segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Carta aberta àquele que foi o pior presidente da longa história do Sporting Clube de Portugal

Caro JEB
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Trato-o assim, usando apenas as três letras de uma sigla que nunca cheguei a perceber quem arranjou, só para não ter de escrever um nome – o seu – que ficará para sempre ligado ao pior da história do Sporting.
Escrevo-lhe esta carta porque hoje é o dia, segundo creio, em que você deixa definitivamente o clube depois da demissão pela qual há tanto tempo milhares e milhares de sportinguistas aguardavam. Eu não podia deixar de assinalar este dia.
Daqui para a frente, espero que nunca se esqueça disto: você foi mesmo o pior, e o que mais nos envergonhou. Se for preciso, escreva num papelinho e ande com ele sempre na carteira, e procure ganhar o hábito de lê-lo com regularidade. Para que tenha sempre presente que você foi mesmo a pior coisa que alguma vez podia ter acontecido ao Sporting.
Quero também dar-lhe uma explicação sobre a palavra que usei no início desta carta («caro»). Não o fiz, obviamente, por qualquer tipo de consideração que tenha por si, pois consideração por si estou bem longe de ter nem que seja só um bocadinho. O que você fez ao Sporting merece algo muito diferente de consideração. Você fez-nos muito mal, e além disso – faço questão de repetir – envergonhou-nos como nunca antes alguém nos havia envergonhado. Jorge Gonçalves, um presidente também de má memória que tivemos e que ficou conhecido por usar longos bigodes, ao pé de si merecia já não digo uma estátua à entrada do nosso estádio, mas pelo menos um busto (veja lá, por isso, o tamanho da vergonha que você nos tem feito passar desde que desgraçadamente nos saiu ao caminho…). Usei o «caro» antes da sigla JEB por causa do que você nos custou mês após mês. Você foi um presidente demasiado caro, ou antes, demasiadíssimo, se é que a palavra existe. A cada dia que passava consigo a presidente, o Sporting devia tê-lo multado por tudo o que você ia fazendo de mal. Mas não, nunca o multou, e você ainda recebia um salário de várias dezenas de milhares de euros no fim de cada mês. Por isso, aqui, eu só podia mesmo começar por tratá-lo por «caro».
Depois de si no Sporting, fica-se com a sensação de que o clube já passou pelo que de pior lhe poderia acontecer. O dia 14 de Fevereiro devia ficar marcado no calendário leonino. O dia em que nos livrámos do pior presidente de uma longa história. E aos sportinguistas mais jovens, nesse dia, poderiam os outros passar a falar das suas figuras enquanto presidente do nosso clube. E dizer-lhes: «Vêem o que ele fez?! Pois fez sempre o contrário do que devia ter feito.»
Pelo Sporting, peço-lhe, nunca mais se meta no nosso caminho!

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Nas bifanas

Sexta à noite. Regresso tardio de Lisboa com paragem em Vendas Novas para jantar a correr numa das novas casas de sopas e bifanas. A um canto, quatro tipos de fato preto. Veio-me à ideia que podiam ser do FMI ou de outra instituição qualquer, desde que parecida; foi logo ao entrar, como se na mesa houvesse indicação de ela estar reservada exactamente para o FMI (ou para outra instituição qualquer, desde que parecida). Nenhum dos quatro dispensava o computador portátil, e isso tornava a arrumação das comidas em cima da mesa uma coisa muito mas mesmo muito complicada. O que parecia valer é que não tinham pedido sopa, iam só mesmo pelas batatas fritas e, obviamente, pelas bifanas (a que um, nos elogios que fazia em inglês por vezes técnico, se referia, baixinho, como «peculiar hamburger»). Mesmo com os computadores, não dispensavam as máquinas de calcular, dando-lhes uso de cada vez que metiam as manápulas nas pastas e retiravam papéis para juntar à pilha que se tinha já formado no centro da mesa. Pastas pretas como os fatos, e folhas brancas cheias de números pretos e nalguns casos vermelhos e a bold. Aquele que parecia ser o chefe, bem mais velho do que os outros, de cada vez que lhe confirmavam um número abanava a cabeça energicamente mas com uma expressão desalentada que não condizia nada com a rapidez dos movimentos. Tipo estanho… Claro que salpicava os colegas com o molho da bifana, mas eles, estranhamente, não protestavam. Percebiam as nódoas nas camisas brancas e nas gravatas, mostravam desagrado por caretas momentâneas, mas não diziam nada. Saíram os quatro ao mesmo tempo que eu e meteram-se em direcção a Lisboa, num Jaguar preto com motorista de cartola.
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terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

No Cairo

Para ajudar a compreender o que vai acontecendo por estes dias no Cairo. Via blog «A Origem das Espécies». Apenas um pormenor em que eu já tinha reparado na altura da publicação do livro, a capa é linda.

Cada vez mais...

Cada vez mais tem sido assim nos dias de eleições. Impressiona-me a naturalidade com que tantas pessoas votam em corruptos, chulos e aldrabões. Até em verdadeiros canalhas. A mesma naturalidade com que soltam um bocejo, até a mesma naturalidade com que a cada momento respiram, sem darem por isso, simplesmente.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

A grande vingança?

Uma hipótese: a venda de Liedson ser a grande vingança de José Eduardo Bettencourt. Nos dias que lhe restam para deixar definitivamente o Sporting (creio que fica mais a sua incompetência até ao fim do mês), o que poderá ainda fazer para nos tramar?

A questão

A questão que se coloca agora é saber se Cavaco Silva vai levar alguém do BPN para o Conselho de Estado, como não teve vergonha de fazer com Dias Loureiro no mandato anterior. Ou até se opta por algum dos vizinhos da Praia – ou da Aldeia, já nem sei bem – da Coelha. De uma coisa, pelo menos, tenho a certeza: há-de ser tudo gente duplamente honesta, seja lá isso o que for.

sábado, 29 de janeiro de 2011

Para sempre

Eu estava um bocado preocupado: como iria dizer ao meu filho, de seis anos, que o Liedson pode estar de saída do Sporting? Mas não precisei de dizer, ele apercebeu-se das notícias. E procurou tranquilizar-me: «Pai, o Liedson vai continuar para sempre na minha Playstation.» Pelo que consegui perceber, ainda hoje marcou cinco ou seis golos.

António Souto – Crónica (32)

Isto foi quanto senti na antevéspera do escrutínio presidencial, e foi isto que se estirou até à divulgação dos resultados, momento em que um amigo meu, numa curta mensagem, pôs fim a estes devaneios com um conciso «Ora f…-se!». Um desabafo que me encheu a alma, como num intervalo do circo. Os palhaços que me perdoem.
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Janeiro por um fio
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Este é o primeiro mês do ano. Melhor, este é já o final do primeiro mês do ano. E não sei se é por ser o primeiro mês do ano ou se é por este ser o prenúncio de muitos outros que aí vêm de mal a pior, a verdade é que ando com moleza.
A bem dizer, ando com saudades do dia de Natal, só mesmo do dia de Natal (e já agora, por acréscimo, que lhe segue logo a peugada, do primeiro dia do ano), um verdadeiro dia de remanso e de manifesta imperturbabilidade. Não há dinheiro que pague o prazer delongado de um dia assim. A gente pode ficar na cama até tarde, que os afazeres não têm pressa; a gente não precisa de fazer comida, que sobra sempre de véspera; a gente não precisa de lavar a loiça, que a mesa é de petiscar; a gente não é azucrinada pelos telemóveis, que se consumiram os saldos; a gente não tem de responder a mensagens electrónicas, que se gastaram as palavras; a gente não se irrita com o tráfego da cidade, porque os carros fazem birra e não saem do seu canto; a gente não desembolsa o resto do dinheiro, porque o comércio se mantém praticamente encerrado. Estes são privilégios de um dia desigual, ainda por cima quando a estes se juntam outros que nos preenchem positivamente a alma, como uma edição comentada de «Mensagem», ou a voz única de Pavarotti irradiando a «Ave Maria» de Shubert, ou um Placido Domingo ou uma Céline Dion ou uma Mariah Carey ou uma Rita Guerra, à vez, preenchendo o silêncio num aconchego da tarde.
Maus hábitos, dir-se-á, que custam a passar, rematado que é já um mês. Raio de preguiça!
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Este é o primeiro mês do ano. Um mês propício a conjugar discordâncias.
Num dia, potencialmente de inverno, resplandece a nossa convergência europeia e ressurgimos como povo promissor. O Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA) revela-nos o grande salto que deram as nossas crianças e os nossos jovens nos conhecimentos e nas aptidões em matemática, leitura e ciências. Do fundo da tabela, galgámos para a média (quase) dos países da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Económico (OCDE). Um grande especialista desta organização explica o prodígio «pelas políticas seguidas nos últimos anos e por uma conjugação de factores como a avaliação de professores e um controlo sério da qualidade do ensino». Assim está bem (e somos tentados a coroar o raciocínio parafraseando o poeta – «o que não faz sentido/ É o sentido que tudo isto tem»). Disse também o grande especialista e responsável da OCDE que «diminuiu o peso das repetições», apesar de alto, e que «a diferença entre as escolas melhores e as escolas piores diminuiu», igualmente. Pronto, com tamanha proficiência vinda de fora e de quem sabe, estamos no bom caminho. Estamos?
Num dia, de facto de Inverno, encobrem-se os resquícios de sol e as nuvens fazem das suas. O Gabinete de Avaliação Educacional (GAVE) do Ministério da Educação, por voz autorizada, explica o que «o» Relatório deste serviço já registara quanto ao desempenho dos nossos alunos do oitavo ao décimo segundo ano, que «os estudantes não dominam os conceitos, manifestam falta de rigor científico, dificuldades em interpretar textos e problemas e em articular várias competências». E acrescenta, sem rodeios, que «é preciso tirar consequências das fragilidades detectadas”. Em que ficamos, portanto? Somos nós que nos auto-avaliamos com severidade? São os outros que nos avaliam com demasiada bondade? A «média» europeia é, vistas bem as coisas, tão mediocremente «média» como a nossa nacional?
Tudo reside, afinal, na arte de bem (des)conjugar!
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Este é o primeiro mês do ano. Um mês de dizer adeus aos malabarismos. Mas sem tristeza, pese embora o facto de sempre ter tido uma certa atracção pelo circo.
Primeiro, criança ainda, pelo circo que chegava à aldeia, numa ou em duas ou em três carripanas da altura, gente de miséria que montava arraial na praça local, a céu aberto, sem qualquer resguardo, e ali fazia à noitinha umas acrobacias no chão de terra batida ou a dois metros do solo, suspensa em estacas e varas e cordas de arrepiar. A canalha à volta, empurrando-se para melhor se deliciar, os adultos mais atrás, como quem não quer a coisa, avaros e prontos a desertar quando pressentissem o fim do espectáculo.
Depois, já espigado, pelo circo que se instalava na cidade, semanas inteiras, com imponência e feras de intimidar. A verdade é que ao pasmo da chegada se seguiu em mim constantemente uma inexplicável decepção à saída. O maravilhoso convertendo-se em desventura. A atracção dando lugar à sensação de logro, de vazio.
Foi isto que senti de novo ao ver a debandada do circo que se estendeu de um ano para o outro pela antiga feira popular de Lisboa. Lembrei a sessão a que assistira, empurrado. Pouca coisa para a expectativa do bilhete e de uma empresa de requinte a sério. Agora, mudam de poiso, invadem outro burgo, já só restam no descampado uns quantos atrelados, uns parcos contentores, uma tenda baixa ainda de pé. A desilusão desta grandeza amarga-me infinitamente mais do que a desilusão de outrora, do circo da minha aldeia.
Isto foi quanto senti na antevéspera do escrutínio presidencial, e foi isto que se estirou até à divulgação dos resultados, momento em que um amigo meu, numa curta mensagem, pôs fim a estes devaneios com um conciso «Ora f…-se!». Um desabafo que me encheu a alma, como num intervalo do circo. Os palhaços que me perdoem.
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Crónica de Janeiro de 2011 de António Souto para o blog «Floresta do Sul»; crónicas anteriores: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14, 15, 16, 17, 18, 19, 20, 21, 22, 23, 24, 25, 26, 27, 28; 29; 30; 31.
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segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

O futuro

E pronto. Vamos então a partir de agora ser todos duplamente honestos, comprar acções do BPN a um euro e trocar as nossas casas de férias – quem as tiver – por outras melhores na Praia da Coelha. Para que fiquemos devidamente integrados no actual regime.
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sábado, 22 de janeiro de 2011

Em tempos, escrevi uma história que começa assim…

Os romanos
Segunda-feira, a meio da tarde, em Vila Real de Santo António. Um calor não se podia dizer sufocante porque não havia notícias de que alguém, nas últimas horas, tivesse sufocado na cidade; ou até nos arredores, contando nos arredores, inclusive, com a cidade espanhola de Ayamonte. Mas alguém que fizesse a descrição assim sem pensar muito nas palavras poderia acabar por usar o termo «sufocante», ou mesmo aventurar-se para expressões como «ar irrespirável» ou «o sol a arder». Para não estar com mais coisas, a temperatura era de quarenta e dois graus. Assim indicava o painel do carro, que costumava andar sempre atento, embora a respeito do calor nunca fizesse avisos, apenas em relação ao frio. Bastava que a temperatura se aproximasse de zero para se pôr com mensagens de piso escorregadio e mais algumas apoquentações que poderiam surgir. Já para altas temperaturas, nada, a menos que no computador que o regulava estivesse previsto lançar avisos apenas depois de atingidos os cinquenta graus, coisa que eu nunca tinha experimentado. Um dia haveria de ir no carro até Sevilha – já que não estava para ir com ele a conduzir até ao Qatar, por exemplo, só para tirar a prova. Haveria de ver as previsões meteorológicas, as que faziam para Sevilha, e então, quando indicassem temperaturas tão altas, lá fazia eu as contas para no dia exacto chegar à cidade andaluza e ver se no painel do carro aparecia algum aviso. Na volta não apareceria nada e a viagem seria em vão, mas também ir de carro até Sevilha não era assim uma coisa tão complicada como isso. Já ao Qatar… E depois, no Qatar – um sítio sobre o qual eu tinha uma vez ouvido que nele era proibido dizer que a temperatura passava os cinquenta graus, se passasse –, o que poderia acontecer no Qatar se o carro se pusesse com avisos? Quem sabe não ficaria lá o carro, e também o dono, um apreendido por blasfémia, outro detido por cumplicidade… O melhor era nem pensar no sarilho, esquecer o Qatar, talvez até esquecer a ida a Sevilha, o teste ao painel de informações do carro, que se calhar não passava de uma desculpa para ir a Espanha. Até porque se eu queria ir a Espanha era só uma questão de meia-hora, se tanto, ir até à ponte sobre o Guadiana, atravessá-la e pronto, lá estava Espanha. Eu podia inclusive ficar por Ayamonte, que agora tinha diante de mim lá do outro lado do rio.
Era o que eu via, com o carro parado num dos estacionamentos da marginal de Vila Real de Santo António. Lembrava-me das viagens em criança, desde a Serra de Monchique, passavam-me pela cabeça as recordações de chegar ali sem que nada me parecesse como agora. O estuário já não se mostrava tão grande, Espanha já não parecia estar tão longe, já não havia, por causa da ponte nova, o corrupio dos barcos de um lado para o outro… Eu lembrava-me de tudo, as viagens com os meus pais para as compras em Ayamonte, uma aventura para mim, e agora a cidade tão perto. Lembrava-me também de outra terra, maior; era uma promessa que eu tinha em criança, a de mais tarde ir até uma cidade que dali não se via, a cidade que para mim era nesses tempos já distantes uma espécie de maravilha do mundo. A mítica cidade de Huelva, bem para lá de Ayamonte; aí haveríamos um dia de ir às compras.
Chegavam-me estes pensamentos enquanto olhava para o rio. Dentro do carro, salvo do calor pelo ar condicionado, a fazer tempo para que chegasse a hora de uma sessão literária no centro cultural da cidade. Eu ia falar dos meus livros, naquela segunda-feira a meio da tarde. Um dia de Agosto… Um calor que para um narrador distraído podia sufocar pessoas. Quarenta graus… Estaria alguém no centro cultural para me ouvir, ou para me perguntar alguma coisa? Não me parecia… Não era uma questão de pessimismo. Eu nem sabia bem o que era, pensava nisso, no que faria se não aparecesse ninguém, ou se estivesse, por exemplo, apenas uma pessoa, sentada numa das filas do meio. Ou se aparecesse um bêbado a fazer umas perguntas todas muito elaboradas mas sem sentido, como me tinha acontecido uma vez numa livraria em Lisboa. As minhas preocupações antes da sessão. Coisa pouca, se me pusesse a fazer comparações com uma preocupação bem maior que começava a tomar conta de mim. No rio, um barco. Eu via-o ainda de dentro do carro, preparando-me para sair por entretanto ter chegado a hora da sessão. De repente o barco tinha captado a minha atenção. Durante algum tempo depois de estacionar eu não tinha reparado nele, mas agora reparava, agora sim. O barco estava mais próximo, navegando desde a foz do Guadiana. Viria do alto mar? Era tudo muito estranho para mim. Um barco cheio de romanos aproximava-se do molhe. E eu no carro a ver, e de repente as poucas pessoas que andavam por ali ao calor a perceberem também o que chegava, e a agitarem-se. Teria o indecente programa «Allgarve» alguma coisa a ver com aquilo? Eu já com uma explicação, a de uma animação turística… Mas com romanos? E as pessoas a agitarem-se. Seria, afinal, outra coisa? E por que é que as pessoas teriam medo? Faria isso parte da própria encenação?
Bom, saí do carro e aproximei-me do limite do molhe. (CONTINUA)
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domingo, 16 de janeiro de 2011

Fantástico

Fantástico!!!!! Mil vezes fantástico!!!!! Um milhão de vezes fantástico!!!!! A maior praga da história do meu clube acaba de se ir embora.
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