segunda-feira, 2 de maio de 2011
Feira do Livro de Lisboa – 2011
Vou estar no stand da Quetzal, no domingo, 15 de Maio: sessão de autógrafos, 17H00-18H00; iniciativa «Livreiro por um dia», 18H00-19H00.
António Souto – Crónica (35)
Já pensei em ameaçá-la com o FMI, mas sabemos bem como as aranhas são pouco dadas a palavras mansas e o FMI, esse, pouco dado a lidar com coisas insignificantes e nada proveitosas..
Aranhas em Abril
Gosto de alguns animais, não gosto de outros. Gosto mais de uns animais, gosto menos de outros. Há outros, ainda, que me são praticamente indiferentes. As aranhas, por exemplo, nem gosto nem desgosto, digamos que convivemos bem. Desde muito pequeno que me habituei a vê-las pelos vários espaços da casa dos meus avós, tanto no exterior como pelo interior. Na minha puerícia, as aranhas eram todas iguais e andavam à solta pelo alpendre, pelo palheirão, pelos currais, pela adega, pela casa da eira. Uma ou outra vez chegavam a aventurar-se pelo corredor do primeiro andar, pela sala de costura, pela sala de visitas, pela sala de jantar, pelos quartos. A verdade é que a minha avó embirrava era sobretudo com as teias dentro de casa, que davam um ar muito feio e descuidado, e se alguém ali viesse em visita era uma vergonha. Por isso, teias dentro da habitação vinham logo abaixo com a vassoura. As aranhas, essas, por lá continuavam, até porque, diziam os meus avós, eram muito úteis na limpeza de alguma bicharada inconveniente. O certo é que nunca as vi comer nada, a não ser algumas moscas mais distraídas que ficavam presas nos seus bem urdidos fios e zumbiam que se danavam, mas em vão. Tudo vai do hábito e da familiarização, e as aranhas, portanto, se metem nojo e apavoram alguns nossos semelhantes, a mim não me aquecem nem arrefecem.
Mas às vezes exasperam e cansam. Cansam-me e afrontam-me.
Então não é que uma delas deu para se acomodar há um tempo no espelho retrovisor do meu carro, do lado do pendura? Vai daí e desata a fazer teias numa tentativa de criar uma ponte entre o espelho e o vidro da porta. Por que razão as faz, não sei, mas lá deve ter os seus porquês. Mas uma teia de aranha num carro, ainda que por fora, causa má impressão, como dizia a minha avó, dá um ar de descuido e de abandono, e o carro ainda vai andando, não está desamparado. Eu bem insisto em limpar regularmente a teagem, mas o raio da aranha pouco tempo depois a repõe com o mesmo cuidado e no mesmo sítio. Já reparei que os outros carros das redondezas também as têm, como se fosse arte de engalanar, mas detesto teimosias. Quando vou lavar o carro, o que faço com relativa frequência, aponto a agulheta para o espelho, para dentro dele, e fico sempre convencido de que a danada não vai resistir à violência do jacto, mas, logo no dia seguinte, lá está a maldita teia, acabada e reluzente. Já pensei em ameaçá-la com o FMI, mas sabemos bem como as aranhas são pouco dadas a palavras mansas e o FMI, esse, pouco dado a lidar com coisas insignificantes e nada proveitosas. Por isso, e enquanto não compro um spray eficaz, resigno-me.
Resigno-me, como quem se molda a um Abril cada vez menos Abril. A este propósito, e enquanto oiço neste dia vinte e cinco a voz de Zeca, fui procurar um texto que lhe dediquei, após o seu passamento, e que saiu no «Diário de Notícias» de três de Março de 1987. Porquê? Porque sim, questão de esperança.
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«Um Cravo Indisciplinado»
A uma dúzia de anos da revolução dos cravos, e já as vozes que então cantaram Abril se ensurdecem, uma a uma, na rouquidão do tempo. E em cada voz um pouco de Abril, que o mesmo é dizer, um pouco de nós.
Morreu Adriano. Seguiu-se-lhe Ary dos Santos. Chegou, (in)esperadamente, a vez de Zeca. Todos três fazendo-se ao rio na idade em que um homem se cumpre.
De Adriano, recordo um serão-convívio na companhia de Sérgio Teixeira (Serginho ou, também para os amigos, o Sérgio Mestre), seu fiel acompanhante. Cantou-se e animou-se «a malta» até às tantas, que a noite, nessas alturas, raro se antecipava.
De Ary dos Santos, a efígie dolente do féretro atravessando, em manhã cinzenta de chuva lacrimosa, a rotunda do Saldanha. Imagem que retive, horas depois, no breve poema «Resistência»: Grito vibrante/ Esbatido/ No vento vago/ Melodiosamente manso/ E um soturno sossego/ Firme/ Avançando lento/ Na noite escura/ Plena/ Rumo ao negro nó/ Do luto.
De Zeca Afonso, que poderei recordar? Por ora, que ainda é cedo, quiçá a súmula dos três, a réstia de esperança inadiável, a força capaz de erguer bem alto um cravo indisciplinado.
Ao Zeca e a quantos o aguardam no além, e que com(o) ele souberam lutar-cantando, que se cumpram, «porque na vida», dizia Camões, «ninguém alcança a glória merecida».
Requiescat in pace!
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Crónica de Abril de 2011 de António Souto (escrita no dia 25 de Abril) para o blog «Floresta do Sul»; crónicas anteriores: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14, 15, 16, 17, 18, 19, 20, 21, 22, 23, 24, 25, 26, 27, 28; 29; 30; 31; 32; 33; 34.
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sexta-feira, 29 de abril de 2011
quinta-feira, 28 de abril de 2011
Uma reportagem
Uma reportagem da TVI, aqui (a partir dos 28 minutos e 50 segundos).
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TVI24
A décima terceira história
São doze as histórias protagonizadas pelo pequeno Tukie em «O Sorriso Enigmático do Javali». Por causa de um trabalho do meu filho, de seis anos, para a escola, escrevi a décima terceira. Pode ser lida até amanhã por esta hora no blog do livro, aqui.
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Literatura,
Livro «O Sorriso Enigmático do Javali»
quarta-feira, 27 de abril de 2011
O animal feroz fala educadamente com a jornalista
«Judite de Sousa, espero que se renda a esta minha resposta.» José Sócrates, ontem à noite, durante uma entrevista à TVI
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Política
terça-feira, 26 de abril de 2011
segunda-feira, 18 de abril de 2011
Uma cidade mítica
Estive no encontro «Palavra Ibérica 2011», em Tavira, com escritores do Algarve e da Andaluzia. Falei no painel de encerramento, sábado passado, à noite. Quando cheguei à Biblioteca Municipal, que tem o nome de um dos heterónimos de Fernando Pessoa (Álvaro de Campos), estavam os trabalhos quase a recomeçar. Parei por momentos à porta da sala, apanhei o telemóvel num dos bolsos das calças e preparei-me para tirar uma fotografia. Na altura em que carregava no botão, veio alguém cumprimentar-me. A foto é a que aqui publico, toda tremida.Gostei muito de participar no encontro. Pelo facto de ser no Algarve, e com escritores tanto da minha terra como do sudoeste de Espanha, a certa altura da intervenção lembrei-me das viagens que fazia em criança até Ayamonte, e de como a partir de Vila Real de Santo António, ali perto de onde estava a decorrer o encontro, eu, pequenino, via o Guadiana tão grande, imenso como depois nunca mais o vi com o olhar de adulto. O rio que eu, pequenino, observava no cais antes de apanharmos o barco.
Lembrei-me também de uma promessa que me tinham feito, a de que mais do que a Ayamonte eu haveria de ir a outra cidade de Espanha: Huelva. Mas eu acabei por nunca ir a Huelva, de forma que nesses tempos já tão distantes ela se tornou para mim, pequenino, uma espécie de cidade mítica. Não, uma espécie não, tornou-se verdadeiramente uma cidade mítica. Lembrei-me também, enquanto falava disto na noite de sábado, que uma vez, em Vila Real de Santo António, contei esta história. Terá sido há uns três ou quatro anos, numa iniciativa relacionada com os meus livros. Já quase no fim, uma mulher pediu a palavra e disse-me que tinha nascido em Huelva mas que morava em Vila Real de Santo António porque se tinha casado com um português. Era a parte em que me faziam perguntas, mas ela não queria fazer nenhuma pergunta, queria apenas dizer-me que Huelva, essa cidade mítica da minha infância, não era de forma nenhuma uma cidade mítica. E que se eu quisesse que fosse lá, agora já adulto, para disso tirar a prova. Disse-lhe que sim, que haveria de ir. Mas ao mesmo tempo eu sabia que estava a dizer aquilo e que não era verdade. Eu nunca haveria de ir a Huelva. Acho até que nunca hei-de ir, apesar de conhecer a maior parte de Espanha. Prefiro ficar com a ideia de que Huelva, a cidade de que eu ouvia falar com cinco ou seis anos, nas viagens para Ayamonte, é mesmo, será sempre, uma cidade mítica.
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sexta-feira, 15 de abril de 2011
Ano após ano
É terrível, ano após ano, ver um país a ser governado por vigaristas. E sempre com novos vigaristas à espreita.
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quinta-feira, 14 de abril de 2011
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