quarta-feira, 30 de maio de 2012

O Alentejo e a minha ficção



Há muitos, muitos anos – pode-se dizer que eu ainda era uma criança –, escrevi um livro com um título muito comprido, creio que com pelo menos umas dez palavras. O título refere a minha terra, na serra do Algarve, e também a visita de um presidente da república. Recuando aos tempos da publicação, lembro-me de algumas coisas que foram escritas sobre o livro, e a verdade é que do apoio da crítica não me posso queixar. Porque tirando o facto de dizerem que a capa era má, pouco havia a não ser elogios. Era um livro de contos, e eu gostava dele, gostava e ainda gosto, mas não tinha pensado que muito mais pessoas – com excepção talvez da minha mãe, do meu pai, do meu irmão e da minha tia – pudessem gostar. Só que houve mesmo mais pessoas, pelo menos a julgar pelo que eu ia lendo nos jornais, onde me apresentavam como um jovem autor algarvio, a juntar a vários elogios aos contos, alguns bastante chamativos. Tão chamativos que até deu para coisas como, imagine-se, ser convidado para um programa do Manuel Luís Goucha. Eu fui, por insistência do editor, e ainda me lembro da primeira coisa que o apresentador televisivo me disse, em directo, depois de ter levantado os olhos de uma fotocópia do texto do «Expresso» sobre o livro: «Ah, mas você afinal não é nada jovem!»
Comecei também a ser convidado para ir a feiras do livro. E aí notei que o livro já era relativamente conhecido e que até havia pessoas que sabiam quem era o autor. Lá uma vez por outra, aparecia quem dissesse que tinha lido uma crítica num jornal, ou ouvido qualquer coisa na rádio. Mas o mais frequente era o comentário de que me tinham visto no programa do Goucha. Sabiam que eu era do Algarve e que os contos eram do Algarve, e que o livro tinha um título muito comprido, tão comprido que quase nunca o sabiam dizer bem, trocando a minha terra, que o presidente visitava, por outras como Setúbal, Beja (a mais frequente) e até, vá-se lá saber por quê, Lisboa.
Era um Algarve interior, da serra, não o Algarve dos turistas e das praias, mas mesmo assim numa ou noutra história as personagens aventuravam-se até aí. E isso tinha sido notado em vários dos textos dos jornais. O que não tinha sido notado era o Alentejo, para aonde as personagens também se aventuravam e onde nalguns casos as próprias personagens viviam.
A minha terra fica na fronteira com o Alentejo. Agora já não acontece tanto, mas da altura em que escrevi o livro, alguns anos antes da publicação, lembro-me de que ainda havia entre os mais velhos o hábito de dizer «vou lá abaixo ao Algarve» sempre que era preciso ir a Portimão, a cidade mais próxima. E se fosse preciso falar em ir a Sabóia, ou a Odemira, ninguém dizia que ia ao Alentejo. Ia mesmo a Sabóia, ou a Odemira, como se a minha terra e essas terras do Baixo Alentejo fizessem parte da mesma região. E na minha cabeça faziam, como ainda hoje fazem.
Tudo isto aconteceu há muitos anos, num tempo em que eu estava longe de imaginar que haveria de passar a viver no Alentejo, ainda por cima não numa daquelas terras próximas da minha mas bem mais acima, no caso em Montemor-o-Novo.
Estava longe de imaginar que os livros que haveria de escrever iriam até falar muito mais do Alentejo do que da minha terra, o que faria não ter grande sentido o que depois se haveria de continuar a dizer, de que eu escrevia sempre sobe o Algarve. Isto talvez tenha sido um segundo choque, depois do primeiro do apresentador televisivo a reparar que por mais que me chamassem jovem escritor eu, mesmo ainda na casa dos vinte, afinal não era nada jovem. Tinha escrito as histórias do Algarve, como no início tinha havido quem assinalasse (nalguns casos até de forma um pouco depreciativa), e por isso haveria de continuar com elas, mesmo que escrevesse sobre outra coisa qualquer. Como se uma qualquer lei obrigasse a isso. Era a conclusão que eu tirava do que lia.
Tenho de pensar um pouco para ver os livros que escrevi depois. As suas personagens, os seus lugares… Confesso que na minha cabeça acabam até por se confundir, conhecem-se inclusive aquelas que nunca se encontraram numa história ou num capítulo de um romance. E os lugares… Quem andou por onde? Tenho muitas vezes que pensar. O Largo da Câmara, em Montemor. Os montados da Serra do Monfurado. O Escoural. As viagens para Évora pela estrada que passa por São Sebastião da Giesteira. As deambulações por Évora num dos livros, tantas vezes, para os encontros que como narrador tive com um estranho livreiro a quem um pequeno demónio dos livros teimava em estragar o negócio. As viagens para a minha terra, cortando o Alentejo a direito, para sul, e a imagem que de noite – quase sempre a altura das viagens – mais vezes me ficava num dos livros: a da aproximação a Ferreira do Alentejo, pelo lado norte, com as luzes amarelas do casario baixo; e bem no alto, imponente, o edifício dos silos de cereais com as luzes brancas e azuis que sempre me faziam lembrar – e ainda fazem – uma nave espacial acabada de aterrar na planície. Ou preparada para zarpar.
Estas coisas dos meus livros acabam por estar muito coladas às minhas viagens pelo Alentejo. Eu no carro – ou para Lisboa, por causa do trabalho, ou para o Algarve, onde vivem as pessoas de que falei no início, as quatro que eu pensava que seriam das poucas a gostar do meu primeiro livro, mesmo que fosse só para me darem algum alento.
Muitas vezes, nos livros, o Alentejo é visto de dentro do carro. Um deles, lembro-me, foi apresentado em Lisboa na Casa Fernando Pessoa pelo escritor José Eduardo Agualusa. Ele leu um texto, mas no final não mo deu, por isso recordo apenas duas ou três coisas do que disse. Numa delas falou em narrativa «borgesiana», adjectivo complicado que interpretei como um elogio, apesar de eu não ser propriamente o fã número um de Borges. Outra foi que se notava facilmente estarmos em presença de um autor que conduzia muito. Eu já sabia, na altura, que ele não costuma conduzir, preferindo o táxi e o avião. E por isso – lembro-me bem –, durante um momento, um momento muito, muito, muito breve, tive a ilusão, talvez o sonho, de que esse comentário, de um escritor tão conhecido e, sobretudo, tão talentoso, pudesse significar um bocadinho de admiração.

Texto escrito a partir das notas de suporte a uma intervenção nas «Jornadas Literárias de Montemor-o-Novo» (painel «O Alentejo na ficção», que também teve a participação de Mário de Carvalho, Rui Cardoso Martins e André Gago)

terça-feira, 15 de maio de 2012

Um novo projecto editorial



«DO it!» apresentada hoje em Lisboa

A nova revista portuguesa de vendas e negociação será dada a conhecer esta terça-feira, a partir das 17H30, em Lisboa, no Oceanário, durante os «Masters da Negociação»; o número um tem José Mourinho como figura de capa e estará nas bancas a partir de amanhã, quarta-feira.

A revista «DO it!», uma nova publicação ligada a vendas e negociação, vai ser apresentada hoje, dia 15, em Lisboa. Será durante os «Masters da Negociação», do INV – Instituto de Negociação e Vendas, que premeia personalidades e instituições pelo desempenho no mundo da negociação. A iniciativa está marcada para as 17H30, no Oceanário de Lisboa.
Com periodicidade trimestral e uma tiragem inicial de 10 mil exemplares, a «DO it!» é um projecto editorial desenvolvido pela Just Media (que edita a revista de recursos humanos e gestão «human») e o Grupo ActiveUp (onde se integra o INV). O número um estará nas bancas amanhã, quarta-feira, dia 16.
José Mourinho é a primeira figura de capa, dando rosto ao tema em destaque no número um: concretizar. O special one é apresentado num trabalho em que participam diversos responsáveis empresariais como um concretizador nato, que aponta alto, corre atrás e vence, sendo por isso um exemplo de liderança, determinação, coragem e persistência, qualidades que em qualquer actividade fazem parte do ADN dos concretizadores.
A nova revista é dirigida por João Alberto Catalão, administrador do Grupo ActiveUp, tendo como publishers Ana Teresa Penim, administradora-delegada do INV, e António Manuel Venda, director editorial da Just Media, e como editora executiva Ana Leonor Martins, também da Just Media. Há ainda uma forte participação do corpo redactorial da revista «human», além da dinamização por parte de um grupo de especialistas com grande know-how técnico, com experiência profissional internacional e currículo na autoria de textos técnicos, reflexões, investigação, artigos de opinião e publicação de livros no âmbito em que a revista se insere.
Segundo João Alberto Catalão, a estratégia editorial da «DO it!» assenta no princípio de que «a partilha é a alma do negócio», sendo os principais objectivos os seguintes: «incentivar o foco no mercado, a pro-actividade, o empreendedorismo, a ética, o optimismo negocial, a resiliência, a qualidade e a aprendizagem contínuas; antecipar o contacto com as tendências do mercado e os novos paradigmas negociais; proporcionar uma actualização permanente e consistente sobre a dinâmica do mercado e a evolução de profissionais e empresas; divulgar boas práticas e casos de sucesso; dar a conhecer soluções, ferramentas e tecnologias; proporcionar a líderes comerciais ferramentas práticas para a dinamização e o desenvolvimento das suas equipas; facilitar o networking; proporcionar o contacto das marcas e das empresas com os seus clientes; e dar a conhecer inúmeras curiosidades no âmbito das vendas e da negociação».
A dinamização comercial da «DO it!» está a cargo da equipa da Just Media, coordenada por Sónia Maia, directora comercial e de marketing da empresa.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

terça-feira, 1 de maio de 2012

António Souto – Crónica (47)



Só não se percebe muito bem é por que razão, sabendo todos como o moderníssimo fogo-de-artifício não tem canas, haja quem ainda desperdice tempo a apanhá-las.

Casos e acasos
Como se não houvesse já casos de sobra para nos entreter o miolo, este Abril que finda (sem ironia) foi pródigo em novos casos e casos repescados, recasos para alimentar pretextos e disfarçar a crise que nos vai amolgando. Para o caso, porém, pouco importa se muitos ou poucos, se frescos ou não, se bem ou mal intencionados, embora estejamos em crer que todos eles acusem enfermidade crónica de difícil emenda.
Caso buraco madeirense com muito artifício. Depois das contas esburacadas do continente, os olhares voltaram-se todos para o arquipélago. E por lá andam e andarão, de descoberta em descoberta, olhares atónitos de dívidas não saldadas. Diz quem lá manda que se não foram liquidadas em devido tempo é porque não foram facturadas, e se quem o diz é quem manda, quem é a gente de cá para duvidar da boa fé e das contas à moda da região, se ainda por cima é autónoma? Só não se percebe muito bem é por que razão, sabendo todos como o moderníssimo fogo-de-artifício não tem canas, haja quem ainda desperdice tempo a apanhá-las. Então não era já tempo de saber que depois de um Carnaval vem sempre um outro Réveillon?!
Caso Isaltino e o gozo de recorrer. Bem prega o bastonário que a justiça anda pelas ruas da amargura. O povinho descrente, que é cidadão comum, insiste que não se fia nela, mas toda a nobreza continua a achar que não, que tem confiança na justiça do nosso país. E a verdade é que o nosso país sempre teve boa justiça exemplar, durante o Estado Novo e não só, por isso é que todas as pessoas inconformadas podem recorrer, todas em pé de igualdade e com custas e custos muito ajustados a todas as bolsas. E também ninguém se pode queixar da falta de celeridade nos processos, o que há é um país de processos muito complicados, mesmo muito complicados, quase tão complicados como o próprio país. O povo é que, mesquinho, não alcança estes desembaraços, problema dele que, recorrendo todo o mundo, vê estranheza em haver recursos crónicos nuns quantos. Então mas não é no teimar que está o gozo?!
Caso Camarate e mais uma comissão de inquérito. Já lá vão nove, e nada de consistente. Agora, sim, dezoito páginas de um ex-espião e preso efetivo e a investigação tem pernas para andar. Venha, por isso, a décima comissão de inquérito e ponha-se um ponto final nesta urdidura de quase trinta e dois anos. Mas que venha depressa, e ligeira meta mãos à obra antes que o autor confesso volte atrás e jure que tudo não passou de entretenimento de quem se cansa de não fazer nada enjaulado em quatro paredes – não seria coisa inédita, que quando jornalistas de investigação se metem nestes imbróglios…
Caso Maddie e o achamento de mais 195 novos dados para investigação. Ora cá está mais um assunto que ganha fôlego. Um Portugal-Inglaterra (ou um Inglaterra-Portugal) com final sem prognóstico ao fim de cinco anos. O que é estranho é que enquanto a nossa Polícia Judiciária afirma não ter novas provas para reabrir o processo, a Scotland Yard garante ter quase duas centenas de dados novos. Uma fartura! Está bem, quer dizer, alguma coisa está mal, então mas com tamanha abundância de elementos convincentes estão à espera de quê, de fazer uma foto simulada todos os anos? Vá lá, abram mas é uma comissãozinha de inquérito!
Caso Santuário de Fátima e o milagre de despejar uma idosa. Esta história não lembraria ao diabo, passe o mau gosto. A senhora, agora com oitenta anos, vivia com a irmã num anexo de uma casa que aquela doara ao Santuário de Fátima. A irmã morreu há quatro anos, e esta decidiu continuar no anexo até, também, ao último chamamento. Mas o Santuário não foi em cantigas, doação é doação, e vá de avançar para o tribunal. O tribunal deu razão ao Santuário. A idosa tem mesmo de sair, a bem ou à força (isto somos nós a imaginar já o clero todo a empurrar a idosa pelo anexo fora, até porque a dita necessita de «apoio de terceiros»). E mais, como o Santuário exigia o pagamento retroactivo dos meses em que a idosa ocupou «abusivamente» o espaço, o tribunal também nisto concordou com o Santuário e condenou a idosa ao pagamento de catorze mil e cem euros de indemnização – trezentos eurinhos por cada mês em atraso. O tribunal deve ter agido bem, nem outra coisa se espera da justiça, que como acima se disse é boa e exemplar, mas o Santuário, para mais sendo de Fátima, bem podia perdoar. Esta graça, contudo, é reserva de Deus e a crise, pelos vistos, já alastrou ao céu…
Caso Abril com tolerância zero. Isto começa mesmo a ficar negro. Os cravos bem espargiram o hemiciclo no dia vinte e cinco em tom de encarnado, mas o cinzento das nuvens coseu-se a algumas palavras em jeito de ameaça. Um mês antes da cerimónia já tinha sido dado o sinal nuns breves confrontos no Chiado. O relatório, inequívoco, esclareceu que manifestantes desordeiros haviam provocado agentes da autoridade e destruído uma esplanada de café, justificando-se, por isso, a carga policial. E quem anda à chuva… Mas o feito, mesmo, nem foi a batalha campal, foram as palavras sinistras que anunciaram «tolerância zero para as manifestações do 25 de Abril», as palavras que ficaram a pairar para o primeiro de Maio e para todas as manifestações que houver pela troika fora. Há palavras que não combinam nada com o Abril que finda. Ou é porque finda (sem ironia)?

Crónica de Abril de 2012 de António Souto para o blog «Floresta do Sul»; crónicas anteriores: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14, 15, 16, 17, 18, 19, 20, 21, 22, 23, 24, 25, 26, 27, 28; 29; 30; 31; 32; 33; 34; 35; 3635; 3738;   39; 40; 41; 42; 43; 44; 45; 46.

domingo, 29 de abril de 2012

Livros de um grande escritor da minha terra



Manuel do Nascimento (1912, Monchique – 1966)

terça-feira, 17 de abril de 2012

A estupidez


Numa escola



Numa das escolas de Montemor-o-Novo, a falar dos livros para alunos do primeiro ciclo.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Millôr Fernandes (1923-2012)



Sempre gostei muito dele. Por termos amigos comuns, um dia apanhou um livro meu. Algum tempo depois, recebi um livro em formato de bolso, chamado «A Bíblia do Caos». Vinha do Rio de Janeiro e trazia um autógrafo e um desenho de um homem que à primeira vista parece estar a mergulhar sobre os prédios, saltando do Corcovado. Pedia que na escrita eu não o decepcionasse daí em diante. Mas eu, claro, não consegui cumprir.


quinta-feira, 29 de março de 2012

António Souto – Crónica (46)



A Primavera veio quando devia vir, embora se tivesse anunciado bem antes por árvores e arbustos em colorações, pólenes e irritações.

Variações, em baixa
Este mês de Março foi rico em variações: variou na estação, variou na hora, variou na velocidade. Só não variou muito na esperança, que continua candidamente em baixa.
A Primavera veio quando devia vir, embora se tivesse anunciado bem antes por árvores e arbustos em colorações, pólenes e irritações. Não veio a chuva, ou em salpicos apenas, e isto apesar das muitas súplicas e das muitas fés de gente crente e menos crente, que a seca toca a todos, e ao povo muito mais, sobretudo àquele que não desertou do campo e vive dele, do campo e do monte, e vê a sua vida a andar para trás, ainda mais para trás, a monte, que as sementeiras são incertas como incertas serão as colheitas, e o gado não tem que comer, e a necessidade que temos do gado, bovino seja, ou suíno, ou caprino, ou ovino ou de capoeira, sim, que o peixe não puxa carroça e mesmo que puxasse também ao preço a que anda, que é ao preço da morte, sucumbíamos todos só de o apetecer. Mas a Primavera, como a procissão, mal chegou ao adro, e por isso as águas mil podem fazer jus ao rifão e não dar mãos a medir a quantos cântaros houver para encher e vazar.
A hora mudou quando devia mudar. Avançaram sessenta minutos de um sábado para um domingo, a noite ficou um pouco mais pequena para uns quantos, de menos dormir e de mais sono, para outros ficou na mesma porque o acordar ao domingo não tem o mesmo rigor que aos dias úteis, exactamente porque sábados e domingos são inúteis para a maioria. Mas não se creia que fazer desaparecer assim num ápice seis dezenas de minutos é coisa inocente e de inocentes, que não é, porque sempre são três mil e seiscentos segundos de ócio que se esfumam, e o reflexo positivo que isto terá na produtividade do país durante o período de Verão, que é quando dá mais para a moleza, e só em Outubro é que se voltará à normalidade, se é que pode haver normalidade depois de corpos e mentes se habituarem ao quebranto. E se não é coisa inocente e de inocentes, também não é coisa inofensiva, pode até este passe de mágica transtornar ficheiros importantíssimos e dar azo a uma guerra ainda maior do que a guerra de audiências, sobretudo por ficarem as televisões desprovidas de medição credível às suas bélicas audiências e, o mais sério, a pairar uma desconfiança assombrosa sobre o mercado publicitário.
A velocidade abrandou quando devia abrandar, e para um país que já se afez a mover-se paulatinamente (e há beleza no advérbio), ora para a frente ora para trás, este afrouxamento principiou antes mesmo de ter principiado, tudo porque a vontade de andar na mecha não passara de um projecto anunciado, desejo de vencer fronteiras num piscar de olhos, determinação de encurtar distâncias a grande velocidade para bem das migrações e da economia, e agora fica a gente em média velocidade, mais ao nosso ritmo, mais à medida dos nossos apertos, mas esperançosos, nós, de que, com o andar das carruagens que sobrarem, havemos de chegar aonde houvermos de chegar, e antes isto do que acabarmos em pequena ou em nenhuma velocidade, inertes, portanto, como estamos quase e quase sem darmos por isso.
Esperançosos, nós? Quem disse que não estamos precisados de uma esperança rectificativa? Venha ela, se vier em alta!

Crónica de Março de 2012 de António Souto para o blog «Floresta do Sul»; crónicas anteriores: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14, 15, 16, 17, 18, 19, 20, 21, 22, 23, 24, 25, 26, 27, 28; 29; 30; 31; 32; 33; 34; 35; 3635; 3738;   39; 40; 41; 42; 43; 44; 45.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Cinco


Uma apresentação


Texto de suporte à apresentação de «O Livro da Selva Empresarial», de Liliana Silva Cerqueira (ed. Gestão Plus) – Lisboa, 22.03.12 (Bertrand Chiado)

Em primeiro lugar, devo dizer que tenho muito gosto em apresentar «O Livro da Selva Empresarial». E devo também dizer que o livro me cativou logo à partida, inclusive pelo título. Quando era criança nunca li «O Livro da Selva», embora numa das colecções de cromos que fazia por esses tempos aparecessem o Mogli, o Rei Lu, a pantera Baguera ou o urso Balu, por exemplo. Só que nunca li o livro. Acontece que tenho filhos ainda pequeninos, três filhos, e por isso nos últimos anos acompanhei vezes sem conta as aventuras do Mogli, dos seus amigos e até, digamos assim, e com aspas, dos seus «inimigos». Vi os desenhos animados do «Livro da Selva», uma vez, e outra, e outra. Assim como vi os do Faísca Mcqueen, os do Nodi, os do Yakari, os do Bob o Construtor, os dos Gormiti, os do Rei dos Dinossauros e até, entre tantos outros, uns mais esquisitos de uma coisa que agora parece estar na berra chamada «Code Lyoko». Daí o título me ter cativado logo à partida.
Depois comecei a ler o livro e rapidamente me apercebi de que a selva de que fala, tão diferente da do Mogli mas por vezes tão parecida, é realmente a selva que fui conhecendo nas últimas duas décadas, uma selva que no final dos anos oitenta do século passado, e depois já no princípio dos anos noventa, quando eu andava a estudar Gestão de Empresas no ISCTE, os professores nunca falavam. Prometiam-me, a mim e a tantos outros jovens que por lá andavam, já não digo o paraíso, mas pelo menos algo que poderia sem grandes problemas servir de imitação.
De forma que quando comecei a trabalhar tinha mais a ideia da imitação do paraíso do que a da selva. E um dia, na serra do Algarve, quase na fronteira imaginária que por lá existe com o Alentejo, na casa de uma mulher simples mas certamente avisada de que os paraísos não surgem assim ao dobrar da esquina, nessa casa tocou o telefone. Era de um banco em Lisboa. A mulher estranhou, e inquietou-se. Por uma série de razões. Era o banco onde o filho tinha entrado como estagiário, e o filho nunca lhe ligava de lá, ligava-lhe era de casa, à noite, quando chegava do banco, porque ainda não tinha a invenção de que a mulher começava a ouvir falar: o telemóvel. Outra razão para estranhar e para se inquietar é que estavam a ligar de um departamento que diziam ser de recursos humanos, e estava lá um polícia. Terceira razão, a senhora do departamento de recursos humanos dizia para ela não se preocupar porque o filho estava bem.
A mulher era a minha mãe. Nunca me disse se chorou, mas eu acabei por saber que chorou. Só que foi apenas um instante. Pensou no que haveria de fazer para me ajudar e logo se lembrou de que no Hospital de São José, em Lisboa, trabalhava uma enfermeira da nossa terra. Em poucos minutos entrou em contacto com familiares dessa enfermeira e conseguiu que estes falassem para ela, para o hospital. Mais uns minutos e a enfermeira estava junto de mim a saber o meu estado. Depois o meu pai arrancou para Lisboa mais o meu irmão.
Conto o que aconteceu. Eu levava dois ou três meses do meu primeiro, digamos assim, emprego. Ainda eram tempos fáceis e tinha conseguido entrar como estagiário num banco, com um ordenado que era uma pequena bolsa da Europa, ou antes, de Bruxelas. Não custava nada ao banco, e a mim ajudava nas despesas. A promessa inicial era de que eu haveria de circular por várias áreas, mas rapidamente percebi que iria ficar no back-office de uma coisa a que chamavam Off-Shore. Passei a trabalhar lá, a fazer o que era preciso e a aprender por mim próprio. Ao fim de um mês já me desenrascava e então ia fazendo o trabalho. Mais um mês, e mais outro, e eu fazia o meu trabalho. E às vezes pensava no futuro. Na evolução que poderia ter naquele banco onde um homem quase com idade para ser meu pai, que trabalhava numa secretária próxima, costumava dizer de vez em quando para si próprio: «Isto é o que dá haver gente que gosta de brincar aos bancos!»
Um dia fui atropelado quando ia a entrar no trabalho, de manhã. Foi um autocarro da Carris, que imagino me bateu com algum cuidado, pois de contrário eu não estaria aqui hoje a apresentar «O Livro da Selva Empresarial». Segui a dormir para o Hospital de São José, numa ambulância, mas acordei antes de lá chegar. Devo ter entrado no hospital antes das dez da manhã, e ao princípio da tarde, com o meu pai e o meu irmão a caminho de Lisboa, tive a primeira visita. Um polícia. Ele é que tinha tomado conta do meu atropelamento pelo autocarro, ou antes, como se costuma dizer, da ocorrência. Precisava de ouvir o meu depoimento, mas eu não me lembrava de nada. Talvez por isso, por eu não ter nada para lhe dizer, ele é que falou, contando-me a partir dos relatos de testemunhas o que tinha acontecido. E depois disse-me que já tinha sido feito um contacto para a casa dos meus pais, acrescentando a seguir que tinha demorado algum tempo porque da esquadra não podia fazer chamadas interurbanas. Ainda não estávamos em crise, mas pelos vistos já havia contenção.
Mas o polícia tinha jeito de ser desenrascado. Assim como na minha carteira tinha encontrado o contacto dos meus pais, que viviam a duzentos e cinquenta quilómetros de distância, também tinha descoberto onde eu trabalhava. E então lá foi ao banco, a uns metros da zona do atropelamento. Era a sede do banco, que no rés-do-chão tinha uma agência. Ao entrar, o polícia ouviu um dos empregados a dizer ao balcão que parecia que um rapaz do banco tinha sido atropelado lá fora. Foi ter com ele e disse que estava ali por causa do atropelamento. O empregado aconselhou-o a ir ao Departamento de Recursos Humanos. E o polícia assim fez, e ao fim de alguma insistência conseguiu que fosse feita a chamada interurbana para avisar os meus pais de eu tinha sido atropelado quando ia entrar no banco.
Estive quatro dias no hospital. Ao fim de dois dias deram-me alta, mas quando ia a sair com o meu pai e o meu irmão senti-me mal e voltei a ser internado. À segunda tentativa, passados mais dois dias, saí. E no dia seguinte telefonei para o Departamento de Recursos Humanos. Disse que estava em casa e que tinha indicações médicas para ficar em repouso durante cerca de uma semana. Lembro-me de ter ouvido a pergunta: «Mas está bem, não está?» Disse que sim. Alguns dias depois regressei ao banco, não para trabalhar mas para dizer que não queria continuar lá. O diretor do departamento a que eu pertencia ficou espantado com a minha decisão. Tinha sido apanhado, na expressão dele, «desprevenido». Mais ou menos, imagino agora, como eu tinha sido apanhado uns dias antes pelo autocarro. No Departamento de Recursos Humanos a mesma coisa, também acabaram por ser apanhados desprevenidos. Mas não me fizeram grandes ofertas, nem grandes promessas para, como agora se diz, me reterem. Eu não era, pelos vistos, um quadro estratégico ou, se preferirem, um talento.
A mim, com vinte e poucos anos e o curso de Gestão de Empresas ainda fresco, foi preciso um autocarro me dar um abanão para eu perceber que o mundo empresarial poderia ser uma selva. Teria evitado esse abanão se nessa altura tivesse tido a possibilidade de ler um livro como este que agora a Liliana publica. Com os seus conselhos. Mas naquele tempo o mundo da edição, como tantos outros mundos, era muito diferente daquilo que é agora. Na universidade mandavam-nos comprar o que havia por cá, normalmente livros da McGraw-Hill, edições brasileiras onde me lembro de termos como «usuário» (utilizador), «demanda» (procura) ou até «varejo» (retalho) – edições que se calhar não eram mais do que uma preparação disfarçada para o acordo ortográfico.
Na minha ideia, os jovens que terminam agora os seus estudos estão muito mais avisados do que eu estava naqueles tempos da entrada no banco. Mas apesar disso receio que estejam a cair no mesmo erro em que eu caí ao aceitar um trabalho naquele banco. Ao aceitarem inclusive trabalhar em empresas que nada lhes pagam, quando eu ao menos ainda tinha a pequena bolsa de Bruxelas. Sei que na esmagadora maioria dos casos o fazem porque têm a esperança de se tratar apenas do começo de uma carreira. E sei também que há casos em que acaba por ser de facto o começo de uma carreira. Infelizmente, não é a maioria dos casos.
Este livro está organizado de uma forma curiosa: apresenta dez mandamentos a que a Liliana chama «de sobrevivência». Aos jovens de que falo faria bem, de certeza, lerem esses mandamentos – por exemplo, o segundo, «tempo é dinheiro, não trabalharás à borla para uma empresa com fins lucrativos»; ou o oitavo, «não te deixarás contaminar pelo vírus da anti-maternidade» (e este toca-me particularmente, porque a minha mulher foi em tempos despedida pelo facto de ter ficado grávida). Mais do que os mandamentos, mais do que isso: os argumentos que lhe estão associados, e as histórias que os ilustram. Esses jovens (e não só) poderão ter aqui, como se diz no sub-título, uma ajuda para a sua sobrevivência na selva das empresas. Eu sei que agora há muitos títulos de gestão onde se fala de sucesso. Óptimo. Devemos ser positivos. Mas falar de sobrevivência pode ser também uma enorme ajuda. E pode ser um passo para o sucesso. Este livro tem um enorme mérito. Faz-nos pensar. E se para mim já vem demasiado tarde, pela história que contei do começo da minha – passe o exagero – carreira, para outros poderá ser o ponto de partida para eles próprios construírem o seu futuro. E por isso a Liliana está de parabéns.
Apesar de esta apresentação já ir longa, permitam-me ainda deixar duas notas.
Primeira, uma nota de esperança. Vivemos num tempo em que no mundo do trabalho a exploração das pessoas é uma triste e vergonhosa realidade em tantos e tantos casos. Fala-se de estarmos a regredir, e quem poderá dizer que isso não é verdade? O caminho que a legislação tende a fazer é precisamente esse. Mas ao mesmo tempo existem empresas que valorizam as pessoas. Empresas que têm nas suas lideranças gente decente. Os vários estudos sobre ambientes de trabalho que vão sendo feitos anualmente no nosso país mostram precisamente alguns desses exemplos. Nem todas as empresas que por lá aparecem constituirão verdadeiros exemplos, é claro, mas de certeza que muitas delas são genuinamente exemplares na valorização das pessoas que fazem com que dia após dia prossigam a sua actividade.
Segunda nota… Já falei no gosto que tenho em apresentar este livro. Mas há mais uma coisa. Tenho também muito gosto em apresentar o livro por ser da editora que é, a Gestão Plus. Há alguns anos foi decidido numa editora onde eu publicava os meus livros de ficção lançar uma colecção da área de gestão. O editor um dia falou-me desse projecto e propôs-me, pela minha formação e pela ligação aos livros, ser eu o director editorial. Eu disse-lhe que poderia aceitar, mas que o melhor, para o sucesso da colecção, seria ele arranjar uma pessoa com prestígio no meio empresarial. Inclusive, acabei por ser eu a apresentar-lhe essa pessoa. E a colecção fez o seu caminho, primeiro com a ajuda dessa pessoa e depois apenas com o editor. A colecção tinha um nome que logo me pareceu muito bom: Gestão Plus. Tão bom que viria a dar origem à marca de uma editora. Também por isso a Liliana está de parabéns, porque tem o seu livro numa excelente casa.
Creio que falei mais tempo do que deveria. Peço desculpa por isso.

Chegou por estes dias