Manuel do Nascimento (1912, Monchique – 1966)
domingo, 29 de abril de 2012
terça-feira, 17 de abril de 2012
segunda-feira, 2 de abril de 2012
Millôr Fernandes (1923-2012)
Sempre gostei muito dele. Por termos amigos comuns, um dia
apanhou um livro meu. Algum tempo depois, recebi um livro em formato de bolso,
chamado «A Bíblia do Caos». Vinha do Rio de Janeiro e trazia um autógrafo e um
desenho de um homem que à primeira vista parece estar a mergulhar sobre os
prédios, saltando do Corcovado. Pedia que na escrita eu não o decepcionasse daí
em diante. Mas eu, claro, não consegui cumprir.
quinta-feira, 29 de março de 2012
António Souto – Crónica (46)
A Primavera veio quando devia vir, embora se tivesse anunciado
bem antes por árvores e arbustos em colorações, pólenes e irritações.
Variações, em baixa
Este mês de Março foi rico em variações: variou na estação,
variou na hora, variou na velocidade. Só não variou muito na esperança, que
continua candidamente em baixa.
A Primavera veio quando devia vir, embora se tivesse anunciado
bem antes por árvores e arbustos em colorações, pólenes e irritações. Não veio
a chuva, ou em salpicos apenas, e isto apesar das muitas súplicas e das muitas
fés de gente crente e menos crente, que a seca toca a todos, e ao povo muito
mais, sobretudo àquele que não desertou do campo e vive dele, do campo e do
monte, e vê a sua vida a andar para trás, ainda mais para trás, a monte, que as
sementeiras são incertas como incertas serão as colheitas, e o gado não tem que
comer, e a necessidade que temos do gado, bovino seja, ou suíno, ou caprino, ou
ovino ou de capoeira, sim, que o peixe não puxa carroça e mesmo que puxasse
também ao preço a que anda, que é ao preço da morte, sucumbíamos todos só de o apetecer.
Mas a Primavera, como a procissão, mal chegou ao adro, e por isso as águas mil
podem fazer jus ao rifão e não dar mãos a medir a quantos cântaros houver para
encher e vazar.
A hora mudou quando devia mudar. Avançaram sessenta minutos
de um sábado para um domingo, a noite ficou um pouco mais pequena para uns
quantos, de menos dormir e de mais sono, para outros ficou na mesma porque o
acordar ao domingo não tem o mesmo rigor que aos dias úteis, exactamente porque
sábados e domingos são inúteis para a maioria. Mas não se creia que fazer
desaparecer assim num ápice seis dezenas de minutos é coisa inocente e de
inocentes, que não é, porque sempre são três mil e seiscentos segundos de ócio
que se esfumam, e o reflexo positivo que isto terá na produtividade do país
durante o período de Verão, que é quando dá mais para a moleza, e só em Outubro
é que se voltará à normalidade, se é que pode haver normalidade depois de
corpos e mentes se habituarem ao quebranto. E se não é coisa inocente e de
inocentes, também não é coisa inofensiva, pode até este passe de mágica transtornar
ficheiros importantíssimos e dar azo a uma guerra ainda maior do que a guerra
de audiências, sobretudo por ficarem as televisões desprovidas de medição
credível às suas bélicas audiências e, o mais sério, a pairar uma desconfiança
assombrosa sobre o mercado publicitário.
A velocidade abrandou quando devia abrandar, e para um país
que já se afez a mover-se paulatinamente (e há beleza no advérbio), ora para a
frente ora para trás, este afrouxamento principiou antes mesmo de ter
principiado, tudo porque a vontade de andar na mecha não passara de um projecto
anunciado, desejo de vencer fronteiras num piscar de olhos, determinação de
encurtar distâncias a grande velocidade para bem das migrações e da economia, e
agora fica a gente em média velocidade, mais ao nosso ritmo, mais à medida dos
nossos apertos, mas esperançosos, nós, de que, com o andar das carruagens que
sobrarem, havemos de chegar aonde houvermos de chegar, e antes isto do que
acabarmos em pequena ou em nenhuma velocidade, inertes, portanto, como estamos
quase e quase sem darmos por isso.
Esperançosos, nós? Quem disse que não estamos precisados de
uma esperança rectificativa? Venha ela, se vier em alta!
quarta-feira, 28 de março de 2012
Uma apresentação
Texto de suporte à apresentação de «O Livro da Selva
Empresarial», de Liliana Silva Cerqueira (ed. Gestão Plus) – Lisboa, 22.03.12
(Bertrand Chiado)
Em primeiro lugar, devo dizer que tenho muito gosto em
apresentar «O Livro da Selva Empresarial». E devo também dizer que o livro me
cativou logo à partida, inclusive pelo título. Quando era criança nunca li «O
Livro da Selva», embora numa das colecções de cromos que fazia por esses tempos
aparecessem o Mogli, o Rei Lu, a pantera Baguera ou o urso Balu, por exemplo.
Só que nunca li o livro. Acontece que tenho filhos ainda pequeninos, três
filhos, e por isso nos últimos anos acompanhei vezes sem conta as aventuras do
Mogli, dos seus amigos e até, digamos assim, e com aspas, dos seus «inimigos».
Vi os desenhos animados do «Livro da Selva», uma vez, e outra, e outra. Assim
como vi os do Faísca Mcqueen, os do Nodi, os do Yakari, os do Bob o Construtor,
os dos Gormiti, os do Rei dos Dinossauros e até, entre tantos outros, uns mais
esquisitos de uma coisa que agora parece estar na berra chamada «Code Lyoko».
Daí o título me ter cativado logo à partida.
Depois comecei a ler o livro e rapidamente me apercebi de que a selva de que fala, tão diferente da do Mogli mas por vezes tão parecida, é realmente a selva que fui conhecendo nas últimas duas décadas, uma selva que no final dos anos oitenta do século passado, e depois já no princípio dos anos noventa, quando eu andava a estudar Gestão de Empresas no ISCTE, os professores nunca falavam. Prometiam-me, a mim e a tantos outros jovens que por lá andavam, já não digo o paraíso, mas pelo menos algo que poderia sem grandes problemas servir de imitação.
De forma que quando comecei a trabalhar tinha mais a ideia da imitação do paraíso do que a da selva. E um dia, na serra do Algarve, quase na fronteira imaginária que por lá existe com o Alentejo, na casa de uma mulher simples mas certamente avisada de que os paraísos não surgem assim ao dobrar da esquina, nessa casa tocou o telefone. Era de um banco em Lisboa. A mulher estranhou, e inquietou-se. Por uma série de razões. Era o banco onde o filho tinha entrado como estagiário, e o filho nunca lhe ligava de lá, ligava-lhe era de casa, à noite, quando chegava do banco, porque ainda não tinha a invenção de que a mulher começava a ouvir falar: o telemóvel. Outra razão para estranhar e para se inquietar é que estavam a ligar de um departamento que diziam ser de recursos humanos, e estava lá um polícia. Terceira razão, a senhora do departamento de recursos humanos dizia para ela não se preocupar porque o filho estava bem.
Depois comecei a ler o livro e rapidamente me apercebi de que a selva de que fala, tão diferente da do Mogli mas por vezes tão parecida, é realmente a selva que fui conhecendo nas últimas duas décadas, uma selva que no final dos anos oitenta do século passado, e depois já no princípio dos anos noventa, quando eu andava a estudar Gestão de Empresas no ISCTE, os professores nunca falavam. Prometiam-me, a mim e a tantos outros jovens que por lá andavam, já não digo o paraíso, mas pelo menos algo que poderia sem grandes problemas servir de imitação.
De forma que quando comecei a trabalhar tinha mais a ideia da imitação do paraíso do que a da selva. E um dia, na serra do Algarve, quase na fronteira imaginária que por lá existe com o Alentejo, na casa de uma mulher simples mas certamente avisada de que os paraísos não surgem assim ao dobrar da esquina, nessa casa tocou o telefone. Era de um banco em Lisboa. A mulher estranhou, e inquietou-se. Por uma série de razões. Era o banco onde o filho tinha entrado como estagiário, e o filho nunca lhe ligava de lá, ligava-lhe era de casa, à noite, quando chegava do banco, porque ainda não tinha a invenção de que a mulher começava a ouvir falar: o telemóvel. Outra razão para estranhar e para se inquietar é que estavam a ligar de um departamento que diziam ser de recursos humanos, e estava lá um polícia. Terceira razão, a senhora do departamento de recursos humanos dizia para ela não se preocupar porque o filho estava bem.
A mulher era a minha mãe. Nunca me disse se chorou, mas eu
acabei por saber que chorou. Só que foi apenas um instante. Pensou no que
haveria de fazer para me ajudar e logo se lembrou de que no Hospital de São
José, em Lisboa, trabalhava uma enfermeira da nossa terra. Em poucos minutos
entrou em contacto com familiares dessa enfermeira e conseguiu que estes
falassem para ela, para o hospital. Mais uns minutos e a enfermeira estava
junto de mim a saber o meu estado. Depois o meu pai arrancou para Lisboa mais o
meu irmão.
Conto o que aconteceu. Eu levava dois ou três meses do meu
primeiro, digamos assim, emprego. Ainda eram tempos fáceis e tinha conseguido
entrar como estagiário num banco, com um ordenado que era uma pequena bolsa da
Europa, ou antes, de Bruxelas. Não custava nada ao banco, e a mim ajudava nas
despesas. A promessa inicial era de que eu haveria de circular por várias
áreas, mas rapidamente percebi que iria ficar no back-office de uma coisa a que
chamavam Off-Shore. Passei a trabalhar lá, a fazer o que era preciso e a aprender
por mim próprio. Ao fim de um mês já me desenrascava e então ia fazendo o
trabalho. Mais um mês, e mais outro, e eu fazia o meu trabalho. E às vezes
pensava no futuro. Na evolução que poderia ter naquele banco onde um homem
quase com idade para ser meu pai, que trabalhava numa secretária próxima,
costumava dizer de vez em quando para si próprio: «Isto é o que dá haver gente
que gosta de brincar aos bancos!»
Um dia fui atropelado quando ia a entrar no trabalho, de
manhã. Foi um autocarro da Carris, que imagino me bateu com algum cuidado, pois
de contrário eu não estaria aqui hoje a apresentar «O Livro da Selva
Empresarial». Segui a dormir para o Hospital de São José, numa ambulância, mas
acordei antes de lá chegar. Devo ter entrado no hospital antes das dez da
manhã, e ao princípio da tarde, com o meu pai e o meu irmão a caminho de Lisboa,
tive a primeira visita. Um polícia. Ele é que tinha tomado conta do meu
atropelamento pelo autocarro, ou antes, como se costuma dizer, da ocorrência.
Precisava de ouvir o meu depoimento, mas eu não me lembrava de nada. Talvez por
isso, por eu não ter nada para lhe dizer, ele é que falou, contando-me a partir
dos relatos de testemunhas o que tinha acontecido. E depois disse-me que já
tinha sido feito um contacto para a casa dos meus pais, acrescentando a seguir
que tinha demorado algum tempo porque da esquadra não podia fazer chamadas
interurbanas. Ainda não estávamos em crise, mas pelos vistos já havia
contenção.
Mas o polícia tinha jeito de ser desenrascado. Assim como na
minha carteira tinha encontrado o contacto dos meus pais, que viviam a duzentos
e cinquenta quilómetros de distância, também tinha descoberto onde eu
trabalhava. E então lá foi ao banco, a uns metros da zona do atropelamento. Era
a sede do banco, que no rés-do-chão tinha uma agência. Ao entrar, o polícia ouviu
um dos empregados a dizer ao balcão que parecia que um rapaz do banco tinha
sido atropelado lá fora. Foi ter com ele e disse que estava ali por causa do
atropelamento. O empregado aconselhou-o a ir ao Departamento de Recursos
Humanos. E o polícia assim fez, e ao fim de alguma insistência conseguiu que
fosse feita a chamada interurbana para avisar os meus pais de eu tinha sido
atropelado quando ia entrar no banco.
Estive quatro dias no hospital. Ao fim de dois dias deram-me
alta, mas quando ia a sair com o meu pai e o meu irmão senti-me mal e voltei a
ser internado. À segunda tentativa, passados mais dois dias, saí. E no dia
seguinte telefonei para o Departamento de Recursos Humanos. Disse que estava em
casa e que tinha indicações médicas para ficar em repouso durante cerca de uma
semana. Lembro-me de ter ouvido a pergunta: «Mas está bem, não está?» Disse que
sim. Alguns dias depois regressei ao banco, não para trabalhar mas para dizer
que não queria continuar lá. O diretor do departamento a que eu pertencia ficou
espantado com a minha decisão. Tinha sido apanhado, na expressão dele,
«desprevenido». Mais ou menos, imagino agora, como eu tinha sido apanhado uns
dias antes pelo autocarro. No Departamento de Recursos Humanos a mesma coisa,
também acabaram por ser apanhados desprevenidos. Mas não me fizeram grandes
ofertas, nem grandes promessas para, como agora se diz, me reterem. Eu não era,
pelos vistos, um quadro estratégico ou, se preferirem, um talento.
A mim, com vinte e poucos anos e o curso de Gestão de
Empresas ainda fresco, foi preciso um autocarro me dar um abanão para eu perceber
que o mundo empresarial poderia ser uma selva. Teria evitado esse abanão se
nessa altura tivesse tido a possibilidade de ler um livro como este que agora a
Liliana publica. Com os seus conselhos. Mas naquele tempo o mundo da edição,
como tantos outros mundos, era muito diferente daquilo que é agora. Na universidade
mandavam-nos comprar o que havia por cá, normalmente livros da McGraw-Hill,
edições brasileiras onde me lembro de termos como «usuário» (utilizador),
«demanda» (procura) ou até «varejo» (retalho) – edições que se calhar não eram
mais do que uma preparação disfarçada para o acordo ortográfico.
Na minha ideia, os jovens que terminam agora os seus estudos
estão muito mais avisados do que eu estava naqueles tempos da entrada no banco.
Mas apesar disso receio que estejam a cair no mesmo erro em que eu caí ao aceitar
um trabalho naquele banco. Ao aceitarem inclusive trabalhar em empresas que
nada lhes pagam, quando eu ao menos ainda tinha a pequena bolsa de Bruxelas.
Sei que na esmagadora maioria dos casos o fazem porque têm a esperança de se
tratar apenas do começo de uma carreira. E sei também que há casos em que acaba
por ser de facto o começo de uma carreira. Infelizmente, não é a maioria dos
casos.
Este livro está organizado de uma forma curiosa: apresenta
dez mandamentos a que a Liliana chama «de sobrevivência». Aos jovens de que
falo faria bem, de certeza, lerem esses mandamentos – por exemplo, o segundo,
«tempo é dinheiro, não trabalharás à borla para uma empresa com fins
lucrativos»; ou o oitavo, «não te deixarás contaminar pelo vírus da
anti-maternidade» (e este toca-me particularmente, porque a minha mulher foi em
tempos despedida pelo facto de ter ficado grávida). Mais do que os mandamentos,
mais do que isso: os argumentos que lhe estão associados, e as histórias que os
ilustram. Esses jovens (e não só) poderão ter aqui, como se diz no sub-título,
uma ajuda para a sua sobrevivência na selva das empresas. Eu sei que agora há
muitos títulos de gestão onde se fala de sucesso. Óptimo. Devemos ser
positivos. Mas falar de sobrevivência pode ser também uma enorme ajuda. E pode
ser um passo para o sucesso. Este livro tem um enorme mérito. Faz-nos pensar. E
se para mim já vem demasiado tarde, pela história que contei do começo da minha
– passe o exagero – carreira, para outros poderá ser o ponto de partida para
eles próprios construírem o seu futuro. E por isso a Liliana está de parabéns.
Apesar de esta apresentação já ir longa, permitam-me ainda
deixar duas notas.
Primeira, uma nota de esperança. Vivemos num tempo em que no
mundo do trabalho a exploração das pessoas é uma triste e vergonhosa realidade
em tantos e tantos casos. Fala-se de estarmos a regredir, e quem poderá dizer
que isso não é verdade? O caminho que a legislação tende a fazer é precisamente
esse. Mas ao mesmo tempo existem empresas que valorizam as pessoas. Empresas
que têm nas suas lideranças gente decente. Os vários estudos sobre ambientes de
trabalho que vão sendo feitos anualmente no nosso país mostram precisamente
alguns desses exemplos. Nem todas as empresas que por lá aparecem constituirão
verdadeiros exemplos, é claro, mas de certeza que muitas delas são genuinamente
exemplares na valorização das pessoas que fazem com que dia após dia prossigam a
sua actividade.
Segunda nota… Já falei no gosto que tenho em apresentar este
livro. Mas há mais uma coisa. Tenho também muito gosto em apresentar o livro
por ser da editora que é, a Gestão Plus. Há alguns anos foi decidido numa
editora onde eu publicava os meus livros de ficção lançar uma colecção da área
de gestão. O editor um dia falou-me desse projecto e propôs-me, pela minha
formação e pela ligação aos livros, ser eu o director editorial. Eu disse-lhe
que poderia aceitar, mas que o melhor, para o sucesso da colecção, seria ele
arranjar uma pessoa com prestígio no meio empresarial. Inclusive, acabei por
ser eu a apresentar-lhe essa pessoa. E a colecção fez o seu caminho, primeiro
com a ajuda dessa pessoa e depois apenas com o editor. A colecção tinha um nome
que logo me pareceu muito bom: Gestão Plus. Tão bom que viria a dar origem à
marca de uma editora. Também por isso a Liliana está de parabéns, porque tem o
seu livro numa excelente casa.
Creio que falei mais tempo do que deveria. Peço desculpa por
isso.
quarta-feira, 21 de março de 2012
sexta-feira, 16 de março de 2012
domingo, 11 de março de 2012
António Souto – Crónica (45)
Por muito que me tenha disciplinado, entrei neste universo
dos incumpridores e falhei a pontualidade desta crónica que, devendo ser de
Fevereiro, é já de Março adiantado.
Quando as voltas se trocam
A escrita anda muitas vezes associada à leitura (e
vice-versa). Precisamente por assim ser é que quando tentamos conjugar ambas as
actividades as coisas nem sempre correm como desejamos, e depois vamos adiando
ora uma, ora outra, e os compromissos acabam por se arrastar. Primeiro um dia,
a seguir mais um ou dois, logo passa uma semana, e logo quinze dias, e aquilo
que era para ontem passa para o mês seguinte e deixa de haver desculpa que nos
valha – somos num ápice uns irresponsáveis. Por muito que me tenha
disciplinado, entrei neste universo dos incumpridores e falhei a pontualidade
desta crónica que, devendo ser de Fevereiro, é já de Março adiantado. E isto
porquê (em jeito de desculpa)? Porque me tinha apalavrado que nesta crónica
daria notícia de um livro de um amigo, não por ser amigo (que seria já razão
para o fazer), mas porque comecei a ler o ensaio e comecei a gostar dele e
comecei a cogitar que merecia ser apregoado (passe a imodéstia minha de me
julgar consultado). O problema é que ia eu a meio da dita leitura e entrei pelo
último Mário de Carvalho adentro enquanto o diabo esfrega um olho, perdão, pelo
«quando o Diabo reza», assim mesmo, com um pós-título apelativo, «vadiário
breve», e deixei-me seduzir com os enredos do casal Bartlo e Cíntia. O problema
é que ia eu agora em leitura adiantada desta peripécia e mete-se a talho de
foice a releitura do «Memorial do Convento» e d’ «Os Maias», questão de dever,
questão de relembrar o que a escola e a vida, felizmente, nos não consentem
esquecer. O problema é que quem muitos burros toca, algum fica para trás, e
ficou, como se notou e vê.
E que ensaio era aquele merecedor de pregão? Um texto de
pendor filosófico ou, como escreve o seu autor, «Um divertimento
político-filosófico acerca da profundidade do quotidiano». Assim é este
«Podemos Matar um Sinal de Trânsito?», uma deambulação entretecida a partir de
um sinal de sentido proibido que deixou de estar onde estava, numa rua de
sentido único, porque tombado. Para além dos sérios riscos que esta «ausência»
pode causar aos automobilistas que por lá passam, é o olhar atento e a reflexão
complexa de Porfírio Silva, em primeira pessoa, que nos conduz pelos meandros
da aventura do «pensamento estruturado» como quem conta uma história – uma
maneira enganadora de nos fazer parecer fácil o que é deveras complexo, ou uma
maneira cativante de nos revelar a complexidade do muito que julgamos fácil, só
porque deixamos de ver o que olhamos distraidamente no quotidiano.
Este é o ensaio que me trocou as voltas à crónica que
deveria ter sido alinhavada em devido tempo, e não foi. Este o livro que ficou
a meio, mas que não tardarei a rematar, antes mesmo de deslindar o andamento da
reza do Diabo.
É só darem-me o tempo suficiente para orientar o Saramago e
o Eça, ou orientar neles os alunos que deles precisam como de pão para a boca,
não tanto das criaturas e dos seus ensinamentos, mas de classificações
exibíveis, para que não deprimam. Sim, para que não deprimam. Que, pelos
vistos, pior do que o estado das escolas é o estado psicológico dos alunos,
jovens debilitados, com a auto-estima em baixo, porque os professores, os
mesmos que andam a chumbar menos nos últimos anos, teimam em ser parcimoniosos
nas notas que atribuem, e aí é que reside o mal do nosso país que há e há-de
vir, termos um mundo de alunos infelizes por terem notas baixas, apesar de
transitarem, mais infelizes do que aqueles que reprovam pela segunda ou
terceira vez, pois nestes o «autoconceito académico já estabilizou», pelo menos
assim reza um estudo recente do ISPA – como as rezas do Diabo.
Portanto, e porque quero contribuir para levantar a
auto-estima dos meus alunos, preciso de arrumar devidamente os clássicos para
me voltar para os meus coevos amigos, o Porfírio que me perdoe. Matar por
matar, matemos os sinais!
Crónica de Fevereiro de 2012 de António Souto para o blog
«Floresta do Sul»; crónicas anteriores: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10,
11, 12, 13, 14, 15, 16, 17, 18, 19, 20, 21, 22, 23, 24, 25, 26, 27, 28; 29; 30; 31; 32; 33; 34; 35; 36;
35; 37;
38;
39; 40; 41; 42; 43; 44.
quarta-feira, 7 de março de 2012
Revista «human» de Março
A edição número 39, com a chegada de Futre ao mundo das empresas. Nas bancas desde o início do mês (ver aqui).
Subscrever:
Mensagens (Atom)








