quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Uma época diferente para os pequenitos


Está a começar mais uma época de futebol para os pequenitos. É uma época diferente em relação às anteriores, pois pela primeira vez faz-se sentir verdadeiramente a crise. Há clubes que já não conseguem participar com a mesma pujança com que o faziam antes (aparecem com uma equipa por escalão em vez de duas ou até três), e outros que simplesmente desistiram. Há miúdos que já não foram inscritos pelos pais. Já não se pode contar com o tradicional lanche que era distribuído no final, nem mesmo com os autocarros para o transporte. E até nos pequenos campos que são instalados em cada estádio para os torneios se nota faltas no material (uma baliza que fica sem rede, as fitas das marcações a não surgirem com a mesma fartura de antes e por aí adiante). Este pequeno mundo do futebol em que os miúdos se julgam Messis e Ronaldos também está a fazer, se bem que à força e sem períodos de adaptação, o seu ajustamento. Mas eles marcam golos na mesma, muitos, como sempre têm feito. Ontem, os que acompanho, marcaram 19 em quatro jogos (um deles na imagem) – e também sofreram alguns, o que é bom, para não ficarem a pensar que são os maiores.
Observo estas mudanças, como tantas outras na sociedade portuguesa, e não consigo deixar de pensar, entre outras coisas, nas filas de carros para os conselhos (de Estado e de ministros), filas compridas e topo de gama, como antes, como provavelmente para sempre. Circulam depressa, não vá alguém fazer mais do que gritar «Gatunos!», e por isso nem dá para perceber algum ajustamento – uma jante de liga menos leve, uns estofos mais espartanos, um motorista mais pequeno, sei lá, uma coisa qualquer que mostre que ali, naquele mundo tão distante do nosso mundo comum, as coisas também são ajustadas.

Um grupo predador

Fecho de mais uma edição da revista, como sempre pela noite fora. Revejo um artigo do colaborador de Espanha, que fala de dois povos cegos, o dele e o nosso. Escolho um destaque: «A classe política converteu-se num grupo predador que, sem gerar riqueza, subtrai rendimentos da maioria do povo em benefício próprio e dos seus feudos.»

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Manuel António Pina (1943-2012)


Porque é de noite
e estamos ambos sós,
leitura e escritura,
criador e criatura,
na mesma inumerável voz.
Manuel António Pina («Os Livros»)

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

A sabedoria do Corvo



Desempenhei dois cargos políticos em representação do PSD, por isso me choca tanto a situação actual. Com José Sócrates, em que mesmo no tempo em que havia quem lhe chamasse «menino de ouro» dava para perceber que a coisa não ia acabar bem, era diferente. Eu via os desmandos, criticava-os, mas sabia que nunca ninguém me haveria de confrontar com o que ia acontecendo. Agora não, por mais que critique a loucura que nos vai sendo preparada dia após dia não me livro, de vez em quando, de ouvir coisas do género de o partido em cujas listas já participei estar a dar cabo do país. Por mais que o outro tenha dado, e muito, ainda ficou por cá alguma coisa para Pedro Passos Coelho mostrar serviço. E como tem mostrado...
Claro que eu ainda fui a tempo de não votar em Pedro Passos Coelho. A princípio, antes da sua chegada à liderança do PSD, ainda tinha alguma expectativa, mas depois comecei a ouvir um ou outro disparate e fui desconfiando. Quase em cima das eleições para o partido fui entrevistá-lo – uma conversa muito simpática, devo assinalar –, mas eu saí de lá (dos escritórios da empresa onde ele estava na altura) espantado, ou talvez deva dizer assustado. Ainda comentei algumas das respostas com uma jornalista que me acompanhou, mas ela limitou-se a perguntar do que é que eu estava à espera.
Não votei, como disse, mas estava longe de esperar esta calamidade. De qualquer maneira, logo após as eleições comecei a perceber aquilo com que poderíamos vir a confrontar-nos. A quebra da palavra chocou-me verdadeiramente. Já estava habituado a isso com muitos políticos, mas com Pedro Passos Coelho ultrapassou-se tudo o que era conhecido em Portugal. Diga ele o que disser, depois do histórico como primeiro-ministro, sei que a sua palavra não vale absolutamente nada.
Por isso não vejo agora grandes hipóteses a não ser um governo de iniciativa presidencial – embora essa opção não esteja isenta de problemas. É dramático constatar a situação a que chegámos e ter como alternativa o partido que mais contribuiu para levar o país à bancarrota, e pior, saber que um dos ministros – nem que fosse da pasta dos automóveis de alta cilindrada – seria Carlos Zorrinho, o velho comprador da bomba de Pedro Mota Soares e agora reincidente nas compras.
Independentemente do que venha a acontecer – governo de iniciativa presidencial, eleições ou a continuidade da loucura actual –, o PSD tem de começar a pensar em livrar-se mesmo de Pedro Passos Coelho. Nem é só a questão de ganhar ou não eleições (e as dos Açores já mostraram muito), é antes de tudo não permitir que o país seja arrastado para um poço já não digo sem fundo mas com um fundo, passe o pleonasmo, muito mas mesmo muito fundo; e por um governo que em grande parte o representa. Quanto a eleições, para o PSD, o melhor será pensar a médio ou mesmo a longo prazo, porque as próximas é para perder, e por muitos.
Acho que se numa eleição nacional o PSD, depois de tudo o que um governo em grande parte seu tem feito ao país, tiver mais de dez por cento dos votos, será caso para dizer que se caiu na loucura total. Mas se calhar até se aproximará dos vinte e cinco ou trinta, e para isso eu nem quererei pensar em explicações (sei que nunca as encontrarei). Falo em dez por cento para não falar em menos, ou até para não falar inclusive em zero, porque a sabedoria do Corvo, onde agora nas eleições açorianas ninguém votou neste PSD, dificilmente chegará ao país.

Uma nota: no Corvo o PSD fez um acordo com o PPM tendo em vista a eleição de um deputado monárquico em vez de dois socialistas; não deixa no entanto de ser simbólica a imagem de zero votos.


quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Ficcionar o tempo que vivemos


De um jornal («Negócios»), perguntaram-me como ficcionaria, de forma breve, o momento que estamos a viver. Coloco abaixo a explicação que dei (trabalho do jornalista Filipe Pacheco, aqui).

Este é um tempo de grandes dificuldades, mas é mais do que isso: é um tempo que está cheio de gente perigosa. As dificuldades poderiam servir, aqui, na ficção, para vários registos, e não me espantaria que alguns autores escrevessem sobre elas, ou tendo-as como pano de fundo das suas histórias. Isso, aliás, num ou noutro caso, já tem vindo a acontecer, inclusive com nomes consagrados. Se fosse ficcionar este tempo, talvez eu optasse pela parte da gente perigosa. Mais do que pela das dificuldades, que essa estranha gente ainda por cima se afadiga a fazer crescer. Provavelmente optaria por um romance policial, com bandidos do género dos que aparecem nos romances de Robert Wilson, maldosos, nalguns casos particularmente cruéis, para quem as outras pessoas não valem absolutamente nada. Lembro-me de um bandido, da zona de Sevilha, cuja arma preferida era uma motosserra, curiosamente a mesma que aparece numa imagem de bandidos que circula na Internet com a cara de membros do governo; um deles tem uma motosserra, já os outros aparecem com armas diferentes, uma matraca, uma catana, um martelo, uma navalha, uma pistola e por aí adiante. Noutra altura talvez uma imagem assim me chocasse um pouco, mas agora, com o que nos tem aparecido por cá, nem por isso. Os bandidos daquela imagem parecem-me reais, verdadeiramente mal-intencionados, uns com ar ameaçador, outros com uns sorrisinhos de plástico, outros ainda não se percebe bem com que ar, mas de certeza que não estão a magicar nada de bom.
Eu teria no entanto de tomar em conta, ao ficcionar este tempo, um aspecto que tem sido importante na minha escrita. Grande parte das histórias passam-se no campo, e algumas delas têm mais animais do que gente. Há um livro, por exemplo, em que entram animais, quase todos inofensivos: um lagarto, uma borboleta, um ouriço-cacheiro, um texugo ou uma gineta (gato bravo), por exemplo. São esses e outros animais os protagonistas, a par de um menino de seis ou sete anos. Se estivesse escrever o livro agora, não sei se não me sentiria tentado a colocar um ou outro animal mais perigoso. Uma víbora, sobretudo uma da uma espécie a que chamam cornuda, particularmente letal. Ou um escorpião, animal que nos meus tempos de criança, no Algarve, me habituei a ouvir ser chamado de alclara. As víboras cornudas e o veneno das suas dentadas, e as alclaras das picadas capazes de causar uma dor de vinte e quatro horas – dois autênticos perigos.
Quando estou por Lisboa uso sapatos, mas quando fico a trabalhar por casa costumo andar de chinelos, os mesmos que uso pelos campos aqui das redondezas. Às vezes penso no perigo das víboras e das alclaras – penso sobretudo no das víboras. Talvez devesse usar chinelos em Lisboa e sapatos aqui pelos campos. Mas não, faço ao contrário. Há aqui um muro imenso, muito antigo, que aos pouco tenho vindo a libertar das silvas; e a arranjar, porque muitas das pedras foram caindo. Deve ter mais de cem anos, como muitas das árvores que rodeia. As silvas rasgam-me a pele, mesmo que use umas luvas e troque a T-shirt por uma camisa de manga comprida. Por isso regresso inevitavelmente do muro como se tivesse estado a participar numa luta de gatos. Mas isso não é o pior, não passa dos arranhões nos braços, nas mãos e às vezes no rosto. O pior é que debaixo de uma pedra pode de repente aparecer uma víbora, quem sabe se das cornudas. Ou uma alclara, que agora ouço sempre tratar por escorpião. Enfim, antes um escorpião do que uma víbora… De certeza que por este trabalho no muro um dia hei-de ter uma víbora cornuda nas minhas histórias. Mas nem seria preciso esse trabalho. O tempo que viemos também me faz pensar nas víboras. Até na cidade.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

António Souto – Crónica (52)

… a quinze, foi a festa de portas abertas na Gulbenkian com «Pedro e o Lobo», de Sergei Prokofiev, no Grande Auditório (do outro Pedro, uivado em coro às portas de Sete Rios, a festa foi desigual)


Ilusões de presente
Esperei Setembro e deixei-o escapar, tão depressa como se foi o Verão das férias, das manhãs preguiçadas e dos fins de tarde estendidos.
Por norma meio de ressaca e meio de recomeço, este mês foi, como na gíria futebolística, de desmotivação profissional, não que o plantel não estivesse solidário, o problema é que continuou faltando uma palavrinha de apoio de um mister ou de um special qualquer, e se o CR, que é quem é, se sente triste por tão pouco, que dizer de um vulgar pregador de sermões aos peixes quando o novo ano lectivo se anuncia quebrantado e muito pouco venturoso…
Parodiando Cesário, houve neste mês, porém, duas coisas simplesmente belas que atenuaram o advento do Outono e me distraíram do desarrimo. A primeira delas, a quinze, foi a festa de portas abertas na Gulbenkian com «Pedro e o Lobo», de Sergei Prokofiev, no Grande Auditório (do outro Pedro, uivado em coro às portas de Sete Rios, a festa foi desigual). A outra, a vinte e dois, foi a festa de Brasil e Portugal (ou de Portugal e Brasil) unidos no Terreiro do Paço: Zé Ricardo, Carminho, Zeca Baleiro, Boss AC, Paulo Gonzo e Martinho da Vila. Momentos únicos de distinção e gáudio a custo zero, suspensões da crise, ilusões de presente.
E mais não houve no mês que foi, senão acasos de anedotário que registei na nossa imprensa e reproduzo para remanso da austeridade.
1) Foi descoberta uma nova Gioconda, de rosto mais novo, mais liso, aparentemente pintada a par com a outra, a de rosto agora mais envelhecido. Mas o mais importante da revelação não foi a pintura, mas o facto relevante de este quadro ser da autoria mais que provável do amante de Leonardo Da Vinci. Isto, sim, é de ficar com duas monas!
2) Foi lançado mais um livro infantil, o que, convenhamos, não é grande novidade, novidade mesmo, e relevante, é ter sido escrito pela mão de Cinha Jardim, figura da nossa socialite e da nossa memória colectiva. Quer dizer, importante, mesmo importante, foi ela ter-se inspirado no neto e na cadela para a trama. A imprensa é mesmo tramada!
3) Foi apanhado em flagrante uma criatura de meia-idade algures numa rua dos Estados Unidos a fazer sexo com… um sofá! A polícia deteve-o por atentado ao pudor. E fez-se notícia.
4) Foi detido mais um norte-americano. Coisa rara. Este, também pouco mais velho que o anterior, por ter desatado ao tiros a um vizinho seu, acusando-o de lhe ter violado a mulher. Coisa rara. Raro, sobretudo, e grave, porque a violação terá sido por telepatia. Como o repórter estava lá, tomou notas e divulgou o caso. E não era para menos, que coisa tão estranha não ocorre por aí além.
5) Foi eleita «a cadela mais mimada do mundo». Dá pelo nome de Lola e dorme numa cama de seis mil euros. Saracoteando-se com uma modesta coleira de platina e diamantes no valor de 32 mil euros, não consta que esta milionária Yorshire Terrier seja ainda perseguida pelo fisco por manifestos sinais exteriores de riqueza, embora haja fortes suspeitas de que tenha contas abertas na Suazilândia, na Ilha Tristão da Cunha e nas Ilhas Palau.
6) Foi tornado público o último relatório do SIS. A matéria é séria e impõe cuidados redobrados. O nível de ameaça contra os ministros subiu para três, e para quem não lida de perto com estas informações, este nível intermédio, e a subir, é crítico e não deixa ninguém em paz, que um qualquer cidadão pode ser chamado um dia destes a estas altas funções e, se isto se mantém, ninguém quererá aceitar o cargo. Sim, que o seguro morreu de velho.
7) Foi finalmente publicitado o que muita gente pensava há muito e acreditava ser verdade, que em Marte já houve água. Crê-se que a água se terá evaporado, mas as fotos não mentem e a morfologia marciana comprova a circunstância. E como onde há água há vida, não espantará que os ET andem pelo meio de nós.
Serão acasos do anedotário, é certo, mas casos assim tão circunspectos e inquietantes como estes não se encontram todos os dias nem em todas as conjunturas, nem mesmo na actual, de hipocrisia e impudência.
E se, havendo mais vida para além da Terra, fôssemos todos para Marte?!

Crónica de Setembro de 2012 de António Souto para o blog «Floresta do Sul»; crónicas anteriores: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14, 15, 16, 17, 18, 19, 20, 21, 22, 23, 24, 25, 26, 27, 28;

Um mentiroso na assembleia

Observo um mentiroso a falar na televisão. Está na Assembleia da República e fala sempre unindo o polegar e o indicador da mão direita. Não sei se é uma característica dos mentirosos, se por exemplo eles têm cinco características que os distinguem, ou nove, ou cinquenta. Lembro-me de uma vez ter ido a uma escola falar sobre os livros e de alguns dos alunos me terem surpreendido com as nove características dos vampiros.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Sol (2003-2012)

O Sol. Inesquecível. Quero acreditar que passeia por uma nuvem branca, como aquelas lá ao fundo, tranquilo, feliz, sempre pensativo.


quinta-feira, 30 de agosto de 2012

António Souto – Crónica (51)


… promovendo uns quantos cursos inovadores assentes em cadeiras, e agora somos nós a alvitrar, que determinadas universidades dão por bem sucedidas, como «Zombies» (Universidade de Edimburgo); «David Beckham» (Universidade de Staffordshire); «Harry Potter» (Universidade de Durham); «Star Trek» (Universidade de Georgetown); «Símbolos fálicos» (Colégio Ocidental); «Xarope de Ácer» (Alfred University, Nova Iorque); «Renda [de bilros ou outra]» (Universidade de Glasgow); «Star Wars» (Queen's University Belfast); «Robin dos Bosques» (Universidade de Nottingham) ou «Caça-fantasmas» (Universidade de Coventry).

À espera de Setembro
Está praticamente tudo fechado para férias neste lindo mês de Agosto. E bem podem fazer questão de nos tirar as férias e aquilo que as subsidia que elas são sagradas, e penando uns mais outros menos lá se vai cada um de nós desempeçando com os cêntimos sobrantes. Isto de fechado para férias é como quem diz, que há fechaduras que tão cedo não voltarão a rodar por serem as férias inevitavelmente estendidas, mas disto não discorreremos, que assaz se tem perorado, disto, dos incêndios e de outras acrimónias do Verão.
Por isso, poderíamos igualmente confessar que também nos continuamos mantendo em regime de ócio e, assim, arranjarmos desculpa decorosa para nos esquivarmos ao encargo da crónica mensal, mas ficaríamos por certo de mal com a nossa consciência. Não aprontaremos pretextos, portanto, mas a verdade é que os assuntos merecedores de atenção acabam por falhar e ficamos para aqui à deriva a ver se chegamos à costa, isto é, ao final da página, sem que o leitor dê pelo vazio da substância. É claro que há sempre forma de contornar as vagas.
Por exemplo, fazermos como fez Luiz Fagundes Duarte numa crónica recente, que à falta de matéria e ou de inspiração se decidiu por discorrer sobre as placas toponímicas «inauguratórias», sobre o pouco que dizem e, sobretudo, do muito que fica por dizer. Coloca-se uma primeira pedra num descampado ou inaugura-se uma qualquer obra, feita ou não, e lá fica uma lápide com o registo da Excelência que a descerrou (ou não, às vezes, que conhecemos pelo menos uma pedra com o nome de um «descerrante» que no acto se encontrava a léguas) e, quando calha, ainda de uns quantos insignes que assistiram protocolarmente ao evento, mas nunca se entalham os nomes daqueles que deram o corpo e o coiro ao manifesto. Foi por estas e por outras que Saramago, narrando-nos a edificação do Convento de Mafra, decidiu nomear vinte e três operários, de A a Z, edificando-os também, porque deles foi a maior parte da criação.
Ou, por exemplo, chamarmos à colação conteúdo mais contundente, como a efusiva sugestão do presidente do Comité Olímpico Português de, «sem conotações políticas», ser reactivada a Mocidade Portuguesa. Uma proposta virtuosa para pôr os atletas de alta competição na linha, que isto de ir uma vastíssima delegação para o estrangeiro malbaratar uma fortuna e, no regresso, trazer duas míseras medalhas não é exemplo para ninguém, muito menos para a Pátria, e é de nobres exemplos que a Pátria necessita, bem como de elevados encorajamentos como este, ou como aqueloutro que, coincidentemente, pretendia a suspensão da democracia por uns meses.
Ou, por exemplo, imergirmos até nos faltar o ar por insignificâncias que têm preocupado gente folgada a propósito do desaparecimento de documentos relativos aos famigerados contratos dos submarinos que tanto têm dado que falar por cá como por águas alemãs e que um ex-ministro da Defesa já esclareceu não saber de nada e muito menos os ditos terem vindo acidentalmente misturados com as 61.893 páginas que fotocopiou nos idos de 2007 e que um Expresso de Novembro desse ano muito bem elucidou.
Ou, por exemplo, e isto seria bem mais sério, sublinharmos o desafio reformador de o Ministério da Educação atingir a curto prazo uma oferta de 50% de cursos profissionais nas escolas portuguesas, o mesmo objectivo de há uns quatro ou cinco anos, promovendo uns quantos cursos inovadores assentes em cadeiras, e agora somos nós a alvitrar, que determinadas universidades dão por bem sucedidas, como «Zombies» (Universidade de Edimburgo); «David Beckham» (Universidade de Staffordshire); «Harry Potter» (Universidade de Durham); «Star Trek» (Universidade de Georgetown); «Símbolos fálicos» (Colégio Ocidental); «Xarope de Ácer» (Alfred University, Nova Iorque); «Renda [de bilros ou outra]» (Universidade de Glasgow); «Star Wars» (Queen's University Belfast); «Robin dos Bosques» (Universidade de Nottingham) ou «Caça-fantasmas» (Universidade de Coventry). Era só uma questão de alguns poucos ajustamentos e de alguma pouca imaginação.
Mas não, não nos apetece encher chouriços, empatar, para sermos mais elegantes, não vá o leitor enfadar-se, e com razão, de maneira que nos ficamos por aqui, sem cronicarmos nada, nadinha, esperando apenas por Setembro.

Crónica de Agosto de 2012 de António Souto para o blog «Floresta do Sul»; crónicas anteriores: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14, 15, 16, 17, 18, 19, 20, 21, 22, 23, 24, 25, 26, 27, 28; 29; 30; 31; 32; 33; 34; 35; 3635; 3738;   39; 40; 41; 42; 43; 44; 45; 46; 47; 48; 49; 50.


terça-feira, 28 de agosto de 2012

A lentidão

Não foi só os jogadores do Sporting a jogarem em câmara lenta contra o Rio Ave (0-1, em casa), foi também o treinador (?), depois, a falar em câmara lenta.