quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Sobre a honestidade

Essa coisa de as pessoas terem de nascer duas vezes para conseguirem ser mais honestas do que o tipo do BPN, vou ali e já venho.
.

Um livro

Atenção a um livro fabuloso para o início deste ano. De um escritor igualmente fabuloso, Javier Cercas, autor dos inesquecíveis «A Velocidade da Luz», «Soldados de Salamina» e «O Inquilino». O «instante» é a tentativa de golpe de Estado de 23 de Fevereiro de 1981, em Espanha. Na capa, Antonio Tejero Molina, de pistola na mão, aos berros no Congresso dos Deputados, em Madrid.
.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Recordar Carlos Pinto Coelho

Foi num dos primeiros meses de 2006. Na revista a que então estava ligado publiquei um trabalho sobre o jornalista Carlos Pinto Coelho, recentemente desaparecido. Através desse trabalho, da minha colega Ana Leonor Martins, fica-se a conhecer a história de como veio para Portugal, onde tinha à sua espera um rival dos tempos do liceu, em Moçambique. Deixo a seguir o texto desse trabalho. A imagem é um pormenor de uma foto tirada no dia um de Abril de 2009, durante a apresentação de um livro meu, em Lisboa, que Carlos Pinto Coelho teve a amabilidade de fazer.
.
Um conto fantástico
.
É uma «estória» como existirão poucas. Carlos Pinto Coelho, jornalista, e Pedro Bettencourt da Camara, consultor, praticamente cresceram juntos, em Moçambique. A competição pelo lugar de melhor da turma terá contribuído para que não se tivessem tornado amigos. Mas isso não impediu um bonito gesto, digno do título de amizade. Depois seguiram percursos diferentes, raramente se vêem, mas continua a existir um elo, difícil de explicar, que os mantém próximos. «Tipo um conto fantástico.»
Texto: Ana Leonor Martins
.
Um dia chuvoso e cinzento de 1963. Carlos Nuno tinha feito uma viagem de barco de 31 dias rumo a terra desconhecida – Lisboa. «Estava sozinho e muito triste. Os meus pais e os meus amigos tinham ficado em Moçambique», conta. Tinha cá família mas mal a conhecia e ninguém o foi esperar. «Era um menino de 19 anos, cheio de medo, e quando cheguei à Rocha do Conde de Óbidos só queria voltar para casa. Desci do ‘Príncipe Perfeito’ com a alma carregada. De repente, olho para a varanda do primeiro andar da estação de Alcântara e vejo o Pedro Rui. Foi a única pessoa à minha espera num mundo novo e hostil, a única alma que se lembrou de que eu existia e que me foi dar a mão, mesmo tendo sido sempre meu rival. Mas na hora da verdade estava lá, para me dar um abraço forte.»
Carlos Pinto Coelho, jornalista, e Pedro Bettencourt da Câmara, consultor, estudaram juntos no Colégio dos Maristas, em Lourenço Marques, até ao antigo quinto ano. Separam-se no liceu oficial mas quis o destino que viajassem os dois na mesma altura para Lisboa, para a então denominada metrópole; o objectivo de ambos, estudar Direito. Pedro Bettencourt da Camara tinha chegado algum tempo antes. «Sabia que o Carlos Nuno vinha e ir esperá-lo era algo natural. Apesar de a nossa relação não ser muito próxima, foi uma forma de lhe dar as boas-vindas a um meio que era estranho para os dois», partilha. Foi levá-lo ao Colégio Universitário Pio XII. «Devemos ter ido tomar café uma ou duas vezes, e voltámos a perder contacto», constata Carlos Pinto Coelho. «E nunca mais a vida nos aproximou.»
Recuando até aos tempos da primária, Pedro Bettencourt da Camara recorda que conheceu Carlos Pinto Coelho quanto entrou para os Maristas, «tinha uns seis ou sete anos». Continua... «A partir de determinada altura passámos a ser colegas de turma e havia uma certa rivalidade, porque ambos queríamos ter as melhores notas.» É que «às sextas-feiras, antes de irmos de fim-de-semana, eram distribuídas as cadernetas com as notas semanais e os resultados eram anunciados perante todos», explica Carlos Pinto Coelho. «O primeiro ou era eu, ou ele. Havia uma tensão enorme», acrescenta. Quando passaram para o liceu público, Carlos Pinto Coelho e Pedro Bettencourt da Camara deixaram de ser colegas, mas voltaram a encontrar-se em Lisboa, pois o destino de ambos era o mesmo, a Faculdade de Direito de Lisboa (FDL). O país que encontraram nada tinha a ver com a realidade que conheciam...
«O Portugal de então era um mundo feio. As pessoas andavam com medo na rua, as mulheres vestiam de escuro, os homens cuspiam para o chão, havia a polícia política e a ditadura… Lisboa era abominável. Os portugueses rosnavam uns aos outros», lembra Carlos Pinto Coelho. Já Pedro Bettencourt da Camara ficou impressionado sobretudo pelo facto de a sociedade portuguesa ser «muito estratificada e fechada», contrastando com a moçambicana, que era «extremamente aberta e com elevado grau de mobilidade». Existiam «barreiras tácitas que impediam a evolução das pessoas. E a faculdade era o espelho fiel disso», afirma. «As pessoas não falavam umas com as outras. Constituíam-se pequenos grupos que agiam de forma autónoma.»
.
Negativa determinante
Apesar de estarem os dois na mesma faculdade, Pedro Bettencourt da Camara e Carlos Pinto Coelho perderam praticamente o contacto. Acabaram por seguir caminhos distintos, curiosamente fora da área do Direito. Um optou pelo mundo da Gestão, o outro seguiu a via do Jornalismo. Carlos Pinto Coelho nem chegou a concluir o curso. «Fui um belo estudante de Direito e acho até que hoje poderia ser um bom jurista.» Mas, depois de ter chegado ao último ano sem deixar nenhuma cadeira para trás, o professor Oliveira Ascensão chumbou-o a Direito das Sucessões. Viu a pauta, desceu as escadas da FDL e nunca mais as voltou a subir. Filho de juiz, nunca tinha pensado seguir outra carreira que não a magistratura, mas no dia seguinte tornou-se jornalista.
«Cheguei à residência, disse que não voltava mais à faculdade e o director, o padre Joaquim António de Aguiar, que achava que eu escrevia bem, telefonou para o ministro dos Negócios Estrangeiros, amigo íntimo do director do ‘Diário de Notícias’ (DN), e pediu-lhe que me recebesse. E fiquei», conta Carlos Pinto Coelho. Esteve lá dois anos, voltando depois a Moçambique para cumprir o serviço militar. Um grave acidente fez com que regressasse antes do previsto. Voltou para o DN, entrando também para a agência de notícias ANI. Depois veio o 25 de Abril e «foi o turbilhão que conhecemos», relembra. «O Partido Comunista tomou conta do jornal, José Saramago foi nomeado sub-director e pôs na rua, em 24 horas, 18 jornalistas. Fiquei desesperado porque já era pai de duas filhas e quando se era saneado não se conseguia emprego em mais jornal nenhum.» Mas só ficaria desempregado 12 horas, «o tempo de beber duas garrafas de ‘whisky’», confessa. «Como todas as noites, fui ao bar Snob. Por volta das seis e meia da manhã, entra um jornalista que me convida para ir para chefe de Política Internacional num jornal que ia abrir, o ‘Jornal Novo’.» E foi.
Um editorial muito violento que Carlos Pinto Coelho escreveu sobre a posição de Portugal na NATO serviu de rastilho para o seu ingresso no jornalismo televisivo. «Foi lido pela administração da RTP, que de seguida me convidou para dirigir a secção de Política Internacional do ‘Telejornal’. Não respondi logo, e nessa mesma noite alteraram o convite para director-adjunto de informação do ‘Telejornal’. Nunca tinha feito televisão na vida, mas aceitei.» Volvidos dois anos, passou a apresentar o «Telejornal», depois fundou o telejornal do Canal 2 até que, em 1982, esteve à beira de ir para a rua. «A presidência do Proença de Carvalho foi um mau período para a liberdade de expressão», lamenta. «Mas depois apareceu outra administração que me convidou para director de programas. E a partir dai a minha vida estabilizou. Comecei também a fazer rádio.» Com o fim do programa cultural da Dois, o «Acontece», que durante vários anos planificou e apresentou, deixou a televisão.
.
Independência de acção e pensamento
Ao contrário de Carlos Pinto Coelho, Pedro Bettencourt da Camara acabou o curso de Direito, mas chegou à conclusão de que era a área da Gestão que mais lhe interessava. Começou por trabalhar como responsável das Relações de Trabalho, na Shell Portuguesa. «Estamos a falar em finais da década de 1970, quando as relações de trabalho eram um ponto nevrálgico para as empresas», contextualiza. «A população fabril era representada por uma constelação de sindicados e os processos de negociação eram complexos. Foi uma escola, não tanto na arte de negociar, mas sobretudo para aprender a perceber o ponto de vista dos outros e a não olhar para os problemas de forma linear.»
A ideia de que «não se poderia ter uma evolução significativa a não ser passando pelas áreas de negócio propriamente ditas» fez com que Pedro Bettencourt da Camara aceitasse o desafio de ir para Inglaterra conhecer melhor o grupo. Mas um processo de ‘downsizing’ precipitou o seu regresso passados poucos meses. «Quando voltei, propuseram-me que fosse para a área de Vendas, para conhecer o ‘core business’ da empresa. Estive lá cerca de quatro anos, até que o administrador achou que devia voltar para a área de Recursos Humanos.» Passou então a director de Pessoal. «Só que a minha chegada ao cargo coincidiu com a vinda de um holandês em fim de carreira para administrador-delegado. Não tinha margem de manobra, porque ele não queria que se fizessem muitas ondas. Ao fim de um ano nessa situação, saí.»
Pedro Bettencourt da Camara respondeu então a um anúncio do «Expresso», para director de Recursos Humanos da Digital, uma empresa de tecnologias de informação. Três semanas depois foi chamado para uma entrevista e ficou com o lugar. A empresa entrou em crise três anos depois… «Quase em simultâneo, surgiram várias propostas de trabalho muito interessantes, através de ‘head-hunters’. Acabei por ir para a Pepsi, que pretendia construir uma fábrica em Portugal, de raiz, que combinasse o que de melhor havia no seu sistema. Para isso, ia criar um ‘dream team’ e eu ficaria responsável pela componente de Recursos Humanos e de construção da estrutura organizacional.» A fábrica foi inaugurada em 1993, mas quatro anos depois resolveram iberizar a sua operação. «A componente estratégica passava para Espanha e eu ficava só com a componente operacional dos Recursos Humanos. Achei que para isso não servia», afirma.
Foi nessa altura que o consultor decidiu que estava na hora de pensar numa alternativa profissional. Escolheu potenciar a componente académica que sempre manteve ao longo da sua vida profissional e fazer uso da «experiência acumulada em relação ao mercado para passar de empregado por conta de outrem a profissional liberal». Constituiu a sua empresa e quase há 10 anos que trabalha como consultor de empresas e simultaneamente como professor universitário. «A independência de pensamento e de acção, que prezo muito, é total.»
***
Nestes dois percursos distintos, poucas foram as vezes que Carlos Pinto Coelho e Pedro Bettencourt da Camara se encontraram. «Cruzámo-nos algumas vezes na RTP, porque o ‘Dinheiro Vivo’, programa sobre Economia e Gestão no qual fiz algumas intervenções, era gravado a seguir ao ‘Acontece’», diz o consultor. «E um dia recebi um convite em casa para uma exposição de fotografia, com uma nota manuscrita pelo Carlos que dizia: «Pedro, aparece que quero dar-te um abraço.» Tivemos um percurso comum numa fase muito marcante na vida. Por isso, apesar dos caminhos diferentes, ficou uma estima e um respeito mútuo.» Sentimento idêntico nutre Carlos Pinto Coelho, que afirma que, hoje, se considera um «sólido amigo do Pedro». «A nossa história é tipo um conto fantástico.»
.
Carlos Pinto Coelho/ Pedro Bettencourt da Camara
Carlos Nuno Pinto Coelho frequentou a Faculdade de Direito de Lisboa (FDL) até ao quinto ano, enveredando depois pelo jornalismo. Passou pelo Diário de Notícias, pela ANI, pela rádio Deutsche Welle, pela revista «Mais» e, em 1977, entrou para a RTP, como director-adjunto de informação. Saiu em 2003, com o fim do programa «Acontece». Antes foi chefe de redacção do Canal 2, director de programas e director de Cooperação e Relações Internacionais, autor e apresentador de vários programas. Escreve regularmente para a imprensa, é realizador e apresentador de programas na rádio, dá aulas de Jornalismo e faz fotografia.
Pedro Rui Bettencourt da Camara é licenciado em Direito, também pela FDL, tendo posteriormente frequentado cursos de pós-graduação em Gestão, tanto em Portugal como no estrangeiro. Desenvolveu a sua carreira profissional nas áreas de Recursos Humanos e Desenvolvimento Organizacional, tendo fundado a sua própria empresa de consultoria em 1998 – a PCA Consultores. Paralelamente, é professor convidado, na área de Gestão, na Universidade Católica, no Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE) e na Universidade Lusíada. Tem vários livros publicados, de entre os quais se destaca o ‘best-seller’ «Humanator» (de que é co-autor).

.

Revista «human» de Janeiro

(clicar na imagem para aumentar)

.
Nas bancas desde o passado dia 31. É o número 25, de Janeiro de 2011. Mais informações sobre a edição aqui. Deixo a seguir o meu editorial…
.
Novo ano
Esta edição marca o início do terceiro ano da «human». O número 25. Mas não é apenas esse número. A mesma equipa da «human» conduziu antes um outro projecto editorial, e fê-lo desde o número um até ao número 75. Ou seja, juntando as duas experiências a equipa chega agora, em Janeiro de 2011, ao número 100. Devo concentrar-me apenas na «human», claro, mas não podia deixar de assinalar este facto, para nós bem relevante.
Começamos o novo ano com algumas novidades no alinhamento, nomeadamente dois espaços, um denominado «Sucesso.pt» (com experiências empresariais que têm uma marca portuguesa e de que o primeiro exemplo é o grupo hoteleiro Vila Galé) e outro assinado por Maria Duarte Bello, sobre o tema personal branding, que explora a ideia de desenvolvimento de uma marca pessoal. É um pouco o que aconteceu no início de 2010, quando introduzimos novas secções na revista, por exemplo a de responsabilidade social, que este mês é tema de capa, com um projecto ligado a uma causa muito, mesmo muito, meritória, o projecto «Sorriso da Rita». Este projecto nasceu da vontade dos pais de uma criança com paralisia cerebral, que quiseram chamar a atenção para a doença e, principalmente, para as dificuldades sentidas pelas famílias que a conhecem. Um dos rostos do projecto é precisamente o pai da Rita, o conhecido jornalista Mário Augusto, que faz a capa desta edição. Bem merece todo o apoio este projecto e o destaque que aqui lhe damos.
Um bom ano de 2011 para todos os leitores, colaboradores, anunciantes e demais parceiros da «human»!

.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

A surpresa

A julgar pelo que tenho lido e ouvido hoje, terá sido a grande surpresa do debate entre Cavaco Silva e Manuel Alegre. A postura mais atacante do presidente, quando se esperava que fosse Alegre a tê-la. A mim não me surpreendeu, não porque estivesse à espera dela mas sim porque o assunto nada me interessava. Que atacasse Alegre, que atacasse Cavaco, que atacassem os dois, que pelo contrário aparecessem tipo o Inter de Mourinho em Barcelona… Fosse lá o que fosse.
Mas houve uma coisa que verdadeiramente acabou por me surpreender: os comentários de Cavaco à actuação da actual administração do Banco Português de Negócios (BPN). Alegre, não sei por quê, nem se interessou muito pelo assunto. Quem conduzia o debate a mesma coisa. Mas deviam ter-se interessado, assim como a Polícia Judiciária devia rapidamente também interessar-se e tentar perceber na investigação que presumo está a fazer o que é que Cavaco poderá estar a tentar branquear para ser tão crítico de quem gere o banco agora. Ainda por cima quando está longe de ter a mesma postura em relação aos seus antigos «ajudantes» (termo seu) que toda a gente sabe o que é que arranjaram naquele estranho universo empresarial. E «ajudantes» que ao contrário do que ele, Cavaco, diz não são apenas de há vinte ou vinte e cinco anos – basta ver o caso do «ajudante» que até às últimas se manteve no Conselho de Estado.
.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

E um Feliz Natal!

.

António Souto – Crónica (31)

… as chancas gastas e as botas encardidas a secar ao borralho para umas horas mais tarde acolherem os pés ligeiros e as poucas prendas que o menino Jesus acabaria por deixar na sua azáfama de estafeta noctívolo. Camisolinhas de aconchego, dois ou três pares de meias, uns lencinhos às riscas, tudo da loja próxima ou da feira dos vinte e seis. Quase não há lembrança de brinquedos, talvez uma camioneta de chapa muito colorida ou um pífaro de pistões a fingir.
.
Um natal que já não é
Este é o último mês do ano. E porque mantemos inalterada a regularidade, esta é a última folha do calendário. De Janeiro a Dezembro, um saltinho de anão, que o tempo não dá tréguas e o que agora é… já foi!
Seria caso para, uma vez mais cumprindo a rotina, fazer balanços, mas não nos apetece, até porque de pouco ou nada servem quando os objectivos são precários ou inexistentes. E depois, sendo os natais o que sempre são, o melhor é pôr de lado os aborrecimentos da computação e cuidar de guardar uns trocos para um bolo-rei, para um qualquer, do mais tradicionalzinho ao gurmê, ao tropical, ao salgado, ao de chocolate ou ao escangalhado, mas um bolo-rei que se traga para a mesa, se possível redondo, para tragar com a natividade dentro.
Bem sei que o natal não é já o que dantes era, quando era mesmo natal, com uma aldeia a sério, e no ventre dela muitas casas escuras e desalinhadas e todas com fumo nas chaminés entupidas de fuligem.
Aquilo é que era lindo, as rachas a arder ao declinar da tarde, com a casca a estoirar quando os toros ainda verdes, e a lenha ali toda à mão para a noite inteira, e o calor que o brasido dava à casa e aos corpos.
A gente ali à espera contando os serões de Dezembro, e quando chegava a véspera do grande dia era uma festa de gestos e de desejos, um remoinho de comeres distintos, mesmo quando iguais, mas provados com o vagar que faltara antes e que faltaria depois, que a lida não se compadecia com delongas e o gado tinha que se alimentar. (E como doía ir para o campo à frente das vacas pelos caminhos de água ou cortar a erva diária nas manhãs de geada, as mãos e os dedos entorpecidos…) E como o jantar se alinhava então com as iguarias de memória… eles eram os bilharacos e as filhoses e as rabanadas e a aletria e às vezes o arroz-doce e também os biscoitos sortidos da Triunfo trazidos por um primo da cidade e as broinhas de mel e os bombons trazidos por parentes da capital!
A gente toda sentada à mesa, naquele dia mais comprida que o habitual, a luz do tecto tremeluzente (com um candeeiro de petróleo de prevenção), um desforrar de estômagos e de conversas vagas. Uma noitada que nos esquecia sempre a missa do galo, que era sempre muito cedo para quem se amesendava sempre tarde, e as castanhas (assadas sob a caruma afogueada) e o bolo-rei faziam pesar demasiado os físicos já cansados e a pedir deita.
Aquilo é que era lindo, as chancas gastas e as botas encardidas a secar ao borralho para umas horas mais tarde acolherem os pés ligeiros e as poucas prendas que o menino Jesus acabaria por deixar na sua azáfama de estafeta noctívolo. Camisolinhas de aconchego, dois ou três pares de meias, uns lencinhos às riscas, tudo da loja próxima ou da feira dos vinte e seis. Quase não há lembrança de brinquedos, talvez uma camioneta de chapa muito colorida ou um pífaro de pistões a fingir. Mas havia também um chocolatinho cobiçado com uma prata muito bonita que a gente esticava cautelosamente e metia no meio de um livro para se alisar com o tempo. Ah, falta ainda acrescentar que naquele dia em que o menino vinha ao mundo, a gente se vestia com roupa nova, que ficava durante muito tempo nova e muito tempo limpa.
Bem sei que o natal não é já o que dantes era, muito mais natal. Mas esta nossa idade, agora de abastança e crise, continua a acreditar num menino que cresceu e se transformou em pai, sobretudo num pai natal aleivoso e mortinho por que acreditem nele. Afinal, em que pode a gente mais acreditar? Voltemos a página!
.
Crónica de Dezembro de 2010 de António Souto para o blog «Floresta do Sul»; crónicas anteriores: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14, 15, 16, 17, 18, 19, 20, 21, 22, 23, 24, 25, 26, 27, 28; 29; 30.
.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

domingo, 19 de dezembro de 2010

O meu voto

O meu voto, a 23 de Janeiro, vai para Fernando Nobre. Era bom que conseguisse ir a uma segunda volta das eleições presidenciais e acabasse por ganhar.
.
Foto: Vítor Gordo – Syncview
.

Revista «human» de Dezembro

(clicar na imagem para aumentar)
.
Nas bancas desde o início deste mês. É o número 24, de Dezembro de 2010. Mais informações sobre a edição aqui. Deixo a seguir o meu editorial…
.
Dois anos de «human»
À semelhança do que aconteceu em Dezembro de 2009, a equipa da «human» preparou para este mês uma edição especial. Saindo do formato habitual, apresentamos agora aos leitores a nossa edição «Premium» de 2010, que tem a particularidade de ser a maior da história de dois anos da «human».
Temos por isso razões para estarmos felizes, pelo sucesso do projecto da «human», que como se sabe ultrapassa o próprio âmbito da revista. Sucesso que fica a dever-se a uma imensidade de pessoas, desde os colaboradores mais directos aos leitores, passando pelos parceiros, pelos anunciantes, por todos os fornecedores.
Esta edição «Premium» de 2010 apresenta mais de meia centena de perspectivas sobre a gestão das pessoas nas organizações. São as opiniões de muitos dos protagonistas da gestão de recursos humanos em Portugal, que podem ser lidas nas páginas seguintes, opiniões que resolvemos organizar por áreas, que surgem por ordem alfabética (tal como acontece com as instituições que os autores dos textos representam): Benefícios Extra-salariais; Coaching; Consultoria; Formação; Recrutamento e Selecção; Saúde e Segurança no Trabalho (SST); Tecnologias de Informação (TI); e Trabalho Temporário.
É uma edição que conta com o apoio da Mercer, como aliás já aconteceu com a edição «Premium» de 2009. Daí, logo a abrir, apresentarmos uma reflexão de Diogo Alarcão, partner da consultora em Portugal, sobre liderança e gestão de talentos, duas áreas que, segundo refere, começam a ser tidas como prioritárias para um crescente número de empresas nos Estados Unidos e em alguns países da Europa, pensando nos cenários pós-crise.
No final, apresentamos ainda uma retrospectiva do que foi a «human» durante este ano de 2010. Já em Janeiro, teremos de novo a revista no seu formato habitual.

.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Uma serpente de luzes na planície

Um dia, se o meu filho se tornar jogador de futebol, poderei oferecer-lhe a fotografia de um dos segundos iniciais da sua carreira. Tirei-a num estádio do Alentejo com relvado sintético e dividido em pequenos campos para que pudesse haver vários jogos ao mesmo tempo. Foi num torneio para miúdos, pequeninos, daqueles que estão mesmo a começar, miúdos de equipas de fama bem diferente – basta pensar nas participações do Benfica e do Alandroal.
Quatro elementos em cada equipa, o guarda-redes, um jogador mais recuado e dois laterais capazes de chegar à baliza adversária; ou outra táctica que se quisesse arranjar. Quando o jogo da equipa do meu filho estava prestes a iniciar-se, subi ao ponto mais alto da bancada e com a objectiva fixei o campo que lhe tinha calhado em sorte. Por isso é que depois fiquei com a fotografia daquele segundo. Nessa fotografia, o guarda-redes, pequenino mas com um jeito enorme para a baliza, mesmo sem o jogo ter começado tenta perceber se algum remate poderá surgir de repente. E à frente dele estão o meu filho e os dois restantes colegas, parecendo que trocam ideias sobre o que hão-de fazer mal comece o jogo. Talvez defender, pois a outra equipa, por ser de uma cidade grande, pode muito bem tê-los colocado em respeito. Talvez falem disso no seguimento de indicações do treinador. A verdade é que não sei, porque nunca fiz a pergunta. No centro, vê-se os jogadores de campo da outra equipa, os três junto à bola, prontos para começar; o guarda-redes é que não aparece na fotografia.
O jogo acabou por ficar em zero a zero, com a equipa do meu filho a jogar mais à defesa e ajudada pelo pequeno guarda-redes, que a cada bola que aparecia por perto se atirava sobre ela para logo a seguir se enrolar como um gato. Lembrei-me dos meus tempos não de miúdo como eles mas de adolescente, quando tinha na baliza alguns dos poucos ídolos que fui arranjando no futebol. A selecção portuguesa alinhava praticamente em todos os jogos com um guarda-redes de baixa estatura chamado Bento, que morreu há uns três anos, mas para mim o melhor era um outro ainda mais baixo que eu ia ver nos jogos do Portimonense. Eu fazia sempre a minha selecção com os jogadores que considerava os melhores, e sem preocupações de posição. Era no princípio dos anos oitenta do século passado. Na defesa João Pinto (o que fazia previsões apenas no fim dos jogos e que chegou a dizer a seguir a marcar um golo com o pé esquerdo, que raramente usava, que tinha chutado com o pé que estava mais à mão), Venâncio, Humberto coelho e Inácio (que em 2000, como treinador, haveria de levar o meu velho clube verde a um inesquecível título de campeão); no meio campo Carlos Manuel, Oliveira e Chalana; e à frente Nené (o que nunca sujava os calções), Gomes e Jordão (que uma vez numa entrevista aproveitou para avisar os adversários de que quando lhe tocavam estando ele dentro da área se atirava logo ao chão). Ou seja, a minha selecção só tinha jogadores do Benfica, do Sporting e do Porto, com excepção da baliza onde eu não punha o Bento, nem sequer o Damas (que não era dos baixos), mas antes o Mendes do Portimonense. Esse mesmo, o guarda-redes que eu via fazer as defesas mais incríveis do campeonato e a quem tomava uma especial atenção na altura do aquecimento para cada jogo, quando era o próprio treinador Manuel José, então ainda bastante novo, a ir-lhe fazer remates durante uns dez minutos.
Foi o guarda-redes pequenino que ajudou a equipa do meu filho, e também o meu filho e mais os dois colegas laterais avançados, foram eles todos que se ajudaram. Mesmo com alguma dificuldade em atacar, lutaram de forma a que os adversários da equipa da cidade grande não conseguissem marcar golos. A chuva também terá ajudado, porque a certa altura do jogo ganhou tais proporções que todo o torneio teve de ser interrompido. Era tão forte que nem os jogadores da cidade grande, com os seus equipamentos impermeáveis, conseguiam jogar, quanto mais a equipa do meu filho, de equipamentos normais.
Mas e que a equipa do meu filho tivesse perdido… Ou que tivesse ganho, ou que o tempo estivesse de sol, ou que do céu em vez de água tivesse caído neve ou granizo… Tanto fazia, porque eu fiquei com a fotografia de um dos segundos iniciais da carreira de futebolista do meu filho, se ele algum dia fizer uma carreira no futebol. Talvez o primeiro segundo. Além de outras fotografias que fui tirando do alto da bancada, e de um pequeno filme que também fiz. Essa fotografia acabou por passar para a minha mente, porque eu já a vi várias vezes. Posso mesmo dizer que a decorei dentro da cabeça. A imagem de um momento em que o primeiro jogo do meu filho está mesmo, mesmo a começar.
Mas há outra imagem que tenho dentro da cabeça, só que não vem de uma fotografia. Não sei como, mas a verdade é que a decorei também, apesar de a ter visto apenas de forma fugaz. Apareceu-me no espelho retrovisor do carro, talvez uma hora antes do jogo. Chuva, muita chuva nessa imagem ainda do começo da tarde, a caminho do torneio. Os miúdos seguiam no autocarro da câmara, e eu logo atrás, de carro, sem ter pensado se outras famílias além da minha iriam ver os seus miúdos no torneio. A certa altura, com a força da chuva a dificultar-me a visibilidade, dei comigo a pensar no autocarro que seguia vinte ou trinta metros à frente. Não dava para ver bem, foi o que pensei, mas se fosse Verão haveria de perceber-se facilmente as cores fortes do Alentejo, azul, amarelo e vermelho, a pintura do autocarro com o céu limpo, o pasto dos campos e as papoilas, e também uma frase tirada com adaptações do final de um romance de José Saramago, a frase logo a seguir ao nome da terra, «cidade levantada e principal».
Lembro-me de ter pensado nisso. E de ter dito para mim próprio: «os miúdos vão para o torneio, agora que estão a começar no futebol, e vão num autocarro com uma frase enorme de um enorme escritor, não vão patrocinados pela Coca-Cola nem pela Nike (muito menos pela cerveja Sagres), nem sequer vão num autocarro que fala de apoio ao desporto e à juventude e mais uma data de coisas; os miúdos vão no autocarro da frase do Saramago». Foi o que eu disse só para mim, creio que com as minhas filhas pequeninas adormecidas, a julgar pelo silêncio dentro do carro. E então veio o momento do qual decorei a imagem, como depois haveria de decorar a do segundo antes de começar o primeiro jogo do meu filho. No meio daqueles pensamentos, de repente questionei-me se devia levar as luzes ligadas ou não, se deveria apagá-las por a chuva estar a diminuir um pouco, e aí espreitei pelo espelho retrovisor para ver se atrás de mim algum carro também tinha as luzes ligadas, se é que vinha algum carro atrás de mim na estrada da planície alentejana, e logo percebi que havia muitos carros, e todos com luzes. As famílias dos outros miúdos… Só então é que reparei, depois de ter feito já algumas dezenas de quilómetros. Em que é que pensariam as pessoas desses carros? Como olhariam para o autocarro dos miúdos que avançava com eles para o torneio?
Comecei a contar os carros. Um, dois, três… Mas logo desisti, porque eram muitos, e eu tinha de concentrar-me na condução. Muitos carros, mesmo muitos. Formava-se uma fila na planície, na estrada que naquela altura fazia uma curva longa, uma fila de luzes passada para o meu espelho retrovisor, e foi essa imagem que eu decorei, como depois fiz com a da fotografia. A imagem de uma serpente de luzes na planície, pela estrada fora, atrás do autocarro da cidade levantada e principal.
.