimato, como mandava o regulamento, e acabou por ganhar.

sexta-feira, 2 de março de 2007

Alface

«Deixem que esclareça um aspecto: dia em que o senhor Branco caísse na asneira de cogitar, de se debruçar sobre si próprio, meditando e especulando, empinando o juízo como se montasse um alazão a gasóleo, um dia assim era dia em que pessoa alguma conseguiria aguentar-se nas suas imediações. Nem mais perto.» Escrevia assim João Alfacinha da Silva (n. Montemor-o-Novo, 1949), que assinava os livros com o pseudónimo «Alface». Escrevia assim, e escrevia muito bem. É um bocadinho de um dos seus livros que fui roubar. Soube que morreu hoje. Uma notícia muito, muito triste.

Textos sobre livros – 14


Livro: «Diário Remendado – 1971-1975», de Luiz Pacheco (Publicações Dom Quixote, 286 pp.)

Imaginação para quê?

O diário de Luiz Pacheco em Massamá, com alguns cortes. Quatro anos que ajudam a compreender boa parte da sua vida, e boa parte da sua obra. Ou como o escritor libertino que chegou a duvidar da sua própria imaginação, afinal, teve sempre por perto matéria capaz de acudir a alguma eventual deficiência.
É uma sensação estranha a que me provoca a leitura do «Diário Remendado» de Luiz Pacheco. O autor, nascido a sete de Maio de 1925, começa o diário com 46 anos e termina-o com 50. E conta a sua vida, toda a enxurrada de acontecimentos (e desacontecimentos) que a vão tornando digna de nota, nem que seja nos cadernos onde vai escrevendo na casa alugada de Massamá. Só que a imagem que eu tenho de Luiz Pacheco – a imagem, entenda-se, imagem de foto; as ventas, ou as fuças, como talvez ele escrevesse – é a dos últimos anos: Pacheco já velho, no lar, mas com a desenvoltura de sempre no palavreado. E o «Diário Remendado» conta a vida dele a caminho dos 50 anos. Por isso é estranha a sensação (ainda por cima com as seis fotos do velho Pacheco na contracapa), eu a ler o que vai acontecendo na vida e na cabeça do escritor libertino, na primeira metade da década de 1970, e ao mesmo tempo com a imagem de um Pacheco de há poucos anos bem presente na minha cabeça. Daí a estranheza, e os esforços sucessivos que tenho de fazer para acreditar no que conta o autor sobre os seus dias – e os seus pensamentos, os seus sonhos, tantas coisas suas – de Massamá. Uma ajuda, no entanto, chegou-me há uns dias: um exemplar dos «Exercícios de Estilo» de Pacheco, a terceira edição da Estampa, com um Pacheco aí de uns 50 anos – parece-me – na capa; talvez consiga ler de forma diferente o «Diário Remendado» numa outra ocasião. Se mesmo assim não conseguir, problema meu, dirá muita gente (já Pacheco dirá coisa pior, por certo); mas adiante…
Veja eu a imagem de um velho a viver os acontecimentos do diário, ou faça já alguns progressos a ver o Pacheco aí com uns 50 anos da referida edição dos «Exercícios…», espanto-me com a sua vida imaginosa, com as suas tropelias por vezes inimagináveis, e continuo a ler. Não consigo desistir, por mais que o diário se meta por caminhos que, o mais certo, tratando-se de outro autor, seria fazerem-me arranjar-lhe logo um merecido (?) descanso na estante. Leio então, e espanto-me, é de novo a estranheza, mas não com a falta de verosimilhança de ver o tal Pacheco velho a viver as tropelias do Pacheco mais novo. É outra estranheza, a das dúvidas colocadas, a certa altura, pelo escritor libertino em relação à sua imaginação. Ele interroga-se… «E aqui bate o ponto que esta manhã me ocorreu: terei eu imaginação?» Continua no parágrafo seguinte… «A verdade, é fácil reconhecê-lo, é que até agora fiz muito pouco uso da imaginação nos meus escritos.» Depois mete-se a dar exemplos, referindo partes de escritos seus como «O Teodolito» ou «O Caso das Criancinhas Desaparecidas». Mais adiante escreve… «(…) das duas uma: ou não tenho imaginação que preste ou não soube até agora e por escrito fazer uso dela» E segue… «E esta hipótese lisonjeira é que me tenta. Se eu não tivesse imaginação nenhuma, como explicar então os meus sonhos quase todas as noites e à dúzia por noite? Ainda esta noite [de 27 para 28 de Abril de 1973, portanto], sonho portentoso e longo, a costumada viagem de comboio (necessidade de evasão?), agora com o Américo Thomaz e uma rapariga não identificada, mas em que me pareceu reconhecer, predominante na mistura de sugestões, a Rapariga da Testa Alta, por causa de quem escrevi ontem ao Jorge Ramos, poeta-bancário de Mangualde, o Manias que gosta de oferecer as mulheres aos amigos, convidá-los a irem para a cama com elas (a mim, com a Rapariga da Testa Alta, queria-me pagar dormida num hotel de Lisboa).
Parecem dúvidas desnecessárias estas do Pacheco a caminho dos 50, ou do Pacheco de agora. Porque a verdade é que não as retirou da edição que foi feita do diário, como fez com outras partes. Será importante saber se Luiz Pacheco tem ou não imaginação? Se a tem agora ou se a tinha em 1973, ou nalguma outra altura da sua vida em que escreveu? A vida de Luiz Pacheco, que é muito do que está na sua obra (e este diário é um exemplo disso), essa sua vida não será já suficientemente imaginosa para que ele dispense a imaginação quando escreve a contar o que lhe vai acontecendo e o que ele próprio vai fazendo acontecer? Talvez não tenha mesmo sido presenteado com uma grande imaginação, mas se tivesse, e em abundância, será que isso não teria contribuído para que na escrita contasse outras coisas e não aquilo que a ele próprio dizia respeito? Talvez conhecêssemos hoje um outro Luiz Pacheco, ou nem sequer o conhecêssemos. Isso é que seria, obviamente, de lamentar.