quarta-feira, 19 de dezembro de 2012
segunda-feira, 3 de dezembro de 2012
António Souto – Crónica (54)
... teimosamente o natal é sempre quando é dezembro e a chuva
e o frio nos lembram que a primavera ainda vem longe. Pior, o natal, como o
inverno da nossa meninice, entra-nos já pelos poros adentro logo nos primeiros
dias de novembro, sem pedir licença nem agasalho, acenando de costas voltadas
às andorinhas que abalam. Tudo em minúscula, tudo minúsculo…
Um natal de cansaço
Começo a ficar cansado de ouvir e ver tanto natal quando
chega a quadra natalícia, como se não houvesse mais nada para ver e ouvir. Se
ao menos o natal pudesse ser realmente quando o homem quisesse, a gente
inventava um quando nos apetecesse ou, então, o que era ainda mais fácil, a
gente riscava-o quando chegassem os primeiros bolos-reis apócrifos e as iluminações
de rua nos distraíssem da severidade da vida. Mas não, teimosamente o natal é
sempre quando é dezembro e a chuva e o frio nos lembram que a primavera ainda
vem longe. Pior, o natal, como o inverno da nossa meninice, entra-nos já pelos
poros adentro logo nos primeiros dias de novembro, sem pedir licença nem
agasalho, acenando de costas voltadas às andorinhas que abalam. Tudo em
minúscula, tudo minúsculo…
É verdade que este ano parece haver menos natal, está tudo
um bocadinho apagado, pelo menos aqui pelos meus lados, que não vejo luzes nas
avenidas nem nas praças, nem ainda nas janelas, só um ou outro pai-natal,
insignificante e esganado, numa ou noutra fachada dos prédios vizinhos, mas
mesmo assim tenho a certeza de que, mais dia, menos dia, o natal chegará a
valer, pela capital já cheira a ele, e, se não anda já à solta pelas artérias
do burgo, andará por certo em reboliço pelos centros comerciais todos que
existem num raio de vinte ou trinta quilómetros, e de sexta à noite a domingo à
tarde, não haverá lugar nos estacionamentos nem nos elevadores nem nas escadas
rolantes nem nos corredores labirínticos sobrepostos nem nas salas de cinema
nem em certas lojas que vendem roupa a preço fingido de saldo ou bugigangas de
iludir e de esvaziar a bolsa. E a ninguém causará perplexidade saber que há
quem se atole em natal quando o tempo é de lusco-fusco e o desalento se
entranha mais que o frio.
Por isso me cansa ouvir e ver tanto natal, e me cansa ainda
mais quando chove em vésperas de nevar e as palavras se tornam insuficientes
para tanto branco.
«Chove. É dia de Natal./ Lá para o Norte é melhor:/ Há a
neve que faz mal,/ E o frio que ainda é pior.// E toda a gente é contente/
Porque é dia de o ficar./ Chove no Natal presente./ Antes isso que nevar.//
Pois apesar de ser esse/ O Natal da convenção,/ Quando o corpo me arrefece/
Tenho frio e Natal não.// Deixo sentir a quem quadra/ E o Natal a quem o fez,/
Pois se escrevo ainda outra quadra/ Fico gelado dos pés.» (Fernando Pessoa)
Quando penso nisto, e muito embora não podendo a gente ter
um natal à nossa medida, vergo-me e reconheço que, de facto, pouco mais há para
ver e para ouvir do que o natal que nos vaticinaram, um mês inteiro só de
natal, um dezembro de natal todo minúsculo e amassado em azedume, e dentro dele
um brinde para nos decorar o presépio que deixaremos a um canto da sala, em
abandono, por largos anos, até que se dissipe o sonho que tivemos, um dia, em
crianças.
Cansaço apenas.
Crónica de Novembro
de 2012 de António Souto para o blog «Floresta do Sul»; crónicas anteriores:
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quarta-feira, 28 de novembro de 2012
Não vale a pena exagerar
Estamos mal no Sporting. Muito mal. Godinho Lopes é uma desgraça de um nível em que mesmo quem o julgava pouco indicado para o cargo de presidente do clube dificilmente poderia acreditar há cerca de um ano. Como eu. Mas também não vale a pena exagerar. Em rodapé, passa na TVI24 que o Sporting está a ter «o pior arranque de sempre da história». Não é, obviamente. É o pior arranque de sempre. E é o pior arranque da história. Pode-se dizer uma coisa ou outra, mas não as duas ao mesmo tempo. Só se for por causa do acordo ortográfico, que dá para tudo e privilegia a asneira. O presidente é mau. E também se pode dizer que é péssimo. Porque é verdade. Mas não é um mau/ péssimo. Ou é mau ou é péssimo – embora o péssimo, de certa forma, aplicando um raciocínio matemático, englobe o mau. Já o mau não pode englobar o péssimo. Não chega a tanto. Godinho Lopes é péssimo. Acho que isso basta. Mau/ péssimo talvez só se aplique ao caso extremo de José Eduardo Bettencourt. Que é – ou foi, felizmente –, que foi, dizia, um caso especial. Esse foi tudo. De sempre, da história, mau, péssimo, o que se queira. Godinho Lopes, agora, já se vê, persegue-o. Infelizmente, acredito que consiga apanhá-lo.
Nota: na foto, tomada de posse de Godinho Lopes como presidente do Sporting.
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sexta-feira, 9 de novembro de 2012
A maneira de escrever
«Os meus amigos do sportem (sim, tenho vários) devem estar como eu com o PSD. É morder a bala e deixar passar. De família não se muda...» Isto escreve o advogado e antigo deputado do PSD José Eduardo Martins no «Facebook». Não consigo perceber como pode escrever o nome do Sporting de forma adulterada e ao mesmo tempo escrever PSD de forma correcta. Ainda por cima quando o PSD é que está adulterado, como o país infelizmente tem comprovado, enquanto o Sporting se mantém na sua essência como um grande clube, apenas com maus resultados na equipa principal de futebol, situação que certamente irá mudar mais cedo ou mais tarde.
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José Eduardo Martins
terça-feira, 6 de novembro de 2012
sábado, 3 de novembro de 2012
Senhor presidente
O
presidente da Comissão Europeia no mais recente livro de José Rodrigues
Miguéis, perdão, de José Rodrigues dos Santos:
«…atirou
um olhar lúbrico para a cama. A loura vaporosa gemia baixinho com as dores.
Como habitualmente, aquilo excitou-o. Deixou o roupão cair na alcatifa, foi
buscar o chicote e, nu e erecto de desejo, abeirou-se da cama.
‘Anda, minha cabra’, rosnou,
desenrolando o chicote. ‘Prepara-te para o segundo assalto.’»
Nervos, muitos nervos
Uma conferência em Lisboa. Eu tinha de falar logo a seguir à abertura, tanto que saí de casa bem cedo, para não me atrasar no trânsito num dos acessos à cidade. Passava pouco das seis e meia da manhã, mas com a mudança de hora já havia alguma luz no montado. Talvez por isso, ao sair de casa, os cães e os gatos tenham percebido que a minha roupa – um fato escuro, uma camisa branca e uma gravata azul – era diferente da habitual. Ficaram a uma certa distância, indecisos, sem saberem se brindar-me com as brincadeiras do costume ou se com um ataque rápido em que eu não tivesse outra hipótese a não ser fugir o mais depressa que conseguisse. Decididamente, não tinham a certeza de quem eu era, vestido daquela forma.
Olhei para o relógio e senti a pressão do tempo. Por isso fiz um gesto de despedida, sem dizer nada, não fosse a minha voz ser capaz de entrar em casa e acordar os miúdos. Fui até ao portão, saí com cuidado para que não batesse e meti-me no carro. Depois da estrada de terra, que me demorou uns dez minutos a percorrer, conduzi depressa até Lisboa, e a verdade é que não me atrasei. Só que cheguei à conferência numa pilha de nervos. Tive até de parar um pouco na entrada do edifício onde ia decorrer – respirei fundo, durante dois ou três segundos, e só depois é que subi a escadaria que levava ao auditório. Havia uma pessoa a indicar o caminho, e até me perguntou se eu me sentia bem. Disse-lhe que sim, agradeci o cuidado e continuei.
Tinham-me avisado de que o auditório estaria cheio, e além disso eu sabia da presença dos presidentes das associações nacionais que integravam a confederação que promovia a conferência. Estavam representados seis países, todos de língua portuguesa. Vi logo as bandeiras mal entrei no auditório, ainda vazio. Faltava uns quinze minutos para começar o registo de participantes e por isso o movimento era pouco. Dava para preparar as minhas coisas à vontade. Ou seja, tinha valido a pena o esforço de sair de casa bem cedo. À noite – pensei –, ia voltar sem gravata e com o casaco debaixo do braço; de certeza que assim não haveria problema com os cães e os gatos. Por agora, o importante era afastar o nervosismo que ainda subsistia.
Admito que se pense que eu estava naquele estado por causa de ir falar na conferência. Mas não, não era nada disso. Eu estava assim por causa do sítio, que ficava pertíssimo da sede de um dos partidos da coligação que apoia o governo. Lembro-me de que só ao estacionar o carro reparei na sede, mesmo à minha frente. Só aí é que comecei a pensar na roupa que levava. Assim vestido, receei, havia o risco de ao sair do carro despertar a atenção de alguma das pessoas que passavam, ou de alguém que aparecesse à janela. Podiam confundir-me com um político da coligação, na volta até com algum secretário de Estado metido no governo pelo partido que ali tinha a sede.
Saí do carro com muito cuidado, a olhar para um lado e para outro. Podia ser atingido por alguma pedra, ou pior, por um ovo podre ou por um tomate bem maduro. Uma pedra, se conseguisse evitar que me acertasse na cabeça, era o menos, pois numa perna ou num braço poderia fazer no máximo uma nódoa negra. Mas o ovo ou o tomate haveriam de levar-me a desistir de aparecer na conferência. Ia dizer o quê? Peço desculpa, atiraram-me um ovo (ou um tomate, conforme o caso) depois de me terem confundido com um secretário de Estado, e pronto, deu nisto...
Fiz o caminho entre a zona da sede do partido e a entrada do edifício da conferência sem saber bem onde me enfiar. Não era a minha cara... Isso podia eu esconder olhando para baixo ou passando uma mão pelos olhos a fingir que tentava afastar o sono. Era a roupa. Eu só pensava na roupa. E daí os nervos. Cada metro até chegar ao edifício pareceu um quilómetro. Mas finalmente cheguei, e sem ser atingido. Na volta, algum milagre…
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Estes tempos
quinta-feira, 1 de novembro de 2012
quarta-feira, 31 de outubro de 2012
António Souto – Crónica (53)
Refundam-se, portanto, todos os
programas que houver; refundam-se todos os mandantes; refundam-se todos os
relvas; refundam-se todos os gostos fraudulentos; refundam-se todas as misérias
e as esperanças todas, e também a constituição e a democracia e a vida.
No refundar está a virtude
Os
portugueses têm experimentado, nos últimos meses, o pior de uma receita de
austeridade, um tratamento que, a avaliar pelos resultados, tem piorado a
doença e agravado o estado dos enfermos. Estamos doentes, estamos mal e
tendemos a estiolar.
A
solução está, por enquanto, em peregrinar. Da Praça de Espanha a Fátima,
passando pela Assembleia da República, que é onde mora a nação inteira,
marcha-se por causas, devoções e muita, muita fé. Protestos e luta com
intervenção musical e, à mistura, o soar de vozes e motes de Abril.
De
um enorme aumento de impostos, havido, passa-se para um aumento significativo
de impostos a haver. Maturidade, seriedade e competência saem como arrotos da
boca da governação. Culpa-se o estado social de viver acima das suas
possibilidades, constata-se inauditamente que os impostos dos contribuintes
estão abaixo do requerido, conclui-se por um ajustamento imprescindível dos
pratos da balança.
Bem
doutrinam entendidos de diferentes quadrantes para o perigo do desaire, bem
apostolam os ex-presidentes da república que da resignação à indignação vai um
curto passinho, ou que é chegada a hora de acabar com esta governança, ou que a
democracia pode rebentar, que nada, nada mesmo parece demover a brigada de
iluminados das suas convicções altruístas que a todo o custo teimam em levar à
letra, de forma desirmanada, os versos de Camões – «Não tornes por detrás, pois
é fraqueza/ Desistir-se da cousa começada». Só que a coisa começou torta, tem
crescido retorcida e exibe-se derreada.
E
assim, paulatinamente, regressamos da pior maneira às profundezas da nossa
civilização, como ao inferno, que é onde ardem já os gregos, como em ruínas. E
quando o impasse surge, nítido e incontestável, inventam-se eufemismos de rara
espécie e clama-se por «uma espécie de refundação». Ah, malditas palavras, que
tanto são uma coisa como são outra, que tanto são como não são… Se ao menos
isto fosse uma espécie de magazine para desenfado, mas não, isto é demasiado
sério para poder sequer ser entendido como rasgo de humor negro. E o presidente
que é, ninguém o sabe, embora ande por aí, facebookando, deixando que outros se
alvorocem e dêem sentido aos vazios.
«– Ó glória de mandar! Ó vã cobiça/ Desta
vaidade, a quem chamamos Fama!/ Ó fraudulento gosto, que se atiça/ C'uma aura
popular, que honra se chama!/ Que castigo tamanho e que justiça/ Fazes no peito
vão que muito te ama!/ Que mortes, que perigos, que tormentas,/ Que crueldades
neles experimentas!» Outra vez Camões, mas daquele que poucos lêem. Porque se
todos o tivessem lido, e com ele aprendido os vícios acusados, não estaríamos
no estorvo em que estamos e sem porto à vista. Mas não, para muitos, nem no
tempo certo nem noutro qualquer se colheram ou colherão os ensinamentos
fundadores do ser-se. Do ser cidadão. Para muitos, definitivamente, nem com
programa de ajustamento em novas oportunidades.
Refundam-se, portanto, todos os
programas que houver; refundam-se todos os mandantes; refundam-se todos os
relvas; refundam-se todos os gostos fraudulentos; refundam-se todas as misérias
e as esperanças todas, e também a constituição e a democracia e a vida.
Refunde-se tudo, porque
é na refundação que está doravante a virtude!
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António Souto,
Crónicas
domingo, 28 de outubro de 2012
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