segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

O futuro

E pronto. Vamos então a partir de agora ser todos duplamente honestos, comprar acções do BPN a um euro e trocar as nossas casas de férias – quem as tiver – por outras melhores na Praia da Coelha. Para que fiquemos devidamente integrados no actual regime.
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sábado, 22 de janeiro de 2011

Em tempos, escrevi uma história que começa assim…

Os romanos
Segunda-feira, a meio da tarde, em Vila Real de Santo António. Um calor não se podia dizer sufocante porque não havia notícias de que alguém, nas últimas horas, tivesse sufocado na cidade; ou até nos arredores, contando nos arredores, inclusive, com a cidade espanhola de Ayamonte. Mas alguém que fizesse a descrição assim sem pensar muito nas palavras poderia acabar por usar o termo «sufocante», ou mesmo aventurar-se para expressões como «ar irrespirável» ou «o sol a arder». Para não estar com mais coisas, a temperatura era de quarenta e dois graus. Assim indicava o painel do carro, que costumava andar sempre atento, embora a respeito do calor nunca fizesse avisos, apenas em relação ao frio. Bastava que a temperatura se aproximasse de zero para se pôr com mensagens de piso escorregadio e mais algumas apoquentações que poderiam surgir. Já para altas temperaturas, nada, a menos que no computador que o regulava estivesse previsto lançar avisos apenas depois de atingidos os cinquenta graus, coisa que eu nunca tinha experimentado. Um dia haveria de ir no carro até Sevilha – já que não estava para ir com ele a conduzir até ao Qatar, por exemplo, só para tirar a prova. Haveria de ver as previsões meteorológicas, as que faziam para Sevilha, e então, quando indicassem temperaturas tão altas, lá fazia eu as contas para no dia exacto chegar à cidade andaluza e ver se no painel do carro aparecia algum aviso. Na volta não apareceria nada e a viagem seria em vão, mas também ir de carro até Sevilha não era assim uma coisa tão complicada como isso. Já ao Qatar… E depois, no Qatar – um sítio sobre o qual eu tinha uma vez ouvido que nele era proibido dizer que a temperatura passava os cinquenta graus, se passasse –, o que poderia acontecer no Qatar se o carro se pusesse com avisos? Quem sabe não ficaria lá o carro, e também o dono, um apreendido por blasfémia, outro detido por cumplicidade… O melhor era nem pensar no sarilho, esquecer o Qatar, talvez até esquecer a ida a Sevilha, o teste ao painel de informações do carro, que se calhar não passava de uma desculpa para ir a Espanha. Até porque se eu queria ir a Espanha era só uma questão de meia-hora, se tanto, ir até à ponte sobre o Guadiana, atravessá-la e pronto, lá estava Espanha. Eu podia inclusive ficar por Ayamonte, que agora tinha diante de mim lá do outro lado do rio.
Era o que eu via, com o carro parado num dos estacionamentos da marginal de Vila Real de Santo António. Lembrava-me das viagens em criança, desde a Serra de Monchique, passavam-me pela cabeça as recordações de chegar ali sem que nada me parecesse como agora. O estuário já não se mostrava tão grande, Espanha já não parecia estar tão longe, já não havia, por causa da ponte nova, o corrupio dos barcos de um lado para o outro… Eu lembrava-me de tudo, as viagens com os meus pais para as compras em Ayamonte, uma aventura para mim, e agora a cidade tão perto. Lembrava-me também de outra terra, maior; era uma promessa que eu tinha em criança, a de mais tarde ir até uma cidade que dali não se via, a cidade que para mim era nesses tempos já distantes uma espécie de maravilha do mundo. A mítica cidade de Huelva, bem para lá de Ayamonte; aí haveríamos um dia de ir às compras.
Chegavam-me estes pensamentos enquanto olhava para o rio. Dentro do carro, salvo do calor pelo ar condicionado, a fazer tempo para que chegasse a hora de uma sessão literária no centro cultural da cidade. Eu ia falar dos meus livros, naquela segunda-feira a meio da tarde. Um dia de Agosto… Um calor que para um narrador distraído podia sufocar pessoas. Quarenta graus… Estaria alguém no centro cultural para me ouvir, ou para me perguntar alguma coisa? Não me parecia… Não era uma questão de pessimismo. Eu nem sabia bem o que era, pensava nisso, no que faria se não aparecesse ninguém, ou se estivesse, por exemplo, apenas uma pessoa, sentada numa das filas do meio. Ou se aparecesse um bêbado a fazer umas perguntas todas muito elaboradas mas sem sentido, como me tinha acontecido uma vez numa livraria em Lisboa. As minhas preocupações antes da sessão. Coisa pouca, se me pusesse a fazer comparações com uma preocupação bem maior que começava a tomar conta de mim. No rio, um barco. Eu via-o ainda de dentro do carro, preparando-me para sair por entretanto ter chegado a hora da sessão. De repente o barco tinha captado a minha atenção. Durante algum tempo depois de estacionar eu não tinha reparado nele, mas agora reparava, agora sim. O barco estava mais próximo, navegando desde a foz do Guadiana. Viria do alto mar? Era tudo muito estranho para mim. Um barco cheio de romanos aproximava-se do molhe. E eu no carro a ver, e de repente as poucas pessoas que andavam por ali ao calor a perceberem também o que chegava, e a agitarem-se. Teria o indecente programa «Allgarve» alguma coisa a ver com aquilo? Eu já com uma explicação, a de uma animação turística… Mas com romanos? E as pessoas a agitarem-se. Seria, afinal, outra coisa? E por que é que as pessoas teriam medo? Faria isso parte da própria encenação?
Bom, saí do carro e aproximei-me do limite do molhe. (CONTINUA)
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domingo, 16 de janeiro de 2011

Fantástico

Fantástico!!!!! Mil vezes fantástico!!!!! Um milhão de vezes fantástico!!!!! A maior praga da história do meu clube acaba de se ir embora.
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quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

As eleições

A ironia destas eleições presidenciais é que no fim, muito provavelmente, ganha o tipo do BPN.
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terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Há 15 anos

Pedro Aquilino chegou a Monchique a meio de uma tarde abafada de Agosto. Nem o calor nem o mau-cheiro do cadáver do elefante, que continuava abandonado à entrada da vila, o fizeram retroceder. E assim foi recebido nos paços do concelho pelo novo presidente da câmara. O antigo, de quem já ninguém se lembrava, resolveu dar sinal de si e voltou a mandar papelinhos por baixo da porta, desta vez com saudações democráticas e algumas sugestões protocolares.
– Ah, têm dois presidentes da câmara! – comentou Pedro Aquilino. – E nem assim arranjaram tempo para mandar enterrar o desgraçado do elefante!

Excerto do livro de contos «Quando o Presidente da República
Visitou Monchique por Mera Curiosidade», publicado em 1996,
faz agora 15 anos
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domingo, 9 de janeiro de 2011

A sujidade

«Se fossem robalos, andava tudo histérico. Como são só acções, compradas a preço de favor, vendidas por um senhor que era seu amigo, gerente de um banco que é o que é, e que por acaso está em prisão domiciliária porque fazia as coisas como fazia nesse banco, temos este presidente: um político que diz que não é político, um ex-ministro das Finanças que compra e vende acções em estado de inocência, um homem que terá de nascer duas vezes para perceber que, pior do que uma campanha suja, é mesmo o sujo de tudo isto.»
Escrito pelo actor André Gago, na sua página do «Facebook»
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sábado, 8 de janeiro de 2011

Uma frase

«A seriedade não é um valor que se autoproclame, é algo que os outros reconhecem.»
Henrique Monteiro, hoje no «Expresso», sobre Cavaco Silva
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Duas entrevistas

José Manuel Coelho foi ontem entrevistado na TVI por um grande profissional, Henrique Garcia (a entrevista pode ser vista aqui). Este noite vi-o na RTP a ser entrevistado por Judite de Sousa, que teve um comportamento lamentável, uma autêntica vergonha para o jornalismo (a conferir aqui).
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sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

A figueira

À entrada da década de 1980, as notícias dos grandes duelos mundiais de xadrez traziam quase sempre dois nomes associados, Anatoli Karpov e Victor Kortchnoi. Era à volta destes dois mestres soviéticos que tudo parecia girar. Mas um outro nome começava a emergir, também russo, parecido com Karpov mas mais comprido. Garry Kasparov, nascido em 1963 em Baku, capital do actual Arzebaijão (então uma das repúblicas da União Soviética), já se tornara notado no mundo do xadrez. Corajoso, irreverente, agressivo e perfeccionista, Kasparov desafiou Karpov, o campeão mundial, em 1984. A partida durou seis meses, tornando-se a mais longa na história do xadrez. Foi parada pelo presidente da federação internacional da modalidade, que ordenou que se disputasse uma nova partida. Em Novembro de 1985, Kasparov ganhou o denominado rematch contra Karpov e tornou-se campeão mundial. Tinha 22 anos e era o jogador mais novo a consegui-lo.
Passados mais de 20 anos, assisti a uma conferência de Kasparov, no Estoril. Pareceu-me com a mesma coragem, a mesma irreverência, até a mesma agressividade (sobretudo em relação a alguma coisa ou a alguém que a pudesse justificar; por exemplo, Vladimir Putin). Vi-o a falar para quadros de empresas, a falar de estratégias, de tácticas, de inovação, de tudo o que rodeia a tomada de decisão numa organização. Sem perder de vista o xadrez e os seus exemplos para o mundo da gestão, não se esqueceu da sua condição de activista político, comprometido, empenhado em que o seu país conhecesse uma mudança capaz de fazer com que por lá se pudesse respirar plenamente os ares da democracia. E também falou de gurus da gestão, como Peter Drucker; de empreendedores, como Elisha Graves Otis ou William Edward Boeing; e de Thomas Edison, de Winston Churchill, do inevitável Sun Tzu, de nomes grandes do xadrez, de John F. Kennedy e inclusive de Cristóvão Colombo.
Até que na parte final, com alguma surpresa, pelo menos para mim, falou de cinco portugueses. Cinco figuras de épocas tão diferentes como a dos descobrimentos, a da criminosa ditadura salazarista ou a actualidade. Considerou-os a todos notáveis: dois navegadores, Gil Eanes e Vasco da Gama; um militar que se destacou sobretudo como político, Humberto Delgado; um futebolista, Eusébio; e um escritor, José Saramago. O que recordo mais foi o que disse do Nobel português, para ilustrar um dos tópicos que abordou, o da inovação. Não o fez pela opção única de Saramago escrever com uma pontuação bem peculiar, marcada sobretudo pela frugalidade, que permite uma leitura ao ritmo da própria respiração. Fê-lo por algo que para ele também é propício à inovação, à capacidade de inovar: as dificuldades da vida, principalmente aquelas que são experimentadas em criança. Para isso, Kasparov recorreu mesmo a uma frase de Saramago: «As crianças crescem melhor à sombra do que ao sol.» Naquela altura, ouvindo o homem de Baku, lembrei-me de uma outra sombra, absolutamente fantástica, do criador de «Memorial do Convento», a de uma figueira junto da qual, nas tardes de Verão, o rapazito Saramago se deitava muitas vezes, para se proteger do calor. Lembrei-me disso. A mesma figueira que depois, a cada noite, o voltava a acolher; a ele, o rapazito Saramago, que embalado pelas histórias do avô via as estrelas por entre os ramos. Como escreve no discurso de Estocolmo… «No meio da paz nocturna, entre os ramos altos da árvore, uma estrela aparecia-me, e depois, lentamente, escondia-se por trás de uma folha, e, olhando eu noutra direcção, tal como um rio correndo em silêncio pelo céu côncavo, surgia a claridade opalescente da Via Láctea…»
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quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Um pouco do que vou escrevendo

«E por isso foi andando dentro da estrutura da porta, uma volta, duas voltas, três, pessoas a entrarem e a saírem do café, e ele naquilo, até que sem perceber como, sem ter a mais pequena ideia do funcionamento do seu corpo naqueles momentos, conseguiu voltar a ser dono dos próprios movimentos e alcançou o interior do café. Estavam a menos de dez metros um do outro. Ela sorriu-lhe.»
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quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Sobre a honestidade

Essa coisa de as pessoas terem de nascer duas vezes para conseguirem ser mais honestas do que o tipo do BPN, vou ali e já venho.
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Um livro

Atenção a um livro fabuloso para o início deste ano. De um escritor igualmente fabuloso, Javier Cercas, autor dos inesquecíveis «A Velocidade da Luz», «Soldados de Salamina» e «O Inquilino». O «instante» é a tentativa de golpe de Estado de 23 de Fevereiro de 1981, em Espanha. Na capa, Antonio Tejero Molina, de pistola na mão, aos berros no Congresso dos Deputados, em Madrid.
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