terça-feira, 22 de março de 2011

Contar a história

A história que dá o título ao livro «O Sorriso Enigmático do Javali». Contei-a hoje na Biblioteca Municipal Almeida Faria, em Montemor-o-Novo, a alunos de duas turmas de uma das escolas da cidade, alunos de sete, oito, nove anos, leitores muitos deles das aventuras de um rato intelectual chamado Geronimo Stilton. Uma experiência, como sempre, fascinante. Daqui por uns dias também contarei a história numa escola de Portimão e num colégio de Vilamoura.
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«Até que de repente esse sorriso desapareceu, o sorriso enigmático e silencioso, não porque o javali deixasse de sorrir, não, nada disso, apenas porque ele deu meia volta e desatou a correr pelo montado, em direcção à parte alta, onde o mato era maior e tinha zonas que até engoliam os sobreiros mais novos…»

segunda-feira, 21 de março de 2011

Com ou sem dinheiro

Agora que a tropa que tem governado o país pode estar na iminência de se ir embora, não falta quem acredite que vai substituí-la, e inclusive já há ministros, ou pelo menos diz-se que há. «Ali o senhor engenheiro foi indicado em Belém para ministro das Obras Públicas», dizia-me alguém um destes dias, não sei se a sério se a brincar. Ainda estive para perguntar «Mas que obras?», só que rapidamente achei melhor não alimentar o assunto. Logo se vê se é verdade, quando forem anunciados os nomes do novo governo. Não me admirava nada que fosse, pois o que é certo é que esse engenheiro, na noite das presidenciais, estava muito atento a assistir ao discurso de vitória e de rancor do candidato BPN. E numa das filas de maior visibilidade. Por mim, que vá para ministro à vontade, com ou sem obras para fazer, ou antes, com ou sem dinheiro para pagar as obras, se houver mesmo obras para fazer. Que vá à vontade, e que vão os outros também. Só espero, evidentemente, que depois dos submarinos não se lembrem de comprar naves espaciais. Com ou sem dinheiro para as pagar.

quarta-feira, 9 de março de 2011

O discurso

Gostei de algumas partes do discurso de Cavaco na tomada de posse. Sócrates é um bom destinatário, tal como muitos outros políticos que nos têm saído ao caminho (ele, Cavaco, incluído). Ou seja, Cavaco, em certo sentido, falou para si próprio; esperemos que saiba dar-se ouvidos.

sexta-feira, 4 de março de 2011

António Souto – Crónica (33)

E de novo Eça e Ramalho, em coro: «Vamos rir pois. O riso é um castigo; o riso é uma filosofia. Muitas vezes o riso é uma salvação. Na política constitucional o riso é uma opinião.» É este o meu riso de hoje, só para não chorar…

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O meu riso de hoje
Camilo Castelo Branco era um escritor do seu tempo, de alma e coração, mas atento, e não só de amores perdidos e de amores achados deu forma à criação, mas igualmente de muitas outras coisas do estômago e da cabeça. Sabia ele do que falava, e sabia também quanto urgia ouvir e mudar na sociedade do seu tempo.
Lembrei-me dele por mor de Calisto Elói de Silos e Benevides de Barbuda, morgado das terras de Miranda, que, eleito deputado, abala convicto para Lisboa. Defensor dos bons modos e dos bons costumes, começa por criticar os gastos supérfluos da nação, os vícios da capital e mais as mentes brilhantes que, aqui chegadas, dignas procuradoras da plebe, cedo se deixam inebriar e de deslumbramento se olvidam das suas origens e dos seus deveres. Mas o peso da urbe fala mais forte, o luxo e a notoriedade castram a singeleza e a honestidade da gente provinciana, e o ilustre parlamentar aos poucos cede e se torna igual aos demais, no trajar por fora como por dentro.
E por arrasto vem o Eça, e com ele Ramalho Ortigão, e as «Farpas» de ambos, como estas: «O país perdeu a inteligência e a consciência moral. Os costumes estão dissolvidos, as consciências em debandada, os caracteres corrompidos. A prática da vida tem por única direcção a conveniência. Não há princípio que não seja desmentido. Não há instituição que não seja escarnecida. Ninguém se respeita. Não há nenhuma solidariedade entre os cidadãos. Ninguém crê na honestidade dos homens públicos. Alguns agiotas felizes exploram. A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia. O povo está na miséria. Os serviços públicos são abandonados a uma rotina dormente. O desprezo pelas ideias aumenta em cada dia. Vivemos todos ao acaso. Perfeita, absoluta indiferença de cima a baixo! Toda a vida espiritual, intelectual, parada. O tédio invadiu todas as almas. A mocidade arrasta-se envelhecida das mesas das secretarias para as mesas dos cafés. A ruína económica cresce, cresce, cresce. As falências sucedem-se. O pequeno comércio definha. A indústria enfraquece. A sorte dos operários é lamentável. O salário diminui. A renda também diminui. O Estado é considerado na sua acção fiscal como um ladrão e tratado como um inimigo. Neste salve-se quem puder, a burguesia… explora. A ignorância pesa sobre o povo como uma fatalidade. A intriga política alastra-se. O país vive numa sonolência enfastiada.»
E por que razão há-de vir isto assim à crónica, nem eu sei bem, ou talvez o saiba e me não apeteça dizê-lo por palavras de minha lavra. Porque outros o disseram e dizem melhor, ou porque assim se pode dizer o que se reclama mas com o prazer acrescido da memória. Da memória que me traz de supetão o lema do porco Napoleão – «Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais que outros.» – ou a longa «Parábola das tristes décadas» do Baptista Bastos de que aqui, por economia, transcrevo lascas: «Há trinta e cinco anos que vocês nos manipulam, nos dominam, nos mentem, nos omitem, nos desprezam./ Há trinta e cinco anos que nos roubam, não só os bens imediatos de que carecemos, como a esperança que alimenta as almas e favorece os sonhos./ (…)/ Há trinta e cinco anos que criam legiões e legiões de desempregados, de desesperados, de açoitados pelo azorrague da vossa indignidade./ (…)/ Há trinta e cinco anos que embalam as dores de duas gerações de jovens, e atiram-nos para as drogas, para o álcool, para uma existência sem rumo, sem direcção e sem sentido./ (…)/ Há trinta e cinco anos que se alternam no mando, e o mando é a distribuição de benesses, prebendas, privilégios entre vocês./ (…)/ Há trinta e cinco anos que vocês são sempre os mesmos, embora com rostos diferentes./ (…)/ Há trinta e cinco anos que, com minúcia e zelo, construíram um país só para vocês./ Há trinta e cinco anos que moldaram a exclusão social, que esculpiram as várias faces da miséria e, agora, sem recato e sem pejo, um de vocês faz o discurso da indignação./ (…)/ Há trinta e cinco anos que asfixiam o pensamento construtivo; que liquidaram as referências norteadoras; que escarneceram da nossa pessoal identidade; que a vossa ascensão não corresponde ao vosso mérito; que ignoram a conciliação entre semelhança e diferença; que condenam a norma imperativa do equilíbrio social./ Riam-se, riam-se. Vocês são uma gente que não presta para nada; que não vale nada./ Malditos sejam!»
E de novo Eça e Ramalho, em coro: «Vamos rir pois. O riso é um castigo; o riso é uma filosofia. Muitas vezes o riso é uma salvação. Na política constitucional o riso é uma opinião.»
É este o meu riso de hoje, só para não chorar…
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Crónica de Fevereiro de 2011 de António Souto para o blog «Floresta do Sul»; crónicas anteriores: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14, 15, 16, 17, 18, 19, 20, 21, 22, 23, 24, 25, 26, 27, 28; 29; 30; 31; 32.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Em branco

O Sporting... Agora foi o treinador Paulo Sérgio a sair, como se esperava. Na altura em que JEB foi para presidente (não ponho aqui o nome de tal praga rogada ao meu clube), escrevi que tudo iria acabar mal. Um exercício óbvio de previsão, tendo em conta a figura (ou a praga). Vêm aí eleições. Nem sei bem o que pensar. José Saramago, se fosse vivo, talvez pudesse escrever uma sequela do «Ensaio Sobre a Lucidez». Já sei que se poderia falar do «Ensaio Sobre a Cegueira» (ou inclusive não meter o nosso Nobel nisto e ir buscar livros como «Elogio da Loucura» ou «Tertúlia de Mentirosos»), mas parece-me mais indicado uma história sobre o voto em branco.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Só mesmo uma criança

Há uns dias o meu filho perguntou-me quem era o novo jogador do Sporting. Respondi-lhe que era o Cristiano. E ele, com a maior das naturalidades, fez outra pergunta: «Ronaldo?» Eu disse que não, que era apenas o Cristiano. E fiquei a pensar que só mesmo uma criança de seis anos pode ter alguma esperança nos insuportavelmente incompetentes dirigentes do meu clube.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Carta aberta àquele que foi o pior presidente da longa história do Sporting Clube de Portugal

Caro JEB
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Trato-o assim, usando apenas as três letras de uma sigla que nunca cheguei a perceber quem arranjou, só para não ter de escrever um nome – o seu – que ficará para sempre ligado ao pior da história do Sporting.
Escrevo-lhe esta carta porque hoje é o dia, segundo creio, em que você deixa definitivamente o clube depois da demissão pela qual há tanto tempo milhares e milhares de sportinguistas aguardavam. Eu não podia deixar de assinalar este dia.
Daqui para a frente, espero que nunca se esqueça disto: você foi mesmo o pior, e o que mais nos envergonhou. Se for preciso, escreva num papelinho e ande com ele sempre na carteira, e procure ganhar o hábito de lê-lo com regularidade. Para que tenha sempre presente que você foi mesmo a pior coisa que alguma vez podia ter acontecido ao Sporting.
Quero também dar-lhe uma explicação sobre a palavra que usei no início desta carta («caro»). Não o fiz, obviamente, por qualquer tipo de consideração que tenha por si, pois consideração por si estou bem longe de ter nem que seja só um bocadinho. O que você fez ao Sporting merece algo muito diferente de consideração. Você fez-nos muito mal, e além disso – faço questão de repetir – envergonhou-nos como nunca antes alguém nos havia envergonhado. Jorge Gonçalves, um presidente também de má memória que tivemos e que ficou conhecido por usar longos bigodes, ao pé de si merecia já não digo uma estátua à entrada do nosso estádio, mas pelo menos um busto (veja lá, por isso, o tamanho da vergonha que você nos tem feito passar desde que desgraçadamente nos saiu ao caminho…). Usei o «caro» antes da sigla JEB por causa do que você nos custou mês após mês. Você foi um presidente demasiado caro, ou antes, demasiadíssimo, se é que a palavra existe. A cada dia que passava consigo a presidente, o Sporting devia tê-lo multado por tudo o que você ia fazendo de mal. Mas não, nunca o multou, e você ainda recebia um salário de várias dezenas de milhares de euros no fim de cada mês. Por isso, aqui, eu só podia mesmo começar por tratá-lo por «caro».
Depois de si no Sporting, fica-se com a sensação de que o clube já passou pelo que de pior lhe poderia acontecer. O dia 14 de Fevereiro devia ficar marcado no calendário leonino. O dia em que nos livrámos do pior presidente de uma longa história. E aos sportinguistas mais jovens, nesse dia, poderiam os outros passar a falar das suas figuras enquanto presidente do nosso clube. E dizer-lhes: «Vêem o que ele fez?! Pois fez sempre o contrário do que devia ter feito.»
Pelo Sporting, peço-lhe, nunca mais se meta no nosso caminho!

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Nas bifanas

Sexta à noite. Regresso tardio de Lisboa com paragem em Vendas Novas para jantar a correr numa das novas casas de sopas e bifanas. A um canto, quatro tipos de fato preto. Veio-me à ideia que podiam ser do FMI ou de outra instituição qualquer, desde que parecida; foi logo ao entrar, como se na mesa houvesse indicação de ela estar reservada exactamente para o FMI (ou para outra instituição qualquer, desde que parecida). Nenhum dos quatro dispensava o computador portátil, e isso tornava a arrumação das comidas em cima da mesa uma coisa muito mas mesmo muito complicada. O que parecia valer é que não tinham pedido sopa, iam só mesmo pelas batatas fritas e, obviamente, pelas bifanas (a que um, nos elogios que fazia em inglês por vezes técnico, se referia, baixinho, como «peculiar hamburger»). Mesmo com os computadores, não dispensavam as máquinas de calcular, dando-lhes uso de cada vez que metiam as manápulas nas pastas e retiravam papéis para juntar à pilha que se tinha já formado no centro da mesa. Pastas pretas como os fatos, e folhas brancas cheias de números pretos e nalguns casos vermelhos e a bold. Aquele que parecia ser o chefe, bem mais velho do que os outros, de cada vez que lhe confirmavam um número abanava a cabeça energicamente mas com uma expressão desalentada que não condizia nada com a rapidez dos movimentos. Tipo estanho… Claro que salpicava os colegas com o molho da bifana, mas eles, estranhamente, não protestavam. Percebiam as nódoas nas camisas brancas e nas gravatas, mostravam desagrado por caretas momentâneas, mas não diziam nada. Saíram os quatro ao mesmo tempo que eu e meteram-se em direcção a Lisboa, num Jaguar preto com motorista de cartola.
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terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

No Cairo

Para ajudar a compreender o que vai acontecendo por estes dias no Cairo. Via blog «A Origem das Espécies». Apenas um pormenor em que eu já tinha reparado na altura da publicação do livro, a capa é linda.

Cada vez mais...

Cada vez mais tem sido assim nos dias de eleições. Impressiona-me a naturalidade com que tantas pessoas votam em corruptos, chulos e aldrabões. Até em verdadeiros canalhas. A mesma naturalidade com que soltam um bocejo, até a mesma naturalidade com que a cada momento respiram, sem darem por isso, simplesmente.