terça-feira, 30 de agosto de 2011

Uma recomendação


Bom, recomendo vivamente a leitura deste longo romance publicado on-line. Intriga, mistério, revelações surpreendentes, personagens inesquecíveis (o senhor Montado, a enigmática Camila – «Já encontrou o seu Carlos, Camila?» –, o homem que grita, o Eng. Kadhafi, o anónimo, o Prof. Doutor Kim Jong-il, a Isabel Luísa – que aderiu ao novo acordo ortográfico, «Voçê precisa de andar um bocadinho mais pelo Mundo real…» –, entre tantas outras. Para além do Pedro, obviamente).

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

António Souto – Crónica (39)


Sol, portanto, e muita água convidativa. Muita praia e muita piscina. Muito vagar e muita animação. Porém uma água nem sempre muito transparente como soía, nem sempre uma animação variada e distinta, nem sempre uma restauração com honestidade sazonal. Um verdadeiro allgarve à portuguesa!

Férias que tanto sim como não

Estas férias estão a ser umas férias assim a puxar para o «discordantes». Estão a ser, porque ainda restam uns dias para o fim delas, só que lhes está faltando aquele gozo próprio que habitualmente as caracteriza, ou me está faltando a mim esse deleite, uma insatisfação que arrasto coincidente com o clima bipolar que nos assola.
Passei por Aveiro, melhor, um pé breve em Angeja, que é mais minha, outro na Barra, coladinha à Costa Nova, ambas mais de Alice Vieira, que amiúde as imprime, e rumei depois para o sul, para próximo da Loulé de Lídia Jorge, com poiso em Quarteira.
Dos chuviscos do norte aos salpicos do sul em pleno Agosto. Em todo o caso, calor suficiente para fazer vermelhos os lácteos corpos, muito menos que em anos anteriores, os corpos, pelo Algarve que vi. A maior parte era gente nossa, com pose e sotaque morcão, sinais da crise que para ali a mandou aos magotes vindos de dentro e de fora, de uma diáspora próxima.
Sol, portanto, e muita água convidativa. Muita praia e muita piscina. Muito vagar e muita animação. Porém uma água nem sempre muito transparente como soía, nem sempre uma animação variada e distinta, nem sempre uma restauração com honestidade sazonal. Um verdadeiro allgarve à portuguesa!
Num dos dias, para fugir à rotina, a experiência da Nacional 125. Rente a Albufeira e a Boliqueime, trânsito doutrinado, paragem no centro de Pêra, ao engano, e logo em Algoz, a norte da via, para visitar a nona edição do «FIESA 2011», as badaladas construções de areia este ano sob o lema «Animalândia». Quatro entradas, em regime familiar, e lá se foram vinte e cinco euros para o reino dos animais, alguns já esboroados por mor do tempo, em questão de hora e meia.
Dali, com desvio certeiro, para Silves. A Feira Medieval encerrara nas vésperas. O castelo, no entanto, estava à vista, sobranceiro ao rio, mas não entrámos nele, sequer subimos o empedrado renovado. Tardava o almoço, o calor apertava, a cidade domingueira estava deserta, fantasmagórica, só uma loja chinesa marcava o ponto às quatro da tarde, e ainda um restaurante, hospitaleiro, fazendo questão de franquear as portas por escassez de clientela.
Pela frescura da Nacional 124, fica para trás a barragem assinalada de Odelouca, não visitada, como o castelo da cidade árabe, por falta de tempo e de querença.
Portimão adivinha-se. Acolhe. Prende-nos a zona ribeirinha e a vastidão do estuário. A praia da Rocha não muito distante, mas ficou adiada também, como adiado ficou, por rematado, o Festival da Sardinha.
De novo pela Nacional 125, em viagem de sol-pôr. O tráfego favorável, nada de reveses, nada de congestionamentos. O Zoomarine e o Aquashow desfizeram-se das filas, já não corre água nos escorregas. A Quarteira entrou no turno da noite e a movida deslocou-se para o calçadão.
Isto foi num dos dias. Nos demais, a rotina.
Ah, mas houve outra, a boa rotina das crónicas de Lobo Antunes cujo Segundo Livro delas aviei espreguiçado junto à piscina antes de meter no bolso o ar da praia.
«Normalmente é no terceiro minuto a partir do crepúsculo que o ar da praia é mais frio do que a água. Não no segundo nem no quarto: no terceiro e durante onze segundos, o que requer discernimento, atenção e paciência. O melhor é encostarmo-nos à muralha, de queixo na palma, vigiar as gaivotas, dar fé da mudança de cor no horizonte e nisto, mal o terceiro minuto começa, tira-se a palma do queixo para que o ar poise nela e aí está: pega-se no ar da praia, mete-se logo no bolso e leva-se para casa sem deixar entornar. Tem de utilizar-se logo visto que no dia seguinte, a partir das dez, já o ar aqueceu.»
E enquanto não acabam as férias, guardo o ar salgado que trouxe e atenuo a vacilante insatisfação com o gozo das palavras que vierem, concordantes.

Crónica de Agosto de 2011 de António Souto para o blog «Floresta do Sul»; crónicas anteriores: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14, 15, 16, 17, 18, 19, 20, 21, 22, 23, 24, 25, 26, 27, 28; 29; 30; 31; 32; 33; 34; 35; 3635; 37;  38.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Um livro, aqui


«Os Golos de Jardel Nunca Foram Imortalizados numa Canção» - Este livro de histórias pode ser lido na íntegra neste blog. Basta clicar no separador «Histórias de futebol», em cima.

sábado, 13 de agosto de 2011

Gente desta...

O ministro das finanças anunciou a subida do IVA da electricidade e do gás natural de seis para 23%. Quanto ao gás, devo dizer que aqui só dá mesmo gás de garrafa, que já tinha o IVA a 23%. Espero que agora esse sujeito com ar estranho não se lembre de no caso do gás de garrafa levar o IVA até aos 40%. Espero, apenas, certezas não posso ter, porque de gente desta tudo já é de esperar. Menos que cortem nas despesas com as suas próprias mordomias. A presidente da assembleia da nossa (?) república acaba de contratar mais um motorista (eram oito, agora são nove). Mais uns dois mil euros por mês a juntar ao défice.

Canções Inesquecíveis – 5

Canções anteriores: 1, 2, 3, 4.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Apenas mais um tópico

O governo divulga na Internet, aqui, as nomeações que tem vindo a fazer. No tempo de José Sócrates o importante parecia ser esconder as nomeações, enquanto agora temos toda esta «transparência» a que me parece que falta algo essencial: além do cargo, do nome, da idade, do vencimento mensal bruto, da data de nomeação e do contacto, devia ser incluído um tópico – «O que é que faz concretamente» – bem mais importante. Isto para não pedir um tópico mais ambicioso, em forma de pergunta e à frente do qual seria colocado um S (sim) ou um N (não): «A nomeação justifica-se ou trata-se apenas da história do costume?» Reconheço que seria pedir muito.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Jurassic house

A trabalhar na mesa grande da cozinha, onde os meus filhos há pouco estiveram a brincar. Uns combates de dinossauros em que um gormiti e um cavalinho da Kitty, não cheguei a perceber como, também conseguiram entrar (e no fim sair, o que ainda me pareceu mais estranho). Agora, enquanto edito alguns dos textos de uma das revistas («… a questão que começava a tornar-se inquietante, para os puristas das teorias mais elitistas sobre a inteligência…» ou «… o delírio da dominação do financeiro sobre a economia real acabou por mostrar a que ponto é ilusória a pretendida auto-regulação dos mercados…»), vejo um saltassauro (herbívoro) a passar por um terrível suchomimus (que nos últimos tempos me habituei a tratar por sucomekis). Se olhar para o outro lado, vejo muitos mais, umas dezenas, sendo que à frente estão um rex, um parassaurolofo e um dimetrodon, além do cavalinho da Kitty, que é todo de se mostrar. Tenho de procurar um pouco para encontrar um dinossauro que sempre foi o meu preferido, o estegossauro. Mas ele está por aqui (ou antes, eles estão por aqui, pois há pelo menos uns três). Lembro-me de que quando tinha dez ou onze anos fiz um em madeira, na velha cadeira de trabalhos oficinais, e isso deu no terceiro período para subir a nota para cinco. Eu já gostava desse dinossauro, que tinha conhecido, como alguns outros, nos autocolantes dos Kalkitos, mas depois do trabalho do colégio de Monchique ainda fiquei a gostar mais. Foi o único dinossauro que tive, pintado em tons erverdeados e com os espigões bem salientes nas costas. Mesmo com os Kalkitos, não fazia a mínima ideia do que era um suchomimus, um saurophaganax ou um T-rex negro. Mas já conhecia o T-rex digamos assim normal, o anquilossauro e o iguanodonte, por exemplo. Agora, passados trinta anos, há de tudo um pouco cá por casa. Até um estranho aparelho chamado dinoportador em que se mete uns cartões com os respectivos dinossauros desenhados e depois… Bom, depois é o salve-se quem puder.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Um novo futuro

Miguel Relvas, em declarações feitas hoje à comunicação social, falou de um plano que deverá estar pronto até 15 de Setembro de forma a permitir abordar com optimismo o «futuro recente» do Grupo RTP. Entretanto, em edições on-line de jornais, já vi que lhe mudaram na transcrição das declarações este novo futuro para «futuro mais próximo» (imagino que para a frente).

domingo, 7 de agosto de 2011

Maria Lúcia Lepecki (1940-2011)

Encontrámo-nos apenas uma vez, em Montemor-o-Novo, num evento onde ela ia falar sobre José Cardoso Pires e eu ler uma história para crianças. Eu conhecia o seu nome de há muitos anos e tinha por ela uma enorme admiração. Ela presumo que nem sabia quem eu era. Tinha a máquina fotográfica comigo e acabei por fotografá-la quando ela estava a falar sobre o autor de «A Balada da Praia dos Cães», ao lado de uma das filhas deste. A fotografia (primeira) não ficou lá muito boa. No fim da palestra, ela veio ter comigo com uma senhora da zona, uma amiga de muitos anos que então reencontrava. A amiga tinha ido de propósito ouvi-la, ela tinha referido isso na palestra, assim como as circunstâncias do encontro, único, algumas décadas antes. Pediu-me para tirar uma fotografia das duas e deu-me o endereço de e-mail para lha enviar. Tirei a fotografia (segunda), a medo, pensando que se calhar ficaria como a da palestra. Mas não ficou. Uma questão de sorte.

Ver mais sobre Maria Lúcia Lepecki aqui.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

O hotel

«Nunca o Estado precisou tanto de gente competente para fazer o que é preciso. Mas nunca a Administração Pública esteve tão fraca, porque enfraquecida, como hoje. O Estado tornou-se um hotel com uma porta giratória por onde entram e saem os chefes futuros e passados. Quando entram, dormem nas suites. Só os funcionários que os servem não mudam, na cozinha ou na lavandaria. Mas é a eles que fazem a cama.»
Pedro Santos Guerreiro, no «Jornal de Negócios»

Revista «human» de Agosto

Nas bancas desde o passado fim-de-semana. Em destaque, na secção «Responsabilidade Social», um trabalho sobre a Fundação Luís Figo.

sábado, 30 de julho de 2011

António Souto – Crónica (38)


É aqui, neste nosso desvão, que a agonia nos bate à porta. E nós abrindo-a, para já um bocadinho só, contrariados, mas logo que sejam passadas as férias, não haverá músculo que a mantenha intransponível. Com as carreiras congeladas e os salários um tanto diminuídos, o pessoal ainda vai achando quase normal dar uma mãozinha, mas quando as bilheteiras reclamarem aumento, e os bens de consumo mais essenciais se tornarem ainda mais essenciais, e o Natal se adivinhar menos feliz, e a saúde menos saúde, e a crise mais crise e mais perdurável, aí é que a porca vai torcer o rabo.

Troikas e baldroikas
Ultimamente tem morrido muita gente. A cada ano que passa fico sempre com a estranha sensação de que morre mais gente, de que se morre mais. Está bem, há defuntos que não me dizem nada e outros que me dizem muito pouco, e com esses não me preocupo, mas a cisma maior é com aqueles por quem nutria alguma consideração, particularmente com aqueles por quem tinha alguma ou muita estima, afeição e amizade, que com estes a tumba brada mais forte, atinge-nos o imo.
Depois acabo fatalmente por concluir que a morte dos outros está na razão directa do meu avelhentar, o que na embocadura dos cinquenta aflige qualquer espírito inconformado.
Agora que está dado o tom, a fugir para o derrubado, podemos saltar solidariamente para aquilo que efectivamente aflige a nossa comunidadezinha de Vila Real do norte a Vila Real do sul, agora e sobretudo aqui (se bem que o próprio universo, que é coisa maior, a continuar este descalabro sistémico, não tarda nada está de rastos e com os pólos invertidos).
Porque é aqui, neste nosso desvão, que a agonia nos bate à porta. E nós abrindo-a, para já um bocadinho só, contrariados, mas logo que sejam passadas as férias, não haverá músculo que a mantenha intransponível. Com as carreiras congeladas e os salários um tanto diminuídos, o pessoal ainda vai achando quase normal dar uma mãozinha, mas quando as bilheteiras reclamarem aumento, e os bens de consumo mais essenciais se tornarem ainda mais essenciais, e o Natal se adivinhar menos feliz, e a saúde menos saúde, e a crise mais crise e mais perdurável, aí é que a porca vai torcer o rabo.
Aí é que os navegadores à deriva de hoje (desempregados «depois de estar a Índia descoberta») vão perceber que a gente não tem mesmo emenda. Pelos vistos, nunca tivemos. Nem mesmo quando fomos grandes, quanto mais agora… E não se diga que não houve em todos os tempos quem, visionariamente, avisasse a tripulação.
Eça, sempre Eça.

«Nós estamos num estado comparável, correlativo à Grécia: mesma pobreza, mesma indignidade política, mesmo abaixamento dos caracteres, mesma ladroagem pública, mesma agiotagem, mesma decadência de espírito, mesma administração grotesca de desleixo e de confusão. Nos livros estrangeiros, nas revistas, quando se quer falar de um país católico e que pela sua decadência progressiva poderá vir a ser riscado do mapa – citam-se ao par a Grécia e Portugal. Somente nós não temos como a Grécia uma história gloriosa, a honra de ter criado uma religião, uma literatura de modelo universal e o museu humano da beleza da arte.» («Farpas»)

«Que fazer? Que esperar? Portugal tem atravessado crises igualmente más: – mas nelas nunca nos faltaram nem homens de valor e carácter, nem dinheiro ou crédito. Hoje crédito não temos, dinheiro também não – pelo menos o Estado não tem: – e homens não os há, ou os raros que há são postos na sombra pela Política. De sorte que esta crise me parece a pior – e sem cura.» («Correspondência»)

«Em Portugal não há ciência de governar nem há ciência de organizar oposição. Falta igualmente a aptidão, e o engenho, e o bom senso, e a moralidade, nestes dois factos que constituem o movimento político das nações./ A ciência de governar é neste país uma habilidade, uma rotina de acaso, diversamente influenciada pela paixão, pela inveja, pela intriga, pela vaidade, pela frivolidade e pelo interesse.» («Distrito de Évora»)

«A única crítica é a gargalhada! Nós bem o sabemos: a gargalhada nem é um raciocínio, nem um sentimento; não cria nada, destrói tudo, não responde por coisa alguma. E no entanto é o único comentário do mundo político em Portugal. Um Governo decreta? gargalhada. Reprime? gargalhada. Cai? gargalhada. E sempre esta política, liberal ou opressiva, terá em redor dela, sobre ela, envolvendo-a como a palpitação de asas de uma ave monstruosa, sempre, perpetuamente, vibrante, e cruel – a gargalhada! Política querida, sê o que quiseres, toma todas as atitudes, pensa, ensina, discute, oprime – nós riremos. A tua atmosfera é de chalaça.» («Uma Campanha Alegre»)

As citações são longas, como longas foram as advertências. Só assim se ajuízam as troikas e baldroikas da nossa sina, deste país, destes políticos e, parodiando com graça Branca Flor, que Deus a tenha, das coisas «que eles inventam»!...
Como na morte dos outros, em mim o mal é mesmo capaz de estar na casa dos cinquenta.
Gargalhemos, por isso, enquanto é dia!
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Crónica de Julho de 2011 de António Souto para o blog «Floresta do Sul»; crónicas anteriores: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14, 15, 16, 17,18, 19, 20, 21, 22, 23, 24, 25, 26, 27, 28; 29; 30; 31; 32; 33; 34; 35; 36; 35; 37.