As chamas fazem parte da ficção, acendem-se e apagam-se quando se acende e apaga a televisão, não nos incomodam nem nos tiram o sono, não nos baldeiam pela escuridão como quando éramos crianças, a terra valia ouro e tínhamos o sonho com avô dentro.
Que importa que Portugal arda?
Portugal arde. Todos os verões arde. Uns anos mais, outros menos.
Era eu criança e já o país ardia, como sempre deve ter ardido, de norte a sul e do litoral ao interior, e ao calor do estio juntava-se a quentura abrasadora das chamas.
Lá em casa falava-se do mato dos pinhais ao abandono que não parava de crescer e que já ninguém queria cortar, estava tudo rico, e era por via disso que o meu avô ia todos os anos com trabalhadores a dias apanhar carros e carros dele, bem cedinho para evitar o sol que tornava o tojo mais duro e maior o esforço de o aparar, carros de vacas que o traziam, por haver um único tractor na aldeia e ficar caro o transporte, e logo que descarregado em casa ia uma parte para o caminho argiloso e rebaixado do pátio e a outra para os currais, para a cama do gado.
Naquelas ocasiões em que as labaredas se avultavam e intimidavam, o sino tocava a rebate, e antes mesmo da chegada dos voluntários organizados, a gente da aldeia acorria desorientada e, pelo monte acima, galgava a escuridão (porque de noite a urgência e o pânico eram mais inflamados) norteada pelo cheiro a eucalipto queimado e pelos lampejos no céu estrelado antes de encoberto pelo fumo. E chegados todos ao inferno, cada um a seu modo ajudava a vencer o fogo, com uma enxada ou um engaço, com uma forquilha ou uma engaceta, com ramos verdes esgaçados à sorte ou com berros e impropérios de encorajamento. No final, pela madrugada, os corpos soçobrados de suor e cinza, os olhos ardentes e a respiração abafada, o fascínio de um incêndio debelado.
Lá em casa, naquelas ocasiões, o dia seguinte era um dia amargo e de poucas palavras. No ar, um bafo a desolação.
Hoje já ninguém apanha o mato por este já não ser de ninguém, e já não há quem toque os sinos a rebate nem quem saiba o que isso seja, que os tempos são outros. Mas há ainda chamas que continuam avançando, como antes avançavam, porque o chão tem que arder quando o vento sopra de feição. E há o eco sumido dos melros e das pegas pelos ramos altos dos pinheiros e o rosmaninho rasando as raízes. E há gestos que se repetem quando o castigo se acerca e o desespero alastra (temos de ser uns para os outros, solidários, como agora se apregoa). E há silêncios asfixiados tão como os de sempre quando as muitas lágrimas se esvaecem no rescaldo do flagelo.
Mas hoje o incêndio é só um incêndio, vistoso e desinteressante. Mais pinheiro menos pinheiro, mais eucalipto menos eucalipto, mais casa menos casa, mais vida menos vida. É verdade que a reportagem impressiona, o enquadramento é meticuloso, o plano de pormenor, mas o fogo tem menos magia, e na nossa casa, onde não lavrou, o dia seguinte é só mais um dia seguinte, o espectáculo dura o tempo costumado da notícia.
As chamas fazem parte da ficção, acendem-se e apagam-se quando se acende e apaga a televisão, não nos incomodam nem nos tiram o sono, não nos baldeiam pela escuridão como quando éramos crianças, a terra valia ouro e tínhamos o sonho com avô dentro.
Quanto ao mais, que importa que Portugal arda? Todos os verões arde. Uns anos mais, outros menos. E nós com ele, aclimatados.











