domingo, 24 de julho de 2011

Mau gosto

António Nogueira Leite, agora metido na administração da Caixa Geral de Depósitos, escreveu no «Facebook» sobre a morte de Amy Winehouse um post de muito mau gosto («cá para mim comeu qualquer coisa que lhe fez mal»). Não consegui deixar de me lembrar do caso do lamentável ministro do ambiente Carlos Borrego (a quem há já uns bons anos Cavaco Silva se viu obrigado a pôr um par de patins), quando contou a anedota nojenta de que os corpos dos hemofílicos mortos no Hospital de Évora com sangue contaminado eram reciclados para aproveitar o alumínio. Às vezes uma pessoa não percebe o que vai na cabeça desta gente.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Agradecimento à corja

É um poema de Joaquim Pessoa, que penso que vai integrar o seu próximo livro, com 365 poemas, um por cada dia do ano. O poema, sem nenhum título que não o do número do dia que o autor lhe atribuiu, tem circulado pela Internet, onde ficou conhecido como «Poema de agradecimento à corja». É assim:


Obrigado, excelências.

Obrigado por nos destruírem o sonho e a oportunidade

de vivermos felizes e em paz.

Obrigado

pelo exemplo que se esforçam em nos dar

de como é possível viver sem vergonha, sem respeito e sem

dignidade.

Obrigado por nos roubarem. Por não nos perguntarem nada.

Por não nos darem explicações.

Obrigado por se orgulharem de nos tirar

as coisas por que lutámos e às quais temos direito.

Obrigado por nos tirarem até o sono. E a tranquilidade. E a alegria.

Obrigado pelo cinzentismo, pela depressão, pelo desespero.

Obrigado pela vossa mediocridade.

E obrigado por aquilo que podem e não querem fazer.

Obrigado por tudo o que não sabem e fingem saber.

Obrigado por transformarem o nosso coração numa sala de espera.

Obrigado por fazerem de cada um dos nossos dias

um dia menos interessante do que o anterior.

Obrigado por nos exigirem mais do que podemos dar.

Obrigado por nos darem em troca quase nada.

Obrigado por não disfarçarem a cobiça, a corrupção, a indignidade.

Pelo chocante imerecimento da vossa comodidade

e da vossa felicidade adquirida a qualquer preço.

E pelo vosso vergonhoso descaramento.

Obrigado por nos ensinarem tudo o que nunca deveremos querer,

o que nunca deveremos fazer, o que nunca deveremos aceitar.

Obrigado por serem o que são.

Obrigado por serem como são.

Para que não sejamos também assim.

E para que possamos reconhecer facilmente

quem temos de rejeitar.

sábado, 2 de julho de 2011

Revista «human» de Julho

Transformar materiais cujo destino seria o lixo em peças únicas de eco-design, numa nova abordagem ao conceito de moda que já ultrapassou as fronteiras portuguesa: o caso de sucesso da Tela Bags na «human» de Julho, já nas bancas (ver aqui).

Mentir

Independentemente da situação do país, um mentiroso é um mentiroso.

António Souto – Crónica (37)

Este cidadão comum não volta. Vai a um particular, logo ao dobrar da esquina, que por cinquenta e cinco euros o consulta, o ausculta e lhe põe nas mãos uma molhada de receitas para uns examezinhos ao sangue, aos pulmões, à próstata, ao abdómen, à tiróide, ao coração e à paciência. Quando houver resultados, o cidadão comum deve voltar para nova consulta…

Tudo por uma carta
Um cidadão comum abre um jornal e depara-se com a notícia de que há centenas ou milhares de condutores em situação de infracção por não terem revalidado a sua carta de condução. A legislação fora alterada e agora a idade que comanda a validade é outra, que é como quem diz, para as categorias e subcategorias mais baixas, aos cinquenta, aos sessenta, aos sessenta e cinco, aos setenta, aos setenta e dois, aos setenta e quatro, aos setenta e seis e por aí fora, de dois em dois até que a morte os separe…
O cidadão comum dá-se conta de que está quase a cumprir meio século de existência, o primeiro prazo de validade. Desencadeia, por isso, o normal processo que qualquer cidadão zeloso dos seus deveres desencadearia.
Começa então por ir ao médico de família, mas descobre acidentalmente que já não o tem. Agora, só às sete da manhã para receber uma senha para outro doutor, assim tipo de substituição, se houver doutor e se houver senhas suficientes, ou então volta no dia seguinte, ou no outro, ou no outro ainda.
Este cidadão comum não volta. Vai a um particular, logo ao dobrar da esquina, que por cinquenta e cinco euros o consulta, o ausculta e lhe põe nas mãos uma molhada de receitas para uns examezinhos ao sangue, aos pulmões, à próstata, ao abdómen, à tiróide, ao coração e à paciência. Quando houver resultados, o cidadão comum deve voltar para nova consulta, trazer um impresso de uma escola de condução, e estando tudo bem pagará outros cinquenta e cinco euros mais o custo da assinatura no tal impresso atestado ou atestado impresso.
Pouco convencido, o cidadão comum, que há poucos meses fizera exames de rotina, decide tentar a sua sorte e bater a outras portas. Abre-se-lhe uma, e em poucos minutos fica o cidadão atestado por uns míseros quinze euros da sua ainda robustez e da sua necessária capacidade para se desembaraçar na estrada com a habilitação devida.
Passo seguinte, tirar um boneco a cores e em fundo branco, fundamental o fundo branco, e ala para um serviço qualquer que receba o pedido de revalidação e o encaminhe para o Instituto da Mobilidade e dos Transportes Terrestres.
A afável funcionária verifica que o cidadão comum tem tudo quanto é exigido para o acto – atestado médico, foto a cores e com fundo branco, cartão do cidadão e carta de condução antiga (o pagamento efectua-se no fim), só precisa mesmo é do código do cartão de cidadão. O incrédulo cidadão ainda arrisca um «qual código?», mas é logo tranquilizado, «o da morada, que vem na carta que recebeu para levantar o cartão, não se lembra?». Lembra-se, o cidadão comum lembra-se da carta, só não se lembra do local exacto onde de certeza a guardou religiosamente há uns dois anos. Voltou o cidadão a casa e não encontra o rasto àquela carta assim do género daquela que às vezes nos chega das Finanças, da famigerada Direcção-Geral das Contribuições e Impostos. Regressa o cidadão ao balcão de atendimento de há pouco e fica a saber que sem o código nada feito, e que se calhar terá de renovar o cartão de cidadão.
O cidadão comum liga para o Portal do Cidadão, e do outro lado confirma o pior, que não se emitem segundas vias dos códigos do cartão de cidadão e que o cidadão desmemoriado terá mesmo de renovar a sua identidade.
O cidadão comum investe para uma conservatória e em menos de uma hora (com muita, muita sorte para um cidadão comum) estava medido e fotografado e digitalizado e tranquilizado, que dali a cinco dias úteis receberia uma carta com uns códigos e que já poderia ir levantar o seu novo cartão com chip para mais uns cinco aninhos.
Quanto à nova carta de condução, bom, é ter o cidadão comum confiança no sistema que, como todos sabemos, existe inequivocamente para auxiliar o comum dos cidadãos, que para isso se descobriu o verdadeiro prodígio do simplex. E pelo meio, por via das coisas, ter muita fé em quem manda nos homens e na terra inteira, sem dramas, que afinal o importante é mesmo ter um código na alma.
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Crónica de Junho de 2011 de António Souto para o blog «Floresta do Sul»; crónicas anteriores: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14, 15, 16, 17, 18, 19, 20, 21, 22, 23, 24, 25, 26, 27, 28; 29; 30; 31; 32; 33; 34; 35; 36.

terça-feira, 21 de junho de 2011

Em Abril passado

Em Abril passado, no Colégio Internacional de Vilamoura. Ver aqui.

terça-feira, 14 de junho de 2011

Entrevista – jornal «i»


Entrevista de Diana Garrido, para o jornal «i» (suplemento «LiV», secção «Faz-se assim», edição de fim-de-semana, 11/12.06.11) – a propósito do livro «O Sorriso Enigmático do Javali»

Início do livro: «Junto à vedação da Herdade do Convento, bem perto de onde poucos dias antes tinha retirado dos bicos do arame farpado o corpo de uma garça, o pequeno Tukie viu duas perdizes atravessarem a estrada de terra. Não lhe tomaram medo e entraram tranquilas na herdade, quase a tocarem o primeiro dos arames da vedação. Ele lembrava-se bem de que a garça tinha perdido a vida no terceiro, a pouco mais de meio metro de altura.»

Tem algum método de escrita?
Não se pode dizer que é bem um método. Eu costumo escrever muito depressa para depois trabalhar com calma sobre o que ficou escrito. Posso até mudar tudo várias vezes, ou deitar fora, mas ajuda-me muito escrever a primeira versão o mais depressa que puder, seja de uma página, seja de um conto, seja de um capítulo de um romance.
Tem alguma rotina ou truques?
Rotinas não tenho, sobretudo porque a minha vida vai muito para além da escrita. Se fosse apenas escritor talvez as tivesse. Quanto a truques, o que contei sobre escrever depressa para depois trabalhar sobre isso pode-se dizer que é um truque.
Faz pausas para comer ou qualquer outra coisa?
As pausas que faço enquanto escrevo podem ser por inúmeras razões, minhas, da minha família, do meu trabalho. Talvez o mais correcto seja dizer que eu escrevo durante as pausas de tudo o resto, sem pausas.
É como se fosse um emprego das nove às cinco ou espera pela inspiração?
Pelo que disse, nem é um emprego nem eu espero pela inspiração. É mais normal que escreva à noite, embora durante o dia escreva muito, por causa do meu trabalho ligado ao jornalismo. No fundo, escrevo os meus livros quando posso.
Usa um tipo de letra específico?
Sim, Arial, porque me habituei.
Escreve a computador ou à mão?
Mais no computador. À mão quase só o princípio de um livro, de um capítulo, ou então um conto.
Tem manias do género acabar sempre uma página, por exemplo?
Uma página não. Mas tenho a mania de chegar ao fim, já não digo de um romance, que aí tento ter mais calma, mas de um capítulo. Nos contos é capaz de ser diferente, porque já fui muitas vezes avisado de que os meus contos não acabam.
Pensa logo no título ou surge depois?
Nos meus romances os título chegaram-me quase sempre no fim e nalguns casos muito depois de ter acabado de escrevê-los: por exemplo os romances «O Medo Longe de Ti» e «O que Entra nos Livros», que têm uma ligação, porque o segundo é uma espécie de continuação do primeiro, com uma personagem que vem ter comigo.
Faz algum esboço antes das personagens e da trama?
Não faço. Mas já vi coisas de escrita criativa onde aconselham a fazer. Uma vez li que se deve fazer fichas para as personagens, falar inclusive da roupa e da mobília. Fiquei um bocado atrapalhado, porque me lembrei de que muitas das minhas personagens não tinham mobília, ou pelo menos eu não falava disso. Mas depois passou-me.
A primeira frase da primeira página mantém-se, ou muda depois?
Normalmente mantém-se. Mesmo na escrita inicial rápida de que falei, sujeita a muitas mudanças. Só começo a escrever quando há um ponto de partida em relação ao qual não tenho dúvidas. Se pensar na frase inicial do romance «Uma Noite com o Fogo», por exemplo, ou antes, nas frases, todas as dúvidas para começar a escrevê-lo – e que se prolongaram por quatro ou cinco anos – desapareceram quando descobri as primeiras frases: «Há muito tempo que escrevia este livro. Alguns anos. Mas escrevia-o apenas na minha mente, com o que pensava, com tudo aquilo que ia recordando.»
Evita ler livros quando escreve?
Não. Se puder leio sempre. O problema é que há alturas em que não é fácil arranjar livros que me interessem.
Ouve música enquanto escreve, ou prefere silêncio?
Prefiro o silêncio.
Qual é a sensação que fica, quando termina um livro?
Uma sensação de tranquilidade. Depois de descobrir até onde quero ir com o livro, que é o mais difícil, eu tento chegar lá. E isso custa-me muito, sempre.
Trabalha em mais do que um livro ao mesmo tempo?
Sim. Mas quando encontro o caminho num deles deixo os outros de lado por uns tempos.
O que é que não pode faltar na sua mesa de trabalho?
O computador.
Escreve em casa?
Sim.
Em que é que está a trabalhar neste momento?
Estou a tentar escrever um romance e um livro de contos.
Já deitou fora muita coisa que tenha escrito?
Já. Apago no computador. Ou rasgo folhas de papel. E há muitos anos deitei fora um romance, ainda escrito à máquina. Foi o primeiro que escrevi. Tinha uma história que eu acho que era boa, mas estava mal contada, por isso o melhor foi deitar fora.
Como é que dá o nome às suas personagens?
De muitas formas. Depende dos livros. Nalguns inventei. Noutros foi diferente; por exemplo, num de há muitos anos, chamado «Os Sonhos e Outras Perigosas Embirrações, que tem centenas de personagens, não tive grande trabalho, pois elas existiram quase todas na serra do Algarve; já num que referi há pouco («Uma Noite com o Fogo), praticamente não precisei de nomes, porque tirando eu quase não aparece ninguém.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Já depois das oito e meia

Estádio Municipal de Estremoz, no Domingo passado, dia de eleições. Já passava das oito e meia da noite e eu ainda não fazia a mínima ideia de quais eram os resultados. A quem caberia em sorte roubar-nos nos próximos anos?, era o que eu poderia ter perguntado a mim próprio nesse momento. Mas não, não fiz nenhuma pergunta. Concentrei-me nas fotos. Em cima está um pormenor de uma delas. Os miúdos a erguerem o troféu conquistado. O primeiro para a maior parte deles. Com seis anos, estavam completamente deslumbrados.

Uma entrevista

Uma entrevista de João Brito Sousa, para o jornal algarvio «O Olhanense», publicado em Maio passado.

À conversa com António Manuel Venda

Tive contacto com a obra literária do escritor António Manuel Venda, através de conversas tidas com o meu José Carlos Vilhena Mesquita, também escritor, além de historiador e professor. Na opinião desta eloquente personalidade, «a narrativa de António Manuel Venda enquadra-se perfeitamente na definição clássica de romance», sendo que, «acima de tudo, escreve primorosamente bem, numa linguagem escorreita e absolutamente correcta na estrutura frásica e na concordância gramatical, em que por vezes o autor se coloca, diegeticamente, com pruridos de perfeccionista».

Qual o livro que tem à cabeceira neste momento? Pode falar-nos dele?
Esta não é uma boa altura para responder a uma pergunta assim. São vários, porque os que para lá tenho levado têm sido uma desilusão. Por isso o melhor é não dizer títulos nem nomes de autores. Excepto num caso, um romance de Graham Greene chamado «O Factor Humano». Comecei a ler pelos azares com os outros seis ou sete que tinha ido acumulando e a princípio ainda estive um bocado apreensivo, mas depois revelou-se uma boa surpresa – uma história de agentes secretos onde as relações humanas acabam por ser o maior mistério.
Um livro que tenha gostado muito de ler... Dos inesquecíveis. Fale-nos dele também?
Tinha de ser de um dos meus escritores preferidos, o colombiano Santiago Gamboa, mas também podia ser um dos romances do espanhol Javier Cercas ou um dos do chileno Roberto Ampuero. Chama-se «Os Impostores» e passa-se na China, país para onde viajam diversas personagens absolutamente geniais.
Considera-se um escritor? O que é para si um escritor? O escritor tem obrigações?
Muita da minha vida tem a ver com a escrita, seja no trabalho ligado ao jornalismo, seja nos meus livros. O facto de ser ou não escritor tem mais a ver com o que pensam de nós do que com o que nós pensamos sobre o assunto. Há quem me considere escritor, há quem de certeza pense que não, há até quem não saiba que eu existo. Quanto a obrigações de um escritor, não acho que tenha mais do que as outras pessoas, mas convém estar à vontade com o idioma que usa, coisa que como se sabe nem sempre acontece.
O que está a escrever agora?
Tento escrever um romance, de uma série que se pode aproximar do género policial. E tenho vindo a escrever alguns contos de dois projectos: novas histórias do pequeno Tukie, o miúdo que é o protagonista do meu livro mais recente – «O Sorriso Enigmático do Javali» –, e um conjunto de contos passados numa câmara municipal, num ambiente que conheço bem.
O primeiro dever de quem fala é dizer o que pensa, disse o presidente Sidónio Pais na sua tese doutoramento. Concorda?
Aí está um tema em que não gosto de falar em deveres nem de fazer hierarquias. Acho que devemos dizer o que pensamos, se quisermos, coisa que na história de Portugal, até na mais recente, nem sempre tem sido possível. No caso da figura que citou, tenho dúvidas de que no tempo dele como presidente fosse conveniente dizer-se o que se pensava.
A literatura pode mudar o mundo?
Talvez já tenha tido o seu tempo para isso. Agora o mundo muda todos os dias, sem precisar da literatura para nada, e surpreende-nos cada vez mais. Tudo ficou demasiado rápido para a literatura.
Acha que se sentiria infeliz sem os seus livros e sem escrever?
À partida acho que sim, mas só passando pela experiência para ter a certeza. Gosto muito de escrever, por isso prefiro ficar sem saber como seria se não escrevesse.
Qual o livro que mais gostou de escrever? E por quê?
Um romance chamado «O Medo Longe de Ti» e logo a seguir o livro mais recente, que já referi. São diferentes, um tem uma história de amor, outro é uma narrativa em que conto as aventuras de um miúdo no Alentejo, mas foram os dois livros que mais me fizeram regressar à infância.
Considera-se um escritor de leitura fácil? Acha que um escritor deve escrever para compreensão de todos? Ou um escritor deverá escrever difícil?
Falo por mim. Escrevo o que me interessa escrever e o que eu próprio consigo entender. Apenas isso. Falar pelos outros é difícil, mas acho que dá para perceber os meus livros, embora certezas nunca se possa ter. Basta pensar na quantidade de livros que eu não consegui entender, ou ler, apesar das tentativas que fiz.
Hemingway escrevia das seis da manhã até ao meio dia, Saramago escrevia duas páginas por dia. E o senhor, como faz?
Bom, aí acho que eles tiveram mais sorte do que eu, porque eu escrevo apenas quando posso.
«Entre o nada e a dor prefiro a dor», disse Faulkner. Que acha?
Não tem muito a ver, mas a frase, talvez pela estrutura, fez-me lembrar um político de má memória mas se calhar não tão mau como os que agora temos que suportar – António Guterres, quando disse que se o colocassem entre a espada e a parede haveria de preferir a espada. Quanto a Faulkner, não me choca a frase do nada e da dor num livro dele, dita por uma personagem, mas conhecendo-lhe a biografia acho que ele na prática iria preferir sempre o nada.
A literatura tem evoluído? Há muita ou pouca gente a escrever em Portugal? Sente que o país tem mercado para os livros?
Há muita gente a escrever, muito mais do que há uns anos, ou pelo menos há muita gente a publicar livros, até pelas mudanças que aconteceram no mundo editorial. Além disso, a Internet também permitiu a muita gente mostrar aquilo que escreve. A literatura tem evoluído não apenas por se tratar de literatura mas porque o mundo evoluiu, evolui todos os dias, e muda, muda muito, como já referi. Quanto ao mercado português, é muito pequeno, mas isso tanto é um problema para os livros como para os produtores de vinho ou para os criadores de galinhas.
O livro é uma mulher, como se dizia em Coimbra?
Nunca pensei muito nisso, embora já tenho ouvido a frase. Mas há uma coisa que muitas vezes aconteceu com os meus livros, escrevê-los por causa de uma mulher, ou a pensar numa mulher. Acho que quem ler alguns deles percebe isso facilmente.
Quando começa a escrever já tem tudo desenhado na mente? E o título, surge antes ou depois?
Quando começo, pelo menos das experiências que tenho, quase nada está desenhado na minha mente. Sei apenas como começa o caminho. Quanto ao título, depende. Já me aconteceu ter o título e pouco saber da história, sobretudo nos contos.
O que é que gostava de responder que não foi perguntado?
A verdade é que não sei. Tenho experiência de fazer perguntas, sobretudo pelo meu trabalho, mas é aos outros. Perguntas a mim? Muito difícil. Mas não quer dizer que não me questione, não, isso faço-o todos os dias.
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António Manuel Venda nasceu em Monchique, no Sul de Portugal, em 1968. Publicou vários livros de ficção («Quando o Presidente da República Visitou Monchique por Mera Curiosidade», contos; «Os Abençoados Fiéis do Senhor S. Romão», novela; «Até Acabar com o Diabo», romance; «O Velho que Esperava por D. Sebastião», contos; «Os Sonhos e Outras Perigosas Embirrações», romance; «O Medo Longe de Ti», romance; «O Amor por entre os Dedos», contos; «O que Entra nos Livros», romance); «Uma Noite com o Fogo», romance; e «O Sorriso Enigmático do Javali», narrativa. Destes, alguns receberam prémios literários de instituições como o Instituto Abel Salazar, o Centro Nacional de Cultura, a Câmara Municipal de Almada, a Secretaria de Estado da Cultura e a Sociedade Portuguesa de Autores. Escreve no blog «Floresta do Sul».

sexta-feira, 3 de junho de 2011

No próximo domingo

No próximo domingo, a mais de 200 quilómetros da «minha» mesa de voto, o cenário deverá ser mais ou menos assim. Obviamente que não ia trocá-lo por uma longa viagem para votar em branco ou escrever uns comentários no boletim.

Canções Inesquecíveis – 4


Canções anteriores: 1, 2, 3.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Diálogo de hoje

– Já decidiste em que chulo vais votar?
– Não vou votar em ninguém.
– O quê, vais votar em branco?!
– Não.
– Ah, vais escrever umas coisas no boletim…
– Não.
– Então?
– Eu não vou votar.
– Mas devias ir.